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O trabalho como atividade humana na ergologia

No documento DILMA CARDOSO PEREIRA (páginas 43-47)

SEÇÃO II ERGOLOGIA: GÊNESE, QUESTÕES TEÓRICAS E CONCEPÇÕES

2.2 O TRABALHO COMO REFERÊNCIA PARA A ERGOLOGIA

2.2.1 O trabalho como atividade humana na ergologia

Como já foi mencionado o trabalho é uma categoria dialética, e sua compreensão fica mais esclarecida a partir da contradição, ou seja, nas relações de produções da existência humana. Ao mesmo tempo em que o trabalho, a partir da lógica do capital, impulsiona a exploração do trabalhador, o próprio trabalhador não consegue sobreviver sem o trabalho.

No contexto da produção do capital, o trabalhador torna-se uma mercadoria, pois é vendido juntamente com os produtos fabricados, de modo que o trabalho nessa perspectiva também adquire valor, pago mensalmente a quem produz.

Chamam a atenção as tarefas segmentadas com ênfase na distribuição entre os trabalhadores, na tentativa de empreender o controle do trabalho de forma externa ao sujeito responsável por sua efetivação. Havia o pressuposto de que era possível estruturar processos nos quais o planejamento e a execução estivessem dissociados. Esse procedimento visava, por um lado, elevar ao máximo a produtividade e, por outro, neutralizar o conhecimento, por parte do trabalhador, das diversas fases que compunham a sua atividade laboral. Era, portanto, estratégia na qual se vislumbrava alcançar ritmos e encadeamentos de ações, capazes de potencializar o uso da força física em detrimento da dimensão intelectual (ARANHA; DANIEL, 2017, p. 52-53).

Pela complexidade que a categoria trabalho assume, a ergologia possibilita analisar essa categoria a partir da essência, a essência do trabalho é o homem; esse, por sua vez, constitui-se como sujeito socioeconômico, político e formativo a partir do trabalho. Ao nascer, o homem, ainda não possui as propriedades humanas, isso somente se dará a partir do momento em que começar a produzir, e esse é o processo de construção de um ser que irá compreender a si mesmo e o espaço que o cerca.

Com efeito, por um lado, as percepções de Marx sobre a dimensão (trans)formadora do trabalho não perderam o seu vigor, constituindo-se, portanto, em importante referência para aqueles que desejam refletir sobre o assunto. Por outro lado, as contribuições apresentadas pela ergologia, em um período mais contemporâneo, tornam possível o avanço das análises, viabilizando que dinâmicas envolvidas no processo de produção e ressignificação de saberes no mundo do trabalho sejam desveladas (ARANHA; DANIEL, 2017, p. 52-53).

O trabalho no materialismo histórico-dialético não é uma atividade neutra, desconectada da dinâmica social, ao contrário, é um processo de suma importância para a constituição não somente do homem como também da sociedade como um todo. Sem trabalho seria impossível a existência humana, pois é pelo trabalho que a sociedade assume o formato que tem hoje, produto de milhares e milhares de anos. Um feito que que não se resume apenas nas estruturas sociais, mas também na concepção humana, ou melhor nos saberes.

Ao discorrer sobre o processo de trabalho, Marx evidencia que, na concretização dos feitos, o trabalho humano é o ingrediente que irá ativar o material inerte (matéria-prima e instrumentos). Essa intervenção humana não se faz dissociada do repertório formado pelos indivíduos nos diversos espaços sociais e, principalmente, no ambiente de trabalho, uma vez que o homem não apenas executa os seus atos, mas também concebe as suas ações (ARANHA; DANIEL, 2017, p. 53).

A abordagem ergológica ampliou ainda mais a categoria trabalho como atividade humana, possibilitou refletir não somente o trabalho como produção de saberes, mas também o reconhecimento do ser humano como sujeito inerente ao trabalho. Impulsionou compreender ainda que trabalho e vida humana são indissociáveis, pertence ao mesmo contexto histórico “Tendo em vista o entendimento de que o trabalho é uma objetivação da atividade humana, essa abordagem mostra a integração do trabalho às diferentes esferas da vida humana” (ARANHA; DANIEL, 2017, p. 53).

O ser humano não é nada sem trabalho, pois a condição de existência relaciona-se diretamente com o trabalho. Até mesmo a linguagem, a cultura, a organização política não se ausenta dessa categoria. Daí a preocupação dos pesquisadores ergológicos em estudar as

relações de trabalho, espaço privilegiado para analisar criticamente as normas estabelecidas que aprisionam o trabalhador em um espaço que deveria apresentar condições dignas de atividade. A abordagem ergológica não somente questiona as normatizações presentes nos espaços de trabalho, mas também incentiva a proposição de espaço de trabalho, onde o trabalhador seja o próprio regente, e onde não haja alguém que esteja coordenando o trabalho do outro, mas que o próprio trabalhador conduza suas atividades, sinta-se sujeito de seus afazeres. Em outros termos, que o trabalhador seja autônomo, consciente de sua realização, sem ser explorado pelo dono da produção:

O trabalhador é um gestor da sua atividade, e, para geri-la, irá convocar saberes que se encontram relativamente estabilizados, mas também produzirá novos conhecimentos. Portanto, o fazer é sempre interatuado, sendo essa uma característica que marca o mundo do trabalho. Ante às incertezas técnicas e organizacionais, podem ser empreendidas mudanças capazes de proporcionar novos conhecimentos sobre questões como: forma de utilização de recursos materiais e financeiros, métodos, divisão de tarefas, dentre outras (ARANHA; DANIEL, 2017, p. 54).

Por isso que o trabalho na abordagem ergológica é compreendido como atividade humana, porque busca compreender o ser humano em sua essência, nas condições de identidade do homem. Um ser original, produtor de si por si, sujeito de sua ação, relacionado com seus pares. Nessa integração produz saberes, compreende que sua postura política serve para contribuir na construção de uma nova sociedade, onde o trabalho como atividade humana seja a condição primeira da existência.

O sujeito não é apenas um ser determinado, que nasce, produz e morre, seria muito reduzido a concepção de homem. Ao contrário disso, o sujeito é inacabado, está sempre se construindo e se reconstruindo também, pois a vida não é uma estrutura linear, com início, meio e fim, mas um processo dinâmico, sempre em transformação de acordo com o contexto histórico:

Pode-se dizer que sua proposta adiciona elementos à discussão do conceito de trabalho de origem marxista, sobretudo no que diz respeito à relação dialética entre trabalho abstrato e trabalho concreto. Ao compreender o caráter inacabado do conhecimento sobre o trabalho, que é lacunar, pois se refaz permanentemente e entender o protagonismo fundamental do trabalhador nesse conhecimento, a ergologia remete à atividade do trabalho como espaço contraditório de alienação e desalienação do sujeito trabalhador (PONTES; SANTOS, 2014, p. 307-308).

Esse inacabamento também se materializa nas relações de trabalho, pois, nesse espaço, a produção de saberes não se efetiva na individualidade, na fragmentação, mas nas relações coletivas. O espaço de trabalho é um momento próprio para debater, discutir, propor as

renormatizações. Assim, a construção da sociedade não está estruturada por saberes desinvestidos, em espaços fechados com homens e mulheres detentores do conhecimento, mas no movimento das relações de trabalho, por homens e mulheres que sentem, na realidade, as condições de transformação social.

SEÇÃO III - ENSINO MÉDIO INTEGRADO-PROEJA E EDUCAÇÃO

No documento DILMA CARDOSO PEREIRA (páginas 43-47)