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O Regime Republicano no Direito Brasileiro

No documento O poder constituinte de reforma (páginas 117-123)

ANÁLISE DA EMENDA CONSTITUCIONAL N° 16, DE 04/06/

3.1.1 O Regime Republicano no Direito Brasileiro

A configuração da form a de governo republicana deu-se através de mudança rad ical, posto que não foi direta e im ediatam ente im plantada pelo povo, vindo este somente a ex ercer diretam ente o seu poder, quando se extinguiu a M onarquia e instituiu-se a R epública.

A R epublica b rasileira foi proclam ada em 15 de novem bro de 1889 e

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im p lan tad a pelo D ecreto n° 1, de 15 de novembro de 1889' exarado pelo Governo P ro visório, que expressava solenem ente: “Proclam a provisoriam ente e decreta como form a de governo da N ação brasileira a R epública Federativa, e estabelece as norm as pelas quais se d evem reger os Estados federais.”

O artigo I o estab elecia que: “Fica proclam ada provisoriam ente e decretada co m o a form a de governo da N ação brasileira a República Federativa.” Para confirm ar a im p lan tação da form a repu blicana de governo o artigo 7o, do m esm o Decreto, enfatizava: “S end o a R epública F ed erativ a B rasileira a forma de governo proclam ada, o Governo P ro v isó rio não reconhece nem reconhecerá nenhum governo local contrário à form a

2-19 A T A L I B A , Geraldo. República e Constituição. 2. ed. Atualizada por Rosalea M iranda Folgosi. São Paulo: M a lh e iro s, 1998. p. 91. Sobre as características fundamentais da República confira D A L L A R I, D alm o de A breu. Elementos cie teoria g e r a l cio Estado. 12. ed. São Paulo: Saraiva, 1986. p. 191; C A E T A N O . Marcelo.

D ire ito Constitucional, v. I. Rio de Janeiro: Forense. 1977. p. 413; A TALIBA . Geraldo. República e Constituição. 2. ed. A tu alizada p o r R osalea M iranda Folgosi. São Paulo: Malheiros, 1998. p. 13-14 e 90.

2'm B R A S IL . Decreto n° 01. de 15 de novem bro de 1889. Proclama provisoriam ente e decreta como forma de g o v e r n o a República Federativa, e estabelece as normas pelas quais se devem reger os Estados federais. D isp o n ív el em: c h tip :// w w w . cebela.org.br/txtpoIil/s0cio/vol8/H_286_OI .hlml >. Acesso em: 15 out. 2000.

republicana, aguardando, com o lhe cumpre, o pronunciam ento definitivo do voto da Nação,

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livrem ente expressado pelo sufrágio popular.”'

P roclam ada provisoriam ente e decretada a R epública, o G overno Provisório designa em 21 de dezem bro de 1889, através do D ecreto n° 78-B, para o dia 15 de setem bro de 1890 eleição geral da A ssem bléia C onstituinte; assim dizia o artigo Io: “No dia 15 de setem nbro de 1890 se celebrará em toda a R epública a eleição geral para a A ssem bléia C onstituinte, a qual com por-se-á de um a só câm ara, cujos m em bros serão eleitos por escrutínio de lista em cada um dos E stados.” " '

A ssim com a prom ulgação da C onstituição da República dos E sta d o s Unidos

do Brasil de 24 de fevereiro de 1891, o artigo Io d efinia que: “A N ação b rasileira adota

com o form a de governo, sob o regim e representativo, a R epública F ederativa proclam ada a 15 de novem bro de 1889, e constitui-se, por união perpétu a e indissolúvel das suas antigas províncias, em Estados Unidos do Brasil.”24'1

Na C onstituição de 1891 a palavra R ep úb lica foi utilizada co m o a form a de governo brasileira, quanto com o sinônim o de U nião, para o efeito de estabelecim ento de com petências e de medidas perm itidas em caráter excepcional. E ntretan to , com a constitucionalização da República, em 24 de fevereiro, nove m eses após, o B rasil assistiu a dissolução do C ongresso N acional pelo Presidente d a R epública, M arechal D eodoro da Fonseca, o descum prim ento flagrante das norm as fundam entais da R ep úb lica e o

