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O SURGIMENTO DA INTERNET

No documento thaiseamorimalves (páginas 60-63)

3. INTERFACE GRÁFICA, O QUE SABEMOS?

3.3 O SURGIMENTO DA INTERNET

Como estudado até aqui, o computador foi grande impulsionador de novos

gadgets; mas, talvez a maior surpresa que esta “máquina de calcular” nos reservava era a

internet. A chegada da WWW (World Wide Web) viria proporcionar e propiciar uma transformação cultural. Se o computador nasceu da busca de militares em se situar um passo à frente de seus eventuais inimigos, é possível afirmar-se que a web teria trajetória muito diferente. Na metade do século XX, Estados Unidos e União Soviética disputavam poder e o domínio do mundo. Na década de 50, a União Soviética lançou o primeiro Sputnik, assustando os EUA. De fato, a primeira iniciativa de conquista do espaço por parte da União Soviética terá motivado o bloco ocidental a lançar-se na exploração de sistemas de comunicação em rede, estabelecido entre computadores.

A Agência de Projetos de Pesquisa Avançada (ARPA), do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, uma das maiores instituições de pesquisa do mundo, se viu instigada a superar seu inimigo. “A criação e o desenvolvimento da internet nas três últimas décadas do século XX foram consequências de uma fusão singular de estratégia militar, grande cooperação cientifica, iniciativa tecnológica e inovação contracultural” (CASTELLS, 1999:82). Até então, os computadores dispunham de uma central que distribuía as mensagens entre as máquinas; mas, em 1º de setembro de 1969, foi inaugurada a primeira rede de computadores, conhecida como ARPANET. Ela foi assim chamada porque a ARPA era sua maior financiadora.

A rede ARPANET continha quatro nós ou núcleos: um na Universidade da Califórnia, em Los Angeles; outro no Stanford Research; um terceiro na Universidade da Califórnia em Santa Bárbara; o último na Universidade de Utah. Inicialmente os centros de pesquisa que atuavam junto à Defesa dos EUA detinham seu acesso, mas logo os cientistas começaram usá-lo para fins de intercomunicação, criando uma rede privada para tal fim. Desse momento em diante, tornou-se difícil separar pesquisas militares de pesquisas científicas. Em 1983, a ARPANET foi dividida em duas: ARPANET e MILNET. A primeira reunia temas e assuntos científicos; a segunda, militares. A partir da década de 80 o nome internet passou a ser usado. Outras redes conectadas à internet então apareceram, cada uma com interesses mais ou menos particulares, mas já de domínio público.

Com as potencialidades que a rede apresentava, e à medida que as pesquisas iam se desenvolvendo, as pressões para liberá-la para o setor privado aumentavam. Em abril de 1995, o governo deixou de ter sua posse, e ela se tornou bem imaterial privado, mas ainda

sem contar com uma autoridade supervisora. “A universalidade da linguagem digital e a pura lógica das redes do sistema de comunicação geraram as condições tecnológicas para a comunicação global horizontal” (CASTELLS: 1999:82).

Embora a internet tivesse características algo anárquicas, oferecia potencialidades de um novo meio de comunicação quanto deixava entrever a emergência de uma nova cultura ― dando curso à visão mais libertária na década de 60 nos EUA. Trouxe, por exemplo, para o centro uma busca do novo, em grande parte ilustrada pelos chamados “hackers”, agora parte integrante da contracultura que se instaurava. Antes de a expressão “to be a hacker” 33 ganhar uma conotação negativa, seus adeptos eram conhecidos por apresentar autênticas descobertas tecnológicas, como o modem (1978). Esses artefatos, criados de forma “caseira” e depois usados em larga escala, davam corpo a um lema representativo do sentimento da época: “computador para o povo (computer for people)” (LEMOS, 2004:101).

Entrecruzaram-se duas mentalidades: uma que valorizava méritos científicos, baseando- se em civismo e patriotismo; outra, mais rebelde e libertária nascida com a internet, perseguindo utopias de igualdade e cooperação. Foram assim lançados os pilares da internet: auto-regulação e capacidade de expansão.

Os principais agentes tecnológicos nas décadas de 1960 e 1970 eram, entre outros, J. C. R. Licklider, Paul Baran, Douglas Engelbart (...), Robert Taylor, Ivan Sutherland, Lawrence Roberts, Alex McKenzie, Robert Kahn, Alan Kay, Robert Thomas, Robert Matcalfe e um brilhante teórico da ciência da computação, Leonard Kleinrock, e seu séquito de alunos excelentes da pós-graduação da UCLA, que se tornariam algumas das cabeças fundamentais no projeto e no desenvolvimento da Internet: Vinton Cerf, Stephen Crocker, Jon Postel entre outros (CASTELLS, 1999:85).

