1.4 Os princípios de proteção ao meio ambiente: uma questão de fun-
1.4.9 Princípio da sustentabilidade: do local ao global
A Constituição democrática não apenas conduziu a proteção do meio ambiente a um status constitucional; para além de suas forças, estabeleceu a defesa do meio ambiente enquanto princípio da própria ordem econômica, de modo a corroborar para a idéia de uma sustentação principiológica na qual não se respeita a atividade econômica senão respeitando e defendendo o meio ambiente, sobre cuja dialeticidade está a base da compreensão necessária à realização de políticas públicas afetas à proteção para a
natureza e a proteção da natureza, verdadeiro significado e condição sine qua non da
intervenção antrópica sob a ótica da proteção integral. Conforme ensinamentos de Maria Luzia Machado Granziera:
Toda atuação do Poder Público em matéria ambiental ancora-se na prevalência do interesse público, princípio que se verifica a partir do conteúdo das leis, embora não esteja, como se disse, explicitamente mencionado. O mesmo princípio, além disso, pode ser o fundamento de uma decisão judicial, o que indica seu caráter normativo. É a maneira de o Estado garantir que a sociedade não seja sacrificada em nome de vantagens e benefícios concedidos ao particular. (GRANZIERA, 2009, p.51).
De fato, e como ramo do direito público, o direito ambiental irá reger, portanto, relações em que predominam interesses de ordem pública, de modo a tutelar o status
dignitatis da pessoa em termos de objetivar a erradicação da pobreza e da marginalização,
conforme disposto no inciso III do art. 3o
da CF/1988, um dos objetivos de tutela em âmbito internacional, quando se identifica que o extremado das desigualdades reflete- se na propulsão de danos ambientais em escalas desastrosas, constituindo problema de indispensável tratamento para o desenvolvimento sustentável preconizado pelo princípio 5 da Declaração do Rio, segundo o qual: "todos os Estados e todos os indivíduos, como requisito indispensável para o desenvolvimento sustentável, irão cooperar na tarefa essencial de erradicar a pobreza, a fim de reduzir as disparidades de padrões de vida e melhor atender às necessidades da maioria da população do mundo."
Evidente, neste ponto, a proeminência das relações tuteladas pela nova Constituição republicana, a suscitar inflexões teóricas segundo as quais:
El Derecho Ambiental tiene como veremos, implicaciones y manifestacio- nes de Derecho privado, pero su meollo es fundamentalmente público, se impone directamente por El Estado, en cuanto que regula las relaciones del hombre con su entorno y no de los sujetos privados entre sí (RAMÓN,
1998)53.
53 O Direito Ambiental tem como veremos, implicações e manifestações de Direito privado, porém seu
núcleo é fundamentalmente público, se impõe diretamente pelo Estado, enquanto regula as relações do homem com seu entorno e não dos sujeitos privados entre si. (Tradução nossa).
No que tange ao aspecto problemático a envolver a realização do direito ao meio ambiente equilibrado, máxima preconizada pelo constituinte de 1988, bem assim os direitos sociais em sentido amplo, e para cuja solução verifica-se uma extenuante tentativa das nações em balizarem premissas para o que se convencionou chamar de "sustentabilidade ambiental", não há como olvidar da necessária observância da visão contemporânea segundo a qual a solução dos problemas conecta-se perfunctoriamente à aproximação do que é "local", para que então se atinjam as questões de ordem "global", multifacetária.
Ao disciplinar a vida da coletividade, o Estado estará a regular interesses sociais sobre os quais assume responsabilidade intrínseca, notadamente quanto à manutenção da qualidade do meio ambiente, em que suas funções de gestão, regulação e fiscalização devem corroborar para uma sistemática transversal, em que a defesa do meio ambiente deve estar vinculada às presentes e futuras gerações. O princípio do desenvolvimento sutentável estará, portanto, intimamente relacionado à transgeracionalidade e ao problema da esgotabilidade dos recursos. (FIORILLO, 2010, p.78-87).
No tratamento do acesso aos recursos naturais, indispensáveis os ensinamentos do Prof. Dr. Paulo Affonso Leme Machado, para quem: "É preciso estabelecer a razoabilidade dessa utilização, devendo-se, quando a utilização não seja razoável ou necessária, negar o uso, mesmo que os bens não sejam atualmente escassos."
