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3 AS ROTAS DO TRÁFICO: ONDE O CRIME E O TERRORISMO SE

3.1 O TERRORISMO E OS CRIMES TRANSFRONTEIRIÇOS

Foz do Iguaçu é a cidade brasileira na região da Tríplice Fronteira (Argentina, Brasil e Paraguai) situada na porção meridional da América do Sul. É considerada por muitos como uma cidade cosmopolita por coexistirem diversas etnias, como árabes, indianos, coreanos, chineses, dentro outras. A região fica situada entre dois importantes rios: o rio Paraná e o rio Iguaçu e faz fronteira com duas cidades irmãs: Ciudad del Leste (Paraguai) e Puerto Iguazú (Argentina).

No último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) a cidade brasileira apresentou cerca de 256.088 pessoas. A população da região da tríplice Fronteira aumentou atraída, principalmente pela possibilidade da Zona Franca da Cidade do Leste.

Segundo Chichoski e Silva a China iniciou sua imigração nas décadas de 1970 e 1980, atraídas pelo comércio de elétrico e eletrônico e miudezas (2017, p.6). Os árabes vieram na década de 1960 fugindo, em sua maioria, dos conflitos do Oriente Médio e já em 2010 era a segunda maior comunidade da América do Sul, contando com aproximadamente 22 mil árabes e descendentes, conforme afirma Amaral:

Desde o final da década de 1960, Ciudad del Este e principalmente Foz do Iguaçu estavam se tornando o destino de grande contingente de imigrantes de origem árabe. Em sua maioria, estes indivíduos deixavam seus países de origem para fugir dos vários conflitos que eclodiram no Oriente Médio logo após a Segunda Guerra Mundial, dentre os quais a Guerra Civil do Líbano (1970-1990) ganhou um infeliz destaque. Atualmente, a comunidade de descendência árabe presente na região é considerada a segunda mais importante da América do Sul, somente superada pela presente em São Paulo (AMARAL, 2010, p.30).

Conforme assevera Aita (2016), na região da Tríplice Fronteira Sul (TFS) existem colônias de árabes, de maioria palestina, libanesa, síria e egípcia, que chegaram no início dos anos 1960 buscando oportunidades de comércio na fronteira. Aita apud Carneira afirma que a quase todos os árabes desta região professa o islamismo, sendo os xiitas maioria. Em Ciudad del Este vivem aproximadamente 9 mil

muçulmanos, sendo a maioria xiita, e na cidade de Puerto Iguazú não há uma significativa comunidade árabe (CARNEIRO, 2016).

Na década de 1990 ocorreram dois atentados terroristas na Argentina, o primeiro foi realizado contra a Embaixada de Israel, em março de 1992, onde um carro bomba explodiu, deixou 29 mortos e aproximadamente 350 feridos. Já o segundo, foi perpetrado contra um centro comunitário judaico (Asociación Mutuales Israelitas Argentinas – AMIA) em 1994, culminando com a morte de 85 pessoas e ferindo outras 300.

Entretanto, como afirma Aita apud Lasmar (2015), a justiça argentina somente divulgou em 2013, que o resultado das investigações apontava para o governo do Irã com a participação de alguns diplomatas locais como planejadores e financiadores do atentado terrorista, o que levou as autoridades argentinas a descartarem a participação dos habitantes da TFS nos atentados.

Porém nesse meio tempo ocorreram os atentados do 11 de Setembro de 2001, que jogaram luz, mais uma vez, na TFS. A região foi acompanhada pelos EUA com mais intensidade por ser considerada como um possível refúgio de terroristas, em decorrência de sua comunidade árabe e de seu histórico anterior.

Conforme publicado no relatório sobre as atividades de grupos criminosos e terroristas na TFS, de autoria de Rex Hudson (2010), a presença de grupos terroristas, dentre eles o Hizballah, na América do Sul, ocorre desde a segunda metade da década de 1980, quando agentes desses grupos começaram a recrutar simpatizantes na região. Ainda segundo o relatório, a região seria usada como um local seguro para a prática de atividades suporte para os atentados terroristas, tais como: levantamento de recursos, lavagem de dinheiro, recrutamento de simpatizantes, treinamento do pessoal, planejamento dos atentados, dentre tantas outras ligadas às práticas terroristas.

