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O Parâmetro do Mapeamento Nominal de Chierchia e as

1.3 A distribuição e interpretação das expressões de referência direta à

1.2.2 O Parâmetro do Mapeamento Nominal de Chierchia e as

Chierchia questiona a proposta de Longobardi e postula que NPs podem denotar a espécie. Como nomes de espécie são do tipo <e>, eles poderiam ocorrer livremente na posição argumental. O problema é que nem toda a língua apresenta nomes nus como argumentos, o que sugere que há alguma restrição que permite que NPs denotem ou não a espécie. Diante disto, Chierchia propôs o Parâmetro do

Mapeamento Nominal, o qual determina se uma língua pode permitir que NPs denotem

a espécie ou não. O parâmetro é configurado em termos de traços [± argumento] e [± predicado], isso é, se um nome pode ou não acontecer enquanto argumento e se um nome pode ou não ocorrer como predicado.

Assim, as línguas estariam divididas em três grandes grupos23, resumidos e

exemplificados na Tabela (1) a seguir:

23 Na verdade, a combinação entre os traços [± arg] e [± pred] geraria 4 grandes grupos, mas não há a

[+arg, -pred]

chinês [-arg, +pred] francês [+arg, + pred] inglês

Nomes nus generalizados na língua Nenhum nome nu na posição argumental

Nomes nus, plurais e massivos na posição argumental Todos os nomes são

massa contável/massivo Distinção Proibido singular nu contável

Sem morfologia de plural Morfologia de plural Morfologia de plural Sistema de classificadores generalizados - -

Tabela (1): Distribuição dos traços [± arg] e [± pred] através das línguas.

Chierchia assume que em línguas como o inglês e as românicas, os nomes, originalmente, são predicados do tipo <e,t>. Para ocuparem uma posição de argumento, somente autorizada para indivíduos do tipo <e>, os nomes ou são associados a um determinante, do tipo <<e,t>e>, por exemplo, ou precisam sofrer um processo chamado de Type-shifting, que é, em poucas palavras, um processo de mudança de tipo semântico. Se um nome comum é associado a um determinante para se referir à espécie, como geralmente ocorre nas línguas românicas, a expressão nominal imediatamente se torna um DP e pode ocupar qualquer posição argumental. Mas Chierchia quer explicar o que ocorre com os nomes nus tanto nas línguas românicas (em posição de objeto) quanto no inglês. Daí surge a necessidade de advogar por um processo de mudança de tipo semântico. Para realizar o type-shifting, Chierchia assume um inventário de operadores, dentre eles: i) o operador ι (iota), responsável pela atribuição da definitude (está associado ao artigo definido); ii) o operador ∩, responsável pela denotação da espécie, que só se aplica a entidades plurais ou massivas; e iii) o operador ∪, que é um operador de massificação.

Os operadores ∩ e ∪ funcionam respectivamente como nominalizadores e predicalizadores, nos termos do autor. Tem-se, então, o seguinte esquema, proposto por Chierchia (1998, p. 349): PROPRIEDADES ESPÉCIE ‘down’ ∩ ‘up’ ∪ P K

Esquema 3: aplicação dos operadores ∪ e ∩.

De acordo com Chierchia (1998), há uma correspondência natural entre as propriedades e a espécie: para cada propriedade natural (‘ser macaco’, por exemplo) há uma espécie correspondente (a espécie ‘macaco’) e para cada espécie há uma propriedade correspondente. Os operadores ∩ e ∪, nesse sentido, se encarregariam de transformar uma propriedade em indivíduo (espécie) e um indivíduo (espécie) em uma propriedade.

Esquematizando, a proposta do autor para a derivação da espécie seria a seguinte: a um nome contável comum, se aplica o operador MASS que transforma o nome comum contável em um nome de massa, como em (64) abaixo.

(64) Macaco → MASS (macaco).

Em seguida, aplica-se o operador ι com o operador MASS. E é nesse ponto que operador ι pode ser entendido como ambíguo: se ele se aplicar a um nome contável, gera o definido singular. Se se aplicar a um nome massivo, o output será um nome de espécie.

(65) O P = ι P se P é um nome contável;

g(ι P) se é um nome massivo.

(em que g é uma função que seleciona uma pluralidade e devolve um grupo).

