• Nenhum resultado encontrado

DILMA CARDOSO PEREIRA

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "DILMA CARDOSO PEREIRA"

Copied!
124
0
0

Texto

(1)

CAMPUS UNIVERSITÁRIO DO TOCANTINS/CAMETÁ PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO E CULTURA

MESTRADO ACADÊMICO EM EDUCAÇÃO E CULTURA

DILMA CARDOSO PEREIRA

PROCESSOS DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL: um estudo com

os egressos do Curso Técnico em Alimentação Escolar/PROEJA –

Centro Integrado de Educação do Baixo Tocantins-Cametá-PA

CAMETÁ-PA 2019

(2)

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) de acordo com ISBD Sistema de Bibliotecas da Universidade Federal do Pará

Gerada automaticamente pelo módulo Ficat, mediante os dados fornecidos pela autora _________________________________________________________________________________________

C268p Pereira, Dilma Cardoso

Processos de formação profissional : um estudo com os egressos do Curso Técnico de Alimentação Escolar/PROEJA – Centro Integrado de Educação do Baixo Tocantins-Cametá-PA / Dilma Cardoso Pereira. — 2019. 124 f.

Orientador: Prof. Dr. Doriedson do Socorro Rodrigues

Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós-Graduação em Educação e Cultura, Campus Universitário de Cametá, Universidade Federal do Pará, Cametá, 2019.

1. Formação Profissional. 2. Prescrito e Renormatizado. 3. Cotidiano de Trabalho. 4. Saberes. I. Título.

CDD 379

(3)

PROCESSOS DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL: um estudo com

os egressos do Curso Técnico em Alimentação Escolar/PROEJA –

Centro Integrado de Educação do Baixo Tocantins-Cametá-PA

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação e Cultura (PPGEDUC), na Linha de Pesquisa Políticas e Sociedades, do Campus Universitário do Tocantins/Cametá da UFPA, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Educação e Cultura.

Orientador: Prof. Dr. Doriedson do Socorro Rodrigues.

CAMETÁ-PA 2019

(4)

PROCESSOS DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL: um estudo com

os egressos do Curso Técnico em Alimentação Escolar/PROEJA –

Centro Integrado de Educação do Baixo Tocantins-Cametá-PA

Esta Dissertação foi julgada adequada à obtenção do título de Mestre em Educação e Cultura e aprovada em sua forma final pelo Programa de Pós-Graduação em Educação e Cultura, na Linha de Pesquisa Políticas e Sociedades, do Campus Universitário do Tocantins/ Cametá, Universidade Federal do Pará.

Data de avaliação: 29/08/2019.

Conceito: Aprovada.

BANCA EXAMINADORA:

Prof. Dr. Doriedson do Socorro Rodrigues (Presidente) (Orientador – PPGEDUC/UFPA)

Profa. Dra. Benedita Celeste de Moraes (Avaliadora interna – PPGEDUC/UFPA)

Profa. Dra. Maria das Graças da Silva (Avaliadora externa – PPGED/UEPA)

CAMETÁ-PA 2019

(5)

Dedico à minha tia Maria Ferreira Gonsalves (in memoriam), por nunca duvidar que estudar era o maior ato de mudança de vida.

Ao meu sobrinho-filho-afilhado Marcelo Henrique Pereira Soares, por dar sentido à minha vida e nunca me fazer perder de vista a importância da educação para nossas vidas.

Aos meus sobrinhos Nerielen, Leidiane, Daelton, Alice, Alana, Camily, Gabriel, Williams Benedito, Heloisa e Samuel – razões de alegrias.

(6)

É preciso acreditar na luz que nos ilumina, para que, através da força que sentimos, continuemos o caminho que traçamos. E como precisei dessa força, dessa luz para não desistir! Foi uma caminhada que necessitou de muitas mãos no cotidiano do fazer desta pesquisa. Mãos abençoadas por seres de luzes. Bem sei disso, nunca me faltaram, avançamos e alcançamos a materialização deste trabalho. Uma palavra define: gra-ti-dão. Minha luz-mãe, Benedita Cardoso Pereira (in memoriam).

