O COOPERATIVISMO BRASILEIRO: DE SUA GÊNESE AS PRÁTICAS DE PROTEÇÃO SOCIAL
2.1 O cooperativismo no Brasil
2.1.1 O surgimento e a expansão do cooperativismo no Brasil
De acordo com PINHO (1962), o surgimento do cooperativismo no Brasil pode ser situado nos últimos anos da década de oitenta do século XIX, quando algumas pessoas que se interessavam pelas questões sociais já se preocupavam com a necessidade de organização dos trabalhadores, sobretudo, após a desorganização das relações entre os patrões e os empregados, decorrente da abolição da escravatura. Desde essa época, o cooperativismo já fora apresentado como uma das melhores soluções para atender a questões como estas, bem como para resolver outros problemas econômicos e sociais de determinados grupos de indivíduos. Desde então, no Brasil, o cooperativismo já passou a ser visto, sobretudo pelos trabalhadores, como instrumentos de amortecimento de conflitos gerados das questões sociais advindas, sobretudo, da relação entre patrões e empregados, que tinham suas origens a partir das crises geradas pelo modelo econômico aqui praticado. No entanto, mesmo visto por esse ângulo, o cooperativismo, na compreensão quase que unânime dos seus simpatizantes, era considerado algo que ajudaria a atender bem aos interesses das mais variadas classes ou segmentos sociais. Isso pode ser demonstrado quando uma revista que era editada no Rio de Janeiro, chamada Revista Financeira, publicou, em maio de 1888, um artigo que enaltecia a função do cooperativismo, dizendo que:
“As associações cooperativas fundam-se unicamente para o bem coletivo dos seus
associados, desenvolvem a sociabilidade, que dá origem a recíproca benevolência e esta ao amor pelos nossos semelhantes. A cooperação mútua é, pois, um elemento de ordem, fraternidade e de justiça, um incentivo poderoso ao bem, ao processo intelectual e moral, fonte de economia e riqueza das nações” (PINHO, 1962:169-
170)10.
Por sua vez, já em 1889, Santana Nery representou o Brasil num Congresso Cooperativista na França, segundo informações de um dos organizadores do evento, o senhor Charles Gide. Dessa maneira, fica demonstrada a participação brasileira na construção da história do cooperativismo mundial, o que significava sua primeira relação internacional. Logo em seguida, em 1891, surgiu a primeira cooperativa brasileira, a Associação Cooperativa dos Empregados da Companhia Telefônica, em Limeira, no estado de São Paulo. Em 1894, surgiu a Cooperativa Militar de Consumo, no Rio de Janeiro; em 1895, a Cooperativa de Consumo de Camaragibe ou Cooperativa do Proletariado Industrial de Camaragibe, em Pernambuco e, em 1897, surgiu a Cooperativa dos Empregados da Companhia Paulista, em Campinas (PINHO, 1962).
Um dado importante é preciso ser avaliado, pois se observa que as primeiras cooperativas que foram criadas no Brasil traziam duplos interesses, ou seja, ora eram criadas por interesses dos próprios associados, ora pelos interesses de alguns patrões. Esse duplo interesse representava, de um lado, a necessidade dos próprios trabalhadores, mas, de outro lado, demonstrava o oportunismo patronal em estimular e estar à frente na criação de cooperativas, com o objetivo de transferir para elas parte das obrigações que lhes eram próprias. Conforme afirma MAURER JUNIOR (1966), um bom exemplo a ser citado sobre o
10 Esta citação é transcrição feita pela autora da obra Ordem e Progresso, Tomo II, pág. 749, de Gilberto Freire, publicado em 1959.
interesse patronal é o caso da Cooperativa de Camaragibe, em Pernambuco. Essa cooperativa foi criada por interesse do senhor Carlos Alberto de Menezes, proprietário da fábrica cujos trabalhadores se tornaram cooperados. Segundo este patrão, a cooperativa iria ajudar no barateamento dos produtos que os trabalhadores consumiam e, assim, aliviaria o dilema vivido por estes relacionado aos baixos salários e ao alto custo de vida.
Foi com esse tipo de iniciativa que, no Brasil, foi incubado e criado um tipo característico de cooperativas que MAURER JUNIOR (1966) chama de cooperativas de classe ou cooperativas que eram criadas para atender indiretamente a uma determinada classe. Neste caso, a classe patronal. Ressalta-se, aqui, que, ao considerá-las como cooperativas de classe, o autor não esta fazendo referência aos conceitos de classes sociais, mas apenas se referindo ao fato de ela servir a um determinado setor social, que não tem nenhuma relação com, por exemplo, o conceito marxista de classe.
Para este autor, essas cooperativas, que surgiram inicialmente por interesses dos patrões que se preocupavam em ajudar, com a criação de cooperativas de consumo, a amenizar a situação dificultosa pela qual passavam os trabalhadores, sobretudo, em função dos baixos salários praticados à época, tinham uma clara função em atender ao interesse da ‘classe’ patronal. Isso porque essa prática forçava os trabalhadores a mudar o eixo das reivindicações, ou seja, os trabalhadores passavam a ver não nos patrões e nas relações capital versus trabalho a problemática dos baixos salários. Havia um incentivo tácito para que os trabalhadores passassem a designar como culpado pela falta de poder aquisitivo, por exemplo, o alto preço de determinados produtos. Desse modo, a estratégia patronal era valiosa para a possibilidade de manter as relações de trabalho com se encontravam.
