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As décadas de 1960 e 1970 foram de extrema importância para a construção de um novo nacionalismo curdo na Turquia, no contexto internacional dos movimentos de descolonização e de construção de novas nações independentes na África e Ásia. Nesse período, novos elementos e uma nova narrativa é incorporada ao movimento curdo, trazendo transformações relevantes para a resistência curda, ressignificando símbolos, ideologia e até mesmo a própria estrutura social curda, caracteristicamente tribal. Já os anos de 1980, são importantes para a compreender a formação e consolidação de um grupo revolucionário como o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK).

O nacionalismo curdo com as características que conhecemos em sua fase contemporânea, é produto de um processo histórico que tem início na década de 1960. Como Gunes (2017) argumenta, a onda de ativismo político curdo atual advém de correntes políticas do final da década de 1950 e começo da década de 1960, em que, para se opor às políticas de assimilação e exclusão, intelectuais curdos utilizavam como argumento a rica e antiga cultura curda, como justificativa paraa necessidade de autonomiacurda.

Dos acontecimentos que configuraram uma força propulsora para o fortalecimento e consolidação de um novo movimento político curdo, a Constituição turca de 1961 foi um fator muito importante para uma abertura, afinal, ela concedeu maior liberdade de expressão política aos curdos (DAHLMAN, 2002), mesmo que limitada. Sobre essas liberdades: “as liberdades limitadas instituídas pelo regime

democrático na Constituição de 1960 abriram espaço para que as vozes oprimidas fossem ouvidas e para a oposição política alavancar sua luta.” (GUNES, 2017, p. 83)17.

No entanto, a limitação dessa liberdade podia ser sentida na prática. Mesmo que agora jornais curdos do leste da Turquia tivessem a chance de redigir conteúdos sobre a cultura curda e levá-los a público, estes jornais rapidamente eram censurados com ataques e fechamento com a justificativa de que o conteúdo difundido era um atentado, uma ameaça, contra a unidade nacional do país (DAHLMAN, 2002).

Mas a concessão de liberdades limitadas “garantidas” na Constituição de 1961 não foi o único aspecto decisivo no ressurgimento do “adormecido” nacionalismo curdo. Em um panorama macro, o fortalecimento do movimento curdo no Iraque e o surgimento de uma nova geração curda politicamente ativa (GUNES, 2017) também abriu caminhos para o que estava por se consolidar nas décadas seguintes.

Ao passo em que o movimento curdo no Iraque nos anos 60 (e a possibilidade deste influenciar e motivar movimentações separatistas semelhantes) passou a ser uma grande preocupação do Estado turco, uma consciência cultural curda se intensificava cada vez mais na área urbana e rural (DAHLMAN, 2002).

O que explica a intensificação dessa consciência cultural curda são os processos de urbanização que ocorreram na Turquia entre 1960 e 1970, que ocasionou no aparecimento de uma classe média urbana composta por intelectuais curdos.Esses intelectuais rapidamente aderiram ao movimento de esquerda (DONMEZ, 2007). Nesse momento, os curdos passam a se apropriar do discurso socialista, enfatizando a opressão nacional como explicação para a violência que sofrem (GUNES, 2013).

Entre as efervescências que marcaram a organização política curda nos anos 60, está o nascimento do primeiro partido político curdo clandestino na Turquia, o TKDP (Partido Democrático do Curdistão da Turquia), que reuniu diversos setores da sociedade curda e que já levantava a bandeira da luta pela consolidação da nação curda, reivindicando igualdade (GUNES, 2017). No entanto, vários membros do TKDP foram presos por exercer atividades políticas — e por serem curdos, combinação banida da esfera legal.

Já no final da década de 1960, os curdos passaram a se envolver mais com organizações de esquerda e partidos políticos turcos, como por exemplo o TIP (Partido dos Trabalhadores Turcos), que criou até mesmo uma plataforma para que os membros

17 “The limited freedom instituted by the democratic regime in the 1960 constitution made room for

curdos dessas organizações, pudessem discutir as demandas de sua causa (GUNES, 2013).

