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6. O trabalho de campo

6.3. O registo e tratamento de dados

O guião de entrevista ao longo dos anos (1997-2008) tem-se mantido semi-estruturado, dir- se-ia até tendencialmente aberto257. Transmite-se de início ao(s) entrevistado(s) a ideia de que o relevante para o investigador não é o que os outros diziam sobre os assuntos, nem o que está nos livros. O decisivo é a opinião de cada pessoa sobre assuntos que ela própria considera relevantes para quem vive em Moçambique. De início é também sublinhada a ideia de que não existem opiniões certas ou erradas. O que conta é o modo como elas são apresentadas, explicadas e/ou fundamentadas pelo(s) interlocutor(es). A estratégia das entrevistas assenta numa intenção central: que em cada conversa os discursos se desenvolvam focalizados em três períodos da evolução política de Moçambique: o período colonial (até 1974-1975); o período pós-colonial da primeira república/socialista (1974/75- 1992/94); e a actualidade ou a segunda república/multipartidária (desde inícios dos anos 90).

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Dada a elevada sensibilidade em abordar directamente questões de natureza política e havendo a consciência dos bloqueios que o tema provoca numa sociedade em que as memórias da violência política estão vigorosamente presentes, e por experiência acumulada do investigador, descontando os casos em que a identidade do entrevistado apontava claramente para o domínio político, o início da conversa é direccionado para histórias de vida ou problemas pessoais ou sociais que o entrevistado considera que mais afectavam a sua vida e a vida das pessoas em geral não só de Tete, como do próprio país. Depois tenta-se progressivamente relacionar isso com a acção do estado no passado e no presente.

Dependendo da sensibilidade do interlocutor, a estratégia que se tem revelado mais eficaz é a de sugerir aos entrevistados o estabelecimento de comparações entre diferentes momentos da história de Moçambique, tendo por base os assuntos a que eles próprios conferem relevância, tentando-se aproximações sucessivas a temas políticos propriamente ditos. O período colonial, porque a sua abordagem suscita menos constrangimentos, constituiu um núcleo de temas que pode facilitar o desenrolar das entrevistas.

A estratégia referida não impede, no entanto e pontualmente, determinados bloqueios em algumas entrevistas e, noutras, o rumo da conversa pode desequilibrar a análise do entrevistado, no sentido do discurso incidir demasiado, por exemplo, na primeira república (1974/75-1992/94), e falando-se muito esporadicamente da segunda república (desde inícios dos anos 90) ou da época colonial (até 1974/75), ou até pura e simplesmente ignorando uma dessas fases da evolução do estado em Moçambique. Uma vez que se pretende captar representações do político socialmente geradas e partilhadas, o importante tem sido ter em conta o sentido geral dos atributos conferidos ao estado que circulam no espaço público. Para isso não importa apenas o trabalho de campo de 2004, mas também todo o trabalho antecedente (a fase exploratória de 2003 e as experiências acumuladas das idas ao terreno em 1997 e 1998), bem campo o trabalho de campo complementar de 2008. Desse modo, as entrevistas de 2004 (o núcleo essencial do material empírico) fazem melhor sentido se enquadradas nesse conjunto de pesquisas de campo.

As sessenta e uma entrevistas realizadas (2004) tiveram a duração média de uma a três horas. Tendo em conta a sensibilidade dos temas tratados, temos optado desde 2003 por não gravar as conversas. Recorremos, no entanto, a técnicas que permitiram um registo fidedigno dos depoimentos.

