VERDADE NA SEXTA INVESTIGAÇÃO LÓGICA: REALISMO MÍNIMO E CONTEÚDO VIVENCIAL
2. Recheio perceptivo como definidor da autodoação
A noção de recheio perceptivo é definida como um tipo específico de conteúdo representante-apreendido (Repräsentant), esse, por sua vez, um tipo especí- fico de conteúdo vivencial. Ocorrendo na Sexta Investigação Lógica, tal noção remete à distinção, central para Investigações Lógicas, entre intenção vazia e preenchimento. O par conceitual “intenção vazia e preenchimento” é consi- derado por Sokolowski, ao lado do par “parte e todo”, como o par conceitual mais básico para as análises fenomenológicas [5] (cf. Sokolowski, 2000/2004, p.
42 e 1974 pp. 4 e 8) e o reformula como “ausência e presença”: intenções vazias visam objetualidades ausentes, ao passo que intenções que podem ocupar a função de preenchimento visam objetualidades presentes.
Vale dizer que o uso que Husserl pretende dar a esse par conceitual é variegado. Como expõe de modo claro no § 13 da Sexta Investigação, ele serve para esclarecer a relação entre uma intenção de volição e uma intenção que reconhece sua realização, o mesmo valendo para o desejo.[6] Além disso,
Husserl também descreve em termos de “presença e ausência” ou, se assim preferirmos, “cheio e vazio”, a diferença entre subtipos de atos intuitivos – percepção, consciência de imagem (Bildbewusstsein) e fantasia (Phantasie): conquanto todos esses atos sejam considerados atos com teor intuitivo, os de imaginação e de fantasia são ditos serem vazios se comparados com atos de percepção. Ainda respectivamente a essa diferença, atos de percepção podem, sob certa perspectiva, ser ditos vazios. Em todos esses casos, o que está em jogo no uso do par conceitual “intenção e preenchimento” é a possi- bilidade de comparação de atos e correlatos de atos de modo a formar uma consciência de identidade, isto é, uma consciência de que o mesmo objeto é intencionado por dois atos distintos.
5 Em Husserlian Meditations, Sokolowski afirma: “Essa estrutura formal [a saber, de intenção vazia, preenchimento e recobrimento] está em operação em todos os níveis da experiência, desde a con- sciência interna do tempo até a confirmação de hipóteses científicas”. Cf. Sokolowski, 1974, p. 4. 6 Discordo da tese interpretativa de Bernet, para quem há no par conceitual intenção e preenchi-
mento, mesmo quando se trata de uma relação de conhecimento, uma conotação pragmática. Con- tra essa tese, podemos levantar a tese da Quinta Investigação de que toda vivência intencional da esfera volitiva ou do desejo deve estar fundada em atos objetivantes; bem como podemos citar pas- sagens explícitas de Husserl da Sexta Investigação: “Intenção não é expectativa, não lhe é essencial
ser dirigida a um acontecimento futuro” (Husserl, 1901/1988, p. 34). Quanto a isso, também Tugen-
dhat: “Obviamente, uma intenção objetivante não é essencialmente expectativa de preenchimento.” (Tugendhat, 1967/1970, p. 53).
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De todos os usos que Husserl faz desse par conceitual, o mais relevante em Investigações Lógicas é certamente aquele que diz respeito à caracteriza- ção de atos de significação como vazios, visando à elucidação do conheci- mento. O par conceitual intenção vazia e preenchimento, em seu uso mais relevante, diz respeito ao contraste entre respectivamente atos de significação e atos intuitivos, de modo a mostrar que ambos os atos podem ter o mesmo polo objetual. As primeiras ocorrências dos conceitos de intenção e preen- chimento podem ser encontradas na Primeira Investigação, em que se trata, de modo geral, de esclarecer como expressões linguísticas funcionam; mais exatamente, nos §§ 9 e 14, Husserl indica que já nessa investigação atos sig- nitivos estão sendo tratados como intenções vazias, respectivamente às quais intenções intuitivas podem ser intenções preenchedoras. Desse modo, ele pode distinguir entre intenções que são essenciais para a expressão linguística ser significativa – os atos de significação – e as intenções inessenciais para que expressões tenham significado – atos preenchedores. Aqui vemos indicada a tese que Husserl desenvolve na Sexta Investigação de que intenções de sig- nificação não precisam de elementos intuitivos. Uma expressão pode ter sig- nificado independentemente de a objetualidade expressa ser dada de modo intuitivo. Em outras palavras, o preenchimento pode “confirmar, reforçar ou ilustrar” (cf. Husserl, 1901/2012, p. 32) uma intenção de significação, mas essa não depende do preenchimento para se referir intencionalmente à objetualidade.
