• Nenhum resultado encontrado

A DESIGUALDADE RACIAL BRASILEIRA

1.1 DO REGIME ESCRAVAGISTA AO ASSALARIAMENTO: IMPLICAÇÕES NA CONDIÇÃO SOCIAL DO AFRODESCENDENTE NA ATUALIDADE CONDIÇÃO SOCIAL DO AFRODESCENDENTE NA ATUALIDADE

1.1.3 O “RACISMO CIENTÍFICO” E A IDEIA DE “BRANQUEAMENTO”

Desse modo, urge apresentar algumas das formas que a ideia de “racismo”

assumiu no contexto brasileiro, haja vista a nossa formação peculiar resultado de uma enorme diversidade de raças212. Conforme a percuciente definição dos antropólogos Kabengele Munanga e Nilma Lino Gomes, racismo é

208 Id.

209 Ibid.,p. 55. A ideia de racismo científico bem como os contornos que tal conceito conheceu no contexto brasileiro será analisada no item subsequente.

210 GUIMARÃES, A. S. A. Classes, Raças e Democracia.Ibid.,p. 56.

211 BORGES, R. (Org.). Fórum para a igualdade racial: articulação entre estados e municípios.

São Paulo: Fundação Friedrich Ebert Stiftung, 2005, p. 18.

212 Cf. assevera Da Matta, o Brasil foi formado pelo triângulo das raças: branca, negra e índia. Tal formação contribuiu para a não visualização de uma sociedade hierarquizada pelo critério racial, e desse modo, à crença no mito da democracia racial. DA MATTA, R. O que faz o Brasil, Brasil? Rio de Janeiro: Rocco, 1997, p. 47. Cf. SCHWARCZ, L. M. Racismo no Brasil. São Paulo: Publifolha,2001, p.14.

[..] um comportamento, uma ação resultante da aversão, por vezes, do ódio, em relação a pessoas que possuem um pertencimento racial observável por meio de sinais, tais como cor de pele, tipo de cabelo, formato de olho etc.

ele é resultado da crença de que existem raças ou tipos humanos superiores e inferiores, a qual se tenta impor como única e verdadeira.

Exemplo disso são as teorias raciais que serviram para justificar a escravidão no século XIX, a exclusão dos negros e a discriminação racial.213

Assim, o racismo diz respeito a um comportamento social constante da história da civilização e que se expressa de forma individual, institucional ou coletiva.

De maneira individual, consiste na prática de atos discriminatórios praticados por indivíduos contra outros, mediante agressões, violência extremas e até mesmo homicídios, bem como inutilização e destruição de propriedades e bens.214

Conforme assevera Munanga, o conceito de racismo apresentado não se confunde com os conceitos de “preconceito racial” e “etnocentrismo”. O conceito de preconceito racial designa uma ideia antecipada e negativa, ou julgamentos sem maior conhecimento ou ponderação. Essa ideia ou julgamento prévio, formados de modo inflexível, baseia-se no ódio ou aversão irracionais a outras raças, étnicas, credos, dentre outros.215

Já o termo “etnocentrismo” consiste na tendência de pensamento que leva em consideração categorias e valores da própria cultura ou sociedade como paradigma a ser utilizado, culminando por vezes num sentimento de superioridade cultural em relação às demais culturas, podendo despertar em seus indivíduos, o

213 MUNANGA, K; GOMES, N. L. O negro no Brasil de hoje. Op.cit., p. 179.

214 Ibid., p. 180.

215 Para Nilma Bentes, a despeito, do racismo, do preconceito, e da discriminação racial fazem parte de um mesmo processo e se realimentarem mutuamente, os mesmos se distinguem um pouco entre si. O “racismo, como doutrina da supremacia racial, se apresenta como a fonte principal do preconceito racial [...]” BENTES, N. Negritando. Belém: Graffitte, 1993, p. 21. Não obstante, há autores, como a psicóloga Maria Aparecida Silva Bento, que diferenciam os conceitos

“preconceito racial” e “discriminação racial”. Assim, apesar das semelhanças que tais conceitos guardam entre si, uma vez que, ambos encontram espeque em sentimentos, ideias e atitudes negativas de uma parcela contra outra, “a discriminação racial implica sempre na ação de uma pessoa ou de um grupo de pessoas contra outra pessoa ou grupo de pessoas”. BENTO, M. A. S.