À minha família, ao meu pai Manoel Nery Pereira e à Daiva Pereira Freitas, que, com todas as dificuldades, sempre acreditaram em mim; aos meus irmãos Dael Cardoso Pereira, Dielma Cardoso Pereira, Dinelma Cardoso Pereira, Dionery Cardoso Pereira, Diel Cardoso Pereira, Dionei Cardoso Pereira, Dailma Cardoso Pereira, Dielen Freitas Pereira, Daelen Freitas Pereira, Danielen Freitas Pereira, por sempre me apoiarem, compreendendo com carinho meus momentos de angústia e ausência.

À minha prima irmã-amiga-querida Vera Lúcia, por torcer e acreditar no meu sucesso na academia. Muitíssima grata.

Ao professor Doriedson do Socorro Rodrigues, meus agradecimentos, por ter orientado e acreditado neste trabalho sobre os saberes dos trabalhadores. Muito grata, professor. Para além da academia, um amigo, companheiro humano, que prima por uma formação humana integral. Meus reconhecimentos e agradecimentos.

Meus agradecimentos às professoras Benedita Celeste Pinto e Maria das Graças, pelas contribuições na fase da qualificação, que vieram a se materializar no desfecho desta dissertação.

Meu profundo agradecimento ao amigo, companheiro na vida acadêmica e também profissional, Dorielson do Carmo Gaia Rodrigues. Obrigada pelo incentivo, pelo ombro amigo, juntamente com sua grande companheira, amiga Lidiane Gonçalves, sempre acolhedora nos momentos de estudos em sua residência. Grata.

Às amigas queridíssimas Isabel Rodrigues (Bel, minha calmaria e incentivadora), Geanice Baía (minha incentivadora e motivo de alegria). Agradeço por toda força, palavra amiga, por acreditarem em mim e na materialidade deste trabalho. Eternamente grata.

(7)

Ao Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Trabalho e Educação (GEPTE), por todo aprendizado para com a minha formação humana e intelectual; foi nele que caminhei acreditando que é possível filha de trabalhador ser pesquisadora e desenvolver trabalho voltado à educação do trabalhador.

Aos egressos, professores, secretaria e a toda comunidade escolar do Centro Integrado do Baixo Tocantins-Cametá-PA, pelas contribuições para a pesquisa.

E para aqueles ou aquelas que, direta ou indiretamente, contribuíram para esta produção, com apoio e incentivo, meu muito obrigada.

(8)

“O homem não nasce pronto e acabado, mas constrói seus saberes num conjunto de relação, intermediada pelo trabalho e, nessa relação, educa-se. O homem é, para Gramsci, uma série de relações ativas que humaniza e se transforma através de sua atividade natural e social. Essa transformação é coletiva e se dá através do trabalho na existência humana. A existência do homem possibilita agir, pensar, criar. São essas ações que o homem utiliza para construir seu saber. As atividades práticas intermediadas pelo trabalho exigem transformações que requerem, por sua vez, um objetivo a realizar.” Doriedson Rodrigues (2002, p. 12)

(9)

