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Capítulo IV O Destacamento de Trabalhadores por conta de outrem para outro Estado

2. Legislação aplicável ao Destacamento

2.3. O Regulamento (CE) 883/2004 do Parlamento Europeu e do Conselho de 29 de

Este normativo comunitário denominado de Regulamento de Base (RB) tem como objetivo fundamental modernizar e reforçar a coordenação e a troca de informação no âmbito dos Sistemas nacionais de Segurança Social dos vários Estados Membros da União Europeia, incluindo a Suíça. Nesta medida, este documento veio estabelecer os princípios, as regras e os procedimentos de aplicação promovendo a sua clareza e simplificação em prol do interesse de todos os cidadãos. O seu âmbito de aplicação pessoal ou subjetivo estende-se a todos os cidadãos nacionais de um determinado Estado Membro que estejam ou tenham estado sujeitos à legislação de Segurança Social de um ou mais Estados Membros. Assente nos mesmos princípios e valores das Diretivas anteriores, este Regulamento assenta no propósito de, no âmbito dessa coordenação, respeitar as caraterísticas próprias das legislações nacionais de Segurança Social, salvaguardando, em simultâneo, a construção de um sistema único que garanta, ao cidadão europeu a igualdade de tratamento em matéria de prestações, de rendimentos, capacidade contributiva, entre outros. Pretende-se, assim, salvaguardar o princípio da neutralidade e unicidade da legislação aplicável, ao cidadão europeu, que, por regra geral, apenas deve estar sujeito à legislação de um único Estado Membro. Esta perspetiva veio contribuir para a conceção de um mecanismo simplificador, acessível e célebre do acesso aos direitos e melhorias das condições sociais dos cidadãos e, em particular, dos trabalhadores.

121 Regulamento publicado no Jornal oficial da União Europeia em 30 de abril de 2004 e que entrou em

vigor em 1 de maio de 2010. Já sofreu alterações legislativa com os Regulamentos 1244/2010, de 9 de dezembro; Regulamento 465/2012, de 22 de maio; Regulamento 1224/2012, de 18 de dezembro.

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Segundo os considerandos 13 e 15, respetivamente, “(…) as regras de coordenação deverão assegurar às pessoas que se deslocam no interior da Comunidade, (…), a conservação dos direitos e benefícios adquiridos (…)”, bem como “(…) estejam sujeitas ao regime de Segurança Social de um único Estado Membro, de modo a evitar a sobreposição das legislações nacionais aplicáveis e as complicações que daí possam resultar (…)”.

Assim, para melhor definir e garantir o princípio da igualdade de tratamento122 de todos os cidadãos que trabalham no território de um Estado Membro, torna-se necessário a definição de regras e exceções, para a aplicação da legislação, em matéria de Segurança Social. Esta questão coloca-se, frequentemente, com os trabalhadores destacados, uma vez que são residentes num Estado Membro, distinto do Estado Membro para onde vão exercer, de forma temporária, a sua atividade|trabalho123. Nestas situações, de acordo com o considerando 17 “(…) é conveniente determinar como legislação aplicável, em regra geral, a legislação do Estado Membro em que o interessado exerce actividade por conta de outrem (…)”, embora seja “(…) necessário derrogar essa regra geral em situações específicas que justifiquem outros critérios de aplicabilidade.” (considerando 18). Nestes termos, como veremos com maior rigor no ponto seguinte, determinar a legislação aplicável124 requer que se definam quais as regras gerais e especiais, atendendo a determinados critérios relevantes, objetivos e transparentes.

Nesta perspetiva, em termos da legislação comunitária e considerando o objeto do nosso estudo125, isto é o destacamento temporário de trabalhadores por conta doutrem para outro Estado Membro são aplicáveis as seguintes regras em matéria de Segurança Social:

122 Artigo 4.º “Igualdade de tratamento” – “Salvo disposição em contrário do presente regulamento, as

pessoas a quem o presente regulamento se aplica beneficiam dos direitos e ficam sujeitas às obrigações da legislação de qualquer Estado Membro nas mesmas condições que os nacionais desse Estado Membro.”

123 Convém referir que o regulamento faz a distinção entre “residência” e “estada”, sendo que

residência é considerado o lugar em que a pessoa reside habitualmente, com manifesta intenção para o efeito, e a estada como residência temporária.

124 Determinar a legislação aplicável significa definir qual o Estado Membro competente para a exigência

das contribuições e a atribuição das prestações sociais.

125 Convém referir que o Regulamento não se aplica apenas aos trabalhadores por conta doutrem.

Aplica-se a outras tipologias de trabalhadores (trabalhadores independentes, e beneficiários do seguro social voluntário), bem como a outras situações de âmbito laboral (trabalhadores a exercerem atividade em dois ou mais Estados Membros).

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i) Artigo 11.º: Regra Geral – Critério da “estada” ou

“materialidade do serviço”126

O cidadão europeu, a quem os Regulamentos se aplicam, apenas está sujeito à legislação de um Estado Membro.