Cidadania em preto e branco: discutindo as relações raciais. São Paulo: Ática, 1998, p. 53. O termo “discriminar”, por sua vez, significa discernir, distinguir, diferençar. “A discriminação racial pode ser considerada como a prática do racismo e a efetivação do preconceito”. MUNANGA, K;

GOMES, N. L. O negro no Brasil de hoje. Op.cit., p. 184. Nesse sentido Munanga pontua que, quando esse pensamento se exacerba, criando um conceito de que o outro, visto como o

“diferente”, possui não somente diferenças de ordem cultural, mas uma inferioridade de ordem biológica, tal sentimento pode se transformar em racismo. p. 181.

desejo de transformar, evitar ou até mesmo converter o outro, que passa a ser visto como “diferente” ou até mesmo um “inimigo potencial”.216

Nesse contexto, menciona-se a distinção empreendida por Florestan Fernandes entre os conceitos preconceito racial e discriminação racial. Numa análise estrutural-funcionalista dos termos, o sociólogo esclarece que não concebe o preconceito racial como sendo um fenômeno que pertence exclusivamente ao domínio específico da personalidade.217

Assim, o preconceito racial em sua investigação refere-se à natureza de suas funções, voltada a motivar, calibrar e orientar atitudes e comportamentos sociais capazes de legitimar opiniões, avaliações e representações sociais.218

Tampouco a discriminação racial pertine exclusivamente à estrutura social.

Segundo o autor, a discriminação racial deve ser entendida como parte do conjunto de processos que constituem, graduam e regulam as disparidades resultantes da sobreposição entre estratificação social e estratificação racial existente na sociedade.219

Ambos os fenômenos podem ser considerados nos diversos níveis da análise sociológica.220 Segundo Florestan, o preconceito racial e a discriminação racial constituem uma realidade multiforme, devendo o sociólogo, portanto, estar preparado para surpreendê-la através de suas várias roupagens e das possíveis combinações entre etnocentrismo e das múltiplas formas de dominação.221

Por conseguinte, a partir da análise estrutural-funcional projetada historicamente, Fernandes discorda do posicionamento que considera o preconceito racial e a discriminação racial como fenômenos peculiares ao regime de classes222.

216 Nesse sentido Munanga pontua que, quando esse pensamento se exacerba, criando um conceito de que o outro, visto como o “diferente”, possui não somente diferenças de ordem cultural, mas uma inferioridade de ordem biológica, tal sentimento pode se transformar em racismo.

MUNANGA, K; GOMES, N. L. O negro no Brasil de hoje. Op.cit., p. 181.

217 FERNANDES, F. A integração do negro na sociedade de classes: no limiar de uma nova era.

Op.cit., p. 594.

218 Id.

219 FERNANDES, F. A integração do negro na sociedade de classes: no limiar de uma nova era.Op.cit.

220 Em se enfoque de análise estrutural e dinâmica das conexões entre preconceito racial, discriminação racial e padrões de integração social, o autor procura evidenciar a complementaridade dos conceitos e das análises correlatas.

221 FERNANDES, F. A integração do negro na sociedade de classes: no limiar de uma nova era.

Op.cit., p. 594.

