O FENÓMENO DO CUIDADO, SEGUNDO KIERKEGAARD
7. O teste da decisão
O sujeito é chamado a uma decisão mediante a qual dê uma configuração con- creta e sólida à sua vida. No entanto, é mais fácil fragmentar-se numa multi- plicidade de formas que apenas se assemelham a si e que têm a consistência das sombras. Em primeiro lugar, o sujeito usa várias medidas porque fixar-se numa única exigiria mais do que está disposto a pagar. Evidentemente, não basta o sujeito declarar a sua fidelidade a uma categoria, pois é preciso que se modifique a si mesmo de tal modo que tal categoria passe a ser efectivamente
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o critério de medida da sua vida. Ou seja, é preciso que o sujeito se aproprie da medida, passe a existir nela – como o pedreiro que sabe dizer o peso das coisas simplesmente tendo-as nas mãos. Apropriar uma medida significa este pro- cesso de interiorização pelo qual o sujeito se converte na medida. Acontece que este processo exige esforço porque exige a fidelidade do sujeito a uma medida que, inicialmente, ainda não é aquela que efectivamente tem em uso. Assim, se a fidelidade a uma categoria exigiria demasiado, o sujeito recorre a outra mais
cómoda e tudo se passa como se a mudança fosse insignificante: como se não
estivesse a perder-se.[29] É o que acontece, diz Kierkegaard, com a mulher que
afirma que o seu amado é a coisa mais importante para si, mas que, depois da morte deste, rapidamente encontra um novo amor: “the beloved’s death […] becomes at most a little pause, something like sitting out a dance at a ball; half an hour later you are dancing with a new partner” (Kierkegaard, 1998, p. 318).[30] O exemplo pode parecer cruel.[31] Mas o ponto é que o sujeito saltita
entre categorias como um camaleão. Fixa-se apenas até certo ponto – na difi- culdade, troca de categoria. A fixação até certo ponto facilita a vida ao sujeito porque permite que deslize por ela ao sabor das circunstâncias: “a willing prey to life’s fickle, capricious changes” (Kierkegaard, 1990, p. 85). O indivíduo tor- na-se legião.
Em segundo lugar, o sujeito usa várias medidas, justamente, porque nenhuma cumpre os requisitos de validade. O sujeito precisa sempre de uma medida para a vida, mas aquelas que usa são curtas de mais. Por isso, precisa de várias para a cobrir toda. A sua vida mais parece uma manta de retalhos. Da mesma forma, o sujeito precisa de várias medidas porque nenhuma delas parece oferecer segurança: “the best thing to do is to divide your strength so that you can win in one thing if you lose in something else” (Kierkegaard, 2009b, p. 85). Evidentemente, é arriscado “to put all my eggs in one basket”. Quer dizer, o sujeito procura assegurar a vida apostando em várias frentes. Dado que todas as medidas que tem são precárias, a jogada mais segura parece ser aquela que cobre várias possibilidades em vez de arriscar tudo numa que 29 Cf. Kierkegaard, 1990, p. 54. Veja-se, também, o que diz Anti-Climacus: “[t]he greatest hazard of all, losing the self, can occur very quietly in the world, as if it were nothing at all. No other loss can occur so quietly; any other loss – an arm, a leg, five dollars, a wife, etc. – is sure to be noticed” (Kierkegaard, 1983, pp. 32-33).
30 Cf., Kierkegaard, 1990, p. 210.
31 Na verdade, o edificante deve provocar o horror. Veja-se, a propósito, Carvalho & Ferro, 2007, p. 294, nota 81: “o horror é uma componente indispensável de qualquer forma de efectiva edificação”. O edificante “ataca o sujeito”.
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pode fracassar. O que está em causa é ainda, como não poderia deixar de ser,
assegurar a vida, conferir-lhe solidez. Mas tenta-o ao modo da dispersão. Seja como for, a renúncia a viver por um só critério torna a vida mais fácil, porque se escapa pelo curso que ofereça menor resistência: “[o]ne merely needs more and more to trivialize oneself, what it means to be a human being – then life becomes easier and easier. Be a blatherskite – and you will see, all difficulties vanish” (Kierkegaard, 1998, p. 318). Mas se o sujeito não quiser ser menos do que deve a si mesmo, terá de se fixar numa categoria.
O decisivo parece ser que, ao fixar-se numa só, o sujeito testa a validade da categoria e testa-se a si mesmo na categoria. Pelo contrário, se adopta várias nunca se fixa em nenhuma e, então, não chega a pôr à prova a validade de cada uma delas. Não se fixa nem abdica de nenhuma, usa-as a todas à vez e a prazo. Mas se um sujeito se fixa, efectivamente, numa só, então obriga-a a prestar contas. Se a medida falha ou se revela curta de mais, o sujeito reco- nhece que a escolha foi errada e que precisa de uma outra que ofereça mais
estabilidade. Assim, segundo Kierkegaard, quem verdadeiramente se vincula
a uma só coisa, de algum modo, já está a percorrer o caminho que o levará àquela categoria que satisfaz o requisito, ainda que comece por errar o alvo: “[t]hen everyone who in truth is to will one thing must be led to will the good” (Kierkegaard, 2009b, pp. 34-35). Por este motivo, Kierkegaard insiste no valor intrínseco de querer uma só coisa. Assim, mais importante do que o quê da fixação é o como, pois quem verdadeiramente se fixar numa só coisa, ainda que comece por errar, será levado àquilo que pode cumprir os requisitos dessa mesma fixação: “a criterion [Maalestok] that is always valid and valid in itself” (Kierkegaard, 1990, p. 260). Quer dizer, o decisivo é que o sujeito reconfigure a relação de si consigo, porque se a forma da subjectividade for a adequada, de certa maneira, o conteúdo também o estará – ou, pelo menos, o conteúdo será, justamente, o esforço para isso.