Investiga, a partir do cotidiano de trabalho de egressos do Curso Técnico de Alimentação Escolar/PROEJA, sediado no município de Cametá (Pará, Amazônia, Brasil), a relação entre o prescrito nos processos de formação profissional e a renormatização em seus ambientes laborais, em termos de saberes do trabalho acionados na dinâmica das necessidades desses ambientes. É pesquisa qualitativa, apoiada no materialismo histórico-dialético e na abordagem ergológica de trabalho. Como procedimentos de coleta de dados, utilizamos entrevistas semiestruturadas e análise documental; o tratamento dos dados seguiu as orientações da análise de conteúdo. Do ponto de vista teórico, tomamos discussões sobre formação profissional e saberes do/no trabalho, considerando importante a abordagem ergológica, envolvendo o processo de formação profissional e qualificação que considera os saberes do trabalho e saberes profissionais frente aos saberes prescritos e saberes renormatizados. Nossos referenciais tomaram Alves (2009), Schwartz e Durrive (2007), Guérin (2004), Machado (2006), abarcando questões de formação, educação profissional e ergologia; Gramsci (1991), Kuenzer (2002) e Kosik (1976) auxiliaram-nos nos debates sobre o trabalho e o materialismo histórico-dialético. Partimos do pressuposto de que, no trabalho, os sujeitos egressos renormatizam os saberes e os conhecimentos oriundos da formação escolar, dadas as necessidades de criatividade do mundo do trabalho, diante das metamorfoses desse mundo. No entanto, percebemos desarticulação entre o prescrito e o renormatizado, demonstrando distanciamento entre o trabalho como forma em que é requerido e na forma como realmente é executado. Podemos afirmar que a atividade de trabalho dos Egressos Técnicos em Alimentação Escolar possui uma formação caracterizada pelo distanciamento das noções das normas antecedentes mais abrangentes que a do trabalho prescrito, evocando situações emergentes para além das normas e prescrições, havendo saberes construídos no trabalho profissional como negação também de possibilidades de uma unidade teórico-prática como práxis em atividade.

Palavras-chave: Formação Profissional. Prescrito e Renormatizado. Cotidiano de Trabalho. Saberes.

(10)

This paper investigates the relationship between what is prescribed in vocational training processes and the renormatization in their work environments, in terms of knowledge of work triggered by the dynamics of the needs of these environments, from the daily work of graduates of the Technical School Feeding Course / PROEJA, headquartered in the municipality of Cametá (Pará, Amazon, Brazil). It is a qualitative research, supported by the dialectical historical materialism and the ergological approach of work. We used as data collection procedures semi-structured interviews and document analysis. Data treatment followed the guidelines of content analysis. From the theoretical point of view, we take discussions about vocational training and work knowledge, considering the ergological approach as important, involving the process of professional training and qualification that considers work knowledge and professional knowledge against the prescribed knowledge and renormatized knowledge. Our references took Alves (2009), Schwartz and Durrive (2007), Guérin (2004), Machado (2006), covering issues of training, vocational education and ergology; Gramsci (1991), Kuenzer (2002) and Kosik (1976) assisted us in debates about work and historical-dialectical materialism. We start from the assumption that, at work, the egressed subjects renormatize the knowledge and knowledge arising from school education, given the creativity needs of the world of work, given the metamorphoses of this world. However, we perceive disarticulation between the prescribed and the renormatized, demonstrating distancing between the work as the form in which it is required and in the way it is actually performed. We can affirm that the work activity of the Technical Graduates in School Feeding has a formation characterized by the distance from the notions of the antecedent norms that are broader than the prescribed work, evoking emergent situations beyond the norms and prescriptions, having knowledge built in the professional work as negation. also possibilities of a theoretical-practical unit as praxis in activity.

(11)

BC Base Comum

BT Base Técnica

CIEBT Centro Integrado de Educação do Baixo Tocantins CF/88 Constituição Federal de 1988

GEPTE Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Trabalho e Educação IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

MEC Ministério da Educação

PARFOR Programa Nacional de Formação de Professores da Educação Básica PPGEDUC Programa de Pós-Graduação em Educação e Cultura

PPEB Programa de Pós-Graduação em Currículo de Gestão da Escola Básica

PPP Projeto Político Pedagógico

PROEJA Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica, na Modalidade de Jovens e Adultos

SEDUC Secretaria de Estado de Educação SEMED Secretaria Municipal de Educação

SENAI Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial SENAR Serviço Nacional de Aprendizagem Rural

