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O tráfico internacional de crianças e adolescentes

2. A violência na infância e na juventude

2.2. O tráfico internacional de crianças e adolescentes

O tráfico internacional de crianças se vincula precipuamente ao comércio sexual, sendo certo que só na América Latina cerca de 100.000 pessoas são vítimas, as quais, em sua grande maioria constituída de mulheres e adolescentes, destinadas a exportação, com propósitos sexuais, para Europa, Japão, Israel e Estados Unidos - segundo Shecaira e Silveira. E, assim, diante da constatação da carência internacional quanto a instrumentos para combater, senão, reduzir o tráfico sexual infantil, procura-se identificar as verdadeiras causas deste complexo problema sócio-cultural, discutindo novas idéias acerca de um possível e efetivo comprometimento não só das autoridades públicas, mas, também, da sociedade civil - organizada ou não -, informando-lhes das graves conseqüências e constantes desrespeitos aos direitos mais comezinhos da personalidade humana, sobremodo, quando se trata de crianças e de adolescentes. Este tipo de comércio somente perde, em termos de lucro, para o tráfico de drogas e de armas.

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As causas, então, apontadas pelos autores, remontam à globalização econômica e suas perversas conseqüências sociais (produção de pobreza, guerras localizadas, crises nos países periféricos e regiões do terceiro mundo), pois, a busca por lucros fáceis e um hedonismo desenfreado das sociedades de consumo também contribui para que suijam muitos interessados na manutenção das diferenças sociais, as quais, propiciam ocorrências como as que levam famílias a venderem suas filhas, quando não permutam crianças por comida110. O tráfico internacional de infantes, sobremodo, quando se objetiva com isto a prostituição infantil, constitui-se num problema não só mais complexo, mas, também, de conseqüências mais gravosas, pois, como se sabe, a capacidade volitiva reduzida dos jovens importam na maior cautela, por parte das instituições sociais, com o intuito precípuo de que se resguarde a formação da juventude, tutelando, assim, a liberdade individual daqueles que ainda não se encontram completamente aptos para decidirem sobre questões relativas aos seus interesses mais próprios enquanto ser humano111.

As propostas de combate, senão, de redução dos índices alarmantes de crescimento do tráfico internacional de crianças, principalmente, perpassam basicamente pela prevenção, vale dizer, no desenvolvimento de programas econômicos sérios que valorizem a pessoa humana inserida num contexto social periférico e desfavorável ao pleno atendimento de suas necessidades vitais mais comezinhas, ensejando, inclusive, com isto, a minimização das desigualdades regionais, além é certo da difusão de informações e o comprometimento dos diversos setores sociais no combate ao tráfico de crianças e adolescentes112.

110 SHECAIRA, Sérgio Salomão e SILVEIRA, Renato de Mello Jorge. O tráfico internacional de mulheres e de crianças. Boletim IBCCRIM, ano 10, n° 112, março de 2002, p. 03-04. No Brasil, segundo os autores, também, são identificáveis tais ocorrências, inclusive, “...são encontradiças com razoável freqüência... ” (sic). Até porque, como pontuam os autores, o conceito de prostituição muito se modificou, em decorrência mesmo da evolução do mundo, passando-se, pois, a considerar de forma mais ampla possível, pois “a redução de pessoa

humana, eventualmente criança, à condição análoga e de escravo, podendo ser, mediante variada gama de ações (sedução, engodo ou fraude) abusando sexualmente, tudo em um mundo onde a imigração (legal ou não) é freqüente, e onde comunidades continentais estão a se form ar e barreiras políticas, a se desmoronar... ” (sic).

111 SHECAIRA, Sérgio Salomão e SILVEIRA, Renato de Mello Jorge. Op. cit. De acordo com os autores, a capacidade volitiva reduzida da criança e do adolescente é sempre motivo de incremento da reprovação social. No entanto, advertem que caso indistintamente apenas se criminalizem condutas, o Direito Penal corre o sério risco de ter ações inoperantes. “...Os novos contornos desenhados pelo Direito Penal sexual devem acompanhar

a criação legislativa, destacando-se da moral coletiva, buscando, sim, o objeto maior de proteção da liberdade, autodeterminação e formação daqueles sujeitos a um tráfico sexual internacional, bens jurídicos maiores que são... " (sic).

