4. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
4.3. Sobre os textos abordados
4.3.1. Textos jornalísticos
4.3.1.3. O segundo e o terceiro textos jornalísticos
As atividades envolvendo mais dois textos jornalísticos só aconteceram nas últimas intervenções que realizamos no contexto da pesquisa.
Inicialmente, tínhamos até pensado em não utilizar outro texto jornalístico, pois, em nossa primeira experiência, já havíamos notado o quanto essa modalidade de texto, impregnado por uma quantidade significativa de números, constituía-se numa limitação para que os alunos pudessem, em sua relação com a prática da leitura de textos nas aulas de Matemática, dar vazão à sua imaginação, criando eles mesmos, alternativas que viessem responder às indagações que surgissem a partir do texto e das questões que havíamos proposto. No entanto, pelas razões já explicitadas aqui, precisávamos de um número maior de dados que nos permitissem maior segurança quanto às impressões que havíamos tido em nossas observações sobre o trabalho com o primeiro texto jornalístico.
Mesmo que, nessa intervenção, tenhamos utilizados dois textos, as questões que elaboramos para serem mediadoras das interações estavam relacionadas ora a um texto, ora ao outro. Também nos preocupamos em propor questões que possibilitassem aos alunos estabelecer relações entre os textos, uma vez que a temática de ambos fazia referência a um problema comum: a situação da floresta diante da exploração incontrolável pelo homem e a questão da estiagem nos estados mais áridos do Brasil, que, em parte, pode ser vista como consequência dessa exploração.
Embora esses textos, como aquele que trazia à discussão a situação das crianças que são vítimas da exploração da mão de obra infantil, oferecessem aos alunos subsídios para que fizessem inferências que extrapolassem os aspectos numéricos ou apenas tangenciassem esses aspectos, mais uma vez não foi essa atitude a que constatamos.
Preocupamo-nos, durante esta intervenção, em criar um espaço em que os alunos pudessem gozar de liberdade para responder às questões que acompanhavam todos os textos utilizados em nossa investigação. Sempre pautados pelas interações ocorridas nos grupos, permitimos, também, que os estudantes, depois de lerem o texto,
pudessem elaborar algumas questões com base na leitura, procurando estabelecer relações entre essas questões e a Matemática.
Por ter sido esta a sexta intervenção, momento em que os alunos já haviam trabalhado com outros textos no decorrer da pesquisa, esperávamos um pouco mais em relação às questões elaboradas. A seguir, estão algumas dessas questões:
1) Segundo o INPE, quantos por cento dos alertas confirmados com o desmatamento constataram corte raso da floresta?
2) Que estado do Nordeste teve o maior numero de situações de emergência?
3) Se 10% do estrago fosse recuperado, quantos campos de futebol seriam precisos para cobrir a área da destruição?
4) Se o tanto de municípios atingidos na Paraíba fosse igualmente dividido entre todos os estados do Nordeste com quantos municípios cada estado ficaria?
5) Quantos municípios do Nordeste foram atingidos pela estiagem? 6) Qual é a soma da quilometragem dos municípios que estão dispersos 30 e 40 km?
7) Quantos municípios de Alagoas e Bahia estão sendo afetados? 8) Se ao todo são 486 municípios em situação de emergência, sabendo que destes 403 estão no Nordeste, quantos municípios estão localizados em outros estados?
Observa-se que as questões elaboradas pelos alunos estavam sempre associadas a respostas que facilmente seriam encontradas no texto. Não houve preocupação dos estudantes em propor questões que transpusessem os limites das informações nele contidas. Ou seja, não apareceram questões que evidenciassem um envolvimento do grupo com a leitura, que ultrapassasse a busca por números para justificar as relações da questão elaborada com a Matemática.