241 BRASIL. Decreto n° 01. de 15 de novembro de 1889. P ro c la m a provisoriam ente e dec reta c o m o form a de governo a República Federativa, e estabelece as normas pelas q uais se devem reger os E s ta d o s federais. Disponível em: < http:// w w w . cebela.org.br/txtp olil/sócio /v ol8/H _286_0l .html >. Acesso em : 15 out. 2000. 2-12 BRASIL. Decreto n" 78-B, de 21 de dezembro de 1889. D esig n a o dia 15 de setem bro de 1890 para a eleição geral da Assembléia Constituinte e convoca a sua reu n ião para dois meses depois, na Capital da República federal. Disponível em: c h itp :// w w w . cebela.org.br/txlpolit/sckio/vol8/H _286_03.hlm l >. Acesso em: 15 oul. 2000.

24■' BRASIL. Constitu ição (1891). Constituição da República cios Estados Unidos do Brasil: p r o m u lg a d a em

24 de fevere iro de 1891. Disponível em: <htlp:// w w w . c e b e la .o rg .br/txtpolit/sócio >. A c e s s o em : 15 out.

acom odam ento aos fatos pelo S uprem o Tribunal Federal, que se posicionou favorável aos atos praticados pelo Presidente. R esultou, então a reação que culminou com a renúncia do

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P residente, e com a assunção do V ice-P residente F lonano P eixoto.'

O m ilitarism o m arca profundam ente a im plantação da República brasileira. E isto é elem ento m arcante dentro da h istó ria brasileira. E sta forma de governo não foi criada pela C o nstitu ição, assim , com o não se pode atribuir esta im plantação ao povo, após amplo debate e p len o conhecim ento de sua realidade ju rídica e de suas conseqüências históricas.245

O povo não participou da im plantação da form a de governo republicana e muito m enos foi consultado sobre esta fo rm a de governo. A nalisando-se as Constituições

brasileiras, prom ulgadas ou outorgadas, desde a de 1891 somente na atual, de 1988, procurou-se qu estionar o povo sobre a sua preferência. 246

244 Cf. R O C H A , C a rm em Lúcia Antunes. R e públic a e "Res publica” no Brasil. M E L L O , Celso Antônio B andeira de (Org.). Direito Administrativo e Constitucional - Estudos em homenagem a Geraldo Ataliba. S5o Paulo: M a lh e iro s, 1997. p. 222-223.

C o m relação a o episódio da nossa H istória republicana, G eraldo Alaliba diz que a estrutura do regime republicano d ev e preservar determ in ados p rin cíp io s e instrumentos para assegurar as virtudes essenciais do regime. A tripartiçã o do poder aparece, en t ã o com o a forma mais perfeita para assegurar-se este regime republicano representativo, tem perados c o m os instrumentos da responsabilidade e igualdade, ou seja, engen d rad o e m um sofisticado m ecanism o d e checks and balances entre os poderes. Cf. A T A L IB A , Geraldo.

República e Constituição. 2. ed. A tualizada p o r Rosale a M iranda Folgosi. São Paulo: Malheiros, 1998. p. 47-

48.

241 Cf. R O C H A , C a rm em Lúcia Antunes. R ep ú b lic a e “ Res publica” 110 Brasil. M E L L O , Celso Antônio Bandeira de (Org.). Direito Administrativo e Constitucional - Estudos em homenagem a Geraldo Ataliba. São Paulo: M alh eiro s, 1997. p. 225.

246 Leôncio B a s b a u m entende que o po v o brasileiro translorm ou-se em republicano, quando a família real em barcou p ara a E u ro p a e d em onstrando im possibilidades de retorno ao Brasil. Assim, o povo brasileiro tornou-se r ep u b lica n o não porque preferisse o República ou porque a esta ao ser implantada atenderia a seus interesses, mas porque a m udança de r eg im e não lhes traria alterações, continuando c om o no período imperial. Ou seja, a estabilidade dc vida individual foi a marca pela aceitação pelo povo brasileiro do regime republicano. Cf. B A S B A U M . Leôncio. História Sincera da República. Das origens até 1889. 3. ed. São Paulo: Fulgor. 1967. p. 231.