Em 1978, o matemático e informático Vinton Gray Cerf, em parceria com o cientista da computação Jonathan Bruce Postel (1943-1998), dividiu o protocolo de comunicação das máquinas em duas partes: servidor-a-servidor (TCP) e protocolo inter-redes (IP). Esse protocolo TCP/IP, em 1980, tornou-se protocolo-padrão nos Estados Unidos. Devido a sua flexibilidade, obteve grande aceitação. Isso resolvia o problema da limitação da transferência de dados na rede entre os servidores; doravante, os computadores estavam capacitados a decodificar, entre si, pacotes de dados que trafegassem em alta velocidade pela internet.

O TCP/IP atrelado ao software Unix34, permitia acessar um computador remotamente. Três estudantes universitários autônomos introduziram uma alteração no Unix, que permitia a

33

Tradução livre: “Ser um hacker”.

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O Unix é conhecido por ser o pai dos sistemas operacionais. Sua história remonta aos anos de 1960, quando Kenneth Thompson, Dennis Ritchie e outros programadores se juntaram para desenvolver o sistema

interligação de computadores via linha telefônica comum. Criaram o Usenet News, que foi o primeiro software de conversa em larga escala. Daí em diante, qualquer um que dispusesse de um computador pessoal, um modem e linha telefônica poderia se conectar com grupos de seu interesse. Howard Rheingold as chamou de “comunidades virtuais” (RHEINGOLD, 1993).

Até o início de 1990, o acesso ainda era limitado, sem oferecer facilidades para os não- iniciados. Era preciso conhecimento técnico para enviar e receber informações. A criação de um novo software, conhecido por WWW (World Wide Web), permitiu aos usuários acessar servidores usando uma interface. Difundiu-se assim a internet para o grande público. Inaugurado em 1990, no Centre Européen pour Recherche Nucleaire (CERN), em Genebra, contando com uma equipe chefiada por Tim Berners Lee e Robert Cailliau, a WWW com a contribuição de hackers, viria ser montada.

Segundo Vinton Cerf, “durante a segunda metade da próxima década ― entre 2005 e 2010 ― haverá um novo propulsor, de origem tecnológica: bilhões de aparelhos ligados à internet”35. O que à época era uma previsão, hoje, passadas quase duas décadas, é fato consumado. Em outra ocasião, Carl Hall e John Markoff, ao se voltar não somente para a internet, mas também para os avanços técnicos dos aparatos de processamento de dados, fixando-se no quanto aumentavam sua capacidade e velocidade, afirmaram: as redes de computadores serão, materialmente falando, a trama da nossa vida (HALL; MARKOFF).

Por este curto histórico, percebe-se que o meio de comunicação internet, embora de introdução recente, expandiu-se em grande velocidade, permanecendo autônomo e alterando profundamente o curso de nossa cultura. De acordo com Castells, se fosse preciso resumir a trajetória da internet em uma frase, seria a seguinte: “uma criação cultural” (CASTELLS, 2001:52).

operacional Multics nos Laboratórios Bell da AT&T. A ideia era criar um sistema capaz de comportar centenas de usuários, mas diferenças entre os grandes grupos envolvidos na pesquisa (AT&T, General Eletronic e Instituto de Tecnologia de Massachusetts) levaram o Multics ao fracasso. Contudo, em 1969, Thompson começou a reescrever o sistema com pretensões não tão grandes, e aí surge o Unics, que, em 1973, com ajuda de Dennis Ritchie, aprimora a linguagem empregada no sistema e o nome fica finalmente conhecido como

Unix. O Unix foi o primeiro sistema a introduzir conceitos muito importantes para sistemas operacionais, como

suporte a multiusuários, multitarefas e portabilidade. Acredita-se que a escolha da nova linguagem de programação (C) foi um dos principais fatores de sucesso do sistema. Atualmente é um sistema de código livre utilizado como base em uma série de outros sistemas operacionais, entre eles, nomes consagrados como Gnu/Linux, Mac OS X.

35

Reportagem especial do The Economist, publicada em 11 de setembro de 1997. “A survey of Telecommunications: From circuits to packets”. Disponível em: <http://www.economist.com/node/5991 61> Acesso em: 24 de agosto de 2016.

No documento thaiseamorimalves (páginas 60-63)