222 Segundo o sociólogo, grande número de autores partilha do ponto de vista de que ambos os fenômenos não ocorrem em sociedades tribais, de castas e estamentais. “A diferença entre a sociedade tribal, a sociedade de castas, a sociedade estamental e a sociedade de classes, a respeito, consiste em que, nesta última, surgem condições e processos sociais que configuram

Florestan Fernandes evidencia, que o preconceito e a discriminação racial desempenham certas funções primárias invariáveis e universais, ou seja, havendo interferências entre estratificação racial e estratificação social, eles “tanto servem como fonte de legitimação das formas estabelecidas de ordenação social das relações raciais, quanto para dinamizar, fortalecer e perpetuar os mecanismos sociais de dominação racial vigentes”.223

Sublinha-se as distintas formas que o conceito de “racismo” assumiu e segundo alguns autores ainda se revela presente no contexto brasileiro. Num primeiro momento, valendo-se do beneplácito da Biologia, o racismo se evidencia sob a égide da forma científica. Posteriormente, recebe nuanças diversas permanecendo através do senso comum, e de suas implicações nas relações raciais. 224

No Brasil, durante o período colonial, o pensamento racista apresentava-se disperso e pouco sistematizado, os defensores da escravidão procuravam justificar sua visão hierárquica social em outros elementos, que não as teses da inferioridade racial, notadamente, o projeto missionário da Igreja Católica e o direito de propriedade.225 O escravo enquanto “propriedade” era por definição não-cidadão,

“aquele que faz parte do cenário, mas que não o altera”.226

ambas as manifestações como ‘injustas’, ‘indesejáveis’ e ‘perigosas’ para o equilíbrio do sistema de poder da sociedade global”. Id.

223 Ibid., p. 594.

224 Cf. SCHWARCZ, L. M. Racismo no Brasil. São Paulo: Publifolha,p. 53. Nessa esteira, menciona-se a pesquisa de Alberto Carlos Almeida, intitulada “A Cabeça do Brasileiro”. Segundo Almeida, o preconceito do brasileiro é forte e arraigado, podendo tal assertiva ser demonstrada por pesquisas quantitativas. A Pesquisa Social Brasileira (PESB) buscando avaliar quantitativamente essa hipótese, elaborou as seguintes questões: a) a percepção que se tem da cor de alguém pode variar segundo o status atribuído a sua profissão? b) se você tivesse uma filha, preferiria que ela se casasse com um branco, um preto ou um pardo? Mesmo que o branco fosse mecânico de carro? A conclusão em relação à primeira pergunta foi, que o contexto não muda a forma como os brasileiros veem a cor das pessoas. “Uma pessoa será branca, independentemente de profissão, classe social, relações pessoais, ou qualquer outro elemento contextual. O mesmo se aplica a pardos e pretos”. No tocante à segunda pergunta, a conclusão foi a seguinte: 45% dos brasileiros, em média, preferem pessoas de cor branca quando se trata de escolher o marido para a filha. ALMEIDA, A.C. A Cabeça do Brasileiro. 3. ed. Rio de Janeiro:

Record, 2007, p. 243 e p. 249.

225 Cf. BRASIL. Desigualdades Raciais, Racismo e Políticas Públicas – Diretoria de Estudos Sociais (Disoc), IPEA – 13 de maio de 2008, p. 3. Disponível em: <

http://www.ipea.gov.br/sites/000/2/pdf/ 08_05_13_120anosAbolicaoVcoletiva.pdf>. Acesso em:

17 dez. 2013.

226 SCHWARCZ, L.M. Racismo no Brasil.Op.cit., p. 42. Nessa perspectiva, Júlio Chiavenato ensina que alguns papas “tiveram um papel fundamental para a articulação do tráfico, oferecendo direito moral e religioso para a captura e comercialização dos negros africanos em troca de gordas comissões. No Brasil, os padres foram dos mais cruéis senhores de escravos. A Igreja foi a última instituição a apoiar a campanha abolicionista [...]. A própria defesa dos índios foi um jogo cínico da Igreja brasileira, para que aumentasse o comércio de negros com o fim da escravidão indígena”. CHIAVENATO, J. J. O negro no Brasil. Op.cit., p. 14.

Nesse contexto, Florestan Fernandes ensina, que a discriminação racial e o preconceito surgem na sociedade brasileira como uma contingência da escravidão. O negro experimentou as consequências penosas de um processo de racionalização sociocultural firmemente ancorado em mores religiosos e duramente reforçado pelo resgate de instituições romanas arcaicas, que atribuíam ao senhor um poder quase ilimitado sobre o escravo, e o destituía da condição de pessoa.

