O deslinde da trama envolvendo o conflito da comunidade pluriétnica que hoje habita o local conhecido como Reserva Bananal foi retratado no documentário "Sagrada Terra Especulada"6, o qual ilustra de maneira contundente o descaso para com os residentes
originários de uma terra cuja posse é legítima, mas cuja realidade passa despercebida aos olhos dos interesses mercadocêntricos afetos à negociação das terras por empreiteiras e incorporadoras imobiliárias, em conjunto com a Companhia Imobiliária de Brasília (TERRACAP) e demais órgãos que irão figurar nas investigações levadas à cabo pelo Ministério Público Federal na defesa dos direitos tradicionais indígenas compreendidos neste caso.
O Governo do Distrito Federal, a partir da criação da Lei no
9.262/1996, e conforme será tratado no capítulo 4, tenta respaldar, através desta normativa, a manutenção de um
status quo de propagação de parcelamentos irregulares em áreas de proteção na APA do
São Bartolomeu, isto por via legislativa, ou seja, a envolver uma empresa pública gestora de terras, a Companhia Imobiliária de Brasília, que figurará no palco de uma auditoria
6 O documentário Sagrada Terra Especulada, da autoria de José Furtado, está disponível em:<https:
contundente realizada pelo Tribunal de Contas da União, a comprovar a grilagem de terras por parte dos poderes distritais, a compreender a identificação de fraudes, propinas e expedientes corruptos deflagradores do caos urbanístico e da usurpação de poder.
O Setor Habitacional Noroeste, onde ocorrem as violações às comunidades indígenas referenciadas neste capítulo, é construído à revelia dos interesses dos reais ocupantes da terra, tendo sido edificados condomínios e empreendimentos de alto valor agregado, e não empreendimentos para o atendimento das classes populares, destoante, portanto, das previsões de expansão urbana para as classes c e d referenciados no "Brasília Revisitada", conforme tratado no capítulo2, seção2.4. Tal fato é identificado, por exemplo, nos inúmeros endereços na rede web de computadores contendo anúncios, referências, fotos e destaques sobre o Setor Habitacional Noroeste7
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Depreende-se que a propaganda que o lança como primeiro bairro ecológico do Brasil, em total discrepância à irregular ingerência em áreas de proteção nas imediações da APA do Rio São Bartolomeu, configura uma realidade em que presentes estão condomínios destinados a classes médias e altas, o que significa que a hipótese de expansão prevista pelo documento "Brasília Revisitada" (Vide capítulo 2, seção 2.4), a qual dar-se-ía em caráter excepcional e para o atendimento de demandas residenciais para as classes C e D, ou seja, para as classes populares, não se aplica, porquanto tratam-se de condomínios de alto valor e que se encaixam na lógica do capital incorporador referenciada no capítulo2.
Os recursos públicos, neste ínterim, não podem ser afetos à idéia de “vender aos ricos para investir para os pobres”. Tal é o que transparece quando se tem uma Lei como a de no 9262/1996, a qual por sua própria definição autoriza a venda direta de terras da União e excepciona a regra da concorrência pública em razão de um pretenso "interesse social" invocado pela própria norma, como será estudado no capítulo seguinte.
Ora são terras dentro de Área de Proteção Ambiental e deveriam então seguir um regime especial de ocupação, e não serem entregues a incorporadoras imobiliárias que ali vendem imóveis de alto valor agregado sob a propaganda de residências "ecológicas", expulsando a população indígena residente que ali exercia a posse legítima e constitucionalmente amparada enquanto ocupação tradicional, o que é no mínimo uma contradição ao próprio escopo destas áreas. É neste sentido que os parcelamentos não regularizáveis, a transgredir os planos urbanísticos e sob o contexto de inúmeras flexibilizações do zoneamento com vistas à consolidação de áreas dantes restritas à construção e à ocupação antrópica, que exsurge esta saga de violências, incêndios, destruição de mata nativa e toda a sorte de violações retratadas nesta Ação Civil Pública levada a efeito por representação do
7 Disponível em: <http://www.politicaeconomia.com/2013/02/setor-noroeste-brasilia-fotos-2013.
html>;<http://fatoonline.com.br/conteudo/8531/noroeste-o-sonho-ecologico-que-ainda-nao-virou-realidade? or=rss>; <http://www.zapimoveis.com.br/venda/apartamentos/df+brasilia++setor-noroeste>;
<http://www.vivareal.com.br/venda/distrito-federal/brasilia/bairros/noroeste/apartamento_ residencial/>;<https://www.youtube.com/watch?v=8uGswSuVrmc>Acesso em: 29 jan. 2016.
Ministério Público Federal.
A situação jurídica relatada demonstra a ausência de um interesse público da Terracap e do GDF com relação ao real interesse social implicado, qual seja, o das populações tradicionais residentes e na titularidade de posse tradicional desde a década de 60 no Plano-Piloto.
Faz-se imperiosa, quanto a este caso, uma indagação sobre quais os reais interesses coletivos e quais os interesses individuais presentes no seio das relações público-privadas implicadas. Qual o interesse público é a grande questão que se transpõe para o caso dos condomínios irregulares na APA de São Bartolomeu, vez que a postura de grupos e atores sociais face ao meio ambiente e sob os auspícios de uma falsa "sustentabilidade" está a propagar vantagens midiáticas para a venda daquilo que é “ecologicamente correto”, o que em verdade nada mais significa do que “vender para os ricos” sob o argumento de “comprar para os pobres”, tal o sentido do art. 7o da Lei no 9.262/1996, de modo que há uma quebra das concepções elementares de democracia e de justiça social a partir do momento em que a transgressão aos direitos indígenas revela um contexto de expulsão da terra e de negação de direitos por parte dos órgãos envolvidos na ACP retratada, os quais deveriam em verdade resguardar estes direitos, no entanto o violam, denegando os instrumentos de tutela e garantia para a proteção destas áreas e resguardo do fator socioambiental em sua integralidade.