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O que preveem as propostas de Schmitt e Munn (1999, 2005)?

3. DA AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM

3.3 O que as teorias poderiam prever para a aquisição da linguagem?

3.3.2 O que preveem as propostas de Schmitt e Munn (1999, 2005)?

Parameter. Em línguas assim, a projeção de número pode estar ausente. No caso do PB,

para Schmitt e Munn (op. cit), a categoria de número é projetada: se marcada para número, teremos o plural nu; se não marcada, teremos o singular nu. É neste sentido que os autores falam em neutralidade de número. Isso quer dizer que um singular nu poderia ser retomado tanto por uma anáfora singular quanto plural, porque é uma estrutura neutra para número. É justamente essa a intuição que os autores têm para sentenças desse tipo, conforme se pode observar em (27) abaixo:

(27) Coelho vê o mundo de outra maneira porque ele/eles/∅ é/são muito pequeno(s).

Note, no entanto, que isso, de alguma maneira, deve gerar um problema para a aquisição: como é que a criança lida com uma estrutura aparentemente singular, mas que poderia ser interpretada ora como singular, ora como espécie?

A proposta de Lopes (2004, 2006) foi a que melhor captou este problema para a aquisição e que forneceu uma resposta satisfatória para o fenômeno à luz deste quadro. Conforme já discutido, Lopes propõe que há três estágios para a aquisição de número no PB. No primeiro, as crianças assumem um valor default singular para os DPs; no segundo, emerge a morfologia de número e, em consequência disso, a marcação de plural nos nomes e determinantes; num terceiro estágio a criança readequaria a sua gramática em virtude do singular nu que é aparentemente singular, mas pode também denotar a espécie.

Neste trabalho, contudo, não adoto a proposta de Schmitt e Munn (op. cit.) de que o singular nu é neutro para número. Assim, precisarei de uma outra proposta teórica para explicar o fenômeno em análise.

3.3.3 O que prevê a proposta de Cyrino e Espinal (2015)?

A proposta teórica de Cyrino e Espinal (2015), baseada em Borik e Espinal (2015), propõe que a referência à espécie no PB não envolve a projeção de número. O número funcionaria como o operador ‘R’ (relacional) de Carlson (1977a), que selecionaria um predicado e devolveria instanciações de indivíduos. Referir-se à espécie, para as autoras, nada tem a ver com a instanciação de indivíduos, isso é, se houver a instanciação de indivíduos, não estaríamos nos referindo à espécie, em si, mas

sim a indivíduos em particular. Assim, qualquer sintagma nominal plural já, em tese, não poderia se referir à espécie, justamente porque há a projeção sintática de número. Cyrino e Espinal (2015) se contrapõem à Schmitt e Munn (1999, 2002) porque, enquanto para os últimos, o singular nu é neutro para número, as primeiras são categóricas em dizer que ou há a projeção de número e, neste caso, o singular nu deveria ser interpretado como definido ou plural ou não há a projeção de número e, neste caso, o singular nu deveria ser interpretado como genérico.

Note-se, no entanto, que a essência da proposta de Schmitt e Munn (1999, 2002) e de Cyrino e Espinal (2015) é basicamente a mesma: ou a projeção de número é apagada da estrutura sintática ou não há número envolvido na denotação da espécie. Em ambas as propostas, a categoria de número se torna dispensável na derivação. A maior diferença entre as duas propostas é que enquanto para Schmitt e Munn (1999, 2002) o singular nu denota a espécie, para Cyrino e Espinal (2015), o singular nu é ambíguo entre uma leitura definida, de espécie e de soma máxima.

