2 – O ROMANTISMO: AS ORIGENS EUROPEIAS, A DIFUSÃO NO BRASIL E A REPERCUSSÃO TARDIA NO RIO GRANDE DO NORTE
2.3 O ROMANTISMO NA LITERATURA NORTE-RIOGRANDENSE
século XX.
2.3 O ROMANTISMO NA LITERATURA NORTE-RIOGRANDENSE
2.3.1 Contexto inicial de produção
O contexto colonial brasileiro não propiciou condições para que um sistema literário, conforme propôs Antonio Candido (2006), se constituísse. Não havia imprensa, museus nem bibliotecas. A aquisição de livros era pouco viável, o ensino era precário e para poucos. Em algumas províncias, a chamada “literatura de informação” foi produzida por alguns portugueses que participaram do processo de colonização. Esse tipo de texto apresentava uma descrição do ambiente brasileiro, em específico, sobre a sua natureza e seus habitantes, com o intuito de reconhecimento da terra.
Tempos depois, a permanência da corte portuguesa no Brasil, entre 1808 e 1821, propiciou significativas mudanças políticas, econômicas, sociais e culturais no país, como ressaltamos na seção anterior. Essas mudanças permitiram a superação das limitações do período colonial e criaram “condições indispensáveis à nossa expansão cultural e intelectual”, como ressalta José Aderaldo Castello, tais como:
contatos diretos com o estrangeiro, abrindo perspectivas de intercâmbio; fim da ação estranguladora da censura; importação de livros e seu comércio; estabelecimento de tipografias, dando início à atividade editorial e à implantação da imprensa periódica – jornais e revistas; formação de bibliotecas públicas e particulares; criação das primeiras escolas superiores; desenvolvimento do gosto pelo teatro, música e oratória religiosa nas frequentes solenidades da Igreja; museus, arquivos, associações culturais; e sobretudo a melhoria das condições de vida social e a presença de estrangeiros. (CASTELLO, 2004, p. 159-160)
Mesmo que essas mudanças tenham atingido apenas os principais centros urbanos do país, como Recife, Olinda, Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro, no Rio Grande do Norte, elas também chegaram, porém num ritmo mais lento. O reflexo da criação da imprensa a nível nacional ocorreu no Rio Grande do Norte em 1832, com a publicação de seu primeiro periódico, “O Natalense”. Apenas em 1852, foi criada a primeira tipografia do estado. Anteriormente, tanto “O Natalense” quanto os atos administrativos do governo eram impressos em outros estados como Pernambuco, Maranhão e Ceará, como afirmou Luiz Fernandes na obra A imprensa periódica no Rio Grande do Norte (1998, p. 29). Com a
criação da primeira tipografia de Natal, muitos jornais começaram a ser criados, propiciando, assim, o registro escrito de significativos acontecimentos da província do Rio Grande do Norte.
Em 17 de março de 1861, foi lançada a primeira edição de “O Recreio”, considerado primeiro jornal com teor literário da cidade (CASCUDO, 2010, p. 489). Com esse jornal, a poesia potiguar ganhou outro meio de divulgação além das declamações em eventos sociais. Em “O Recreio”, Lourival Açucena (1827-1907), consagrado como o primeiro poeta potiguar, publicou os seus primeiros poemas e, a partir daí, se iniciou um longo ciclo de produções literárias. Dessa forma, percebemos que através de “O Recreio”, “a literatura potiguar ensaiou os seus primeiros passos” (FERNANDES, 1998, p.45). Por esse motivo, didaticamente, demarcamos o início da literatura norte-rio-grandense a partir da publicação desse periódico, ou seja, em 1861, no qual consideramos ser o marco do período inicial da produção literária norte-rio-grandense. Esse período, na nossa concepção, findaria em 1927, com a publicação do Livro de Poemas, de Jorge Fernandes, que demarca o início do modernismo na produção literária do estado.
