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Representações sociais, cultura política e atitudes

3. Perspectiva teórica e instrumentos de análise

3.2. Representações sociais, cultura política e atitudes

O conceito de representações sociais coloca questões importantes que dificultam, de algum modo, a sua articulação com os outros instrumentos de análise da investigação: cultura política e atitude62.

Começando pelas propostas que seguimos para os conceitos de cultura política (Almond & Verba 1963; Heimer, Vala & Viegas 1990) e de atitude (Chaiken & Eagly 1993), em qualquer dos casos, essas teorizações consideram a necessidade de se distinguirem 58 Cf. Silva 1986. 59 Moscovici 2000 [1972], pp.95 e segs. 60

Cf. Moscovici in: Moscovici & Marková 2000 [1998], p.249 e pp.224 e segs. 61

Moscovici 2000 [1994], p.156. «Poder-se-ia dizer que a compreensão sociológica da “realidade” e do “conhecimento” se situa, de certa maneira, num meio-termo entre o homem comum e o filósofo» (Berger & Luckmann 1999 [1966], p.14).

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diferentes dimensões que, depois, se traduzem na decomposição do objecto (ou do tema) que estiver a ser analisado em função dessas dimensões. São de ter em conta:

i) a dimensão cognitiva: tem a ver com as crenças e as explicações (no sentido de atribuições de causalidade) sobre determinado objecto; com o tratamento e reelaboração da informação; ou com a construção social do conhecimento: «(…) “cognitivo” não implica aqui um mero reflexo da realidade material e social na mente dos indivíduos, mas uma activa “produção de sentido” e “organização significante do real”»63;

ii) a dimensão avaliativa-afectiva: tem a ver, por um lado, com os sentimentos ou as emoções que os indivíduos manifestam face a determinados objectos e, por outro lado, com a avaliação desses mesmos objectos;

iii) e a dimensão conativa (ou dos comportamentos representacionais): tem a ver com padrões de possível comportamento ou esquemas potenciais de acção por parte dos indivíduos.

Existe uma concordância entre os autores quanto ao que se entende por dimensão cognitiva. O mesmo não se pode afirmar sobre as dimensões avaliativa-afectiva e conativa. As últimas não se apresentam como absolutamente coincidentes. A propósito do conceito de cultura política, enquanto Almond & Verba (1963) separam a dimensão avaliativa da afectiva64; Heimer, Vala & Viegas (1990), mantendo a distinção, consideram no entanto impossível a sua operacionalização autónoma numa abordagem empírica65. Quando teorizam sobre o conceito de atitude, Chaiken & Eagly (1993) optam por só considerar a dimensão afectiva, pois defendem que a avaliação está sempre presente e atravessa as três dimensões (cognitiva, afectiva e conativa), precisamente porque o que define um objecto de atitude é a capacidade intrínseca de ser avaliado.

Chaiken & Eagly (1993), quando sistematizam o conceito de atitude, consideram equivalentes as dimensões comportamental e conativa, não estabelecendo diferenciações

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Heimer et alii 1990, p. 17. 64

«The political culture of a nation is the particular distribution of patterns of orientation toward political objects among the members of the nation. (…) we need to define and specify modes of political orientation and classes of political objects. (…) It includes (1) ‘cognitive orientation’, that is, knowledge of and belief about the political system, its roles and the incumbents of these roles, its inputs, and its outputs; (2) ‘affective orientation’, or feelings about the political system, its roles, personnel, and performance, and (3) ‘evaluational orientation’, the judgments and opinions about political objects that typically involve the combination of value standards and criteria with information and feelings» (Almond & Verba 1989 [1963], pp. 13-14).

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entre elas66. Por seu lado, Heimer, Vala & Viegas (1990), ao trabalharem o conceito de cultura política, separam a dimensão conativa da comportamental. No seu ponto de vista, a última tem a ver com comportamentos ou práticas sociais manifestadas (ou “objectivas”), enquanto o que está em causa (a cultura política e, acrescente-se, o pensamento social) se situa na dimensão subjectiva do social, ao nível dos esquemas potenciais de acção (action schema) e não ao nível dos comportamentos.

As diferentes perspectivas de organizar os instrumentos de análise referidos que, em conjunto, versam sobre o pensamento social, podem ser motivadas, por um lado, pelas dificuldades (ou mesmo impossibilidade) em encontrar correspondências estáveis na realidade social para as dimensões consideradas (cognitiva, afectiva, avaliativa e conativa) em estudos empíricos; por outro lado, pelo reconhecimento da insuficiência da dimensão cognitiva como factor explicativo de fenómenos associados ao pensamento social; e, por outro lado ainda, a perspectiva dos autores acaba por estar sempre condicionada pela realidade empírica que lhes serve de referência.

Face ao exposto, consideramos útil clarificar que, ao nível da perspectiva de análise, é importante distinguir as diferentes dimensões dos conceitos (cognitiva, avaliativa, afectiva e conativa), enquanto que ao nível do trabalho empírico, porque condicionado pela idiossincrasia de uma dada realidade social impossível de ser descontextualizada, as perspectivas podem conduzir a outro tipo de opções (como sugerem Heimer, Vala & Viegas 1990 ou Chaiken & Eagly 1993).

