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SABERES PRESCRITOS E SABERES RENORMATIZADOS

No documento DILMA CARDOSO PEREIRA (páginas 67-70)

SEÇÃO III ENSINO MÉDIO INTEGRADO-PROEJA E EDUCAÇÃO

3.6 SABERES PRESCRITOS E SABERES RENORMATIZADOS

Nesta pesquisa, entendemos, a partir de Scherer, Pires e Schwartz (2009), que a atividade laboral humana materializa o trabalho realizado, incluindo normas antecedentes e objetivos, mas também ressingularizações, renormatizações, necessárias às especificidades das necessidades dos sujeitos em seus espaços de trabalho, revelando-se em um jogo de reciprocidades, o que pressupõe “[...] pensar o trabalho como uma ação dialética entre o dizer e o fazer, o geral e o singular, o micro e o macro, o local e o global, o objetivo e o simbólico. É lugar de debates e incertezas, de confronto entre normas antecedentes e renormalizações singularizadas pelos seres humanos” (SCHERER; PIRES; SCHWARTZ, 2009, p. 15).

Dessa forma, a atividade laboral dos Técnicos de Alimentação Escolar resulta, considerando os pressupostos teóricos da Ergologia, de suas ações do dizer e fazer entre o confronto da formação prescrita e o trabalho real, dando conta da compreensão dos contextos de trabalho em que os egressos TAE estão inseridos, considerando esses espaços como resultantes de processos dialéticos de negociações de saberes, tanto os produzidos na escola quanto os resultantes das experiências de trabalho.

Com base em Cunha (2018, p. 15), compreendemos que, em contextos de trabalho, a tarefa prescrita não é o trabalho em si, mas um dos elementos que o formam, é algo exterior ao operador da atividade, algo que determina e constrange, mas que, ao “[...] mesmo tempo, apresenta um quadro indispensável para que o trabalhador possa operar, autorizando-o a realizar a atividade”, de modo que “[...] as condições determinadas e os resultados antecipados descritos na tarefa não são efetivamente o que se obtém com o trabalho real. Há, nessa distância, um elemento fundamental: a atividade de trabalho”.

Falar em atividade de trabalho nos remete, assim, a dois conceitos-chave: o trabalho prescrito e o trabalho real, de maneira que a distância entre o prescrito e o real é a expressão da tensão sempre existente entre o que é descrito como tarefa e o que realmente é realizado pelos trabalhadores dentro das condições existentes.

É essa a dimensão explorada por Schwartz (2000, p. 23), que propõe, por meio da abordagem Ergológica, compreender a atividade de trabalho no conjunto de atividades humanas, a partir de normas de produção de conhecimento sobre essas atividades. Constitui-se

como um instrumental para pesquisar o que é realizado por um ser vivente, “[...] que carrega consigo valores e regras, mas que, acima de tudo, inventa a todo instante sua relação com o meio em que vive e recria esse meio, num processo de coengendramento sujeito-mundo”.

A análise ergonômica da atividade é a análise das estratégias usadas pelo trabalhador para administrar a distância entre o que é prescrito e o real na sua atividade, realizando assim a análise do sistema homem/tarefa, de acordo com Guérin (2001), de maneira que, em todo o trabalho, há a presença do prescrito, ou seja, do que é estipulado por outrem para realização desse trabalho, que pode ser conhecido também como tarefa, cujo conteúdo e forma de execução são estipulados previamente; e espera-se que se siga à risca o que está proposto na prescrição, enquanto que o real é onde o prescrito é desafiado e renormatizado, pois a ergonomia já comprovou a impossibilidade de realização do prescrito tal qual como ele foi elaborado.

O que justifica a prática ergonômica, segundo Guérin (2001), é a transformação das situações de trabalho, de maneira que essa prática produza, de acordo com o referido autor, um corpo científico, não se constituindo um programa político de transformação das situações de trabalho. A transformação das condições de trabalho é de responsabilidade dos parceiros sociais, enquanto a ação ergonômica deve possibilitar a condução do processo de elaboração das soluções dos problemas que a justificaram.

