3 O AMOR NO CONCEITO DO PAPA BENTO XVI
3.3 A encíclica Caritas in veritate
3.3.5 O reconhecimento do problema do mal como requisito da verdade no amor
Bento XVI afirma que a existência do mal no homem é uma constatação da realidade, pois todos o experimentam de alguma forma na concretude de sua vida:
O dado empírico é que existe uma contradição no nosso ser. Por um lado, cada homem sabe que deve fazer o bem e intimamente até o quer fazer. Mas, ao mesmo tempo, sente também o outro impulso para fazer o contrário, para seguir o caminho do egoísmo, da violência, para fazer só o que lhe apraz, mesmo sabendo que assim age contra o bem, contra Deus e contra o próximo. São Paulo na sua Carta aos Romanos expressou esta contradição no nosso ser assim: "Quero o bem, que está ao meu alcance, mas realizá-lo não.
Efectivamente, o bem que quero, não o faço, mas o mal que não quero é que pratico".219
O mal é concreto e palpável como se vê diuturnamente nas mídias televisiva, radiofônica e digitais, que alardeiam os casos de violência e de injustiça no país e no mundo.
Mas não se trata somente de grandes crimes. O mal se apresenta nessa contradição interior manifestada por São Paulo que é experimentada por todos:
“Cada um de nós a vive todos os dias. E, sobretudo, vemos sempre em nossa volta a prevalência desta segunda vontade”.220
Para sua análise e discernimento sobre o homem e as sociedades, o catolicismo considerou sempre o problema do mal, pois, “ignorar que o homem tem uma natureza ferida, inclinada para o mal, dá lugar a graves erros no domínio da educação, da política, da acção social e dos costumes”.221
Significa dizer que não se deve ser ingênuo e acreditar que a mera proposição de leis e medidas de políticas públicas resultará no benefício almejado
219 Romanos 7, 18-19.
220 BENTO XVI, Papa Emérito. Audiência geral de 3 de dezembro de 2008. Disponível em:
https://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2008/documents/hf_ben-xvi_aud_20081203.html. Acesso em: 01 maio 2018.
221 CATECISMO da Igreja Católica. Disponível em:
http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p3s2cap2_2196-2557_po.html. Acesso em:
01 maio 2018.
ou que as sanções estatais têm o condão de eliminar o mal. Há um duro combate a ser travado contra o egoísmo, a ganância, a inveja entre outros impulsos da natureza humana que corrompem a intenção.
Sem acreditar na verdade sobre a existência do mal presente no homem, cai-se numa visão empirista e cética da vida, desinteressada de perscrutar os valores pelos quais orientá-la e julgá-la. Nesse sentido, é necessário reconhecer a existência do mal, como um requisito da verdade.
Portanto, não há em Bento XVI a ideia de que o amor é possível porque o mundo é bom, não se trata de uma utopia. Mas, precisamente, porque o mal está presente no cotidiano é que o amor é necessário.
Se o amor é o dom de si, a prática do bem, o mal só pode ser a prática do egoísmo, visar somente o próprio benefício e atuar em detrimento de quem quer que seja.
A realidade humana do egoísmo, reverso do mandamento de Cristo sobre o amor, é denominado pecado pelo catolicismo:
O pecado é uma falta contra a razão, a verdade, a recta consciência.
É uma falha contra o verdadeiro amor para com Deus e para com o próximo, por causa dum apego perverso a certos bens. Fere a natureza do homem e atenta contra a solidariedade humana. Foi definido como “uma palavra, um acto ou um desejo contrários à Lei eterna”.222
O tema da existência do mal já atormentava Agostinho de Hipona, que diante da verdade que descobrira e experimentara acerca do Deus-Amor, não conseguia compreender nem explicar a origem do mal.223
O paradoxo entre a crença num Deus Criador do mundo, que é a própria bondade, e a existência do mal deixou Agostinho extremamente angustiado. Ele se fazia inúmeras perguntas, inclusive se havia mesmo o mal ou apenas o medo do mal. Para ele, era um grande mistério.224
222 CIC, n. 1849.
223 AGOSTINHO, Santo. As confissões. Versão e notas de Jorge Pimentel Cintra. São Paulo:
Quadrante, 1985, p.102.
224 AGOSTINHO, Santo. As confissões. Versão e notas de Jorge Pimentel Cintra. São Paulo:
Quadrante, 1985, p.103.
