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CAPÍTULO 1 – Memórias e História Oral: Caminhos da pesquisa

1.2 O reencontro para dar significado ao escrito

Durante as entrevistas deixamos clara a importância de um reencontro para rememorações e confirmações do que foi escrito por mim, além do processo das entrevistas, reservei um momento para se fazer a leitura de suas memórias e reflexões, sendo assim, tudo do que foi ouvido, relatado e registrado pelo gravador, assim como o processo de transcrição e a mediação da escrita enquanto pesquisadora foram divulgados. Fez-se, então, um movimento reverso em que as entrevistadas ouviram o

entendimento de suas histórias feitas em meu processo de pesquisa e contribuíram com sugestões para a compreensão do que foi relatado. Um encontro marcado por outra experiência, a de ouvir seu próprio relato e trazer novas significações ao que foi dito. O reencontro traz, assim, novas significações ao que foi contado e outras memórias surgem nesse momento.

O segundo encontro com Violeta foi no campus São Carlos, na lanchonete PQ, envolto às correrias do dia numa quinta- feira, tarde do dia dezoito de junho, em que ela participaria de um congresso na universidade e faria a apresentação de um trabalho. Marcamos de conversar e a leitura do texto feita por ela mesma devido à falta de tempo, seguida de algumas considerações e outros relatos de lembranças do passado e do presente que foram registradas no curto espaço de tempo de que dispúnhamos.

Helena me recebeu em sua casa, numa tarde de sábado, vinte de junho, por volta das 15h. Fui lendo o texto escrito de suas histórias para ela e a cada final de página Helena fazia algumas considerações ou deixava a leitura correr. Conversamos sobre o relato escrito e suas rememorações ao longo de um momento muito rico de memórias, pois ela me mostrou suas recordações documentadas, registradas e guardadas com cuidado e carinho. Uma charge feita pelos alunos em protesto pelo espaço cedido para a criação do CA, a carta-protesto narrada em sua história, em que o encontro me possibilitou ver a carta escrita de próprio punho pelos alunos inconformados pela não realização da manifestação na Rodovia Washington Luís naquele dia. E outra carta escrita para o diretor de departamento sobre a estrutura do curso de Ciências Sociais, esta de autoria da própria Helena.

O reencontro com Mariana deu-se em sua sala, na UFSCar campus Sorocaba, no final da tarde de vinte e seis de outubro e em meio ao término de um atendimento que ela realizara com um aluno da Geografia referente ao seu TCC. Ao final de sua conversa, o aluno despediu-se e me desejou uma boa orientação, ela disse a ele que não era uma conversa sobre a minha monografia e sim sobre minha dissertação de mestrado, da qual ela não era orientadora, mas sim com alegria contou que era a pesquisada. Eu senti um grande entusiasmo naquele momento para continuar a pesquisa. Aproximei- me de sua mesa e começamos a conversar. Nossa conversa iniciou com meu relato sobre o meu exame de qualificação do mestrado, seguida da manifestação de minha vontade em fazer a leitura do que utilizei de seu relato para contar sua história no movimento estudantil, e que ela, a qualquer momento, poderia intervir para retirar ou colocar algo no texto. Como tínhamos um breve tempo comecei a leitura e vi seu olhar

atento ao que estava sendo “contado” por mim, pois, como ela me falou, “ao começar a leitura do texto, passa um filme na nossa cabeça”.

Mariana deixou-me terminar e disse que estava bem parecido com o que ela havia narrado, que somente faltava sua fala sobre o NEMGE (Núcleo de Estudos da Mulher e Gênero), local onde fez a primeira iniciação científica e produziu pesquisa referente à mulher no mundo do trabalho, ressaltando em seu relato mais adiante ter sido esta a sua primeira bolsa de iniciação científica. Expliquei para Mariana que não deixei de relatar essa experiência tão importante, mas fiz um breve histórico de sua participação como atuante no movimento estudantil, assim como fiz com todas as demais entrevistadas para contar somente sobre a participação no movimento, de maneira que durante o texto em outros recortes essa atuação aparece para dar sentido ao vivido. Ela ressaltou a importância que teve para ela, como pesquisada e pesquisadora, a forma de condução da minha pesquisa e a disposição em voltar às entrevistadas para mostrar como elas, as entrevistadas, aparecem em tudo o que foi registrado em texto, o que me foi contado etc. deixando livre para as participantes retirarem ou registrarem algo a mais, de fazer esse movimento durante a pesquisa o que, como ela disse, “foi uma feliz surpresa”.

Cora me recebeu em sua sala no dia trinta de novembro após terminar a última aula da disciplina na pós-graduação e, como terminou um pouco antes, combinou um horário no final da tarde para me receber. Sentamos-nos numa mesa para reuniões e ficamos próximas, antes de começar a leitura ela me perguntou sobre os caminhos de minha pesquisa, se meu trabalho já estava sendo finalizado. Disse que estava caminhando para o ponto final, já que é necessário finalizar ao término de dois anos, mas que essa pesquisa me fazia pensar, refletir e não querer finalizar, ela me abria pra diversos caminhos de continuidade e outras inquietações surgiram ao longo do tempo. E com nossa conversa, ali naquele momento, outras questões “fervilhavam”. Expliquei o que seria feito em nosso encontro, que faria a leitura de sua história, uma breve história, pois outros pontos também importantes utilizei ao longo do texto para reforçar as categorias de análises. Fiz a leitura do breve texto que relatei através do que me foi contado para fazer um resgate do movimento estudantil. Naquele momento ela, muito atenta, fez correções necessárias para continuar muito presente sua oralidade no texto. Passamos a outro ponto, o de mais uma vez a partir de sua fala fazer o registro de outra questão, de se entender seu caminho no presente.

Esse espaço de reencontro trouxe novas reflexões, além de dar continuidade ao texto, mas também de esclarecer alguns pontos, revelar outros que ficaram no pensamento das entrevistadas ao desligar a gravação feita pelo celular, um momento de caminhar junto com suas ideias sobre a minha pesquisa, e mais uma vez narrar outra parte da história, de suas atuais histórias sobre as suas construções do ser mulher.