Assim, quando o operador ι é aplicado a um nome como ‘o macaco’, em (66) abaixo, ele seleciona um nome massivo derivado e nos devolve um nome cuja denotação é essencialmente um grupo, isto é, sua soma máxima:

(66) O macaco está desaparecendo rapidamente dessa região.

(66’) o macaco o (MASS(macaco)) = g(ι MASS (macaco))

Além disso, o autor postula um princípio segundo o qual se uma língua possui um determinante aberto que lexicaliza uma dessas operações em particular (ι, ∪, ∩), isso bloqueia a aplicação coberta dessa mesma operação. Ou seja, se no inglês o determinante definido ‘the’ codifica o operador ι, a aplicação desse princípio assegura que os NPs nus não tenham leitura definida. O autor argumenta que o operador ∩ não é lexicalizado em inglês, logo o definido plural carece de leitura genérica. Já operador ∩ se aplica cobertamente e isso explica por que o plural nu pode ter leitura genérica nessa língua. Já línguas como o francês e o espanhol lexicalizam tanto o operador ∩

quanto o operador ι, explicando assim por que o definido plural apresentam tanto uma leitura genérica quanto definida e por que o plural nu não apresenta nenhuma dessas duas leituras. Esse princípio é conhecido como Princípio de Bloqueio.

A Tabela (1), acima, poderia ser lida, então, da seguinte maneira: em línguas como o chinês, do tipo [+arg, -pred], os NPs denotam a espécie e podem ocupar livremente a posição de argumento. Para um nome denotar um predicado é necessário que ocorra um type-shifting via operador ∪. Uma vez que esse operador atribui uma interpretação massiva ao elemento ao qual ele se aplica, todos os nomes nesse tipo de língua seriam originalmente massivos. Daí o fato de o chinês não apresentar distinção entre massivo e contável e requerer classificadores para realizar uma operação de contagem de nomes massivos derivados da espécie.

Em línguas como o francês, do tipo [-arg, +pred], os NPs sempre denotam predicados e nunca podem ocorrer na posição de argumento. Esse tipo de língua apresenta a distinção entre massivo e contável e apresenta também uma marcação plural sobre os nomes contáveis. O francês, contudo, é um extremo desse tipo de língua. O autor classifica todas as demais línguas românicas como línguas do tipo [-arg, +pred]. O problema é que, como veremos, algumas línguas latinas autorizam nomes nus na posição de argumento interno, como o espanhol, o italiano e o catalão.

Em línguas como o inglês, do tipo [+arg, +pred], os NPs podem denotar tanto a espécie quanto propriedades. Se um nome for lexicalmente [+arg] e tiver de atuar como predicativo, então ele precisará sofrer uma operação de type-shifting, transformando- se em massa. Mas se um nome é lexicalmente [+pred], então ele precisará sofrer uma operação de type-shifting, tornando-se espécie (através do operador ∩) para ocorrer como argumento.

Nesse panorama das classificações de Chierchia, vemos que não há espaço para o PB. Como bem notaram Schmitt e Munn (2002), o PB i) não poderia ser uma língua do tipo [+arg, -pred] porque deveria se comportar como o chinês, não apresentando distinção entre contável e massivo, não tendo morfologia de plural e tendo um rico sistema de classificadores para efetuar as operações de contagem; ii) não poderia ser uma língua do tipo [-arg, +pred], como as demais línguas românicas, porque teria de requerer um D nulo tanto para o nome nu plural quanto para o singular. Mas como veremos mais adiante, no PB não existe restrição sintática para o plural nu e quase não

há restrição para o singular nu. Na proposta de Chierchia, o princípio de bloqueio deveria bloquear a manifestação de nomes nus, dada a presença generalizada de determinantes na língua; e por fim, iii) o PB não poderia ser uma língua do tipo [+arg, +pred], porque se assim fosse, apresentaria uma distinção massivo-contável, singular- plural, mas só poderia permitir que plurais e nomes massivos denotassem a espécie. Nesse tipo de língua, nomes massivos seriam [+arg], os nomes contáveis [+pred] e o operador ∩ deveria atuar como um modificador semântico. O problema é que tal operador só se aplica a pluralidades, o que significa que o plural nu seria autorizado, mas não o singular nu.