Esse período inicial da Literatura Norte-rio-grandense também pode ser chamado de período de “Formação”, segundo a organização didática proposta por Constância Duarte e Diva Cunha Macêdo na “Introdução” da antologia Literatura do Rio Grande do Norte (2001). No período denominado de “Formação”, “é o momento em que se trabalha (ainda que inconscientemente) a noção de ‘terra natal’, de literatura e do lugar ocupado pelo escritor” (DUARTE; MACÊDO, 2001, p. 30). As autoras destacam como principais nomes desse período Nísia Floresta, Lourival Açucena, Polycarpo Feitosa, Henrique Castriciano, Auta de Souza e Ferreira Itajubá; além de outros que:
vão compor a história desse período, sem, no entanto, alcançar, pela obra que deixaram (ou que nos foi dado conhecer) o brilho dos anteriores. Entre esses, lembramos Luís Carlos Lins Wanderley e Segundo Wanderley, principalmente. (DUARTE; MACÊDO, 2001, p. 30).
Nesse momento de formação, assim como a criação da imprensa atuou de forma significativa na província, a preocupação com a instrução também foi importante para o desenvolvimento da Literatura Norte-rio-grandense. Em 3 de fevereiro de 1834, foi criado o Atheneu Norte-rio-grandense, símbolo do início da instrução no estado. Segundo Eva Barros (2003, p.1), este colégio foi destinado “ao ensino das Humanidades Clássicas [...] reunindo as chamadas Aulas Maiores (Filosofia, Geometria, Retórica e as Línguas Francesa e Latina)”.
Com o desenrolar de suas atividades, o Atheneu tornou-se um “eixo aglutinador de práticas culturais, palco de múltiplas manifestações difundindo um novo ideal de homem e um novo conceito de sociedade” (BARROS, 2000, p.1). Muitos de seus alunos se organizaram em agremiações que contribuíram de maneira significativa para a formação cultural do estado, entre as quais podemos citar o Grêmio Literário Castro Alves e o Grêmio Literário Pedro Velho.
Além dessas duas agremiações, outras também foram surgindo, com a participação de intelectuais e literatos, como é o caso do Grêmio Literário Le Monde Marche, do Congresso Literário, do Grêmio Polimático, do Grêmio Doze de Outubro, do Grêmio Literário Augusto Severo e da Oficina Literária Lourival Açucena24.
Cada uma dessas agremiações possuía um órgão na imprensa para divulgar os seus ideais e as produções de seus membros, dentre os quais podemos destacar: o Le Monde Marche e sua revista “Oásis” (1894-1904), o Congresso Literário e a revista “A Tribuna” (1897-1904), o Grêmio Castro Alves e “O Íris” (1897-1898), o Grêmio Polimático e a “Revista do Rio Grande do Norte” (1898-1900), o Grêmio Doze de Outubro e o jornal “O Potiguar” (1904-1908), Augusto Severo e a revista “PAX” (1907- 1912?), o Grêmio Literário Pedro Velho e “A Ordem” (1909-1915?), a Oficina Literária Lourival Açucena e a revista “Potiguar” (1910-1911?).
Dois jornais que contribuíram de maneira significativa na divulgação da produção literária norte-rio-grandense foram “A Republica” (1889-1987) e o “Diário do Natal” (1895- 1913). Fundado em 1º de julho 1889, o jornal “A Republica” publicou em suas páginas diversos poemas dos principais poetas de nível local e nacional, além de traduções de folhetins estrangeiros e ensaios sobre as obras literárias publicadas na época. Esse jornal ainda noticiava o surgimento de novas agremiações literárias, bem como anunciava as reuniões dos grêmios, o lançamento e o recebimento na sua redação das novas edições de seus respectivos periódicos.
