CAPÍTULO 3 – O STATUS ATUAL DA LÍNGUA INGLESA E A DEMOCRATIZAÇÃO DO SEU ENSINO
3.4 O STATUS DE INGLÊS NO BRASIL documentos acima
e ressalta o caráter pragmático da inclusão da LE no currículo escolar com vistas aos múltiplos usos socioculturais das linguagens no mundo globalizado atual
sobretudo no que tange à
adequação aos vários letramentos exigidos na contemporaneidade, e:
- enfatiza a função comunicativa da LE, o desenvolvimento de competências e a sua
transferibilidade multissituacional;
- destaca o caráter central da LE em um currículo interdisciplinar por ela servir de suporte à articulação entre as grandes áreas;
-prioriza o desenvolvimento da habilidade de leitura;
- reforça a estruturação dos PCNEM em torno dos eixos ‘representação e comunicação’, ‘contextualização sociocultural’ e seus respectivos conceitos, competências e habilidades; - prescreve que a avaliação seja processual e formativa. concepções dos documentos anteriores, inclusive a da linguagem como constituída de múltiplos sistemas simbólicos de representação e comunicação. Orientações Curriculares para o Ensino Médio Confere um caráter nitidamente plurilíngue à legislação ao apresentar diretrizes específicas para o ensino de espanhol LE
Defende a adequação das teorias apresentadas às especificidades de cada idioma e:
- reconhece que há um conflito entre a idealização do papel formativo da educação linguística como descrita nos documentos oficiais e a realidade do ensino da rede pública;
- salienta a necessidade da educação em LE ser inclusiva do sujeito letrando em diversos níveis da sua existência.
Idem. Dentre tais sistemas, destaca a língua como sistema semiótico social e historicamente construído pelo homem.
Como já tratamos no começo do capítulo, a língua inglesa se tornou a língua internacional dos tempos atuais. Quase um terço da população mundial faz uso dessa língua. Segundo Siqueira (2008, p.83), a condição de língua franca global amealhada pelo inglês é motivo de orgulho para muitos, mas também de ressentimento para tantos outros. O fato é que nunca na história da humanidade uma língua nacional angariou um número tão significativo de falantes e aprendizes nem semelhante sentimento de prestígio para os nascidos no país hegemônico onde a língua de prestígio é oficial.
De acordo com a revista Veja de 19 de janeiro de 2005(apud SIQUEIRA, 2008, p.100), no Brasil, apenas 12% de nossa população tem acesso à língua inglesa. Diante disso, percebemos, então, que o Brasil é, sem sombra de dúvida, um dos mercados mais promissores e cobiçados pela indústria de ensino de inglês, pois, como em todo o mundo, a expansão do inglês no Brasil também se transformou num negócio lucrativo, criando condições para que muitas escolas particulares de inglês, principalmente na modalidade de franquia, fossem criadas em inúmeras cidades brasileiras.
Percebe-se, então, que este é um segmento importante da nossa sociedade. Já razoavelmente estudado, mais ainda precisando ser mais explorado, o ensino de língua inglesa no Brasil, mesmo nos tempos atuais, ainda se orienta por premissas flagrantemente tradicionalistas. Dentre diversos aspectos que ainda carecem de revisão, está o lugar de cultura na sala de aula de LE. Nesse sentido, Siqueira esclarece,
Quando nos referimos ao ensino de língua estrangeira, a referência cultural na maior parte dos contextos, inclusive no Brasil, tende a privilegiar aspectos da cultura alvo, chegando, em alguns casos, a situações de emulação de valores, costumes e tipos de comportamentos típicos da(s) sociedade(s) onde a língua alvo é falada como língua nativa. Moita Lopes (1996) mostra que a maioria dos professores que participaram de sua pesquisa como informantes, no tocante à questão cultural, opta por trazer para a sala de aula elementos das culturas americana e britânica, e muitos tentam, literalmente, transplantar para o contexto instrucional princípios, valores, crenças, costumes e comportamentos da cultura alvo. Pode-se perceber que são escassas as salas de aula de inglês como língua estrangeira (ou língua internacional) em que a dimensão política, principalmente no tocante à preservação e afirmação da nossa identidade e dos nossos alunos, dos nossos direitos linguísticos e culturais, é levada em conta, debatida e cultivada (SIQUEIRA; 2008 p. 106).
Entretanto, tal atitude que poderíamos cunhar de (neo)colonizada, como aponta Moita Lopes , não surgiu simplesmente do nada. Para este autor, “os professores de inglês não estão sozinhos: esta parece ser uma posição latente no Brasil” (MOITA LOPES, 1996, p.38) e, embora sejamos criticados ferozmente por tal postura, nota-se que o caminho da conformidade e da acomodação é geralmente o escolhido.
Em consonância com o que foi dito, Cruz (1999) afirma que deve fazer parte da tarefa diária dos professores de línguas sair da zona de conforto, reagir a essa situação de apatia e aparente neutralidade e preparar os nossos alunos para o confronto com a língua e a cultura do outro. É por isso que Mendes (2007, p.127) preconiza que a cultura no ambiente de ensino e aprendizagem deve promover a integração e o respeito à diversidade dos povos, à diferença, permitindo o aprendiz encontrar-se com a outra cultura sem deixar de ser ele mesmo.
Por tudo o que foi discutido aqui, é essencial que os professores de línguas estrangeiras no Brasil entendam que a superação do sentimento de inferioridade cultural ocorrerá exatamente por um trabalho de desmistificação junto ao educando, no sentido de esclarecer serem os fatores de ordem socioeconômica - e não cultural ou linguístico - os que classificam as classes populares como cultural e linguisticamente inferiores, dando margem aos preconceitos de diversos tipos.
Fazendo isso, estaremos também estimulando a democratização de línguas no Brasil, pois falar, confrontar, conhecer e ensinar línguas estrangeiras pode ser, para a maioria da população, e, especialmente para os alunos que frequentam a escola pública, a oportunidade de intercâmbio cultural e o alargamento das várias possibilidades de expressão e comunicação, justamente a sua janela aberta para o mundo.
Como sugere Siqueira (2008, p.105), os brasileiros, assim como os jovens de outras nacionalidades, nascidos na era da informação, sabem que têm o direito de aprender a língua franca de sua geração para serem inseridos no processo de desenvolvimento que vem acontecendo em escala global. Entretanto, poucos jovens brasileiros têm acesso a essa língua que possibilita a entrada nessa revolução. Para o citado autor, é preciso dar-lhes acesso a esta língua para que eles possam consumir valores culturais, bens e produtos de diferentes partes do mundo e que aprendam, principalmente, a criticar o mundo (SIQUEIRA, 2008, p.105).