Se Cyrino e Espinal (2015) estiverem corretas sobre a estrutura do singular nu em referência à espécie, poderíamos pressupor apenas dois estágios para a aquisição da genericidade-D: no primeiro, a criança assumiria um valor default singular para todas as expressões. Nessa primeira etapa, ela estaria apta a produzir e interpretar tanto o definido singular quanto o singular nu como expressões de referência à espécie. Já no segundo estágio, emergindo a morfologia de plural, a criança produziria e interpretaria sintagmas nominais plurais, mas já não mais como referência à espécie, senão como o que Borik e Espinal (2015) chamariam de “outras expressões genéricas”. Se, contudo, as autoras estiverem corretas sobre as múltiplas interpretações que o singular nu possui, deveríamos esperar que as crianças tardassem mais em adquirir o singular nu no PB, dado que estruturas ambíguas, em geral, levam mais tempo para serem adquiridas, porque demandam um passo extra para a criança: lidar com as variadas leituras de uma estrutura. Neste trabalho, porém, como já discutido, assumo que o singular nu, de forma não ambígua, denota a espécie. Assim, não levarei em conta essa proposta que analisa o singular nu como uma estrutura ambígua do PB.

3.3.4 O que prevê a proposta de Pires de Oliveira e Rothstein (2011)? Pires de Oliveira e Rothstein (2011) propõem uma análise unificada para o singular nu: seriam interpretados como nomes de massa, porque, segundo as autoras, há muito mais semelhanças entre nomes de massa e o singular nu que divergências.

É, porém, a proposta mais difícil de ser avaliada empiricamente, em virtude da maquinaria semântica proposta pelas autoras. Essa maquinaria, conforme elas mesmas afirmam, não tem uma realização linguística, mas existe enquanto suporte para operações semânticas.

Se, contudo, as autoras estiverem corretas, a interpretação default do singular nu no PB é a de espécie (porque a rigor, esta é a interpretação default dos nomes de massa). Assim, um experimento psicolinguístico que se proponha a avaliar esta teoria deveria comparar a interpretação do nome nu singular e contável com a dos nomes massivos para investigar se essas interpretações se equiparam ou se distinguem. Também, por extensão, se esperaria encontrar na fala infantil nomes nus se referindo à espécie, até mesmo antes do definido genérico e de expressões plurais.

3.4 A que se propõe este trabalho?

A pergunta que pretendo responder neste trabalho é: como se dá a aquisição da genericidade-D no PB, dado que encontramos um nome nu com aparente80 morfologia

singular que, a rigor, concorre com a forma definida genérica e, por vezes, com outras formas plurais em termos do que pode denotar?

Assumo que o singular nu denota espécie, nos termos de Pires de Oliveira e Rothstein (2011) e que não há número envolvido na denotação do singular nu, nos termos de Cyrino e Espinal (2015), mas a pergunta que naturalmente surge é como a criança adquire tal estrutura?

Como ponto de partida para responder a esta pergunta, vou, novamente, me deter na gramática-alvo, isto é, na gramática do falante adulto do PB. Precisamente, faz- se necessário entender como se dá a distribuição sociolinguística dos nomes nus na

80 Insisto que não há morfologia de número na estrutura sintática do singular nu. Em não havendo tal

morfologia, não parece plausível considerar tal sintagma nominal como ‘singular’ apesar de sua forma ser homônima à de um DP com marcação morfológica singular. São duas estruturas distintas e precisam ser tomadas apartadas, na análise.

gramática da língua. Para tanto, recorro ao trabalho de Mariano (2017), por não haver encontrado nenhum outro trabalho que apresente uma proposta quantitativa de distribuição sociolinguística dos nomes nus no PB.

Mariano (2017) analisou um corpus linguístico, com o intuito de saber quais eram os tipos de nomes nus mais frequentes e em que posições sintáticas e com que interpretação semântica esses nomes nus mais habitualmente ocorriam no PB. Os resultados apontaram um total de 1276 casos de nominais nus (singular nu, plural nu e nome de massa nu) no corpus. Destes, 68% constituíam-se de singular nu, 25%, de plural nu e 7%, de nomes de massa nu, segundo a Tabela (4), a seguir:

Tipo de DP Ocorrências % Massa nu 88 7%

Plural nu 326 25%

Singular nu 862 68%

Total 1276 100%

Tabela (4): Distribuição dos nomes nus no corpus analisado por Mariano

(2017).

