3.3 O princípio da caridade: uma proposta cristã ao desafio do pós-humano
3.3.2 O rosto do outro como hermenêutica do humano
O ser humano nunca se contentou apenas com uma existência vaga. Ele sempre procurou sua identidade. Basta um simples olhar pela história antiga para ver com toda a clareza como surgiram, simultaneamente, em diversas partes da terra animadas por culturas diferentes, as questões fundamentais que caracterizam o percurso da existência humana: Quem sou eu? Donde venho e para onde vou?455 Estas são questões que têm a sua fonte comum naquela exigência de sentido que, desde sempre, urge no coração do homem, isso porque “a problemática do homem é o homem”.456
Tais questões, diz o papa João Paulo II, “são encontradas nos escritos sagrados de Israel, mas aparecem também nos Vedas e no Avestá; achamo-las tanto nos escritos de Confúcio e Lao-Tze, como na pregação de Tirtankara e de Buda.” E continua: “e assomam ainda quer nos poemas de Homero e nas tragédias de Eurípides e Sófocles, quer nos tratados filosóficos de Platão e Aristóteles”.457
No entendimento particular desta pesquisa, da resposta a tais perguntas depende efetivamente a orientação que se imprime à existência, a qual poderá ser elucidada no encontro do ser humano como o outro. Em Cristo, a imagem do ser humano e as relações humanas transmudaram. Nele todos têm a mesma dignidade e em todos se acha estampado o
452 Cf. COMMISSIONE TEOLOGICA INTERNAZIONALE. Alla ricerca di unética universale, nº 51. 453 BALTHASAR, H. U. Só o amor é digno de fé, p. 91.
454 BENTO XVI, Carta Encíclica Caritas in veritate, nº 1. 455 Veja sobre o assunto em MONDIN, B. O homem: quem é ele. 456 OLIVEIRA, O. M. Conceito do homem, p. 85.
rosto de Deus.458 Certamente entender-se a partir de si próprio também tenha suas vantagens, porém não são suficientes. Diz Bento XVI que “uma das pobrezas mais profundas que o homem pode experimentar é a solidão. (...) O homem aliena-se quando fica sozinho ou se afasta da realidade, quando renuncia a pensar e a crer num fundamento”.459 Narciso procurando se entender, sem a instância do outro, perdeu-se no próprio reflexo. Para se entender e se identificar, o ser humano necessita de um face-a-face, uma vez que, nas palavras de von Balthasar “só na passagem da esfera inteira do eu para a do tu, é que o homem se encontra no caminho que vai do homem à humanidade”. E continua ele, “o homem só se comprova, só chega a si mesmo no encontro; é no acontecimento dos olhos nos olhos que a verdade nasce, e que se revela (...) a profundidade do ser humano...”460
Ao falar de rosto se quer referir àquilo que possui um amplo conceito, não redutível a características fisionômicas, ou seja, a um conjunto de qualidades que formam determinada imagem. Refere-se aqui à expressividade da pessoa toda, no seu estado de ânimo, com toda sua complexidade existencial interna e externa. Sinônimo de uma alteridade incapturável, o rosto rompe com o imperialismo do sujeito e afirma a dignidade e a consistência da diferença, não reduzível à identidade.461 O rosto do outro significa o outro que não é um prolongamento do eu, mas que provoca no eu uma responsabilidade irrecusável.
Seguindo essa senda, o filósofo francês Emmanuel Levinas afirma que “o modo como o Outro se apresenta (...) chamamo-lo, de facto, rosto”. Mais adiante continua o filósofo a dizer que o “rosto de Outrem destrói em cada instante e ultrapassa a imagem plástica que ele me deixa”. E acrescenta ainda, o “rosto, contra a ontologia contemporânea, traz uma noção de verdade que não é o desvendar de um Neutro impessoal, mas uma expressão” [itálico do autor].462 No rosto do outro a completa exterioridade manifesta a provocação para o êxodo do eu em direção ao outro: “... a consciência de si, a posse de si mesmo e do ser, só progridem na medida em que o ser em si e por si faz eclodir as suas barreiras e se abre à comunicação, à troca, à simpatia humana e cósmica”.463
Ao tratar sobre o rosto do outro pretende-se aqui especificá-lo – o rosto do pobre. Pois essa é a imagem simbólica mais significativa no discurso sobre a caridade/amor. Porém, ao falar do pobre não se deve reduzir dada categoria a status econômico, mas àquilo que abrange
458 Cf. ULLMANN, Reinholdo Aloysio. O solidarismo, p. 74. 459 BENTO XVI. Carta Encíclica Caritas in veritate, nº 53. 460 BALTHASAR, H. U. Só o amor é digno de fé, p. 48.
461 Cf. FORTE, B. A Teologia como companhia, memória e profecia, p. 23. 462 LEVINAS, E. Totalidade e infinito, p. 38.
em sua condição política, religiosa, social e cultural, etc.: pobre é o assalariado explorado em sua força de trabalho e o jovem sem trabalho; é o afastamento da concepção divina na obra humana; é o negro marginalizado e a criança que vive nas ruas; é todo aquele a quem é negado o respeito à dignidade humana; é o frustrado pela deficiência; é a mulher vítima do machismo e o ancião descartado no mundo ativista; é o consumidor falho; é a pessoa impossibilitada de expressar sua cultura; etc.464 É aquele que experimenta sua existencialidade na mais tenra dimensão antropológica, a qual, para ele, se apresenta como imperativo real. O pobre está para sua própria existencialidade, em analogia, tanto quanto um congestionamento está para alguém numa necessidade emergente. Ele, mais do que ninguém, experimenta a dimensão humana em muitos sentidos: as dores do biológico, a angústia da fé, a perturbação do psíquico, a pressão do econômico e a liquidez do social.
O rosto do pobre em sua expressão existencial e implicação teológica ajuda a recompor a imagem do ser humano aparentemente perdida na realidade do pós-humano. Seu rosto é um grito sensível e concreto que ecoa pelo vácuo do caos criado pela soberania da tecnociência que desestruturou todo horizonte e qualquer base enquanto verdade de fato na dimensão do homem natural: seu rosto, segundo o teólogo belga Adolphe Gesché, “se impõe a mim como um in-finito que eu não posso totalizar e assassinar em nome de meus interesses econômicos, políticos, sociológicos, embora economicamente sábios segundo este mundo”. E continua, “há nesse rosto uma irredutibilidade que desafia todas as minhas pretensões de eliminá-lo”.465 Enfim, o rosto do outro deve ser a chave hermenêutica a oferecer a melhor
compreensão do humano. E nesse aspecto, o rosto do pobre, especificadamente, deve interessar justamente pelo lugar existencial que ocupa na multidão dos seres humanos, como alguém próximo, frente à compartilhada qualidade enquanto espécie humana, como o primeiro a chegar, devido seu caráter emergente.466