Fica claro, então, que o que está em jogo no par intenção vazia e preen- chimento, isto é, que o que distingue intenções vazias de intenções “cheias” é, como formula Tugendhat (1967/1970, p. 46), um momento – no sentido feno- menológico de uma parte dependente do todo – de intuitividade (Anschaulich-
keit) de atos. Ora, é esse momento de intuitividade dos atos que recebe o nome
de recheio, justamente para indicar sua função de preenchimento.
Ocorre, contudo, que atos de significação não são desprovidos de intuitivi- dade tout court. Esse elemento de intuitividade dos atos está presente em todo e qualquer ato em geral. Com efeito, como nota Sokolowski, não existe nada como “um puro pensar, que pudesse se dar sem a co-presença de uma dimen- são sensível” (Sokolowski, 1974, p. 23). Se assim é, que sentido há em se dizer que atos signitivos são vazios e podem se referir a objetos independentemente de intenções preenchedoras?
Na Sexta Investigação, o conceito de conteúdo representante-apreendido (Repräsentant) é cunhado por Husserl para caracterizar o momento de intuiti- vidade de atos em geral. Com a ajuda desse vocabulário, podemos reformular
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a pergunta do seguinte modo: como pode Husserl defender que atos signitivos independem do conteúdo representante-apreendido para visar objetualidades e, em geral, caracterizá-los como vazios, ao mesmo tempo em que não há cons- ciência intencional que esteja desprovida de tal teor intuitivo, de tal dimensão sensível, como Sokolowski coloca?
A diferença entre ato signitivo e ato intuitivo não reside por si só no con- teúdo representante-apreendido, mas sim na sua relação com aquele elemento da intenção responsável pela referência intencional, qual seja, a matéria inten- cional. Sendo o único elemento necessário para que se dê a referência inten- cional, a matéria intencional nada mais é do que um princípio de identificação do objeto a partir de um conjunto de determinações do próprio objeto. Tal conjunto de determinações diz como o objeto é intencionado. Como Husserl a define na Quinta Investigação:
matéria [...] é essa peculiaridade, residente no conteúdo fenomenológico do ato, que não determina apenas que o ato apreenda a objetividade correspondente, mas sim também
enquanto o que ele a apreende [...] (Husserl, 1901/2012, p. 356).
Assim, o mesmo objeto pode ser intencionado, em diferentes atos, segundo diferentes matérias intencionais. Ademais, matérias intencionais idênticas em atos numericamente diferentes, na medida em que especificam de que obje- tualidade se trata em uma determinada intenção, implicam que ambos os atos não apenas visam o mesmo objeto, mas o fazem de modo exatamente igual. Sendo, portanto, a matéria intencional necessária para toda e qualquer inten- ção – ainda que direta ou indiretamente –, tanto a intenção vazia quanto a intenção em função de preenchimento possuem tal elemento.
Desse modo, podemos esclarecer por que a diferença entre atos signitivos e intuitivos, enquanto atos vazios e “cheios”, reside, como já dito, na relação entre a matéria intencional e conteúdo representante-apreendido. Em atos sig- nitivos, a relação entre esses elementos será “contingente-externa” (Husserl, 1901/1988, p. 72), ao passo que em atos intuitivos e, sobretudo na percepção, a relação será “necessário-interna” (Husserl, 1901/1988, p. 72). Em um ato signitivo, o teor intuitivo desse ato diz respeito ao símbolo enquanto objeto físico e não necessita de nenhuma relação de semelhança com o objeto visado. Em um ato intuitivo, o teor intuitivo deve possuir uma ligação necessária e interna de semelhança com a coisa visada. Assim, quando temos um conteúdo representante-apreendido que tem uma relação contingente-externa com a
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matéria intencional, então temos aí um ato signitivo; quando temos um con- teúdo representante-apreendido que tem uma relação necessária-interna com a matéria intencional, então temos um ato intuitivo e esse conteúdo é propria- mente um recheio, quiçá, um recheio perceptivo.