Dependendo da sensibilidade dos entrevistados, faz-se um registo escrito da conversa com maior ou menor pormenor, tendo também em conta as circunstâncias de cada entrevista. Desse modo, não se pode estabelecer uma relação directa entre o tamanho do registo escrito (medido em número de páginas) e a duração da conversa. Assim, uma parte das recolhas corresponde ao que foi rigorosamente dito pelos entrevistados (é o que consta nos anexos referentes às recolhas de 2004); outra parte tem a ver com o registo na terceira pessoa, não das palavras do entrevistado, mas das ideias que exprimiu; outra parte ainda tem a ver com anotações e comentários do terreno que servem de suporte às análises. Tem existido o cuidado em estabelecer a distinção entre o discurso directo e os outros registos (discurso diferido; comentários; anotações). Note-se que algumas conversas (ou partes de conversas) derivam para aspectos laterais, podem fazer prolongar o diálogo, mas das quais não se tira grande proveito para a investigação.

Imediatamente após a realização de cada entrevista procede-se ao seu registo pormenorizado recorrendo à memória imediata da conversa, enquadrando as diversas anotações recolhidas in loco e respeitando a sequência do discurso dos entrevistados. No sentido de conferir maior eficácia a esse procedimento, estabeleceu-se a regra de nunca se realizar uma nova entrevista sem proceder ao registo completo da anterior, opção particularmente viável quando se trabalha numa cidade pequena como Tete.

A metodologia adoptada para as recolhas empíricas aponta, na essência, para que, da maneira mais pragmática possível, se evitem factores inibidores de uma interacção entrevistador/entrevistado(s), num país onde a abordagem do político é condicionada por diversos obstáculos, entre eles, na cidade de Tete, o facto do poder das estruturas políticas da Frelimo ser efectivo. Por experiência da pesquisa para o mestrado, ficou claro que algumas pessoas aceitavam falar desde que a sua identidade fosse protegida. Desse modo, para que se recorresse a um critério geral para a recolha e tratamento do material empírico, logo no início da entrevista tem sido garantido o anonimato aos entrevistados aquando da

divulgação dos registos do terreno. Mas essa foi uma opção generalizada às recolhas de 2004 e de 2008 e não para os anos anteriores. As estratégias de garantia do anonimato (adoptada desde 2004) e de não gravação das entrevistas (adoptada desde 2003) confirmaram a hipótese da qualidade dos testemunhos ser substancialmente melhor em relação a experiências anteriores em que se procedeu de modo inverso (1997 e 1998).

O tratamento do material recolhido tem sido qualitativo258 e tem obedecido a três processos. Em primeiro lugar, sucessivas (re)leituras dos registos do terreno de modo a isolar temas dos discursos do senso comum que sustentam representações sociais do estado em Moçambique. Depois, o agrupamento dos temas através de excertos dos discursos dos entrevistados tendo em conta o seu enquadramento de acordo com as épocas a que se reportam (período colonial; período pós-colonial da primeira república; período pós- colonial da segunda república). Por último, a organização da análise não isola (como não pode isolar) os dados de forma estanque, uma vez que a dinâmica das representações sociais sobrepõe temas e épocas, bem como temos tido em igual conta quer o discurso directo dos entrevistados tal qual foi registado, quer as outras recolhas do terreno (registo de ideias dos entrevistados, anotações ou comentários).

Dada a subjectividade que um trabalho desta natureza envolve, as opções metodológicas tentaram evitar caminhos puramente aleatórios e pretendem garantir uma sólida sustentabilidade empírica ao estudo.

A análise das entrevistas não se tem limitado ao verbalmente explícito. Inclui interpretações sobre os silêncios, as escusas ou os temas tendencialmente reprimidos (no sentido daquilo que é retirado da consciência, mas que se torna evidente precisamente por não ser abordado ou por ser muitas vezes evitado). Tal significa que a metodologia de recolhas empíricas assente na interacção entrevistador/entrevistado(s) envolve questões de natureza diversa que a tornam complexa, sendo difícil encontrar formas mais eficazes de se chegar ao pensamento social sobre o político em Moçambique.

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Sobre as limitações associadas a metodologias quantitativas num trabalho de campo em Moçambique

ENTRE TEORIA E EMPIRIA

«Only within the context of his orical and cultural reality can the relations of reason and unreason be fully assessed and understood» (Serge Moscovici in: Moscovici & Marková 2000 [1998], p. 245).