Considerando-se a posição sintática, 38,1% desses nominais ocupavam a posição de argumento interno do verbo (objeto direto). Quanto à posição de sujeito houve registro de apenas 4,9% de nominais nus (singular e plural) nesta posição, conforme se nota na Tabela (5), a seguir:

Posição sintática Ocorrências % Objeto direto 487 38,1%

Complemento nominal 177 13,8%

Adjunto adnominal 134 10,5%

Tópico 104 8,5%

Complemento de verbo leve 87 6,8%

Objeto preposicionado 80 6,2%

Sujeito 63 4,9%

Outras posições 144 11,2%

Total 1276 100%

Tabela (5): distribuição dos nomes nus por posição sintática, de acordo com

Mariano (2017);

Quando ocorriam na posição de sujeito, 68,5% dos casos consistiam de singular nu contra 27,0% dos casos de plurais nus e 4,5% de massivos nus, conforme a Tabela (6), a seguir:

Nominais nus na posição de sujeito Tipo de DP Ocorrências %

Singular nu 43 68,5%

Plural nu 17 27,0%

Massa nu 3 4,5%

Tabela (6): distribuição dos nomes nus na posição sintática de sujeito, de

acordo com Mariano (2017).

Em relação à interpretação, 55% dos dados consistiam de nominais nus (singular, plural e massivo) ocorrendo em contextos genéricos, 25% em contextos episódicos, 14% em contextos existenciais e 2,5% em referência à espécie, conforme se nota na Tabela (7), abaixo. A baixa frequência de nominais nus ocorrendo em contextos de referência à espécie se deu, segundo o autor, em decorrência do tipo de discurso das amostras analisadas81.

Tipo de leitura

Tipo de DP nu Singular

nu % Plural nu % Massa nu % Total % Total %

Genérica 470 67,0% 170 24,2% 61 8,8% 701 100% 55,0% Episódica 222 70,0% 89 27,0% 10 3,0% 321 100% 25,1% Espécie 22 71,0% 3 9,6% 6 19,4% 31 100% 2,5% Existencial 126 70,0% 47 26,0% 7 4,0% 180 100% 14,1% Outras leituras 22 51,0% 17 40,0% 4 9,0% 43 100% 3,3% Total 862 100% 326 100% 88 100% 1276 100% % Total 862 68,0% 326 25,0% 88 7,0% 1276 Tabela (7): distribuição dos nomes nus no PB. Adaptado de Mariano (2017).

Ainda assim, analisando a concorrência entre singular e plural nus em contextos de referência à espécie, os dados sugeriram que há um condicionamento linguístico para o uso de singular nu em detrimento do plural nu, isto é, há um aumento na proporção de uso de singular nu em contextos de referência direta à espécie, em comparação com o plural nu nas mesmas condições.

Disto, depreende-se que o input ao qual a criança está exposta no PB está constituído de forma tal que os nomes nus ocorrem mais na posição de argumento interno, com interpretação genérica e, em sua maioria, constituídos de singular nu. Além disso, de acordo com Mariano (2017), quando em contexto de referência à espécie, há uma clara preferência de uso de singular nu em detrimento do plural nu.

Assumindo que este seja o caso, não teria razões para acreditar que o comportamento da criança divirja substancialmente do comportamento dos falantes adultos do PB, dado que não se esperaria que as crianças interpretassem ou produzissem o singular nu em contextos distintos daqueles produzidos na gramática- alvo.

81 De acordo com o autor, os eixos discursivos que norteavam as entrevistas pouco ou raramente

estavam relacionado com uma referência à espécie. Apenas em algumas entrevistas, sobretudo as que falavam sobre comidas típicas, ocorria referência à espécie.

Defendo, assim, a hipótese de que a denotação mais básica para o singular nu na gramática da criança é aquela em que tal nominal ocorre num contexto genérico e, mais precisamente, num contexto de referência direta à espécie.