Segundo Bento XVI, não há uma explicação lógica para o mal: “o mal não é lógico. Só Deus e o bem são lógicos, são luz. O mal permanece misterioso”.225
Hannah Arendt se chocou com a banalidade do mal. Foi o que ela constatou ao observar o processo de condenação do nazista Adolf Eichmann no Tribunal de Jerusalém, processo esse, aliás, duramente questionado por ela, pois teria sido mais um ato de vingança do que de justiça.226
Nesse julgamento, a descrição esperada do acusado como um “sádico pervertido” ou “monstro anormal” não se revelou verdadeira, o que desafiou os juízes a compreenderem quem era ele e porque se permitiu ser instrumento de tanta barbárie contra os judeus. Assim afirmou Hannah Arendt:
Eles sabiam, é claro, que teria sido realmente muito reconfortante acreditar que Eichmann era um monstro; se assim fosse, a acusação de Israel contra ele teria soçobrado ou, no mínimo, perdido todo interesse. Não é possível convocar o mundo inteiro e reunir correspondentes dos quatro cantos da Terra para expor o Barba Azul no banco dos réus. O problema com Eichmann era exatamente que muitos eram como ele, e muitos não eram nem pervertidos, nem sádicos, mas eram e ainda são terrível e assustadoramente normais [...] que comete seus crimes em circunstâncias que tornam praticamente impossível para ele saber ou sentir que está agindo de modo errado.227
A falta de consciência do mal praticado, portanto, é o que choca Hannah Arendt. Isso é terrível, segundo ela, pois essa “distância da realidade”, esse
“desapego”, talvez “inerentes ao homem” são capazes de gerar “mais devastação do que todos os maus instintos juntos”.228
Pois bem, esse mal que acossa a todo ser humano e, segundo a doutrina católica, está nas origens da criação humana e produz suas consequências em cada pessoa, não pode ser ignorado a quem se dispõe a tratar de justiça e de política.
Não se trata unicamente de falta de maturidade, fraqueza psicológica, erro, consequência necessária duma estrutura social inadequada, da injustiça
225 BENTO XVI, Papa Emérito. Audiência geral de 3 de dezembro de 2008. Disponível em:
https://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2008/documents/hf_ben-xvi_aud_20081203.html. Acesso em: 01 maio 2018.
226 ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém um relato sobre a banalidade do mal. Tradução de José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
227 ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém um relato sobre a banalidade do mal. Tradução de José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1999, p.299.
228 ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém um relato sobre a banalidade do mal. Tradução de José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1999, p.311.
social.229 Não há somente uma culpa coletiva, um mal social e sim uma verdadeira luta do bem contra o mal dentro do homem e que se estende à sociedade.
É por isso que Agostinho concluiu que o mal não é algo, mas:
[...] o perverso movimento de uma vontade que se afasta d´Aquele que é plenamente – Deus – e que tende para as coisas mais baixas, nelas esvaziando toda sua inferioridade; e assim fica vazia, enquanto incha por fora.230
Contudo, é possível se contrapor ao mal. Para a fé católica a razão humana é capaz de vencer o mal, uma vez que tem a capacidade de reflexão e de discernimento entre o bem e o mal. É o que se denomina consciência moral:
Presente no coração da pessoa, a consciência moral leva-a, no momento oportuno, a fazer o bem e a evitar o mal. E também julga as opções concretas, aprovando as boas e denunciando as más. Ela atesta a autoridade da verdade em relação ao Bem supremo, pelo qual a pessoa humana se sente atraída e cujos mandamentos acolhe. Quando presta atenção à consciência moral, o homem prudente pode ouvir Deus a falar-lhe.231
Vale dizer que a teologia moral católica assim define a consciência moral:
A consciência moral é um juízo da razão, pelo qual a pessoa humana reconhece a qualidade moral dum acto concreto que vai praticar, que está prestes a executar ou que já realizou. Em tudo quanto diz e faz, o homem tem obrigação de seguir fielmente o que sabe ser justo e recto. É pelo juízo da sua consciência que o homem tem a percepção e reconhece as prescrições da lei divina.232
O fato é que em todo homem há uma inclinação ao egoísmo e ao orgulho.
E quanto mais envolvido no mal, mais obscurecida fica a consciência moral:
O pecado arrasta ao pecado; gera o vício, pela repetição dos mesmos actos. Daí resultam as inclinações perversas, que obscurecem a consciência e corrompem a apreciação concreta do
229 CATECISMO da Igreja Católica. Disponível em:
http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p3s2cap2_2196-2557_po.html. Acesso em:
01 maio 2018, n.387.