No jornal “A Republica”, colunas como “Lettras” e “Solicitadas” estampavam poemas de diversos autores de renome nacional e de outros autores conhecidos apenas a nível local. Enquanto que no jornal “Diário do Natal”, a coluna “Câmara das Musas” também reuniu diversos poetas locais e nacionais. Como podemos observar, houve uma intensificação das
24 Este levantamento foi realizado em pesquisa às obras A Imprensa periódica no Rio Grande do Norte: de 1832
a 1908 (FERNANDES, 1998) e Dicionário da imprensa no Rio Grande do Norte: 1909 a 1987, (MELO, 1987),
como também em alguns números do jornal “A República” e do “Diario do Natal”, com o fim de selecionar aquelas agremiações de atividade mais duradoura e significativa.
atividades literárias no Rio Grande do Norte no final da penúltima década do século XIX, que se estendeu até o início da década de 1910, sendo esse o período que enfatizaremos nas nossas discussões que se seguem.
Nesse momento inicial da produção literária norte-rio-grandense, o gênero predominante era a poesia, e, por vezes, eram publicadas algumas prosas poéticas, crônicas e a tradução de alguns folhetins produzidos em outros países. Ainda não havia espaço para a publicação de romances, gênero literário escasso até os anos 1920, com a publicação das primeiras obras, como Flor do Sertão (1928) e Gizinha (1930) de Polycarpo Feitosa, pseudônimo de Antônio José de Melo e Souza (1867-1955).
Os poetas que tiveram mais destaque no fim do século XIX e nas primeiras décadas do século XX foram Lourival Açucena (1827-1907), Ferreira Itajubá (1877?-1912), Auta de Souza (1876-1901), Segundo Wanderley (1860-1909) e Henrique Castriciano (1874-1947). Além desses, houve outros poetas, que não tiveram o mesmo respaldo dos salientados anteriormente, a exemplo de Gotardo Neto (1881-1911), Francisco Palma (1875-1952), Carolina Wanderley (1891-1975), Anna Lima (1882-1918), Ponciano Barbosa (1889-1919) e Sebastião Fernandes (1880-1941).
Segundo Humberto Hermenegildo de Araújo (1995, p. 50), naquela época, Natal era uma “província em que os poetas eram pessoas de uma elite comum aos círculos governamentais, reconhecidos oficialmente como ‘úteis à cultura do estado’”. Tanto Lourival Açucena quanto Ferreira Itajubá e Segundo Wanderley estiveram incluídos nessa condição, tendo em vista a participação desses poetas em eventos ligados ao governo da época como inaugurações, regatas, homenagens, soirées, lançamentos e aberturas em apresentações de teatro.
Desse modo, as produções desses autores não só eram divulgadas nos jornais locais como também nessas ocasiões que aglomerava uma significativa parcela da população da cidade de Natal. Outro aspecto que popularizava as poesias era a musicalidade de sua estrutura. Também era comum a produção de modinhas, principalmente entre Lourival Açucena e Ferreira Itajubá, sendo o primeiro não só conhecido como poeta, mas também como cantor de suas composições. Segundo Araújo (1995, p.21), “estes dois poetas representaram as primeiras manifestações literárias de algum valor na província, entre o século XIX e o início do século XX”.
Fazendo uma leitura da produção dos principais poetas, percebe-se que as temáticas românticas estiveram bastante presentes, principalmente em Lourival Açucena, Ferreira Itajubá e Segundo Wanderley, mesmo que o Romantismo, nos principais centros culturais do
país, a exemplo do Rio de Janeiro e de São Paulo, já tivesse se encerrado no início da década de 1880, conforme indica Massaud Moisés (2008). Além do Romantismo, também estiveram presentes alguns traços estéticos e temáticos do Simbolismo, nas obras de Auta de Souza e Henrique Castriciano.
A seguir, faremos alguns comentários acerca dos principais poetas contemporâneos à produção de Ferreira Itajubá, a exemplo de Lourival Açucena, Auta de Souza, Segundo Wanderley e Henrique Castriciano, no intuito de contextualizar o momento de produção de
Terra Natal, foco deste estudo.