A pessoa que exerça uma atividade por conta doutrem num Estado Membro está sujeita à legislação desse Estado Membro, sendo as contribuições apuradas e pagas para a Segurança Social nesse país.

Contudo, em torno do incentivo à livre circulação de trabalhadores e serviços no seio da União Europeia127 e da necessidade de se evitarem dificuldades de natureza prática, administrativa e jurídica entre as instituições dos Estados Membros, esta regra geral comunitária cede à regra de exceção, chamada a regra especial seguinte.

ii) Artigo 12.º: Regra Especial - Critério da “residência” ou “país de origem”

A pessoa que exerça uma atividade por conta doutrem num Estado Membro, ao serviço de uma entidade empregadora sediada e que normalmente exerça as suas atividades nesse Estado Membro, e que seja destacada por aquela entidade para realizar um trabalho por conta desta noutro Estado Membro, continua sujeita à legislação do primeiro Estado Membro, na condição de a duração previsível do trabalho não exceda 24 meses128 e que não tenha sido enviada em substituição de outra pessoa.

126 Princípio designado por lex loci laboris – Significa que é aplicável a legislação do local onde se exerce

efetivamente a atividade.

127 A liberdade de prestação de serviços na União Europeia implica, ela própria, proteção social. Ou seja,

requer para a sua aplicação que exista uma verdadeira empresa com atividade real e efetiva no país de origem e no país de destino e que, simultaneamente, exista uma efetiva prestação de serviços não se tratando apenas de encobrir situações ilegais de movimento de trabalhadores.

128 Isto remete-nos para a articulação com o artigo 16.º deste regulamento que estabelece a

possibilidade de serem celebrados acordos de exceção, por comum acordo, entre os Estados Membros envolvidos (de envio e de acolhimento de trabalhadores), podendo prorrogar-se este prazo dos 24 meses, por um período indeterminado, desde que, não sejam, por um lado, feridos os valores, princípios e propósitos da União Europeia, e por outro se justifique a especial aptidão do trabalhador para a realização do trabalho em causa e a indispensabilidade da duração prevista para o mesmo. Significa que se continue a aplicar o regime de Segurança Social do país de origem|país destacante. Contudo, estes acordos carecem da anuência dos Serviços Centrais do ISS, IP, devendo para o efeito serem, previamente, apresentados àquele, nos termos do disposto no artigo 18.º do Regulamento constante do ponto iv).

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Neste cenário, continua sujeito à legislação da Segurança Social do seu país de origem, apurando-se e pagando-se as contribuições nesse país. Tentando esmiuçar os contornos desta regra especial, podemos elencar um conjunto de elementos que a caracterizam, como sejam: i) manutenção do vínculo do trabalhador ao regime de Segurança Social do Estado Membro onde a empresa destacante se encontra sediada e, normalmente, exerce a sua atividade; ii) o trabalhador seja destacado para o exercício da sua atividade noutro Estado Membro; iii) o trabalhador exerça a sua atividade de forma subordinada e sob a direção efetiva da sua empresa e exerça-a por conta desta; iv) o período previsível do destacamento seja limitado, no máximo, a 24 meses; e, v) não seja enviado outro trabalhador em sua substituição129. Cumpridos e verificados que estejam estes requisitos, aplica-se a regra especial que se traduz no apuramento e pagamento das contribuições no sistema de Segurança Social no território do país destacante|país de origem.

Consoante a aplicação de uma ou outra regra que determina qual a legislação a aplicar e, consequentemente, qual o Estado Membro competente para o efeito, assim se determina onde se estabelece o cumprimento do vínculo obrigacional contributivo e, consequentemente, onde se garanta o direito às prestações sociais.

É evidente que a implementação de uma adequada coordenação dos sistemas de Segurança Social entre os diferentes Estados Membros exige a consagração de um sistema de informação compatível, ágil, articulado e célere, capaz de disponibilizar e tratar os dados em tempo útil, facilitando os intercâmbios operacionais, administrativos e jurídicos que devem imperar entre as instituições e os cidadãos, de forma a concretizar os objetivos gerais deste Regulamento (Princípio da boa administração, Princípio de serviço público, melhoria da proteção social dos cidadãos, assistência ativa e coordenada).130

129 O destacamento de trabalhadores não pode ser utilizado para suprir as necessidades permanentes

de pessoal da empresa no outro Estado Membro, para os mesmos postos de trabalho e para os mesmos fins e objetivos.

130 Conforme dispõe artigo 76.º do Regulamento. Os Estados Membros devem encetar mecanismos de

mútua troca de informações, aos vários níveis práticos e administrativos de aplicação das disposições comunitárias, promovendo a partilha e melhoria de experiências e informações.

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2.4. O Regulamento (CE) 987/2009 do Parlamento Europeu e do Conselho de