230 AGOSTINHO, Santo. As confissões. Versão e notas de Jorge Pimentel Cintra. São Paulo:
Quadrante, 1985, p.117.
231 CATECISMO da Igreja Católica. Disponível em:
http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p3s2cap2_2196-2557_po.html. Acesso em:
01 maio 2018, n.1777.
232 CATECISMO da Igreja Católica. Disponível em:
http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p3s2cap2_2196-2557_po.html. Acesso em:
01 maio 2018, n.1778.
bem e do mal. Assim, o pecado tende a reproduzir-se e reforçar-se, embora não possa destruir radicalmente o sentido moral.233
Contudo, a razão, por meio da consciência moral, identifica o mal e dá ao homem a liberdade de escolha. Mas a consciência precisa ser formada no bem e na verdade para vencer a inclinação ao egoísmo e ao orgulho que trazem a morte e a destruição.
No caso de Eichmann, sua justificativa para os crimes que cometera era
“o argumento da obediência a ‘ordens superiores’ com várias bazófias sobre ocasionais desobediências”. E, como afirmou Hannah Arendt, não se trata tampouco de alguém ignorante, alguém que não compreende o alcance do mal praticado:
A não ser por sua extraordinária aplicação em obter progressos pessoais, ele não tinha nenhuma motivação [...] Para falarmos em termos coloquiais, ele simplesmente nunca percebeu o que estava fazendo [...] Ele não era burro. Foi pura irreflexão [...] que o predispôs a se tornar um dos grandes criminosos desta época. E se isso é
“banal” e até engraçado, se nem com a maior boa vontade do mundo se pode extrair qualquer profundidade diabólica ou demoníaca de Eichmannm isso está longe de se chamar lugar-comum.234
Portanto, sua única motivação era o que se poderia chamar de “progresso profissional”, ou seja, tão centrado em si mesmo, que, simplesmente, não teve a capacidade de refletir sobre as consequências de seus atos, o que não se pode achar razoável.
O mal pode ser praticado por qualquer um que se veja imbuído de um motivo egoísta, como explica a teologia moral católica, que entende que a consciência moral pode estar obscurecida, estar na ignorância, fazendo juízos errôneos sobre determinadas situações. Mas de modo algum isso retira a responsabilidade individual sobre os atos cometidos, já que a situação de ignorância moral pode ser consequência de uma preguiça intelectual e da reincidência no erro:
Muitas vezes, tal ignorância pode ser imputada à responsabilidade pessoal. Assim acontece “quando o homem pouco se importa de procurar a verdade e o bem e quando a consciência se vai
233 CATECISMO da Igreja Católica. Disponível em:
http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p3s2cap2_2196-2557_po.html. Acesso em:
01 maio 2018, n.1865.
234 ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém um relato sobre a banalidade do mal. Tradução de José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1999, p.310-311.
progressivamente cegando, com o hábito do pecado”. Nesses casos, a pessoa é culpada do mal que comete.235
O princípio da caridade na verdade lançado à luz por Bento XVI é caminho de formação das consciências para vencer o mal no mundo, conforme ensina o Catecismo da Igreja Católica:
O exercício de todas as virtudes é animado e inspirado pela caridade. Esta é o “vínculo da perfeição” (Cl 3, 14) e a forma das virtudes: articula-as e ordena-as entre si; é a fonte e o termo da sua prática cristã. A caridade assegura e purifica a nossa capacidade humana de amar e eleva-a à perfeição sobrenatural do amor divino.236
A luz do amor purifica as escolhas, palavras e atos para a prática do bem e a superação do mal. Do ponto de vista exterior, concretiza o bem ao acolher, valorizar, perdoar, dignificar o outro, sem, contudo, criar dependência, assistencialismo ou irresponsabilidade:
Quem ama deseja ver o outro crescer, se desenvolver, se integrar à sociedade. O mero progresso técnico e científico não será capaz por si só de superar o egoísmo, o mal, e trazer o desapego necessário à partilha de bens e recursos requerida para o desenvolvimento do todo da família humana, que só se alcança por meio da verdadeira caridade iluminada pela fé e pela razão.237
Por sua vez, do ponto de vista da consciência moral, o amor é transformador, pois é exercício de renúncia ao egoísmo e contribui com a criação do bem, com a consciência do dever.
3.4 A dignidade da vida humana na perspectiva do ágape em Bento XVI