Assim como dissemos anteriormente, Joaquim Eduvirges de Mello Açucena (1827- 1907), mais conhecido como Lourival Açucena, foi consagrado pela crítica local como o primeiro poeta norte-rio-grandense, por apresentar qualidade estética e temática em seus poemas. Suas produções foram publicadas em diversos jornais e revistas da imprensa natalense, como o jornal “O Recreio”, “Oásis”, “A Tribuna”, “Echo Miguelinho”, “Diário do Natal”, entre outros. Esses eram os suportes que veiculavam a produção literária no Rio Grande do Norte, já que nesse estado a publicação de livros era algo muito raro no século XIX.
A publicação dos poemas de Lourival Açucena em livro foi póstuma e aconteceu apenas em 1920, treze anos após o seu falecimento. O volume intitulado Versos, sob a organização de Luís da Câmara Cascudo, reuniu algumas de suas produções publicadas nos periódicos, algumas retiradas de um caderno de manuscritos e outras guardadas na memória de Joaquim Lourival Soares da Câmara, filho do poeta, como afirmou o próprio Cascudo na introdução do livro.
Podemos considerar que a poesia produzida por Lourival Açucena possui alguns traços árcades, mas se caracteriza por ser predominantemente romântica (GURGEL, 2001, p.34), como se percebe nos poemas líricos que falam do amor, da figura feminina e da natureza. Além desses, um de seus poemas mais famosos, “A política”, traz tom satírico que nos faz lembrar Gregório de Matos, ao criticar a postura infame da maioria dos políticos brasileiros da época. Açucena também produziu sonetos e acrósticos que homenageavam amigos, parentes e figuras importantes da política nacional, como Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto; poemas no formato mote-glosa; alguns lundus e o toré “Canto do Potiguara”. Por ter sido escritor de modinhas e cantor, sua poesia apresenta uma forte musicalidade, que se expressa através do uso de refrão, estribilho e paralelismo, com o fim da memorização.
Em Versos, estão presentes alguns traços árcades, como a presença da mitologia e da cultura greco-romana, como no poema “Pirraças de amor”, em que o eu-lírico estabelece um diálogo com a deusa romana Vênus para se queixar das traquinagens de Cupido, filho da deusa. Além da presença da mitologia greco-romana, a figura de Marília também está presente na poesia de Açucena, mas sem as atribuições conferidas pelo árcade Tomás Antônio Gonzaga. A Marília, citada por Lourival, junta-se a outros nomes femininos que o poeta cita em seus poemas e a relação entre o eu-lírico e elas é bem mais aos moldes do Romantismo do que do Arcadismo.
Apesar desses traços arcádicos, a predominância na obra de Lourival Açucena reside nos temas e nas estruturas românticas, como a presença da religiosidade bíblica e de algumas figuras da mitologia tupi, além de diversos termos indígenas que expressam a valorização do nosso nativo, a qual se configurou com um dos ideais do Romantismo brasileiro para a construção da identidade nacional, que podemos observar no poema “Canto do Potiguara”. A descrição da natureza, de sua flora e fauna, principalmente as aves, também é recorrente, como se pode observar no poema intitulado “Poesia”. Com relação à figura feminina, o eu- lírico sempre retrata um desejo que parece não se realizar, pois ele anseia concretizar uma relação amorosa com a mulher, mas ela sempre se apresenta distante. Açucena ao abordar o tema do amor em seus poemas, sempre relacionou esse sentimento às desilusões amorosas e decepções.
