Capítulo 7: Conclusão onde apresentaremos as conclusões do trabalho,
3 Os princípios socioconstrutivistas
3.5. O RPG, o Socioconstrutivismo e a Educação
Ao pensarmos sobre o vínculo que o RPG pode estabelecer com a Educação, lembramos logo do processo de formação de leitores, vez que esta modalidade de jogo tem como característica principal o engajamento dos jogadores ao mundo da leitura e da literatura de ficção. Como nos esclarece Pereira, o RPG na prática educativa em sala de aula traz
[...] o estímulo à leitura. Quando eu utilizo o RPG em paralelo à aula de História, por exemplo, o que eles aprendem em História é o que eles jogam na sessão de RPG. Isso os estimula a se interessar mais pelo assunto, fazendo com que queiram ler a respeito. Pode ser usado para redação. (PEREIRA, 2004, p. 191).
Rodrigues (2004), em sua tese sobre pedagogia da imaginação e da autoria, baseada na análise das potencialidades pedagógicas do RPG, defende que a relação entre Educação e RPG tem a oferecer como possibilidade aos educadores e aos discentes estratégias para a criação de habilidades de produção de narrativas de si e de suas comunidades escolares e extraescolares, através da produção de roteiros significativos para ambos os sujeitos: “Como um processo aplicável a qualquer
realidade, escolar ou não, com o objetivo de resgate de memórias de indivíduos e comunidades”. (RODRIGUES, 2004, p. 193).
Acreditamos que o jogo de RPG seja um meio capaz de organizar, fomentar e construir realidades históricas, através de simulações que podem proporcionar aos educandos a incorporação das identidades dos personagens, a fim de vivenciarem um pouco das complexas dinâmicas das estruturas sociais de cada momento histórico que fundamentará a jogabilidade das aventuras. Assim, cada um pode, “[...] na figura do Jogador, ‘tocar’ a realidade histórica, rompendo dessa forma com o abismo entre os acontecimentos históricos e a realidade do aluno, um dos grandes problemas enfrentados pelos professores em sala de aula.” (MELO, 2012, p. 12).
No âmbito da prática educativa, em consonância com o pensamento de Cardoso (2008) sobre o RPG, parece-nos nítida a variedade de objetivos que podem ser alcançados com a aplicação do jogo na Educação, porque
[...] supomos que uma estratégia de ensino baseada no jogo RPG, considerada uma atividade extrinsecamente motivadora, contribuirá para evitar o esquecimento dos estudantes em relação aos conhecimentos históricos, uma vez que, com o contato com diversas fontes históricas, através de textos, sons, monumentos, imagens, museus e etc., o estudo da História se tornará uma atividade prazerosa, como um fim em si mesmo. (CARDOSO, 2008, p. 92).
Aplicamos o jogo de RPG, através da dinâmica de representação de papéis como estratégia de jogabilidade, proporciona aos discentes vivenciarem, de modo prático, soluções para impasses e tensões, tal qual um personagem real de um acontecimento histórico concreto e objetivo. Por exemplo, um jogador que, ao vivenciar a realidade de “ser” um tapuia durante a colonização, é impelido a tentar pensar, agir e se relacionar com os seus pares, de modo a se aproximar daquilo que, através de pesquisas e estudos, ele identifica como próprio da identidade de sua personagem no jogo, em meio ao “cenário” da colonização do Brasil. “[...] O RPG faz com que o jogador participe ativamente da narrativa, não como um espectador que pega um livro para ler, passivamente, mais uma participação ativa por que ele é um dos Personagens.” (RIOS, 2004, p. 224).
Acreditamos que, como metodologia didática, o RPG pode vir a cumprir uma função política e revolucionária, pode vir a alcançar uma apropriação profunda e significativa dos educandos, interpelando-os como sujeitos históricos ativos, ao engajá- los em situações problematizadoras, que os desafiem em suas capacidades de tomar decisões cruciais para a transformação de acontecimentos históricos, de forma coletiva.
É, portanto razoável considerar o RPG como ferramenta capaz de fomentar um modo diferenciado de trabalhar com o conhecimento histórico, de apoiar o interesse pela pesquisa histórica:
Nesta perspectiva, esperamos que o jogo RPG possa representar um jeito diferente para desenvolver a escrita de Histórias, criação e interpretação dos Personagens incentive a busca de novas informações em diferentes fontes: professora, livros e internet. (CARDOSO, 2008, p. 90).