Confira ta m b é m o livro de José Murilo de C a rv a lh o que trata da primeira grande mudança de regime político após a p ro c la m aç ã o da independência, e m que enfoca principalmente a não participação popular na im plantação d o regim e republicano. C A R V A L H O , José Murilo de. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a

A prim eira Constituição republicana de 1891 em seu artigo I o estabelecia: “A N ação brasileira adota com o form a de governo, sob o regim e representativo, a R epública Federativa A Constituição de 1934 m antém a m esm a estru tura da R epública com os fundam entos da proclam ação de 1889, mas se diferencia daquela C onstituição pelo fato de excluir a expressão que im plantava pela prim eira vez a R epública, pois veja-se: “A lt. Io A N ação brasileira, constituída pela união perpétua e indissolúvel dos Estados, do D istrito Federal e dos Territórios em Estados Unidos do Brasil, m antém com o form a de governo, sob o regim e representativo, a República Federativa proclam ada em 15 de novem bro de

1889.”247

A Constituição de 1937, outorgada por G etúlio V argas, expressava-se, secam ente, em seu artigo I o: “ O Brasil é uma R epública.” A partir de então, com esta nova expressão constitucional, Carm em Lúcia assevera:

“A alteração é significativa, porque se tem, então, a República não pela sua origem ou no sentido da continuidade do que se tivera antes, mas haurindo o autor da Carta de 37 em si m esm o a estatuição fundam ental da form a de governo. C om o o regim e político antidem ocrático busca na força do grupo ou da pessoa governante a sua fundam entação, despojado com o é de qualquer legitim idade, inclusive histórica, não há rebuscam ento ou retom ada do q uanto antes se definira. É República porque o ditador assim o determ ina.”248

A form a de governo republicana traz em sua essência o povo com o titular do poder, e, apesar de ter sido outorgada, esta Carta constitucional em seu artigo Io, segunda

247 BRASIL. Constituição (1934). Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil: prom ulgada em

16 de julh o de 1934. Disponível em: <hltp:// w w w . eebela.org. hr/lxtpol il/sócio >. A cesso em: 15 oul. 2000.

2-1 s R O C HA , Carm em Lúcia Antunes. República e "Res publica” no Brasil. M E L L O , Celso Antônio B andeira de (Org.). Direito Administrativo e Constitucional - Estudos em homenagem a Geraldo Ataliba. São Paulo: Malheiros, 1997. p. 227.

parte, estabelece que: “O poder político em ana do povo e é exercido em nom e dele, e no 04c) interesse do seu b em -estar, da sua honra, da sua independência e da sua prosperidade.”'

A C on stituição de 1946, mais uma vez m anteve a form a de governo adotada anteriorm ente, assim dispôs o artigo Io: “Art. Io Os E stados Unidos do Brasil m antêm , sob 0 regim e representativo, a Federação e a R epublica.”"'

A C on stitu ição de 1967 com a Em enda C onstitucional de 1969 2:11 estabeleciam que : “Art. I o O B rasil é um a R epública Federativa, constituída, sob 0 regime representativo, p ela união indissolúvel dos E stados, do Distrito Federal e dos

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1 em torios.

Por fim , a C onstituição Federal de 1988 conservou a m esm a form a republicana, estabelecendo em seu artigo I o: “Art. I o A R epública Federativa do Brasil, form ada pela união indissolúvel dos E stados e M unicípios e do D istrito Federal, constitui-se em Estado D em ocrático de D ireito .”253

C arm em L ú cia254 ao analisar a R epública brasileira reconstitucionalizada em 1988 destaca duas novidades advindas da opção constitucional de 1988.

140 BRASIL. C o n s titu iç ã o ( 1937). Constituição da República d o s Esta dos Unidos do Brasil: decretada em 10

de novem bro de 1937. D isponív el em: < http:// w w w . cebela.org.br/lxtpolit/sócio >. Acesso em: 15 out. 2000.

2MI B R A SIL. C o n s titu iç ã o (1946). Constituição dos Esta dos Unidos do Brasil: promulgada em 18 de

setembro de 1946. D isponív el em: c h t lp :// w w w . cebela.org.br/txtpolit/sócio >. Acesso em: 15 out. 2000.

2M Para Luís R o b e rto B a rro s o a E m e n d a Constitucional n" 1/69 configura no ângulo material uma nova Constituição, lace às am p la s alterações introduzidas na Constituição de 1967. Cf. B A R R O S O , Luís Roberto.