Também Auta de Souza (1876-1901), assim como Lourival Açucena e Ferreira Itajubá, publicou seus poemas em jornais e revistas da imprensa local, tais como “Oásis”, a partir de 1894, “A Republica”, desde 1896, “A Tribuna”, a partir de 1897, na qual passa a publicar seus poemas com mais frequência, e na “Revista do Rio Grande do Norte”, órgão do Grêmio Polimático. Quando publicou em “A Tribuna”, nos anos de 1899 e 1900, Auta utilizou os pseudônimos de Ida Salúcio e Hilário das Neves (CASCUDO, 1961, p.81). Além dessas publicações, deixou o manuscrito nomeado de Dhálias, que posteriormente passou a ser chamado de Horto, título de seu único livro publicado. O Horto teve a sua primeira edição em 1900, por iniciativa de seu irmão Henrique Castriciano, e prefácio escrito pelo poeta Olavo Bilac. Até o presente momento, Horto teve mais seis edições em 1910, 1936, 1970, 2000, 2001 e 2009.
A respeito da única obra de Auta, podemos afirmar que o tom de morbidez inicia-se a partir de seu título Horto, com poemas ambientados na paisagem noturna, caracterizada pela escuridão e pela angústia de um eu-lírico que, em grande parte de seus poemas, demonstra a tristeza e melancolia de quem aguarda a morte.
A morte é vista pelo eu-lírico como forma de suspender uma vida de sofrimentos e desilusões que é suportada pela religiosidade. Os poemas “Oração da noite” e “De joelhos” possuem um tom de morbidez no qual o eu-lírico suplica para que cessem seus tormentos através da morte, demonstrando assim a tristeza e a desilusão do ser diante da vida. Além da espera da morte, o eu-lírico expressa o luto que sente devido à perda de amigos e familiares, como se pode observar no poema “À alma de minha mãe”. Essa concepção da morte aproxima a poesia de Auta de Souza da produção do poeta da segunda geração romântica Álvares de Azevedo.
A religiosidade nos poemas de Auta, além de ser expressa através de orações, aparece através de analogias entre o sofrimento do eu-lírico e os padecimentos de Cristo. No poema “No horto”, é realizada uma analogia entre o sofrimento de Cristo no horto bíblico, o jardim das oliveiras, e o horto do eu-poético, que associa sua trajetória à trajetória de Cristo, ambos movidos pela solidão e pela dor. A infância é retratada como tempo perdido e guardado na memória como época de alegrias, no qual as ilusões da mocidade ainda não tinham chegado, como podemos ver no poema “Cores”. Alguns de seus poemas retratam especificamente crianças, mas com uma dualidade temática. Poemas como “Renato” e “Crianças” descrevem- nas ressaltando aspectos como a simplicidade, a pureza e a espontaneidade; enquanto que os poemas “Loli” e “Dolores” aproximam-se mais da temática da morte, tão recorrente em sua produção.
Sendo assim, observamos que a poesia de Auta de Souza apresenta traços que transitam entre a segunda geração romântica e o Simbolismo, como ressaltou Tarcísio Gurgel (2001, p. 48), baseando-se em Celso Pedro Luft e Câmara Cascudo. A vinculação da poética de Auta de Souza ao Romantismo ocorre através da expressão veemente da morte e ao Simbolismo, por apresentar uma constante presença do misticismo, da religiosidade e seu respectivo vocabulário litúrgico. Outros traços simbolistas seriam o apelo sensorial, a musicalidade expressa através das assonâncias e aliterações, bem como a utilização das maiúsculas alegorizantes.
Outro poeta do período em estudo foi Segundo Wanderley (1860-1909), que exerceu as atividades de médico, professor, poeta e dramaturgo. Na Bahia, formou-se em Medicina e deu início a sua atividade literária, chegando a publicar em Salvador dois livros de poemas, “Estrelas Cadentes (1883) e Miragens e Prismas (1887)” (GURGEL, 2001, p. 39). De volta ao Rio Grande do Norte, publica Recoltas poéticas (1896), Gôndolas (1903) e, posteriormente, o volume intitulado Poesias (1910), que teve mais duas edições, a segunda em 1928 e a terceira em 1955. Muitos de seus versos foram publicados nas revistas “Oásis” e
“A Tribuna”. Como dramaturgo, escreveu as peças teatrais “Amor e Ciúme (1901), A
Providência (1904), Brasileiros e Portugueses (1905); As Três Datas, Noiva em leilão, A Pulga” (WANDERLEY, 2008, p. 359).