Outro aspecto interessante que destacamos como um forte elemento didático que pode ser proporcionado através da vivência do jogo RPG é a possibilidade engajar os educandos em vivências de realidades socioculturais diversificadas, como indica Melo, ao afirmar que
[...] a vivência de um indivíduo de outro contexto histórico e cultural, possibilidade oferecida pelo RPG, também se torna uma possibilidade e interessante para um educador explorar, pois permite que o educando não apenas conheça, mas vivencie outras experiências culturais no ambiente simulado. Jogar como um nativo americano da nação Inca, por exemplo, não apenas ofereceria uma visão diferenciada da História, visão jamais encontrada em nenhum livro didático, como também permitiria àquele educando vivenciar a própria cultura daquele povo. (MELO, 2012, p. 12). O RPG é uma ferramenta educacional e deve cumprir seus fins pedagógicos. Para tanto, os educadores devem delimitar previamente os objetivos e a intencionalidade pedagógica que deverão estar inerentes à ação dos educandos nos desafios a serem superados durante a vivência da história. O estabelecimento da finalidade do jogo determinará e diferenciará o objetivo de uso do próprio jogo e é preciso que fique claro que:
Uma coisa é o RPG para fins lúdicos, uma coisa é o RPG para fins educacionais, uma coisa é o RPG para fins terapêuticos e uma coisa é o RPG para fins de treinamento em empresa. No RPG com finalidade lúdica, os objetivos são determinados em conjunto pelo narrador e pelo grupo de Jogadores. Por quê? Caso contrário, o Jogador diz que não quer jogar o que o narrador que narrar e o narrador, por sua vez, diz não querer narrar o que o Jogador que jogar. Aí não tem Aventura. Trata-se de uma parceria, de uma troca. No caso do RPG com fins educacionais, a definição dos objetivos, que podem ser amplos, já passa diretamente pelo educador e pela escola. [...] 1) como agente de socialização; 2) como auxílio na fixação do conteúdo. (PEREIRA, 2004, p. 190).
A interdisciplinaridade, que pode ser bem explorado no RPG Digital, também é uma possibilidade didática bastante presente no RPG, já que a “fronteira” entre os conhecimentos disciplinares se dilui na constituição das aventuras. Na campanha do jogo se mobilizam conhecimentos diversos, como Geografia, e Língua Portuguesa, que transversalizam as narrativas vivenciadas pelos jogadores: “O RPG é interdisciplinar por natureza [...], pois simula uma situação da vida real.” (PEREIRA, 2004, p.191).
Percebemos que a aplicação do RPG na Educação, com a finalidade de permitir que as situações didáticas favoreçam a construção destes novos conceitos – ou melhor, para a produção de conceitos científicos a luz dos conceitos cotidianos, que emergem das vivências empíricas – possibilita aos educandos o estabelecimento de relações entre o passado e o presente, dialogando de modo objetivo com a realidade sociocultural de cada jogador. Essa dinâmica pedagógica poderá vir a se tornar um forte elemento engajador para o ensino e aprendizagem considerando abordagens que não dicotomizem o conhecimento ou a simbiótica relação entre pensar e fazer, mas revelem as contradições que impulsionam o fazer e o pensar em um mesmo movimento, de forma dialética e construtiva. Deste modo, é possível organizar a práxis social de cada jogador, como um elemento objetivo da concretude da História.
Entretanto, supomos que o RPG, isolado de uma práxis educativa que esteja voltada para uma compreensão da formação humana como produto da vida social ativa, como parte do processo pedagógico (VIGOTSKY, 2010), não oferece condições per si para que a aprendizagem dialogicamente significativa aconteça em sua construção histórica. Neste caso, é imprescindível para o educador se revestir de outra concepção de aprendizagem, que considere que a “[...] tarefa de ensinar não é uma tarefa de desenvolver uma capacidade de reflexão. É tarefa de desenvolver muitas capacidades especiais de pensar sobre uma variedade de objetos.” (VIGOTSKY, 2010, p. 474). Do exposto, depreende-se que:
A atuação do professor não está relacionada apenas com a aplicação de determinadas técnicas, recursos didáticos e fundação teórica, mas também está atrelada a concepções teóricas relacionadas com o tipo de sociedade, ao homem e ao processo de conhecimento defendidos pelo professor. Neste sentido, não só o conteúdo que determina o caminho do processo de ensino e aprendizagem, mas também a concepção de História do professor. Consequentemente o que será ensinado e como será ensinado encontram--se mediados pela concepção de mundo do professor de História. (CARDOSO, 2008, p. 92).