Um estudo com base na ergologia pressupõe, pois, o entendimento de que há saberes constituídos e saberes do trabalhador. E esses saberes do trabalhador são os que materializam a engenhosidade do sujeito diante do mundo do trabalho, ou seja, a partir de normas instituídas, eles buscam formalizar o trabalho a ser realizado e se veem diante de variáveis não previstas, o que lhes exige a solução dos problemas surgidos, possibilitando-lhes as renormalizações, expressões de engenhosidade de um professor, técnico, administrador, enfermeiro, tomados como exemplo. Assim:

[...] cada trabalhador se apropria do trabalho que lhe é imputado, mas não se despe de sua história, de seus valores éticos para fazê-lo. Influencia, mas também é influenciado; ao mesmo tempo em que deve cumprir uma série de tarefas ditadas por normas que lhe são prescritas, ele as reinventa constantemente (SANTOS, 2000a; VIEIRA JÚNIOR; SANTOS, 2012, p. 89).

Partindo desses saberes dos trabalhadores a partir das normas que lhes são prescritas e instituídas nas atividades de trabalho, a nossa pesquisa analisou o trabalho do Técnico em Alimentação Escolar no espaço do/no trabalho, frente às normas antecedentes a renormali- zações como o trabalho real, que é diferente do prescrito respectivamente. Isso ocorre em decorrência do vazio das normas no exercício do trabalho. Assim, as competências previstas na

formação inicial não dão conta das exigências do mundo do trabalho, porque esse mundo apresenta um meio que é infiel, com vazios de normas, com o imprevisível. “As normas, conforme a concepção ergológica, dizem respeito ao que ‘[...] uma instância avalia como devendo ser: segundo o caso, um ideal, uma regra, um objetivo, um modelo’ (DURRIVE; SCHWARTZ, 2008, p. 26)” (ARANHA; DANIEL, 2017, p. 39).

Nesse sentido, as normas antecedentes às renormalizações com o trabalho real nos levam a refletir acerca do imprevisível, pois,

[...] consoante Schwartz (2013, p. 337), não é possível trabalhar sem enfrentar as seguintes questões: “Qual será o meu uso de si a fazer? Em que grau eu aceito as várias normas antecedentes, prescrições, isto é, o uso de si que os outros queriam que eu fizesse, o uso de si pelos outros? Em que grau não as aceito, ‘renormatizo’ essas normas?” (ARANHA; DANIEL, 2017, p. 42).

Considerando esse pressuposto, desenvolvemos nossa pesquisa partindo do conheci- mento do cotidiano dos/as trabalhadores/as, que não desistem de lutar pela transformação das situações de trabalho que tentam constranger sua potência normativa como viventes humanos. Nesse sentido, pesquisar as formas como os humanos trabalham implica conceber qualquer estabelecimento social como inacabado, não fechado em si mesmo, mas como um campo em construção permanente. E foi isso que nos determinou a pesquisa, quanto ao trabalho dos egressos e seus espaços de exercício profissional, considerando que os sujeitos estão imersos em intrincadas redes de relações com a natureza, com outros humanos e com suas invenções, produzindo, coletivamente, a existência, o que se produz e se reproduz em uma tessitura movente de múltiplas conexões, em que se efetiva a produção da vida material (NEVES, 2002). Portanto, todos saberes que utilizamos no cotidiano, de vida e de trabalho, são identificados como ciência do conhecimento. Esses saberes são reconhecidos, historicamente, como importantes e indispensáveis para a compreensão do mundo e para a ação na produção da existência humana. Esses saberes adquiridos da prática e da reflexão estão na essência de muitos conhecimentos, hoje, de cunho científico. Assim, anunciamos que partimos desses saberes historicamente constituídos e constituídos pelos Egressos TAE durante sua formação profissional com perspectiva de atuação nos espaços laborais, partindo-se do pressuposto de que, para a ergologia, reafirma-se a necessária aproximação da ciência com os locais de trabalho para que as dimensões do trabalho possam ser mais bem conhecidas e elucidadas, conduzindo, assim, processos de discussão e mudanças pretendidas pelos trabalhadores (SCHWARTZ, 2000).

SEÇÃO IV - PROCESSOS DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL E O CURSO DE

No documento DILMA CARDOSO PEREIRA (páginas 67-70)