1. As novas orientações
1.6. Projeto de vida responsável
O projeto de vida responsável é o comprometimento do adolescente com um objetivo futuro que pretende implementar, desenvolvendo, para tanto, os meios aptos, sadios e necessários para tal desiderato, como, por exemplo, a atividade educativa, laborativa, etc... Contudo, o que se afigura de capital importância é o envolvimento, o interesse e o compromisso que o adolescente deve demonstrar com a construção de um seu projeto de uma vida sua saudável e responsável. A área afetiva demonstrará a facilidade ou não de comunicação do adolescente, evidenciando a sua sociabilidade ou não de manter relacionamentos sadios e respeitosos.
O progresso no processo educacional, também, poderá evidenciar avanços significativos no interesse e comprometimento na construção de um projeto de vida responsável, sadio e possível. Em vista disto, antes de tudo, o adolescente deverá ser inserido num processo educacional que lhe capacite para a vida presente e futura, para o cotidiano, para as situações do dia a dia, foij ando-lhe uma personalidade estruturada a partir da idéia de respeito próprio e com o outro. Os avanços significativos devem ensejar a elaboração de planos futuros e estabelecimento de metas a serem alcançadas, segundo a capacidade de cumprimento do jovem, consoante prevê o próprio Estatuto da Criança e do Adolescente.
Um movimento saudável é uma atitude emancipatória. A atitude é um conjunto de atos. Uma atitude emancipatória é o resgate dos direitos mais comezinhos da personalidade humana da pessoa que se encontra nesta peculiar situação de desenvolvimento.
pessoa enquanto ser humano é o resgate de relações respeitosas com o outro e o mundo em que vive. Este é um conjunto de condições que sugerem autonomia e interesse pela construção de um projeto de vida responsável e digna. O adolescente que não apresenta sinais de um evolutivo processo de maturidade psicossocial, na verdade, necessita de uma outra estratégia orientativa e auxiliar para o seu desenvolvimento. E, não, meramente, ser mantido num estabelecimento ou instituição que não lhe possa proporcionar os meios necessários para o alcance de metas estabelecidas responsavelmente, pois a frustração experimentada acaba por diminuir a sua auto-estima, quando, não, constrói um anteparo de resistência impeditivo de toda e qualquer capacitação que se lhe ofereça ou proporcione. A imaturidade é evidenciada por indícios próprios e perceptíveis como, por exemplo, a dispersão ou mesmo a percepção simplista da própria situação pessoal em que se encontra inserido circunstancialmente o adolescente, além é certo dos indícios de facilidade de ser manipulado em certas situações.
A identidade pessoal passa, quase sempre, por uma forte vinculação a um grupo que, de diversas formas, reforça certas crenças e valores - segundo Gilberto Velho197, para quem - a identidade se constrói por contraste com outros indivíduos e outros grupos, pelo que, a autopercepção é fortemente filtrada pelo olhar do outro. A subjetividade, assim, é marcada por um ethos em que a sociabilidade assume um papel caracteristicamente importante, pois a cultura subjetiva da pessoa humana - a vida interior, as opções íntimas, os valores - apenas se desenvolve em função de sua interação com o convívio social. E precisamente no espaço social que se toma possível implementar os mecanismos de sociabilidade que, segundo Gilberto Velho, são fundamentais para a elaboração da subjetividade, pois se a psicanálise é básica para esse aperfeiçoamento, ele, de fato, se atualiza e prova a sua eficiência através da qualidade das relações pessoais, das escolhas e da natureza de grupos sociais. O aperfeiçoamento individual da subjetividade, segundo o autor, atualiza-se na constituição de uma rede social, de um grupo de pessoas que têm marca própria de distinção que, na sua visão, os diferenciam significativamente de outros contemporâneos. E a maneira, pois, que os jovens - crianças e adolescentes - encontram para se inserirem no mundo, de participar socialmente. Há, desta forma, uma evidente correlação entre o desenvolvimento pessoal, subjetivo e as formas de associação, de sociabilidade valorizadas.
197 VELHO, Gilberto. Subjetividade e sociedade: uma experiência de geração. Rio de Janeiro (RJ): Zahar, 1986, p. 88 e ss.
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A trajetória individual do adolescente, então, marcada por seus interesses e comprometimentos, ou seja, de seus projetos de vida, decorre dos processos afetivos e de seus desejos. Daí, pois, que os limites - a contenção, o não - simbolicamente, constituem-se numa das formas mais dramáticas de vivenciar a existência e a relação com o outro. A dialética intemo-extemo que se opera entre o simbólico e o real, evidencia que o que é mobilizado é o que existe de mais profundo, de mais íntimo, da subjetividade propriamente dita. E isto, para o jovem, é importante na constituição de sua visão de mundo, pois é muito complexa a construção social da realidade na sociedade contemporânea, haja vista que não há uma coerência linear, mas, sim, uma coexistência contraditória entre as regras e os valores.
Assim, como já se disse, a tragédia dos adolescentes é que começam a viver um mundo que nega os valores que lhes foram ensinados. O amor não é um sentimento, é um domínio de ações nas quais o outro é constituído como legitimo outro na convivência. A justiça não é um valor transcendente ou um sentimento de legitimidade: é um domínio de ações no qual não se usa a mentira para justificar as próprias ações ou as do outro - como bem acentua Humberto Maturana Romesín198.
No entanto, é necessária a existência de uma espacialidade para o respeito, pois, indiscutivelmente, devem existir restrições em relação aos excessos, mas, também, é importante ressaltar que todas as variações individuais são significativas na construção da identidade da pessoa humana. Daí, pois, a necessidade de enfatizar, a partir da definição de interesses específicos e da capacidade de cumprimento dos objetivos inicialmente estipulados, pelo adolescente, a organização de projetos de vida responsável, ou seja, de condutas organizadas com o objetivo de atingi-los - segundo Gilberto Velho199, para quem - isto envolve as mais diversas dimensões, inclusive, a própria administração da vida afetiva.
Pois, como se sabe, na subjetividade se encontra a intrigante questão da vontade, uma vez que dado um certo conjunto de valores, ambíguos e contraditórios, surge a indagação sempre presente de como são implementados através de uma ação social associada a vontade que para se manifesta pressupõe jovens - crianças e adolescentes - sujeitos.
198 ROMESÍN, Humberto Maturana. Op. cit.
199 VELHO, Gilberto. Op. cit., p. 96. “A noção de projeto, conforme Schutz (ver bibliografia) implica uma avaliação de meios e fins estando, portanto, fortemente vinculada a uma adequação a uma realidade objetiva, externa. Implica, também, é claro, uma avaliação consciente de condições subjetivas ”.
as pessoas, agora, excluídas ou incluídas, ocupam na rede social, pelo que, o evento no qual circunstancialmente se encontrem envolvidas será ou não sempre igualmente dramático. Pois, são notórias as vivências e situações diferenciadas que as pessoas, em razão mesmo de suas idades, experimentarão. Os mecanismos de controle social, os processos de vitimização, criminalização e estigmatização, funcionam como pressões para, de alguma maneira, domesticá-las para que seja mantida a boa ordem do mundo, inclusive, sendo consideradas como anti-sociais, pois, conflitantes com a lei.