Schmitt e Munn (1999; 2002) argumentam, contudo, que é possível analisar o PB como uma língua que contenha os traços [+arg] e [+pred], como o inglês. Para tanto, é preciso admitir a possibilidade de que os nomes sejam livremente ou predicados ou argumentos, independente da distinção massivo-contável. Isso iria permitir que o singular nu ocorresse na posição argumental sem a intervenção forçada de um D nulo, uma vez que o nome poderia escolher ser [+arg] quando necessário. Mas ainda assim, a proposta de Chierchia falha para o PB porque não consegue explicar a ocorrência de singular nu com referência à espécie, já que na proposta do autor, a referência à espécie tem que ser plural.

Na proposta de Chierchia, as línguas que têm artigo definido deveriam ou se comportarem como o inglês, em que a leitura de espécie está disponível para o plural nu, mas não para o definido plural ou se comportarem como o italiano, em que o definido plural pode denotar a espécie e o plural nu é possível, mas restrito sintático e semanticamente. Dayal (2004), introduziu um novo elemento nessa análise que possibilita uma explicação mais razoável para o PB. Segundo a autora, a principal diferença entre o inglês e o espanhol é se a operação ∩ se aplica aberta (através de um determinante evidente) ou cobertamente (através do nome nu). O operador ∩ não é lexicalizado em inglês, então, o plural definido não apresenta leitura de espécie. Também em inglês, o operador ∩ se aplica cobertamente e essa é a razão pela qual o plural nu pode ter interpretação de espécie. Já, segundo Dayal, o espanhol lexicaliza tanto o operador ι quanto o ∩. Isso explicaria o porquê de o definido plural ter uma interpretação de espécie e uma intepretação definida. E também explicaria por que o plural nu do espanhol não apresenta nem a leitura definida nem a leitura de espécie.

A contribuição mais relevante da análise de Dayal consistiu em propor que o operador ι é central para a definitude, enquanto o ∩ é periférico. Isso prediz que qualquer língua que tenha o artigo definido deve lexicalizar o ι, ao passo que pode ou não lexicalizar o ∩. Além disso, a autora propõe que o princípio de bloqueio deve se aplicar ao operador ι, mas não necessariamente ao ∩, ou seja, se uma língua tiver um determinante aberto e esse determinante codificar o operador ι, então o princípio de bloqueio necessariamente se aplicará nessa língua. Assim, ao invés de dois tipos de língua com determinante (línguas como o inglês e línguas como o italiano, como propunha Chierchia (1998)), Dayal propõe distinguir três: o primeiro tipo de língua é como o inglês em que o operador ι é lexicalizado no artigo definido, mas não o ∩. Nesse tipo de língua, o plural nu tem leitura de espécie e o definido plural tem a leitura de um definido canônico; no segundo tipo, se incluem línguas como o italiano, o francês, o espanhol e a maioria das línguas românicas, em que tanto o operador ∩ quanto o operador ι são lexicalizados pelo artigo definido e o princípio de bloqueio se aplica a ambos os operadores. Isso explica as duas possibilidades de interpretação do definido plural: interpretação de espécie e interpretação definida. Também explica por que o plural nu não tem nenhuma dessas interpretações, uma vez que o princípio de bloqueio impede que ele tenha uma leitura de espécie, e a inaplicabilidade do ι impede a leitura definida. Por fim, no terceiro tipo de língua, que se realiza em (alguns dialetos do) alemão, tanto o operador ∩ quanto o operador ι são lexicalizados, mas o princípio de bloqueio só se aplica ao ι. Nesse tipo de língua, o definido plural tem tanto leitura definida, porque o ι pode se aplicar a ele, quanto de espécie, porque o ∩ pode se aplicar a ele. Além disso, o plural nu pode apresentar leitura de espécie, uma vez que o princípio de bloqueio não afeta o ∩. Assim, essa operação pode se aplicar tanto de forma aberta para gerar a leitura de espécie do definido plural, quanto encobertamente para gerar a leitura de espécie do plural nu. Esta terceira tipologia poderia servir para explicar a leitura genérica do plural nu do PB, mas ainda não nos fornece uma explicação clara sobre o singular nu. Na seção seguinte, pretendo mostrar alguns dos desdobramentos destas propostas que forneceram uma explicação para o singular nu do PB. A partir delas, faço as minhas assunções teóricas.

1.4 Os desdobramentos das propostas teóricas para o Português