O Relatório Meadows (MEADOWS; MEADOWS; RANDERS,1972), publicado em 1972, fruto de pesquisa encomendada pelo Clube de Roma à Universidade de Massachussets, a concluir que é preciso refrear o crescimento econômico para evitar o esgotamento dos recursos naturais, e a Conferência de Estocolmo54, a preconizar o dever dos Estados de
criar normas de proteção e salvaguardar o seu ambiente, ambos constituem marco de uma superação da abordagem sobre o meio ambiente e desenvolvimento em termos antagônicos e a adoção de uma concepção integrada do desenvolvimento que remete o hermeneuta à sustentabilidade preconizada pelo relatório Brundtland55, segundo o qual o desenvolvimento
sustentável é aquele que satisfaz as necessidades presentes sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades.
O Princípio 3 da Declaração do Rio (Vide AnexoE) trouxe à lume a definição do desenvolvimento de modo a permitir que sejam atendidas equitativamente as necessidades de desenvolvimento e ambientais das gerações presentes e futuras.
54 ESTOCOLMO. Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente, 5 a 16 de junho de 1972. Decla-
ração de Estocolmo (Vide Anexo D). Disponível em:<http://www.unep.org/documents.multilingual/ default.asp?documentid=97&articleid=1503> Acesso em: 28 jan. 2016.
55 Organização das Nações Unidas (ONU). Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento.
Relatório Brundtland, publicado no Brasil pela Fundação Getúlio Vargas (BRUNDTLAND et al.,1991) sob o título "Nosso Futuro Comum". O documento retrata os principais problemas sobre meio ambiente enfrentados a nível mundial e propõe estratégias para o desenvolvimento sustentável. Disponível em:
No mesmo sentido, o princípio 4 definiu que, para o alcance do desenvolvimento sus- tentável, "a proteção ambiental constituirá parte integrante do processo de desenvolvimento e não pode ser considerada isoladamente deste." (Vide Anexo E).
O meio ambiente será considerado em todos os seus aspectos para que a sustenta- bilidade se aplique com vistas à adoção de critérios mais equânimes de uso dos recursos e de modo a propalar o conhecimento da realidade ambiental circundante em direção a maior garantia dos direitos metaindividuais compreendidos. É neste ponto que os conceitos jurídicos abertos merecem atenção, vez que o regime de áreas protegidas estabelecido para as áreas de proteção ambiental assumem novo corpo quando da inauguração do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (UCs), quando a APA passa a figurar como modali- dade de área protegida de uso sustentável. Isto por que os critérios de proteção variam nas distintas sociedades e nos distintos grupos sociais e políticos. O combate à pobreza é, nesta orientação, importante veículo para conter a degradação ambiental, mas não fator responsável por esta. Dignas as notas de debate acadêmico sobre a sustentabilidade referenciados na obra "Questão Ambiental e Desenvolvimento Sustentável", da autoria de Maria das Graças e Silva. Segundo a Autora:
Acertar as contas com as teses explicativas da relação entre pobreza e
meio ambiente implica constatar a impossibilidade de ambas darem conta
da totalidade social, já que não inserem esta problemática nas relações sociais de produção. Ao não agarrarem a degradação da natureza e a desigualdade social como partes constitutivas da dinâmica de acumulação capitalista apartam sustentabilidade ambiental e social, de tal sorte que a realização de ações no campo da primeira não assegura a segunda ou diretamente se opõe a esta (...). A irracionalidade do capital pereniza os traços perdulários do sistema - à medida que para fazer face à sua crise estrutural, aprofunda os traços financistas da economia mundial, intensificando as contradições entre o capital fictício e capital produtivo - ao tempo que adota a obsolescência programada como estratégia pri- vilegiada, acentuando, assim, o reino da perdularidade e da destruição. O parasitismo, expressão das múltiplas formas do capital rentista, im- põe a subordinação dos países periféricos, acarretando o desmonte das economias de regiões inteiras do planeta, arrasadas pela concorrência desigual. A formação de novos blocos ou arranjos econômicos expressam a exacerbação da concorrência, tencionando as bases do "domínio imperial". (SILVA,2010).
É nesta ótica que a Carta da Terra56 irá preconizar, em seu princípio oitavo, o
avanço no estudo da sustentabilidade ecológica e promoção da troca aberta e a ampla aplicação do conhecimento adquirido, a compreender as seguintes orientações:
a. Apoiar a cooperação científica e técnica internacional relacionada a sustentabilidade, com especial atenção às necessidades das nações em desenvolvimento.