Aduz o sociólogo, que de um lado o preconceito legitimou comportamentos e instituições moralmente perniciosos. De outro, a discriminação no Brasil, por sua vez, serviu para distanciar socialmente categorias raciais coexistentes e ritualizou as relações ou o convívio entre o senhor e o escravo.

Ao regular o convívio inter-racial, submeteu todas as manifestações socioculturais a um código ético inflexível, constituindo duas categorias sociais que representavam ao mesmo tempo dois estoques raciais distintos. Por conseguinte,

“palavras, gestos, roupas, alojamento, alimentação, ocupações, recreação, ações, aspirações, direitos e deveres tudo caiu no âmbito desse processo, que projetou a convivência e a coexistência numa separação extrema, rígida e irremediável de duas categorias sociais”.227

As fontes da separação e da distinção da sociedade brasileira, segundo o autor, não eram primeiramente raciais, mas convertiam-se em tal, na medida em que,

“atrás do senhor estava o ‘branco’ e, por trás do escravo, ocultava-se o ‘negro’ ou o

‘mestiço’”.228 A estratificação social pressupunha, portanto, uma estratificação racial que permanecia oculta, existindo uma correlação entre “cor” e “posição social”.229

Para Florestan, o preconceito e discriminação possuem duas facetas, uma, mais evidente, é estrutural e dinamicamente social, tanto o preconceito quanto à discriminação, vinculam-se a estrutura e ao funcionamento da sociedade, vez que a estratificação social respondia aos princípios de integração econômica e sociocultural da própria organização social.230

A outra faceta de cunho racial revela-se, segundo o autor, menos evidente, posto que, o senhor era extraído do estoque racial ‘branco’ e, legitimado na defesa dos seus interesses e dos valores sociais dessa parcela, exercia uma dominação social.

227 FERNANDES, F. O negro no mundo dos brancos. Op.cit., p. 119.

228 FERNANDES, F. O negro no mundo dos brancos.Ibid., p. 120.

229 Para o autor, existe uma correspondência entre estrutura racial e estrutura social. Ibid., p. 121.

230 “O senhor e o escravo relacionam-se e opõem-se como categorias sociais”. Ibid., p. 120.

O mesmo se dava com o escravo, selecionado do estoque racial negro ou entre mestiços, destituído de interesses sociais autônomos e sujeito a uma dominação social que era concomitantemente uma dominação racial. Assim, no

“limite histórico extremo, fornecido pela ordem social escravocrata e senhorial, os princípios raciais como que se diluíam e desapareciam por trás dos princípios sociais de integração da ordem social”.231

Em suma, distinguiam-se dois mundos sociais antagônicos, formados por dois estoques raciais que partilhavam valores diferentes e possuíam destinos sociais opostos. Consolida-se, nesse contexto, um padrão tradicionalista e assimétrico de relação racial.

Nessa toada, com a proximidade do fim da escravidão e da própria monarquia, especialmente, a partir do período pós-abolição, as concepções que defendiam a inferioridade biológica dos negros começam a entrar em cena, calcadas nas ideias do denominado “racialismo” ou “racismo científico”.232

Esses argumentos, em conjunto com as ideias advindas das teorias evolucionistas, das teorias do darwinismo social e da frenologia, descreviam o negro, como inapto ao trabalho regular e inteligente.

As ideias racialistas do médico Louis Couty que transitavam pela Europa serviram de fundamento as teses imigrantistas e aos mitos acerca da questão racial no Brasil. Segundo as ideias difundidas pelo médico, “somente a imigração ou colonização por europeus impediria a derrocada nacional”.233

Vários intelectuais brasileiros, dentre os quais, destacam-se os estudos de Silvio Romero234, João Batista Lacerda235 e Nina Rodrigues, defendendo a

231 Ibid., p. 120-121.

232 SANTOS, G. A. dos. A invenção do ser negro: um percurso das idéias que naturalizaram a inferioridade dos negros. São Paulo: Pallas, 2002, p. 83.