A evidência linguística que motiva esta hipótese é bastante intuitiva. Considere, por exemplo, um contexto de interação entre um adulto e uma criança em que ela ouve as seguintes sentenças:

(28) Tem brinquedo na sala.

(29) A Ana tá pintando revistinha.

(30) Cachorro late.

A sentença (28) pode ser proferida tanto num contexto em que haja um, dois ou um amontoado de brinquedos na sala, porque como já dito, a instanciação de indivíduos no contexto não é uma condição necessária para a referência à espécie. O mesmo se aplica aos exemplos (29) e (30), em que pode haver tanto um, dois ou um amontoado de revistinha que a Ana está pintando ou ainda, um único ou uma matilha de cachorros latindo. Considere que (28) foi usada num contexto em que havia um amontoado de brinquedos na sala, enquanto (29), foi usada quando a Ana estava pintando uma revistinha. Já (30), foi usada quando não havia cachorros presentes no contexto, mas se estava falando sobre algumas propriedades relevantes para cães. Quando a criança se depara com essas situações, em que um nome pode estar se referindo a um, dois ou uma quantidade significativa de indivíduos, mas ao mesmo tempo não se refere a nenhum desses indivíduos em particular e nem à sua pluralidade, a denotação que imediatamente ocorre é a genérica, isto é, a de que este nome está se referindo à classe como um todo, ao indivíduo ‘espécie’.

A interpretação de espécie é aquela que surge por default quando um nome não denota precisamente nem um indivíduo específico, nem a pluralidade de indivíduos de um contexto. Muito provavelmente, esta seja uma outra manifestação da nossa capacidade cognitiva inata para a generalização, como postulado por Leslie (2008), em que a interpretação genérica surge quando as outras interpretações possíveis para aquele DP não se aplicam.

Como consequência dessa hipótese, deveríamos esperar que a criança pudesse interpretar o singular nu já nas primeiras etapas da aquisição, antes mesmo de dominar completamente a categoria de número e que não houvesse interpretação

plural para o singular nu, dado que a aquisição da categoria funcional de número se dá mais tardiamente na língua.

Se este for realmente o caso, confirma-se, então, a hipótese de Borik e Espinal (2015) de que de fato não há número envolvido na denotação da espécie, uma vez que as crianças seriam capazes de interpretar o singular nu como espécie muito antes de dominarem a categoria funcional de número da língua.

Também deveríamos esperar que as crianças não cometessem erros ao atribuir uma interpretação para o singular nu, isto é, deveríamos esperar que as crianças atribuíssem intepretação de espécie para o singular nu, dado que esta é a intepretação mais básica que tal nominal nu possui.

Adicionalmente, se assumo a proposta de Pires de Oliveira e Rothstein (2011) de que o singular nu é como nome de massa nu, não teríamos de encontrar uma distinção de interpretação entre o singular nu e o nome de massa nu na fala das crianças.

Por fim, uma vez adquirida a categoria funcional de número, o esperado seria que as crianças fossem sensíveis à marcação morfológica de plural e avaliassem sintagmas nominais plurais como indivíduos extensionais e não como uma entidade intensional de referência à espécie.

Assim, divergindo da proposta de Lopes (2004, 2006), minha hipótese não prevê etapas para a aquisição da genericidade-D no PB. O único entrave que a criança teria em relação à aquisição seria o de optar por um definido singular ou um singular nu em contexto de referência à espécie. Defendo que, de forma a se evitar a ambiguidade formal, as crianças optariam pelo uso do singular nu, porque sua intepretação mais básica é a de espécie, enquanto a interpretação mais básica do definido singular é a referencial.

Com o intuito de testar estas predições, apliquei um experimento em dois grupos distintos de indivíduos: um grupo de adultos falantes nativos do PB (grupo controle) e um grupo de crianças em fase de aquisição do PB (grupo experimental). Nos próximos capítulos, o leitor poderá encontrar a metodologia empregada no experimento, bem como os resultados da pesquisa.