Porém, com o passar do tempo, elas passaram a ser constituídas pelos próprios trabalhadores, especificamente para defender seus interesses de classe, tornando-se, segundo este autor, sociedades fechadas e quase sempre ligadas a um partido político ou a um sindicato. Maurer Junior condena este tipo de cooperativas, pois, julgando-as sociedades fechadas, acredita que constituídas com estes propósitos, traem os ‘princípios rochdelianos’ de sociedade aberta. Aliás, este posicionamento cria uma das vertentes ideológicas do cooperativismo brasileiro e que possui fortes reflexos nas atuais cooperativas populares conforme será observado nos itens seguintes deste capítulo. Isso porque, ao condenar esse tipo de cooperativa, Maurer Junior tenta levantar a tese do “purismo” rochdeliano acerca do princípio da neutralidade política, esquecendo-se ele de que os Pioneiros de Rochdale, embora registrassem em seus princípios a questão da neutralidade política, religiosa, de raça, etc., eram todos trabalhadores desempregados e que estavam buscando alternativas para a sobrevivência e formas de se protegerem dos efeitos causados pelo liberalismo econômico, sobretudo as questões do desemprego e da exclusão. Foi para isso que criaram a primeira cooperativa, que era uma cooperativa de consumo e que tinha a função básica de ofertar produtos básicos a preços menores do que os de mercado, visando para isto a estratégia de adquirir produtos em quantidades altas, o que garantia preços mais baixos.
Desse modo, criticar ou condenar uma cooperativa criada por um grupo de trabalhadores, alegando que ela se transforma em sociedade fechada, não procede. Basta observar um outro princípio do cooperativismo que Maurer Junior tanto louva em seus escritos, que é o princípio da adesão livre, aquele que, precisamente, permite a entrada e a saída dos associados quando assim desejarem. Por esta via de compreensão, a denúncia de Maurer Júnior é vazia e traz em si a tese de que as cooperativas não podem ser criadas pelos trabalhadores, mas sim por grupos mistos, por exemplo, por trabalhadores e patrões, tentando assim fazer valer o velho argumento liberal de que todos são iguais e podem viver dentro da mesma organização sem conflitos de classe e de que, nestes casos, a cooperativa deverá ser organizada desta maneira.
Entretanto, Maurer Junior tem alguma razão ao criticar essas, por ele chamadas, “cooperativas classistas”. Ele argumenta que elas não poderiam ser criadas pelos patrões e “ofertadas” aos trabalhadores, mas que, sim, elas deveriam ser criadas pelas pessoas que, em harmonia, passariam a viver sob o teto da organização cooperativa.
Por outro lado, Maurer Junior critica a idéia de que os sindicatos e partidos políticos possam estar ajudando a criar cooperativas. No entanto, ele faz isso apenas porque reúne as informações de que estes partidos ou sindicatos são criados pelos próprios trabalhadores, o que caracterizaria a criação de cooperativas que absorveriam apenas uma classe.
Quando as suas argumentações passam a ser outra, por exemplo, quando ele defende a tese da ‘república cooperativa’, o faz a partir da sugestão de que se tentasse, com isso, criar um novo modo de produção, distribuição e consumo que pudesse representar uma via alternativa ao capitalismo e ao socialismo. Neste sentido, parece sugerir que o cooperativismo pode ser organizado pelo estado, o que nega a sua principal tese, a da autonomia. (MAURER JUNIOR, 1966).
Para localizar as incoerências de Maurer Junior, basta saber que ele se posicionava contra o fato de uma cooperativa ser criada por trabalhadores ligados a um sindicato, mas não era contra a uma cooperativa criada por trabalhadores sem ligação sindical. Isso poderá ser observado no decorrer deste capítulo, quando ele ressalta o que chamou da primeira cooperativa verdadeiramente popular criada no Brasil.
Estas posições de Maurer Junior, em verdade, significam uma entre as tantas variantes acerca da compreensão do cooperativismo brasileiro. Variantes estas que observaremos na seqüência deste item. A Apresentação será resumida, pois a explicitação e a compreensão profundas destas variantes não são objetivos desta pesquisa. Porém, é de fundamental importância que estas variantes sejam elencadas, para que possamos enxergar, por exemplo, que, embora no Brasil tenhamos desenvolvido um tipo de cooperativismo muito particular, ele vai permitir que o Estado se aproprie e chame para si o papel de organizador e fiscalizador das cooperativas brasileiras. Mas, ao mesmo tempo, se observa o surgimento de cooperativas que adotam, em suas estratégias, resistências a este tipo de ação do Estado. Aliás, este é o assunto que será tratado a seguir, dando-se destaque a cronologia do surgimento do cooperativismo no Brasil.
Para MAURER JUNIOR (1966), foi em 1902 que teve início o genuíno cooperativismo brasileiro, com a criação da Caixa Rural Raiffeisen, no Rio Grande do Sul11.
Dentre as cooperativas surgidas naquela época, destaca-se a Cooperativa Internacional da Lapa, que foi criada por um grupo de imigrantes ingleses que trabalhavam na São Paulo Railway que, depois, se transformou na Companhia Ferroviária Santos–Jundiaí, PINHO (1962) se refere a esta companhia como a Companhia Paulista de Estradas de Ferro, com sede em Jundiaí, no estado de São Paulo). Esta cooperativa, segundo Maurer Junior, foi a primeira a ter se inspirado diretamente no movimento cooperativista inglês, pois, conforme seus argumentos, enquanto na Alemanha e na França as cooperativas surgiam para juntar classes, na Inglaterra elas surgiam apenas das classes populares. Neste caso, o autor afirma que é “digno de nota que essa cooperativa, nascida embora entre representantes de uma classe,
tenha sido a nossa primeira cooperativa verdadeiramente popular” (MAURER JUNIOR,
1966:65).
11 Tratava-se de uma cooperativa inspirada nas caixas rurais alemãs que foram pioneiras no gênero. Seu idealizador foi Friedrich Wilhelm Raiffeisen