O seguinte exemplo pode aclarar essa distinção: se leio compreensivamente o nome escrito “Napoleão” em um quadro-negro, isso implica que tenho a vivência intencional signitiva que visa o objeto Napoleão. Não obstante, não posso apontar para o signo enquanto objeto físico, isto é, para os traços escri- tos no quadro e dizer “esse é Napoleão”. Não obstante, caso veja um modelo de Napoleão, seja uma estátua, uma pintura ou uma imagem de qualquer tipo que seja, e tenha o que Husserl chama de consciência de imagem (Bildbewusst-
sein), posso dizer “Esse é Napoleão.”. Em um sentido ainda mais próprio, posso
proferir essa sentença de modo ainda mais significativo, caso pudesse ter uma percepção de Napoleão. A diferença entre casos de ato signitivo e casos de ato intuitivo é justamente a de que, a princípio (isto é, desconsiderando o fato de me encontrar dentro de convenções já estabelecidas), posso tomar qualquer objeto como símbolo de qualquer outro objeto. Tudo depende aí do ato signi- tivo – posso, por exemplo, colocar uma estátua de Napoleão na frente de minha casa para indicar que ganhei uma discussão – e então esse objeto não é mais um modelo para uma consciência de imagem, mas sim um símbolo, que tem uma relação contingente-externa com o objeto (cf. Sokolowski, 1974, p. 24).
Desse modo, Husserl elabora o conceito de recheio (Fülle) para designar o teor intuitivo de atos intuitivos, sejam eles atos de consciência de imagem, sejam eles atos de percepção. No primeiro caso, o recheio funciona segundo analogias e semelhanças a seu objeto, enquanto que, no segundo, o recheio apresenta o objeto nele mesmo. É porque certos atos possuem esses elementos que eles podem ser considerados intuitivos e que podem perfazer a função de preenchimento. E é a ausência desse elemento que permite determinar atos signitivos como atos vazios.
Ademais, é a presença desse elemento que faculta a Husserl o discurso de uma doação originária ou de um dar-se do objeto nele mesmo – essenciais para a fenomenologia e para a experiência da verdade. E, por fim, é aqui que encon- tramos o elemento fenomenológico que permite que se pense em um sentido mínimo de realismo, necessário para qualquer discurso de verdade como ade- quação. Com efeito, no Segundo Capítulo da Sexta Investigação, Husserl diz:
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Mas, por outro lado, cabe observar que o objeto, tal como é em si – em si, no único sentido aqui razoável e em causa, sentido este que o preenchimento da intenção de per- cepção realizaria – não é um outro totalmente diferente daquele em cujos termos a percepção o realiza, ainda que imperfeitamente. Está, por assim dizer, no próprio sen- tido da percepção, o de ser a aparição do objeto mesmo. (Husserl, 1901/2012, p. 47).
A percepção, como intenção dotada, por excelência, do teor intuitivo que Husserl denomina de “recheio”, é capaz de dar o objeto “em si mesmo”, no único sentido admissível de “em si” para a fenomenologia. Aqui podemos retomar as questões antes colocadas sobre o terceiro conceito de verdade. A aparente con- fusão de Husserl entre vivenciar e intencionar que ali ocorre pode ser enten- dida como resultado do fato de que o recheio perceptivo, enquanto conteúdo vivencial, aponta justamente para o objeto ele próprio como nenhum outro conteúdo representante-apreendido aponta. Para usar os termos de Hus- serl, nenhum outro conteúdo representante-apreendido tem uma relação tão interna e necessária com a matéria – e, portanto, com o objeto – quanto o recheio perceptivo.
Isso, contudo, não significa que o recheio perceptivo seja o objeto – isto é, que estejamos justificados em confundir o vivenciar com o intencionar. Como Husserl diz, na passagem citada, a noção de “em si” é aqui empregada em um sentido restrito. Pode-se esclarecer esse ponto com a ajuda do comentário de Tugendhat a respeito do uso do termo “mesmo” por Husserl articulado com a noção de objeto, ou, conforme o caso, coisa.