56 Disponível em:<http://www.mma.gov.br/estruturas/agenda21/_arquivos/carta_terra.pdf> Acesso
b. Reconhecer e preservar os conhecimentos tradicionais e a sabedoria espiritual em todas as culturas que contribuam para a proteção ambiental e o bem-estar humano.
c. Garantir que informações de vital importância para a saúde humana e para a proteção ambiental, incluindo informação genética, estejam disponíveis ao domínio público.
A considerar os direitos sociais tratados no capítulo 3, quanto às violações de direitos indígenas no território do Distrito Federal, deve-se levar em conta o valor dos conhecimentos tradicionais e da sabedoria espiritual presente nas diferentes culturas, corolário de um desenvolvimento sustentável que não pode jamais desconsiderar o aspecto humano, a compreender seja os elementos materiais que imateriais do conhecimento tradicional associado, a abranger, por sua vez, toda a informação ou prática detida por integrantes de comunidades indígenas sobre as características e usos da biodiversidade.
A sustentabilidade das unidades de conservação, a corroborar na segurança de continuidade e fluxo gênico das espécies, deverá pautar-se na proteção do meio ambiente como pré-requisito para a proteção aos direitos humanos, seara na qual as populações e comunidades tradicionais assumem papel indispensável, porquanto não só detêm co- nhecimentos indispensáveis à preservação dos ciclos ecológicos, em relação mais próxima com a natureza e a conservação da biodiversidade, mas também são titulares de direitos fundamentais.
O meio ambiente é mais uma vez reforçado como um direito qualificado, que se conecta diretamente à vida de qualidade, em conssonância para com o seu caráter fundante e transgeracional. Segundo Faria:
As normas constitucionais assumiram a consciência de que o direito à vida, como matriz de todos os demais direitos fundamentais do homem, é que há de orientar todas as formas de atuação no campo da tutela do meio ambiente. Compreendeu que ele é um valor preponderante, que há de estar acima de quaisquer considerações como as de desenvolvimento, como as de respeito ao direito de propriedade, como as da iniciativa privada. Também estes são garantidos no texto constitucional, mas, a toda evidência, não podem primar sobre o direito fundamental à vida, que está em jogo quando se discute a tutela da qualidade do meio ambiente, que é instrumental no sentido de que, através dessa tutela, o que se protege é um valor maior: a qualidade da vida humana (FARIA,2007, p. 849).
Noutra seara, vale lembrar que o Estatuto da Cidade, ao elencar o conceito de "cidade sustentável", traz para o âmbito do ordenamento jurídico a necessidade de conjugar esforços para que os impactos sócio-ambientais sejam identificados com vistas ao resgate das funções ambientais exercidas pelos distintos atores sociais:
Art. 2o A política urbana tem por objetivo ordenar o pleno desenvolvi-
mento das funções sociais da cidade e da propriedade urbana, mediante as seguintes diretrizes gerais:
I – garantia do direito a cidades sustentáveis, entendido como o direito à terra urbana, à moradia, ao saneamento ambiental, à infra-estrutura urbana, ao transporte e aos serviços públicos, ao trabalho e ao lazer, para as presentes e futuras gerações;
IV – planejamento do desenvolvimento das cidades, da distribuição espacial da população e das atividades econômicas do Município e do território sob sua área de influência, de modo a evitar e corrigir as
distorções do crescimento urbano e seus efeitos negativos sobre o meio ambiente; (Grifos nossos).
A Agenda 21, por sua vez, desenvolvida no Brasil enquanto plano estratégico no âmbito do Poder Executivo para a sua construção e implementação a nível nacional57
, servirá como sustentáculo de um grande esforço nacional para a aplicação do princípio pelo Poder Executivo, em que o planejamento governamental envolverá não só a propulsão da distributividade da justiça nos moldes democráticos pensados para o Estado social, mas fundamentalmente o desenvolvimento de uma consciência crítica para a questão ambiental, em que o ambientalismo assume uma feição equânime em relação às lutas por direitos na esfera do federalismo brasileiro, a assumir a educação um papel nuclear, e de modo que a preservação do meio ambiente seja compartilhada e solidária.