Para nós, um exemplo claro do distanciamento dos alunos de situações do texto subjacentes à Matemática, que fugissem da mera transposição de dados para respondê- las, está no não surgimento de questões que trouxessem à discussão razões mais profundas para explicar o elevado índice de estados nordestinos entre aqueles que mais sofrem com a estiagem e na inexistência de questões que permitissem refletir sobre as possíveis contribuições a serem dadas pelos leitores para ajudar a amenizar os problemas abordados pelos dois textos.
Quando refletimos sobre as possíveis razões que levaram os alunos a optarem por elaborar questões bem diretas, sem se debruçarem um pouco mais sobre o que leram, acreditamos que elas se vinculam às experiências de leitura que os mesmos
vivenciaram em outras oportunidades. Segundo Pimm (2000), muitas das oportunidades de leituras que têm sido criadas durante as aulas de Matemática têm se configurado muito mais como atividades que visam oferecer ao aluno um suporte para extrair informações aplicáveis na resolução de uma questão ou problema do que como atividades de leitura enriquecedoras, que são aquelas que, a nosso ver, permitem aprender significativamente (COLL, 1994), podendo inseri-lo em atividades de investigação na sala de aula (PONTE, 2003). Assim, por estarem familiarizados com esse tipo de tratamento dado à leitura nas aulas de Matemática e ir buscar no texto, de forma objetiva, informações para resolver algum cálculo, ao se depararem com a situação de ter que elaborar, em vez de responder, uma questão, os alunos, mecanicamente, recorreram primeiramente às informações dadas no texto para gerar as questões.
Verificamos, em nossa segunda intervenção no campo de pesquisa, em que os alunos tiveram como suporte de leitura dois textos jornalísticos, que essa modalidade de texto repleto de informações numéricas tende a se configurar como um texto que, segundo Pimm (2000), podemos denominar como ―minas‖, pois se constitui apenas como fonte de ferramentas para serem extraídas e prontamente utilizadas. Além dessa constatação, observamos, também, que a grande quantidade de números, mais uma vez, impediu os alunos de vivenciarem, durante as aulas, novas experiências com a Matemática. Isso foi por nós confirmado ao analisarmos o episódio, em que um grupo discute as estratégias para iniciarem a elaboração das questões sobre as situações do texto em que seria possível estabelecer relações com a Matemática.
Sulamita: Pronto! Agora é a questão quatro.
Alexandre: Ah! Vai ser fácil. Dois textos para encontrarmos quatro questões. Vai ser bem rápido.
Sulamita: Fica esperto, Alexandre! Não pode ser qualquer questão. Tem que estar relacionado com a Matemática.
Alexandre: Uai! Tem que ser?
Yasmim: É claro, Alexandre. Você já viu atividades nas aulas de Matemática que não estejam relacionadas com a Matemática?
Sulamita: Isso mesmo, Alexandre.
Alexandre: Ah! Então as questões têm que ter cálculos?
Yasmim: Claro! Matemática é cálculo. Se não tiver cálculo, não vai nem sequer parecer com Matemática.
Rafaela: Tudo bem, gente! Não vai ser difícil fazer as questões, pois os textos estão cheios de números.
Sulamita: É! Dá para fazer de adição, subtração e outras coisas da Matemática.
Depois de desenvolvermos duas atividades de leitura e interpretação de textos nas aulas de Matemática utilizando três textos jornalísticos, caracteristicamente marcados pela presença de muitas informações numéricas, constatamos as limitações dessa modalidade de texto para a promoção de atividades de leitura na sala de aula que possibilitassem ao aluno estabelecer uma relação com a Matemática diferente daquela promovida por práticas de ensino tradicionais. Notamos que a presença dos números reforça os aspectos sintáticos da linguagem matemática, impedindo os alunos de enxergar a Matemática sob um novo prisma. Em nossa opinião, essa atitude diferente em relação à Matemática seria fundamental para promover algumas mudanças em sua abordagem no Ensino Fundamental e Médio.
4.3.1.4. A participação dos alunos ao explorarem o segundo e o terceiro textos