No início dos anos 70, especificamente em 1971, houve um golpe militar na Turquia, que reprimiu absolutamente todas as atividades políticas curdas. O golpe foi justificado como medida de contenção em relação aos intensos conflitos entre movimentos de direita e movimentos de esquerda (DONMEZ, 2007) que estavam ocorrendo no país.Curdos filiados a partidos turcos de esquerda (particularmente socialistas) também aderiram às manifestações. No entanto, em 1973 o governo parlamentar é reestabelecido, possibilitando que as atividades políticas voltassem a acontecer (DAHLMAN, 2002).

Na metade da década de 1970, uma anistia geral abriu espaço para que as organizações políticas curdas voltassem a operar. No entanto, essas novas organizações curdas agora não estavam mais tão aliadas à esquerda turca, inclusive se esforçando para gerar uma visível distinção entre os curdos socialistas e os turcos também socialistas, criando organizações marxistas curdas como o Kawa e Denge (DONMEZ, 2007).

A principal discrepância que motivou esse esforço em distinguir acausa revolucionária uma da outrafoi o fato de que os turcos ansiavam por uma revolução social e econômica liderada pelo proletariado turco, ao passo que os curdos acreditavam que a nação curda (campesinato e proletariado curdo) é quem iria protagonizar a revolução marxista (DONMEZ, 2007).

Essa guinada do movimento nacionalista curdo em direção ao discurso marxista rendeu aos curdos a reafirmação destes como inimigos e traidores da pátria, com a novidade de que agora eram vistos como comunistas.O Estado era capaz de reconhecê- los como comunistas mas jamais como curdos

Nos anos 70, começou a surgir então diversos partidos curdos de esquerda, como o TKSP (Partido Socialista do Curdistão), Rizgary, Kaea, PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão), entre outros (GUNES, 2017). Entre essas organizações de cunho socialista que emergiram nos anos 70, devemos destacar o PKK, que adiante será objeto central da análise.

Ocontexto dos anos de 1970 se caracteriza por uma maior autonomia da organização política curda (autonomia em relação aos partidos de esquerda turcos).O discurso ideológico assumido por essas organizações curdas passa novamente por uma transformação, adotando a ideia de colonização sobre a questão curda. Os curdos eram

os colonizados (pelos quatro Estados-nacionais) e o Curdistão como uma colônia, sistematicamente explorada.

ComoGunes (2017)expõe, primeiramente, a identidade curda era conceitualizada partindo do pressuposto de subdesenvolvimento econômico da região curda, ocasionada pela intensa negligência econômica do Estado sobre a região sudeste/oriental do país. Depois passam a tratar a questão curda como um problema nacional e, por fim, uma questão colonialista.

Um importante elemento se insere na década de 1970 em diante, quando as organizações curdas passam a organizar revistas – como a “Serxwebûn” (1982- atualmente) e a “Berxwedan” (1982-1995) – que significavam independência e resistência, respectivamente. Esse espaço passa a ser uma importante ferramenta para disseminar o discurso de sua luta. Além disso, os curdos agem como seus próprios porta-vozes, distribuindo exemplares das revistas pela Europa e clandestinamente na Turquia (GUNES, 2013).

Como último elemento importante a ser realçado, as organizações curdas, buscando legitimar suas reivindicações, resgataram um mito de origem que esteve presente na construção do discurso de inúmeras organizações políticas curdas a partir da década de 1960. Trata-se do mito em torno do Festival de Newroz, comemorado anualmente em 21 de março no Oriente Médio (GUNES, 2013):

O mito de Newroz, contado pelos nacionalistas curdos contemporâneos, narra a queda do rei assírio Dehak por uma revolta popular liderada por Kawa, o ferreiro (Kawayi Hesinkar) que, em 21 de março de 612 a.C. liderou uma revolta pelos medos e derrotou o Império Assírio, matou Dehak e libertou os medos - ancestrais dos curdos - da opressão e da tirania de sofrimentos prolongados. Para informar o povo de sua vitória, Kawa acendeu uma fogueira no topo de uma montanha.A prática de acender uma fogueira é recriada durante as celebrações do Newroz no período contemporâneo.” (GUNES, 2013, p.254, tradução nossa)18

Em A invenção das tradições, Hobsbawn (1984) define aquilo que chama de “tradições inventadas” como:

18 The myth of Newroz as told by the contemporary Kurdish nationalists narrates the overthrow of the

Assyrian King Dehak by a popular uprising led by Kawa the Blacksmith (Kawayi Hesinkar) who, on 21 march 612 bC led an uprising by the Medes and defeated the Assyrian Empire, killed Dehak and liberated the Medes - the ancestors of Kurds - from long-sufferings opression and tyranny. To inform the people of his victory, Kawa lighted a bonfire on top of a mountain.The practice of lighting a bonfire is recreated during Newroz celebrations in the contemporary period. (GUNES, 2013, p.254)

[...] um conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras tácita ou abertamente aceitas; tais práticas, de natureza ritual ou simbólica, visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição, o que implica, automaticamente uma continuidade em relação ao passado. (HOBSBAWN, E.; RANGER, T., 1984, p.9)

Temos aqui um exemplo de “tradição nacional inventada” como bem ilustra o mito de Newroz. A inserção do mito de Newroz no discurso de libertação nacional curda não é um elemento que emerge por acaso. Em especial no caso curdo, a inserção de um mito de origem em sua narrativa de identidade nacional objetiva consolidar uma tradição capaz de legitimar historicamente sua luta por libertação nacional. Assim, o principal objetivo é demonstrar que o caráter subversivo do povo curdo é algo histórico e ancestral, visando estabelecer uma continuidade com o passado histórico de luta e de resistência.

Portanto, o nacionalismo curdo contemporâneo, composto principalmentepelo discurso de exploração colonial, libertação nacional e mito de origem pautado em uma ancestralidade revolucionária, busca justificar sua luta por liberdade como algo remoto e um aspecto intrínseco ao seu povo.

Os aspectos históricos de duas décadas, aqui desenvolvidos, corroboraram a narrativa da luta curda. Se organizarmos as mudanças que ocorreram no interior do movimento nacionalista curdo nesses últimos 20 anos, tornar-se-á explícito como esses fenômenos construíram, pouco a pouco, elementos de cunho nacionalista: mito de origem, simbolismos (curdos advindos de uma tradição guerreira, a antiguidade da etnia, ancestralidade etc.) e a luta pela libertação nacional, a fim de consolidar um Estadonacional.

Esses elementos não poderiam ser reunidos dessa forma no nacionalismo que antecede essas duas décadas, afinal, o que guiava os nacionalistas do início da República (1923) era a negação do fim do califado, a postura crítica à secularização, a oposição ao desmantelamento da religião como força organizadora da dimensão política e social. Portanto, a luta consistia em uma recusa a hegemonia, a ideologia oficial, que negava a existência de uma etnia distinta e consequentemente da sua forma de organização social — tribal, religiosa e rural. Mesmo negando a assimilação como os nacionalistas contemporâneos, a força que movia sua luta (pouco organizada e marcada pela desunião entre as diferentes tribos curdas) era o “resgate da tradição”.

Já os nacionalistas curdos, a partir dos anos 60, estão inseridos em outro contexto, detendo em seu discurso a narrativa marxista, perseguindo a ideia da luta por

libertação nacional, também negando a ideologia oficial e hegemonia turca.No entanto, com objetivos diferentes, já que a partir desses anos passam a levantar a bandeira pela independência e reconhecimento, por um Estado soberano, questão que ainda era distante e não muito latente para os nacionalistas do início da República.

O que se pode ressaltar é que, nos termos em que tratamos nação neste trabalho, a comunidade imaginada passa a estar presente no ínfimo de algumas organizações curdas, o que é uma novidade. Comunidade imaginada (ANDERSON, 2008) no sentido que, apesar de todos os curdos não se conhecerem pessoalmente, compartilham de sentimentos e memórias comunsem relação à origem, à identidade, à condição de subalternidade em relação àopressão e à violência política de outros povos, o que ao longo dos anos, como veremos, gera um sentimento compartilhado entre estes.

Nesse contexto, podemos refletir sobre a possibilidade da existência de uma comunidade imaginada de resistência, mesmo que essa comunidadeainda não esteja consolidadacomo estado-nação no sentido de ter uma soberania e um território delimitado.

Os anos de 1980 são cruciais para a análise do conflito. É ao longo dessa década que acontecimentos importantes tornam-se pontes para profundas mudanças na identidade curda. Nesse sentido, dois movimentos afetaram e motivaram a reconstrução da identidade curda, como observa Donmez (2007). Em primeiro lugar, surgiu uma nova “síntese islâmica turca”, fruto da integração de islamitas ao sistema turco, impulsionada pela Constituição de 1982. Em segundo lugar, nessa década, a Turquia integra-se a economia neoliberal.