233 Cf. COUTY, 1881, apud SANTOS, G. A dos. A invenção do ser negro: um percurso das idéias que naturalizaram a inferioridade dos negros.Ibid., p. 100.

234 O sergipano Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero, segundo lições de Skidmore, visualizava o Brasil como resultado das três correntes raciais, os índios eram os mais “decaídos da escala etnográfica”, os negros “os mais derrotados”, e os brancos os “mais puros e belos”. O historiador brasileiro vislumbrava o predomínio da raça branca, haja vista o fim do tráfico negreiro, a extinção dos indígenas e à imigração dos brancos europeus. ROMERO apud SKIDMORE, T. E. Preto no branco. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989, p. 51-53.

235 O médico e diretor do Museu Nacional João Batista de Lacerda em seu discurso proferido em Londres, em 1911 quando do Primeiro Congresso Universal das Raças, mostrou-se favorável à teoria do branqueamento, reconhecendo a inferioridade do negro, no entanto, não via na figura do mulato que teria herdado a “inteligência do branco” maiores problemas. Cf. SILVA, Jorge.

Política de ação afirmativa para a população negra: educação, trabalho e participação no poder.

In: VOGEL, Arno (Org.). Trabalhando com a diversidade no Planfor: raça/cor, gênero e pessoas de portadoras de necessidades especiais. UNESP: Brasília, 2000, p. 14.

“superioridade da raça branca” e a “teoria do branqueamento do povo brasileiro”. A

“teoria do branqueamento”, segundo Skidmore, foi amplamente aceito pela elite brasileira no período compreendido entre os anos de 1889 a 1914, e baseava-se na

[...] presunção de superioridade da raça branca, às vezes, pelo uso dos eufemismos raças ‘mais adiantadas’ e ‘menos adiantadas’, e pelo fato de ficar em aberto a questão de ser a inferioridade inata. À suposição inicial, juntavam-se mais duas. Primeiro – a população negra diminuía progressivamente em relação à branca por motivos que incluíam a suposta taxa de natalidade mais baixa, a maior incidência de doenças, e a desorganização social. Segundo – a miscigenação produzia ‘naturalmente’, uma população mais clara, em parte porque o gene branco era mais forte e em parte porque as pessoas procurassem parceiros mais claros do que elas.236

Assim, os primeiros “emancipacionistas” viram-se diante de um problema representado pelos negros, uma possível ameaça de desagregação da nação brasileira, bem como a possibilidade de miscigenação com uma “raça” tida como inferior que poderia destruir a viabilidade da “raça branca”.237

A saída vislumbrada pelos emancipacionistas, segundo Célia Marinho de Azevedo, foi à disseminação do ódio entre as raças e a necessidade de emancipação imediata dos negros para que pudéssemos nos livrar do “mal gerados por eles”.238

Nesse sentido, considera Gisele dos Santos que inclusive alguns

“abolicionistas” ou “emancipacionistas” brasileiros, constantemente apresentavam uma visão negativa do continente africano que haveria exportado seus “vícios” para o Brasil, concomitantemente com milhares de escravos.239

Nesse contexto, digno de menção as palavras do líder abolicionista Joaquim Nabuco, em sua clássica obra “ O abolicionismo”

236 SKIDMORE, T. E. Preto no branco. Op.cit., p. 81.

237 SKIDMORE, T. E. Preto no branco. Op.cit., p. 105.

238 Cabe destacar às diversas propostas, a respeito do que poderia ser feito com os negros no período pós-abolição. Maciel da Costa considerou que diante da inimizade entre brancos e negros, o que “fazer com uma raça que, apesar de receber bons trabalhos, era tão hostil”.

Outros, reputados “emancipacionistas”, dentre os quais, Cezar Bulamarque, defendeu a devolução dos negros à África, haja vista, a ameaça que os negros representavam aos brancos.