Além do relatório citado, Aita menciona Castro (2015) quando este levanta outros aspectos importantes nessa análise:

A porosidade da fronteira tríplice, materializada pelo intenso trânsito de pessoas e mercadorias, além do contrabando e tráfico de drogas e de armas, seria indicativo da possibilidade de ligação da região com o jihadismo, sobretudo por favorecer o financiamento de atividades terroristas em outras regiões do mundo. Além disso, atribui-se à TFS carga de periculosidade

devido ao elevado número de imigrantes e descendentes árabes na população local, em especial libaneses originários do Vale do Bekaa (sul do Líbano), fronteira com Israel e núcleo de atuação do grupo Hizbalah (CASTRO, 2015).

Como assevera Noriega e Cardenas (2011), o grupo terrorista Hizbalah, financiado pelo Irã aumentaram suas operações na América do Sul e se constituem em uma ameaça na região.

Apesar de o Brasil possuir outras oito cidades em região de tríplice fronteira, a TFS por seu valor geopolítico é a mais importante. A região tem três aeroportos internacionais, rodovias que ligam as cidades irmãs e demandam para o interior de seus países, importante rede fluvial que possibilita a navegação e a geração de energia elétrica, importante para o Brasil e fundamental para o Paraguai, tudo isso favorecendo sobremaneira a ocupação e o desenvolvimento regional.

Entretanto, os últimos anos têm revelado um incremento significativo nos crimes transfronteiriços ou transnacionais. Em 24 de abril de 2017, bandidos fortemente armados, realizaram um assalto à uma transportadora de valores no Paraguai, levando, aproximadamente, US$ 11,7 milhões, o que corresponde aproximadamente a R$ 40 milhões. Nesse que é considerado o maior assalto já ocorrido no Paraguai e segundo investigações conjuntas entre as polícias do Brasil e daquele país, foi realizado por brasileiros, conforme afirma o delegado-Chefe da polícia federal em Foz do Iguaçu:

Essa foi uma ação feita por brasileiros. Foi um planejamento extenso, com o uso de armamentos robustos. Isso leva a crer que foi ato de uma organização ou de organizações criminosas que agem no Brasil e, também no Paraguai (FABIANO BORDIGNON).

Ainda, conforme os Anais do I Seminário de Pós-Graduação de Relações Internacionais (UNILA):

Não é de hoje que os crimes transfronteiriços ocorrem na região da Tríplice Fronteira, desde o início da formação da região, ervateiros, principalmente argentinos praticavam contrabando. Também ocorreu em momentos diferentes o ciclo do

contrabando da madeira e café, e após o começo da construção da Hidrelétrica de Itaipu com o bum populacional ocorrido com a vinda de barrageiros de todos os estados brasileiros e a explosão do comércio em Ciudad del Este que na época tinha o nome de Puerto Presidente Strossener tivemos o início do contrabando de eletrônicos, bebidas e diversos outros produtos que eram comprados no Paraguai por preços baixos (CHICHOSKI e SILVA, 2017, p.10).

Hoje, existe uma estimativa de pelo menos 30 quadrilhas criminosas atuantes na região da tríplice fronteira. Contudo, segundo Fabíola Perez afirmou em uma matéria publicada na revista Isto É, um relatório da Fundação de Defesa da Democracia (FDD) para a Comissão de Relação Exteriores do Senado dos Estados Unidos o grupo extremista Hezbollah, de origem libanesa, vem atuando no Brasil em parceria com a organização criminosa paulista Primeiro Comando da Capital (PCC) para fortalecer o comércio ilegal de produtos contrabandeados, principalmente, do Paraguai.

Ainda, segundo a autora, o Hezbollah e o PCC, além de atuarem no tráfico de drogas produzidas nos países andinos e Paraguai, como a cocaína e a maconha, a aliança criminosa domina o contrabando de cigarros para o Brasil. Perez apud Ottolenghi assevera que o Hezbollah auxiliaram o PCC na obtenção de armamento e acesso aos canais internacionais do crime em troca de proteção de prisioneiros de origem libanesa no Brasil ( EMANUELE OTTOLENGHI).

Desta forma podemos conjecturar que a presença, cada vez mais intensa, de elementos ligados à grupos terroristas, como o Hezbollah, na região da TFS, participando do comércio ilegal do contrabando do cigarro, aumenta a possibilidade destes financiarem, de alguma forma, seus atos terroristas em alguma parte do globo.

4 O SISTEMA PRISIONAL BRASILEIRO: LOCAL DE CUMPRIMENTO DE PENA

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