Foi justamente esse novo cenário econômico que gerou disparidades entre as regiões leste e oeste do país, que excluiu a população curda dessa nova dinâmica econômica e política. Em consenso com Donmez (2007), não deveria ser uma grande surpresa o surgimento de um grupo com propostas e princípios tão radicais quanto do PKK.

Justamente as fronteiras econômicas impostas pelo governo, em que negligenciou economicamente a região de maior população curda no país, acabaram, inevitavelmente, aprofundando ainda mais o ressentimento curdo em relação ao Estado turco.

Abaixo podemos ver o sudeste da Turquia, região fronteiriça com a Síria e Iraque (ao sul) e com o Irã (ao leste), formada pelas província de Adiyaman, Batman, Diyarbakir, Gaziantep, Kilis, Mardin, Şanliurfa, Siirt e Şirnak.

Imagem 1- Mapa da Região Sudeste da Turquia

Fonte: Google Maps, acesso em 13 de set. 2020.

Em meio a esse cenário, houve um agravante que favoreceu o futuro fortalecimento do PKK na região, que foi o golpe militar em 1980. Desde 1978 o PKK já estava em atividade, mas à época do golpe, ele ainda não possuía muita força, quiçá notoriedade. Diversos membros do PKK foram presos e os que escaparam da prisão conseguiram fugir pra Síria que, inimiga da Turquia, prestou todo apoio e suporte para a liderança e membros do Partido (PLAKOUDAS, 2014, p.3).

Dessa forma, o PKK teve a chance de criar campos militares no norte do Líbano (região ocupada pela Síria) e seus membros foram militarmente treinados, recebendo suporte bélico de autoridades sírias. Foi também nesse momento de asilo político que membros do PKK mantiveram contatos com militantes de outros grupos de esquerda, como a OLP (Organização pela Libertação Palestina) e o ASALA (Exército Secreto Armênio pela Libertação da Armênia) (PLAKOUDAS, 2014).

Esse momento foi crucial para o desenvolvimento e aperfeiçoamento militar do PKK. É claro que o aspecto ideológico do Partido também refinou-se, passando a ter

como foco uma política de massas com a intenção de desenvolver uma plataforma capaz de propagar a níveis mais elevados e abrangentes a sua causa, e sua luta por autodeterminação influenciada pela revolução socialista radical, tendo como alvo o Estado turco e o tribalismo ainda presente nas organizações locais curdas (PLAKOUDAS, 2014).

Uma vez que Öcalan subscreveu a teoria maoísta, o PKK se propôs a implementar uma estratégia em três fases correspondentes às três fases da "guerra popular" de Mao: a) "defesa": (ou seja, organização do campesinato; b) "equilíbrio" (ou seja, estabelecimento de áreas de base no campo e início da guerra de guerrilha nas montanhas); c) "ofensa" (ou seja, mudança para guerra regular e captura de cidades) (PLAKOUDAS, 2014, p.3).

O PKK considerava a primeira fase concluída, após o treinamento e armamento recebido na Síria. A esse ponto, podemos dizer que, em consonância com Castells (2018, p.23), que aponta para a identidade como “fontes de significados” construídas e organizadas pelos próprios agentes sociais, o PKK dá um início substancial para a construção de uma identidade de projeto, como retomaremos a frente. Isso acabou ressignificando a identidade curda através da luta armada e anti-hegemônica.

De forma geral, o PKK aproveitou do ressentimento que existia por parte dos curdos pelo governo turco para fortalecer sua luta. Recapitulando, esse ressentimento advinha das políticas turcas impostas por Ätaturk datadas da fundação da República (1923), que justificava todo seu poderio e repressões por meio do slogan uma nação, uma língua e uma bandeira. O governo turco referia-se aos curdos, desde sempre, como turcos das montanhas (PLAKOUDAS, 2014).Apesar de muito empenho, o sucesso da assimilação foi limitado, considerando o surgimento, anos adiante, de grupos políticos e de resistência curda, inclusive o surgimento de um fenômeno como o PKK.

4.2 A CONSOLIDAÇÃO DO PKK (PARTIDO DOS TRABALHADORES DO

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