O Direito Constitucional e a Efetividade de suas Normas: limites e possibilid ades da Constituição brasileira.

4. ed. Rio de Janeiro: R enovar, 2000. p. 7.

2:>2 BRASIL. C o n s titu ição (1967). Constituição da República Federativa do Brasil: prom ulg ada em 24 de

jan eir o de 1967 com re dação dada p e la Emenda Constitucional n" I, de 17 de outubro de 1969 e as alterações feitas p e l a s E m en das de n°s 2 0 27. Brasília: Fundação P roje to Rondon, 1987.

2:i'1 BRASIL. C o n s titu ição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil: prom ulg ada em 5 de

outubro de 19S8. O b ra coletiva de autoria da Editora S araiva com a colaboração de A ntônio Luiz de Tole do

Pinto e M árcia Cristina V a z dos Santos Windt. 22. ed. São Paulo: Saraiva, 1999.

214 Cf. R O C H A , C a rm e m Lúcia Antunes. República e "R es p u b lica” no Brasil. Org. Celso A ntô nio Bandeira de Mello. Direito Adm inistrativo e Constitucional - Estudos em homenagem a Geraldo A ta liba. São Paulo: Malheiros. 1997. p. 231.

A prim eira é a instituição da R epública Federativa com o E stado D em ocrático de D ireito, revelando, assim, a essência do Estado brasileiro. Os princípios republicano e dem ocrático m odelam -se e condicionam -se reciprocam ente, e deverão ser aplicados como um a expressão única e indissociável, enquanto em vigor o sistem a republicano d em ocrático.2x5

A segunda é a fragilização da República em favorecim ento do princípio federativo, posto que a form a republicana não vigora com o núcleo de m atéria expressam ente lim itativa à ação reform adora do constituinte derivado.

D esde 1889 com a Proclam ação da R epública e em 1891 com a prim eira constitucionalização do princípio da República, o Estado brasileiro optou politicam ente por este princípio, com o base inform adora do sistem a constitucional e con fo rm ad ora do D ireito positivo. Este princípio republicano fundam enta, desenha, estrutura e institui a form a e o exercício do poder político no Estado brasileiro.256

2:0 C elso Bastos entende que o conceito de república se encontra esvaziado de conteúdo, fato ocorrido em razão de as monarquias cederem parcelas de seus poderes. Assim, as m onarquias da E u ro p a ocidental não se diferenciam das vizinhas Repúblicas. E em razão do esvaziamento dos conceitos de m o n arq u ia e república, é que, talvez, a nova Constituição brasileira tenha configurado o Estado D em o c rátic o de Direito e ainda en u m era n d o alguns fundamentos de nossa República. Cf. BASTOS, Celso Ribeiro. Curso de Direito

Constitucional. 20. ed. São Paulo: Saraiva, 1999. p. 154.

2><’ Cf. R O C H A , C a rm e m Lúcia Antunes. República e “Res publica" no Brasil. Org. C e lso A n tô n io Bandeira

de M ello. Direito Administrativo e Constitucional - Estudos em homenagem a Geraldo A taliba. São Paulo: M alheiros. 1997. p. 230 a 232.

G eraldo Ataliba reforça esta assertiva, dizendo: "... o princípio republicano não é m e ra m en te afirmado, com o sim ples projeção retórica ou programática. E desdobrado em todas as suas conseqüências, ao longo do texto constitucional: inúmeras regras dando o conteúdo exato e a precisa extensão d a tripartição do podei'; m a ndatos políticos e sua periodicidade, implicando alternância no poder; resp o n sab ilid ad es dos agentes públicos, proteção às liberdades públicas; prestação de contas; mecanismos de fiscalização e controle do p o v o sobre o governo, tanto na esfera federal com o estadual ou municipal; a própria consagraç ão dos princípios federal e da autonomia municipal etc. Tudo isso aparece, formando a co n tex tu ra constitucional, co m o desdobram ento, refração, conseqüência ou projeção do princípio, expressões concretas de suas ex igênc ias." A T A L IB A , Geraldo. República e Constituição. 2. ed. Atualizada p o r R osalea M ira n d a Folgosi. São Paulo: Malheiros, 1998. p. 27-28.

No documento O poder constituinte de reforma (páginas 117-123)