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3 DO ESCALONAMENTO DO USO DA FORÇA

3.2 O TIRO DE COMPROMETIMENTO E AS NORMAS INTERNACIONAIS

Aqui, como bem assegura Silva (2011), faz-se importante frisar no chamado tiro de comprometimento que é uma técnica usada pela polícia na seara da segurança pública. Essa técnica baseia-se no disparo de arma de fogo específica, em uma região do corpo humano previamente ajustada, utilizada por um profissional qualificado e treinado exaustivamente para esses eventos de crise. Importante sempre lembrar que tais ações são adequadas e com fundamentações legais.

Conforme explicado acima, o tiro de comprometimento é um meio letal da atuação militar em momentos de crise. Momento de crise é aquele em que o causador

toma um ou mais reféns e coloca a vida deles em risco, mediante ameaças e intimidações. Nessas situações a negociação e a conversa vêm primeiro, e na pior das hipóteses, sob o estrito cumprimento do dever legal, do art. 23, inciso III, do Código Penal, o criminoso é abatido. Não menos importante, o mesmo artigo da lei nos aponta a legítima defesa, que é conceituada mais à frente no art. 25, a qual aplica- se esta outra excludente de ilicitude na preservação da vida de terceiros.

Existe consideráveis divergências na doutrina sobre esse instituto, se ele se adequaria na legítima defesa e/ou no estrito cumprimento do dever legal (ROCHA, 2018). Pode-se afirmar, segundo Rocha (2018), Capitão da Polícia Militar do Estado de Goiás, que “se existir uma norma que legitima a conduta e atuação do sniper, teremos a utilização do instituto do estrito cumprimento do dever legal no gerenciamento de crises.”

Dessa forma, temos algumas normas internacionais balizadoras do uso progressivo da força, sejam elas o Código de conduta para Encarregados de Aplicação da Lei – CCEAL e os Princípios Básicos sobre o Uso da Força e Arma de Fogo – PBUFAF. (CUNHA, CASSIMIRO, 2011).

O Primeiro – CCEAL – criado pela Assembleia das Nações Unidas, não possuindo força de tratado, visa apenas à criação de padrões que os aplicadores da lei vão seguir no policiamento, ética e legalmente. (CUNHA, CASSIMIRO, 2011).

O Segundo – PBUFAF – conforme Cunha e Cassimiro (2011, p. 16), “também não tem força de tratado, tem por objetivo nortear os Estados membros, a assegurar e promover o papel adequado dos policiais.”

Definitivamente, o interesse desses dois instrumentos internacionais é que os Estados equipem seus policiais de forma adequada, com variados tipos de armamentos tanto letais como não letais, permitindo a eles diferentes tipos de opções para utilização e escalonamento da força. (CUNHA, CASSIMIRO, 2011).

De acordo com Pegoraro (2008) "[...] o tiro de comprometimento, por ser uma atitude de risco extremo e sem possibilidade de conserto posterior, deve ser utilizado cercado das maiores cautelas possíveis". O autor, Juiz de Direito no Paraná, deixa

claro que pode ser uma decisão sem volta, dando aí a importância de avaliar se o caso/crise merece essa forma de solução.

Conforme mencionado pelo autor acima, o tiro de comprometimento possui justificativa no grau máximo do escalonamento do uso da força, e é a alternativa mais gravosa de se repelir ameaça. Portanto, foram criados modelos que ilustram melhor o tema tratado, facilitando o entendimento aqui pretendido no desenrolar deste assunto.

Sobre o que se está discorrendo aqui, observa-se o que fora dito por Special Weapon and Tatics (SWAT, apud FIGUEIRA, 2015, p. 10), dos Estados Unidos:

assim como no Brasil, os atiradores de elite são a terceira opção na resolução de uma crise. São policiais estrategicamente posicionados com armas de longo alcance, a comando do gerente da crise e prontos para realizarem o tiro de comprometimento, disparo letal em determinada região do corpo do perpetrador que o neutralizará.

Assim temos que o tiro de comprometimento possui legalidade de atuação quando atendido todos os requisitos, sem êxito na negociação ou uso de meios não letais. Em algumas vezes o atirador, mesmo autorizado, hesita em efetuar o disparo letal, e logo após o refém vem a óbito. Assim, surge a questão se esses acontecimentos geram responsabilidade jurídica para o atirador, que deixou de agir quando poderia e devia ter agido.

O exposto acima se baseia no art. 13 do Código Penal, o qual diz que o resultado para que exista o crime “somente é imputável a quem lhe deu causa. Considera-se causa a ação ou omissão sem a qual o resultado não teria ocorrido. (BRASIL, 1940).

Também se relaciona à abordagem do trabalho, o que encontramos mais à frente no §2º do art. 13 e alínea “a”, que trata do atirador como quem tem obrigação de cuidado, proteção e vigilância, nesse caso, e torna-se relevante quando o emitente deveria e poderia ter agido para evitar o resultado danoso da crise.

Perfeitamente nos mostra Greco (2014, apud, FIGUEIRA, 2015. p. 12), quando diz o seguinte:

As situações nas quais surge este tipo de dever são as elencadas em lei, fazendo nascer a posição de garantidor, apesar de não exigir que o resultado

danoso seja evitado a qualquer custo. Deve o garantidor realizar tudo que se encontre ao seu alcance para evitar o resultado lesivo. Se não conseguir, mesmo tendo esgotado tudo que estava a seu alcance, não será responsabilizado.

Temos que o sniper possui a faculdade de não executar o tiro de comprometimento. Isso se dá pelo fato de ele ser exaustivamente treinado e talvez não ter todas as condições para neutralizar o criminoso, pode ser por questões climáticas ou até mesmo por falta de uma visão clara do alvo.

Nessa situação, o atirador não comete crime de desobediência previsto no Código Penal no art. 330, pois pautado nas circunstâncias dita acima, ele não desobedece, porque é autorizado, e não ordenado que efetue o disparo. Qualquer erro que cometa irá refletir na instituição da Polícia Militar, degradando sua imagem, e o contrário, em agindo com cautela, reforça ainda mais a estima e respeito perante a sociedade, pela expertise empregada por profissionais altamente qualificados.

A aplicação desse meio chamado tiro de comprometimento se amolda no grau máximo do escalonamento do uso da força, que é o letal. Nasce, então, a necessidade de observarmos os princípios que o norteiam juridicamente.

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