Cf. AZEVEDO, C. M. de, apud SANTOS, G. A. dos. A invenção do ser negro: um percurso das idéias que naturalizaram a inferioridade dos negros. Op.cit., p. 105. Assim a África aparecia sempre retratada em termos de miséria, ignorância e feiura, era “irremediavelmente a terra das trevas”. p. 136.

239 A despeito do médico Louis Couty e Joaquim Nabuco se intitularem à época abolicionistas, e apesar das diferenças entre as ideias que compartilhavam, em dado momento, ambos passaram a defender a imigração europeia como instrumento de viabilização do desenvolvimento da nação.

SANTOS, G. A. dos. A invenção do ser negro: um percurso das idéias que naturalizaram a inferioridade dos negros. Op.cit., p. 107.

Chamada para a escravidão, a raça negra, só pelo facto de viver e propagar-se, foi-se tornando um elemento cada vez mais considerável da população... Foi essa a primeira vingança das victimas. Cada ventre escravo dava ao senhor três e quatro crias que ele reduzia a dinheiro; essas por sua vez multiplicavam-se e assim os vícios do sangue africano acabavam por entrar na circulação geral do país.240

No tocante à necessidade de branqueamento do país, Nabuco complementa que, “a imigração europeia traga sem cessar para os trópicos uma corrente de sangue caucásico vivaz, enérgico e sadio, que possamos absorver sem perigo...”241

Na segunda metade do século XIX, os negros correspondiam 42% da população, o que segundo alguns autores, geravam certa dúvida quanto à futura constituição de identidade nacional composta por uma população predominantemente de negros.242

Na medida em que a abolição se aproximava, políticos e intelectuais viam-se diante da problemática do que fazer com o negro ex-escravo, e como integrá-lo satisfatoriamente à sociedade brasileira. Além disso, havia a necessidade de se viabilizar o aprimoramento eugênico através da imigração dos brancos europeus.

Para tanto, era necessário aumentar o número de brancos na população brasileira por meio das políticas imigrantistas, assim como, havia uma expectativa de que o povo brasileiro, mestiço se misturasse aos brancos europeus e, por conseguinte, em um dado momento, o sangue branco predominaria sobre o negro e o indígena.

Conforme assevera Gisele Santos, a temática do branqueamento adquiriu relevância nos debates da Câmara, do Senado e da imprensa nacional, e culminou em uma tomada de posição contra ou favor da abolição e da política de imigração.

Desenvolvia-se concomitantemente, “o desejo do final da escravidão para o aprimoramento de técnicas mais modernas de trabalho e o medo de que a população negra liberta tomasse a nação, eliminando os brancos.”243

240 NABUCO, J. O abolicionismo. Op.cit., p. 136-137.

241 Ibid., p. 40.

242 O escravo era constantemente retratado como preguiçoso, supersticioso, sem moralidade, estúpido, atrasado. Assim, o discurso enfatizava o continente africano como uma terra de vícios e o escravo como o principal elemento de transmissão de tais vícios no Brasil, bem como a partir das teorizações científicas de raça, especialmente, a partir das ideias do darwinismo social de Herbert Spencer e do positivismo de August Comte nas décadas de 1870 e 1880. AZEVEDO, C.

M. M. de. Onda negra, medo branco: o negro no imaginário das elites. Op.cit., p. 139-140.

243 SANTOS, G. A. dos. A invenção do ser negro: um percurso das idéias que naturalizaram a inferioridade dos negros. Op.cit., p. 83.

Assim, no Brasil, a definição dos grupos humanos e o conceito de raça, começam a ser delineados a partir de elementos biológicos e fenotípicos, as “raças”, a partir de então, encontravam-se divididas pelas desigualdades reputadas como naturais, e não mais por sua história, religião ou cultura como outrora.244

Assim, no Brasil, a definição dos grupos humanos e o conceito de raça, começam a ser delineados a partir de elementos biológicos e fenotípicos, as “raças”, a partir de então, encontravam-se divididas pelas desigualdades reputadas como naturais, e não mais por sua história, religião ou cultura como outrora.244