A esse propósito, quer a realidade empírica desta investigação (o contexto moçambicano), quer a natureza das recolhas (entrevistas semi-estruturadas com pessoas comuns), colocavam duas questões: a primeira, a de se tornar importante sublinhar que a dimensão conativa (ou do esquemas potenciais de acção) surge na investigação de modo muito pontual, quando se abordar a questão da antecipação feita pelos actores sociais sobre as consequências para as suas vidas e para o geral da(s) sociedade(s) em Moçambique tendo em conta os resultados das eleições presidenciais e legislativas que iriam decorrer em Dezembro de 2004 (sendo que o essencial do trabalho de campo se realizou entre Junho e

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«Evaluative responses of the behavioral (or conative) type consist of the overt actions that people exhibit in relation to the attitude object» (Chaiken & Eagly 1993, p.12).

Agosto desse ano); a segunda, associada ao facto de as dimensões cognitiva, avaliativa e afectiva do pensamento social sobre o político referenciado ao estado em Moçambique, ao apresentarem-se como permanentes e simultâneas no material empírico recolhido, tornariam ineficaz ou aleatória a análise diferenciada de cada uma dessas dimensões.

A nossa opção foi a de considerar o pensamento social como uma totalidade. Essa perspectiva encontra na teoria das representações sociais um suporte convincente, dado que a última tem a vantagem de focalizar a análise da produção de sentido pelos actores sociais num tema (ou em conjuntos de temas) associados a um objecto (o estado), sendo que essa produção de sentido é captada através dos discursos do senso comum. Assim, se as características do objecto (o estado) e a natureza do social (o contexto moçambicano) inviabilizarem ou tornarem pouco eficaz um tipo de abordagem que vise separar analiticamente as diferentes dimensões do significado atribuído pelos actores sociais ao objecto (cognitiva, afectiva, avaliativa ou conativa), como acontece nesta investigação, isso não significa, de modo algum, estar-se perante uma construção teórica e metodológica frágil. A solidez da investigação, neste caso, significa ir consciente e intencionalmente ao encontro da natureza do objecto, afastando-nos da utilização rígida de determinados instrumentos de análise.

Tendo em conta que a descontextualização e a experimentação dos fenómenos sociais (isto é, a testagem laboratorial) são inverosímeis, de acordo com a perspectiva de Serge Moscovici, o que importa considerar quando o objecto é o social é que as diferentes dimensões (cognitiva, avaliativa, afectiva e conativa) estão interligadas67

. Desse modo, ao conferir-se papel-chave ao conceito de representações sociais na análise de uma dada realidade esvazia-se, à partida, a questão de se saber se estão ou não cobertas todas as dimensões do pensamento social e como se caracteriza a interacção entre elas. Trata-se de uma perspectiva analítica que acentua a permanente interdependência entre o individual e o colectivo (ou entre o psicológico e o sociológico), apontando para um fenómeno dinâmico

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«For all ‘cognition’, all ‘motivation’ and all ‘behaviour’ only exist and have repercussions in so far as they signify something, and signifying implies, by definition, at least two people sharing a common language, common values and common memories. This is what distinguishes the social from the individual, the cultural from the physical and the historical from the static. By saying that representations are social we are mainly saying that they are symbolic67 and possess as many perceptual as so-called cognitive elements. And that is why we consider their content [itálico original] to be so important and why we refuse to distinguish them from psychological mechanisms as such» (Moscovici 2000 [1984], p.74). Cf. Moscovici 2000 [1984], pp.75 e segs.; Moscovici & Vignaux 2000 [1994], pp.182-183.

que confere um papel activo permanente aos actores sociais. É essa dinâmica que torna inviável que se isolem de modo relativamente preciso dimensões de um fenómeno social e simbólico, que possui, em simultâneo, tanto de perceptivo (onde se poderia incluir a afectividade, a avaliação e os comportamentos representacionais) quanto de cognitivo68.

Sublinhe-se que para o estudo de sociedades da África Subsaariana, optar pela perspectiva analítica das representações sociais permite, à partida, anular tentações de ir à procura de racionalidades, emotividades, avaliações ou comportamentos representacionais genuinamente africanos. O que está em causa – em África, na Europa ou algures – é a concepção dos fenómenos sociais relacionados com as representações sociais como fenómenos totais, ainda que se saiba que o total se capte através de dimensões específicas interligadas.

Nada que correntes da antropologia (em particular ligadas à antropologia política) não tivessem desde há muito sublinhado. Simplesmente a teorização de Serge Moscovici como suporte para o estudo das sociedades africanas permite distinguir analiticamente o pensamento social das práticas sociais. Está-se, portanto, perante uma perspectiva analítica que toma o fenómeno social como total, mas um total limitado porque circunscrito ao pensamento social. Essa é uma primeira distinção a estabelecer em relação às tendências da antropologia. Mas é de se acrescentar uma outra dado que a teoria das representações sociais permite-nos distanciar o simbólico de uma associação hegemónica ao mágico- religioso tradicional africano, como é frequente nos estudos africanos. Na nossa perspectiva, o pensamento social, em África ou algures, pode ser abordado essencialmente na perspectiva de um fenómeno contemporâneo. Para concretizar a proposta teórica da qual partimos, o que nesta investigação faremos é apontar para o domínio do pensamento social que remete para o estado enquanto regulador do pensamento social sobre o político contemporâneo.

São diferenças significativas que justificam o recurso à teoria das representações sociais no estudo das sociedades africanas o que, de modo nenhum, significa a desvalorização da

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«(…) the structure and dynamics of thought cannot be grasped when you start only from cognitive processes, since they cannot be divided from what is, so to speak, the substance of the actual knowledge» (Moscovici in: Moscovici & Marková 2000 [1998], pp. 240-241).

antropologia, particularmente naquilo em que ela remete para as sociedades tradicionais africanas.