Tugendhat distingue dois significados de a “coisa mesma” segundo nosso uso comum da linguagem (cf. Tugendhat, 1967/1970, p. 57). De início, fala- mos de um “objeto mesmo” para diferenciá-lo de seu entorno ou de qualquer coisa que seja parte dele. De acordo com esse significado, em uma relação de afiguração, posso distinguir o objeto afigurado do objeto que serve de suporte para a afiguração – assim, posso dizer que me refiro não à imagem, ou a qual- quer elemento representante, mas “à coisa mesma”. Digo, por exemplo, que me refiro, explorando o exemplo acima, à Napoleão mesmo, e não à sua imagem pintada em um quadro, quando aponto para o quadro. Respectivamente a esse significado amplo de “mesmo”, podemos circunscrever outro significado do termo, que é mais específico. De acordo com um segundo sentido de “mesmo”, podemos distinguir o representado do mesmo representado, apenas em outro modo de se dar. Dizemos, então, que, na comparação entre uma visada sig- nitiva, uma consciência de imagem, e uma percepção, apenas na percepção
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estamos conscientes do objeto mesmo, no sentido de que apenas na percepção o objeto mesmo se dá originariamente.
Diferenciar esses dois sentidos de “mesmo” é relevante, pois ambos são decisivos na fenomenologia de Investigações Lógicas. O primeiro sentido é relevante, pois serve à caracterização husserliana da intencionalidade em geral, em contraposição à tese de que a consciência é consciência de estados intra- mentais – ao invés disso, a consciência é consciência de objetos transcendentes. O segundo sentido é relevante para que, entre diversos modos de intencio- nalidade, seja possível distinguir aquele que doa o objeto de modo o mais excelente, a saber, a percepção. No primeiro uso de “a coisa ela mesma”, afasto interpretações cartesianas da intencionalidade; no segundo uso de “a coisa ela mesma”, destaco a percepção como um modo privilegiado de intencionalidade. Esse último uso de “mesmo” se justifica pelo fato de a percepção se distinguir da visada signitiva tão somente pelo seu conteúdo representante-apreendido ter uma relação interna com a coisa: é a própria coisa que aparece através desse conteúdo na percepção. É nesse segundo uso que se consegue circunscrever a autodoação originária das coisas. Essa circunscrição, por sua vez, depende da caracterização correta do conteúdo representante-apreendido na percepção: do recheio perceptivo.
Assim, o discurso husserliano pregnante sobre a coisa ela mesma ganha seu significado a partir da autodoação originária. Esse, por sua vez, se caracteriza através da percepção propriamente caracterizada em sua diferença com outros modos de intencionalidade, isto é, entendida como portando um tipo espe- cial de conteúdo vivencial que preenche intenções vazias como nenhum outro modo de intencionalidade pode preencher.
Aqui podemos entender o sentido de realismo restrito (“o único sentido de ‘em si’ admissível”, na passagem citada acima): não basta o recurso a idealida- des para caracterizar o realismo mínimo da fenomenologia. Tal recurso, diga- -se de passagem, é plenamente compatível com um realismo robusto. Embora ele esteja presente em Husserl, é necessário acrescentar aqui que é a circuns- crição husserliana de um modo de doação de objetos que os faz aparecer como independentes. Se é o caso de utilizar a desgastada oposição “em si” e “para nós”, trata-se de entender que a fenomenologia deve elencar dentre os elemen- tos dados “para nós” aquele que aponta para algo “em si”. Assim, a distinção, corrente na filosofia, entre “em si” e “para nós” ganha um significado algo dife- renciado na fenomenologia: todo objeto em si só pode ser buscado em meio aos diferentes modos de os objetos se darem para nós e só pode ser concebido
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como correlato de um modo privilegiado e especial de acesso ao objeto: a auto- doação do objeto e esse é o sentido da afirmação de Husserl, já mencionada anteriormente, de um sentido restrito de “em si” na fenomenologia. Por mais que a verdade deva ser definida fenomenologicamente a partir de um ponto de vista ideal, sem o que fundem-se verdades com verdades conhecidas, é preciso resgatar fenomenologicamente um elemento crucial para essa descrição, tam- bém respectivamente ao qual o ideal é ideal: o conteúdo representante-apreen- dido próprio da percepção, o recheio perceptivo, que torna compreensível a fala husserliana sobre autodoação.
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