Como ressaltou Tarcísio Gurgel (2001, p. 40), a poesia produzida por Segundo Wanderley possuía “o exagero típico dos seguidores do condoreirismo castroalvino: o excesso de engajamento”. Wanderley abordou temáticas populares como o abolicionismo e o republicanismo, respectivamente presentes no poema “Escravidão” e “Pela República”, além da história dos grandes naufrágios, como é o caso de “O naufrágio do vapor da Bahia” e “O Naufrágio do Solimões”.
Segundo Wanderley, ao retratar o abolicionismo e o republicanismo, utilizou a metáfora do voo do condor, para representar a ideia de liberdade, com o fim de se reportar ao “ideal do mais alto, da glória, da grandeza” (GURGEL, 2001, p. 40-41), assim como fez o poeta Castro Alves. Além dos versos engajados, Wanderley também produziu versos tradicionalmente dedicados a figuras importantes da política do Rio Grande do Norte, como o poema “Tragédia da glória”, que homenageia Augusto Severo, e o poema “À Maria Francesi” que homenageou as atrizes dos grupos dramáticos que visitavam a cidade de Natal. A presença do engajamento social na produção de Segundo Wanderley advém de uma tradição literária que é liderada pelo poeta francês Victor Hugo e, no Brasil, por Castro Alves e Tobias Barreto, sendo que ambos vieram a compor a terceira geração do Romantismo Brasileiro.
Com relação às peças de teatro que ele produziu, elas tendiam ao gosto popular e eram voltadas para superficialidade cômica, sem temas profundos, utilizando-se dos “recursos típicos do dramalhão (exagero de sentimentos, soluções cênicas fáceis, um claro anacronismo de uma dicção romântica dos dramas, que beiravam a inverossimilhança diante das transformações da sociedade)” (GURGEL, 2001, p. 40). Tarcísio Gurgel ainda ressalta que Segundo Wanderley escreveu poemas que experimentavam a estética simbolista, como “Implacável” e “Amor esdrúxulo”. O primeiro, pelo grande número de aliterações e algumas imagens que remetem às sensações; e o segundo, pela “demonstração de técnica apurada, seja no uso de rimas em proparoxítonas, seja nas rimas internas” (GURGEL, 2001, p. 42).
Henrique Castriciano de Souza (1874-1947) foi mais um poeta que participou do período em estudo. Castriciano fez parte de uma família tradicional da cidade de Macaíba (RN), a qual também pertenciam Auta de Souza e o político e cronista Eloy de Souza, seus irmãos. Além de poeta e intelectual, foi um político muito influente na época da oligarquia Albuquerque Maranhão e, principalmente, agitador das letras potiguares, ao divulgar seus principais nomes e oportunizar a publicação de suas obras.
Castriciano escreveu muitas crônicas e artigos nos jornais e revistas da cidade de Natal, principalmente no jornal “A Republica”, além de algumas peças teatrais como Suprema
dor, O Enjeitado ─ encenada em 10 de julho de 1900, “num armazém da Rua do Comércio”
(CASCUDO, 1965, p. 40) ─ e A Promessa ─ encenada na inauguração do Teatro Carlos Gomes(atual Alberto Maranhão), em 24 de março de 1904. Segundo Gurgel (2001, p. 45), Castriciano chegou a publicar na imprensa local alguns fragmentos do que seriam futuros romances: O Tísico, em “A Tribuna”, no ano 1902, e um capítulo de Os Mortos, na “Revista do Centro Polimático”.
Seu primeiro livro de poemas, Iriações (1892) foi renegado anos depois pelo próprio Castriciano, que considerou as produções imaturas, pois passados alguns anos ele viu a necessidade de aprimorar mais a linguagem antes de os poemas irem a público. Anos após a