Ao considerarmos que a concepção de História subjacente à prática do educador está repleta de ideologia, mesmo quando esta refuta essa afirmação, isto acaba indicando que o ato educativo também é uma ação política, e que “[...] a educação dos reflexos sociais é a educação da linha social do organismo, ou seja, a educação não pode deixar de ser política.” (VIGOTSKY, 2010, p. 459).
Por outro lado, a mediação na prática educativa deve fornecer condições que favoreçam ao educador provocar avanços no desenvolvimento das zonas de aprendizagem. Trazendo esta informação para nosso objeto, vemos que a pluralidade de situações e vivências que o RPG pode promover para os usuários em sala de aula
situações cuja mediação seja expressa de maneira interativa, dialógica e interventiva, fomentando o avanço efetivo dos diferentes níveis de aprendizagens que estarão dialogando no momento do jogo.
Supomos que a concepção socioconstrutivismo, nos estudos de Vigotsky, oferece condições para que os educadores examinem suas práticas, tendo em vista uma transformação profunda em suas relações com os educandos e com conhecimento. Isto mobiliza estes educadores a se perceberem como participante de uma dinâmica cujo conhecimento se configura como produção de todos os jogadores envolvidos. Logo,
[...] podemos dizer que, nessa abordagem, o professor deixa de ser visto como agente exclusivo de informação e formação dos alunos, uma vez que as interações estabelecidas entre as crianças também têm um papel fundamental na promoção de avanços no desenvolvimento individual. (REGO, 1995, p. 109).
Ainda neste sentido, podemos também destacar outras possibilidades pedagógicas que podem ser trabalhadas e desenvolvidas através da aplicação do RPG no conhecimento, voltadas para o desenvolvimento de habilidades de pesquisa, através da seleção e coleta de informações em bibliotecas, revistas, sites, mapas e outros suportes de conhecimento. Além disso, observamos que o RPG pode contribuir num planejamento didático para uma vivência, ao menos de forma simulada e imaginária, de um ambiente histórico-social, de modo a engajar os sujeitos no entendimento das relações sociais e na dinâmica histórica de cada acontecimento (MELO, 2012).
Neste capítulo, buscamos compreender a potencialidades do jogo na modalidade RPG para a construção do conhecimento através da aplicação da concepção socioconstrutivismo e de seu uso como elemento provocador de processos de aprendizagem efetiva e significativa para os sujeitos. Pensando a partir um panorama social, inferimos implicações práticas que a inserção destas ideias pode ter no âmbito do conhecimento, podendo criar possibilidades efetivas de aproximação de processos pedagógicos mais eficientes e eficazes, no campo do engajamento para o desenvolvimento das zonas de aprendizagem, em meio a uma comunidade virtual com pluriculturalidade de sujeitos em suas diversificadas identidades históricas, num mundo simulado pelo jogo de RPG.
Neste momento do trabalho, estamos buscamos compreender a potencialidades do jogo na modalidade RPG para o ensino e aprendizagem, através da aplicação da concepção socioconstrutivismo e de seu uso como elemento provocador de processos de aprendizagem efetiva e significativa para os educandos. Pensando a partir um panorama social, inferimos implicações práticas que a inserção destas ideias pode ter no âmbito
educativo, podendo criar possibilidades efetivas de aproximação de processos pedagógicos mais eficientes e eficazes, no campo do engajamento para o desenvolvimento das zonas de aprendizagem, em meio a uma comunidade virtual com pluriculturalidade de sujeitos em suas diversificadas identidades históricas, num mundo simulado pelo jogo de RPG.
A demonstração da argumentação desenvolvida nesta seção é sumarizada no Quadro 07, contemplando os princípios socioconstrutivismos que estão atrelados e que suportam a esse estudo para acompanhamento e verificação das características da aprendizagem.
Interação social A interação social é um dos fundamentos básicos do jogo de RPG. Os Jogadores constroem uma história de forma coletiva e colaborativa, se
ajudando mutuamente para resolver os desafios colocados pelo Mestre.
ZDI
O jogo potencializa o surgimento da ZDI. Os Jogadores cooperam entre si neste processo de construção. Jogadores mais experientes podem auxiliar os menos experientes.