112 SHECAIRA, Sérgio Salomão e SILVEIRA, Renato de Mello Jorge. Op. cit. Os autores propõem ainda a assistência às vítimas, mediante a implementação de serviços de apoio sócio-psicológico, antes mesmo que se opere a sua deportação para o país de origem, inclusive, concedendo, visto provisório de trabalho - e porque não

A marginaiização social da juventude opera-se através das variegadas formas de abandono e violência que se produzem e reproduzem no seio da sociedade, e, pelas mais importantes instituições sociais, como, por exemplo, a família e o Estado. Assim, pode-se identificar uma primeira e tão comum violência, através do abandono do pequeno recém nascido que por vezes encontra-se privado dos cuidados matemos, ou seja, de uma pessoa certa que lhe proporcione carinho, amor e segurança113. Em virtude disto, pode-se mesmo dizer que toda e qualquer marginaiização social que sofre a criança e do adolescente - senão, também, todas as pessoas - opera-se pela falta de afetividade, decorrendo, disto, imediata e remotamente, a frustração afetiva que, por vezes, mas, nem sempre, coloca o infante em conflito não só consigo mesmo, mas, também, com a lei.

Ora, em vista do princípio da hierarquia da responsabilidade, tem-se que a situação de conflito com a lei que possa se encontrar circunstancialmente o adolescente - ao que pejorativamente se tem denominado de “delinqüência juvenil” - é decorrência direta do abandono material e moral pelo Estado e pela Sociedade que, por sua vez, provém dos defeitos e falhas da própria sociedade, quando não do Estado, enquanto tutor das funções indispensáveis ao bem estar dos infantes. O Estado instrumentalizando, pois, por assim dizer, a própria sociedade na sua busca permanente de aprimoramento e perfeição, já não pode mais, apenas atribuir responsabilidade penal direta ao adolescente que circunstancialmente se encontra em conflito com a lei, uma vez que, antes de tudo, deve preventivamente operar de forma assecuratória, implementando, então, os seus direitos fundamentais.

de estudante —, com a reclassificação de imigrantes ilegais para residentes temporários. No mais, protestam pela adoção de leis que criminalizem o turismo sexual, sob o argumento de que "... não havendo demanda nos países

ricos, certamente não haverá o tráfico em que são vítimas as mulheres e crianças dos países pobres... ” (sic).

Com o advento da lei sob n° 269, de 05 de maio de 1998, o ordenamento jurídico italiano criminalizou a conduta

“daquele que organiza ou fa z propaganda de viagem com o fim da fruição da atividade de prostituição, com danos para menores", com previsão de pena de 06 a 12 anos de prisão.

113 ALBERGARIA, Jason. Direito penitenciário e direito do menor. Belo Horizonte (MG): Mandamentos, 1999, p. 177 e ss. O autor denominou tal fenômeno como a síndrome da privação dos cuidados matemos, segundo a qual a criança abandonada não é aquela que apenas se encontra privada de um lar, mas, também, aquela que no seio da própria família, numa instituição hospitalar - maternidade - ou social, encontra-se privado dos cuidados matemos e familiares, vale dizer, não lhe é proporcionada afetividade. E, isto, também, pode se operar de forma inconsciente, segundo o autor, quando houver então uma atitude inconsciente de rejeição dos pais, da família, e ou das instituições. Não fosse só, esta atitude inconsciente de rejeição, também, opera-se através da excessiva exigência de amor dos pais ou satisfação vicariante dos pais com o procedimento do filho, bem como, nos casos de criança em creche, internato, hospital, onde falte pessoa certa que lhe dê amor e segurança.

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Cabe ao Estado, pois, a regularização de medidas efetivas para tal desiderato para além da tomada de consciência - segundo Albergaria. Dentre as plausíveis providências urgentes poder-se-ia citar como indispensáveis ao combate à violência urbana: a) o efetivo combate à miséria, através de políticas públicas e o voluntariado; b) desarmamento e proibição de venda de armas de fogo; e c) participação popular, através de parcerias, voluntariado e intervenção da sociedade civil organizada.

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