8. Conclusão
O cuidado de si é uma estrutura formal, no entanto, o sujeito humano precisa de adquirir um modo de ser concreto, pois não pode viver na pura possi- bilidade, razão pela qual a existência requer uma decisão que a desforma- lize. Mas, dada a formalidade da estrutura do cuidado a escolha parece ser absolutamente arbitrária. Então, o problema que se põe é saber como evitar
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a arbitrariedade. Ora, a proposta de Kierkegaard, nos discursos edificantes, é que o sujeito se deixe guiar pelo próprio cuidado de si como se fosse a sua bússola. A medida do humano terá de ter certas qualidades, porque tem de ser o correlato dos requisitos da própria subjectividade. De certa forma, a possibilidade mais própria do sujeito está desde sempre nele para ser adquirida por si. Por isso, o cuidado de si não é uma estrutura totalmente arbitrária. Pelo contrário: a arbitrariedade resulta de uma relação frouxa a si. A intensificação do cuidado de si conduz a existência à única tarefa que
importa concretizar. Assim, a análise do cuidado de si permite-nos chegar a
algumas conclusões interessantes.
A primeira é que a estrutura do cuidado pede e aponta para uma desfor- malização concreta. Deste modo, parece haver, efectivamente, uma escala exis-
tencial – fundada na autoridade da própria existência e das suas condições de
constituição – perante a qual as várias desformalizações da tensão existencial não têm o mesmo estatuto, porque não respondem todas com igual conve- niência aos requisitos da subjectividade. A incapacidade de responder adequa- damente aos requisitos internos corresponde à frustração existencial. Assim, o que está em causa não é escolher uma possibilidade entre outras, mas sim escolher precisamente aquela que assegura viabilidade. Neste sentido, torna-se premente uma condução da existência que se concretize como cuidado com a sua possibilidade mais própria.
A segunda conclusão – que não se confunde com a anterior, embora derive dela – é que a decisão não tem um carácter arbitrário. De facto, tal como Kier- kegaard a concebe, a decisão seria sempre intrinsecamente incompatível com a inconstância existencial, pois implica a fixação. Contudo, isso poderia acon- tecer apenas em virtude de implicar, justamente, a fixação de uma medida e não porque houvesse apenas uma medida conveniente à subjectividade. Deste modo, a arbitrariedade não seria, efectivamente, dissolvida. É certo que haveria fixação de um sentido concreto, mas este poderia ser um qualquer. Ora, o que se apurou foi, pelo contrário, que qualquer fixação que deixe por cumprir os requisitos do si corresponde a uma possibilidade existencialmente inviável e inexequível – ainda que o sujeito viva efectivamente assim. No entanto, há um
nexo entre a verdadeira decisão e a desformalização da tensão existencial, pois a
decisão parece conduzir à possibilidade mais própria ou, pelo menos, corres- ponde ao esforço para isso.
Assim, podemos ainda perceber que a decisão em sentido próprio se situa ao nível mais fundamental do sujeito. A verdadeira decisão tem a forma de um
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aut/aut entre um cuidar de si retido fora de si e constitutivamente embargado,
e um cuidar de si interior que se tem a si mesmo e à sua viabilidade como preo- cupação fundamental. O que está em causa é, de facto, que o sujeito cuide de si da forma que lhe corresponde – e os discursos edificantes apontam para uma forma de cuidar de si que visa, justamente, isso. Este parece ser, justamente, o sentido do edificante: que o sujeito se constitua no esforço permanente de asse-
gurar as condições de viabilidade da sua própria vida.
Portanto, os discursos edificantes não pretendem dispor de uma posição investida de autoridade. Se mencionam Deus, não pretendem com isso apre- sentar uma medida externa ao sujeito. Pelo contrário, o que está em causa é, precisamente, uma noção de validade enquanto conveniência relativamente aos requisitos imanentes ao próprio sujeito. Ou seja, ao contrário do que parece à primeira vista, os discursos edificantes não pretendem dizer o que resolverá o problema, mas, isso sim, que o sujeito – o leitor – se constitua no
problema fundamental para si. A resposta – a haver – terá de ser adquirida por
via desse esforço interno de reconfiguração e constituição de si mesmo. Deste modo, aquilo que está em causa é algo que o indivíduo singular pode fazer por si mesmo dentro das suas possibilidades imediatas. Trata-se, portanto, de uma possibilidade que está inscrita na própria subjectividade – e que se pode falhar por completo, mas que também se pode actualizar pelas próprias forças. O edificante tem um carácter maiêutico, por isso, situa-se aquém do ponto de vista especificamente cristão. Destarte, sabemos que não esgota tudo aquilo que Kierkegaard tem a dizer. Mas, mesmo que, em última análise, a plena satis- fação dos requisitos existenciais só seja possível no âmbito da revelação (cristã), a tarefa edificante não perde importância, pois, do ponto de vista humano, o decisivo é – e não pode deixar de ser – que “striving is the very road to what is sought” (Kierkegaard, 1993, p. 20).
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