Mediação O Play by Fórum é visto neste estudo como um instrumento mediador de
aprendizagem.
Criação– imaginação
Assim como a brincadeira de faz de--conta, o jogo de papéis e o jogo protagonizado, o RPG digital, especialmente o Play by Fórum, também envolve situação Imaginária.
Autoria colaborativa
Em lugar de reproduzir um modelo, os sujeitos produzem um texto de forma espontânea e coletiva, conforme previsto pelo Socioconstrutivismo. Esta habilidade pode ser potencializada pela mediação como Play by Fórum.
Planejamento
Envolve a decisão sobre o tema que será tratado no texto. Neste caso, trabalha-se com os temas geradores, propostos por Freire (2005). A estrutura cognitiva dos sujeitos é tomada como ponto de partida, e o processo de aprendizagem significativa é favorecido.
Revisão Envolve reflexão sobre a organização das próprias ideias, o que pode ser
caracterizado como atitude metacognitiva. Quadro 07 - Princípios socioconstrutivistas no RPG Digital
Fonte: Caballero (2007).
Ao compararmos os princípios epistemológicos do socioconstrutivismo descritos no Quadro 05 com os principais aspectos, no plano das possibilidades pedagógicas, que podem ser trabalhadas com o uso do RPGAD descritos no Quadro 06, e com as características de aprendizagem com o RPGAD em sala de aula mostrados no Quadro 07 veremos a semelhança entre os mesmos e que estas potencialidades ficam ainda maiores com a associação da rede mundial internet e das TIC e foi por isso que o nosso GP adotou este tipo de jogo e sua forma de participar com os sujeitos da aprendizagem.
Como já dissemos anteriormente, a opção do nosso GP pelos jogos do tipo RPG com design socioconstrutivismo é que ele responde bem aos princípios socioconstrutivismos descritos no Quadro 05.
A solução recursiva para o RGPAD móvel proposta e desenvolvida por mim e o nosso GP adota estes princípios socioconstrutivistas.
Para sistematizar a relação entre os conceitos socioconstrutivistas e o jogo de RPG, apresento o Quadro 08 com um resumo dos principais conceitos e indicadores que, durante todo este capítulo, foram discutidos e analisados. Os elementos apresentados neste quadro subsidiaram a inclusão dos elementos socioconstrutivismos como interatividade, interação, colaboração e criatividade autoral existentes na versão Desktop do RPGAD, tendo a finalidade de garantir que tais elementos seriam mantidos após na solução recursiva móvel para o RPGAD utilizada nos dispositivos móveis (celular, tablete e outros, etc.).
JOG
O RPG
Interação social
A interação social é um dos fundamentos básicos do jogo de RPG digital. Nestes ambientes, os Jogadores constroem a história em colaboração com o outro, por meio das interfaces de comunicação chat, fórum ou e-mail. Os sujeitos envolvidos nesta interação se ajudam mutuamente para resolver os problemas colocados.
ZDI
O jogo, de modo geral, potencializa o surgimento da ZPD. E o RPG digital certamente favorece a produção do conhecimento nos sujeitos envolvidos, pois, durante o processo do jogo, os players cooperam entre si, os mais experientes auxiliando os menos experientes.
Mediação
O RPG digital é visto como um instrumento mediador de aprendizagem significativa, na medida em que os players são convocados a participarem ativamente. Além disso, podem contribuir com o desenvolvimento da Aventura no jogo, com base nas suas vivências diversas.
Criação Imaginação
Assim como no faz de conta, o jogo de papéis e o jogo protagonizado, o jogo RPG digital também envolve situação imaginária, especialmente o RPG PbF e o PbEM, pelo fato de não terem um ambiente virtual pré- definido como o Ragnarök.
Quadro 08– Sistematização dos conceitos socioconstrutivistas que aparecem no desenvolvimento do jogo de RPG.
Fonte: Caballero (2007).
Podemos finalizar este capítulo dizendo que a conectividade é um dos principais recursos da sociedade em rede na contemporaneidade, e isso é bem representado pelas aplicações de RPG que o nosso GP tem realizado com sucesso, utilizando as epistemes do socioconstrutivismo, conforme os trabalhos dos nossos mestrandos e doutorandos descritos no Quadro 09:
Autor Título Status
ANTÔNIO LÁZARO
PEREIRA DE SOUZA
RPG DIGITAL INSTRUMENTO PEDAGÓGICO PARA