TAE Técnico em Alimentação Escolar

UFPA Universidade Federal do Pará UHT Usina Hidrelétrica de Tucuruí

(12)

SEÇÃO I – ASPECTOS METODOLÓGICOS DA INVESTIGAÇÃO: PARA UMA

COMPREENSÃO DO OBJETO E PROBLEMA ... 14

OS CAMINHOS EXPERIENCIADOS PELA PESQUISADORA: EDUCAÇÃO, LUTA E PERSISTÊNCIA – O LUGAR DE ONDE SE FALA ... 18

DOS CAMINHOS PERCORRIDOS, O PROBLEMA DE PESQUISA ... 22

AS QUESTÕES NORTEADORAS DA PESQUISA ... 28

SOBRE OS OBJETIVOS DA INVESTIGAÇÃO ... 29

SOBRE O CENTRO INTEGRADO DE EDUCAÇÃO DO BAIXO TOCANTINS ... 29

OS SUJEITOS DA PESQUISA: EGRESSOS E DOCENTES ... 30

QUESTÕES METODOLÓGICAS – DO MÉTODO À ANÁLISE DAS ENTREVISTAS ... 32

A ESTRUTURA DA DISSERTAÇÃO ... 35

SEÇÃO II - ERGOLOGIA: GÊNESE, QUESTÕES TEÓRICAS E CONCEPÇÕES SOBRE TRABALHO E ATIVIDADE ... 37

2.1 A ERGOLOGIA: CONTEXTO HISTÓRICO E PROCESSOS DE ORGANIZAÇÃO CONCEITUAL ... 37

2.2 O TRABALHO COMO REFERÊNCIA PARA A ERGOLOGIA ... 40

2.2.1 O trabalho como atividade humana na ergologia ... 43

SEÇÃO III - ENSINO MÉDIO INTEGRADO-PROEJA E EDUCAÇÃO PROFISSIONAL NA FORMAÇÃO DOS TRABALHADORES ... 47

3.1 O ENSINO MÉDIO INTEGRADO: QUESTÕES HISTÓRICAS E A OPOSIÇÃO DUALISMO E INTEGRAÇÃO ... 47

3.2 EDUCAÇÃO PROFISSIONAL E FORMAÇÃO HUMANA: FRAGMENTAÇÃO E POLITÉCNICA ... 52

3.3 SABERES PROFISSIONAIS: QUESTÕES HISTÓRICAS E COLETIVAS NO/PELO TRABALHO ... 57

3.4 PROEJA E DESAFIOS PARA A EDUCAÇÃO DA CLASSE TRABALHADORA .. 59

(13)

3.6 SABERES PRESCRITOS E SABERES RENORMATIZADOS ... 67

SEÇÃO IV - PROCESSOS DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL E O CURSO DE ALIMENTAÇÃO ESCOLAR/PROEJA: ENTRE O PRESCRITO E O RENORMATIZADO NAS ATIVIDADES LABORAIS DOS EGRESSOS ... 70

4.1 A EDUCAÇÃO PROFISSIONAL E A FORMAÇÃO TÉCNICA DOS EGRESSOS TAE/PROEJA: A FORMAÇÃO PRESCRITA E A RENORMATIZAÇÃO ... 70

4.2 OS DESAFIOS E AS CONTRADIÇÕES DO ENSINO MÉDIO INTEGRADO NO CIEBT NO CONTEXTO DO CURSO TÉCNICO EM ALIMENTAÇÃO ESCOLAR ... 77

4.3 A RELAÇÃO O ENSINO PROFISSIONAL E O MUNDO DO TRABALHO ... 83

4.4 DO ENCONTRO DE DIMENSÕES: ENTRE O PRESCRITO E O RENORMATIZADO NO COTIDIANO DO TRABALHO DOS EGRESSOS DO CURSO TAE ... 87

CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 99

REFERÊNCIAS ... 103

APÊNDICE ... 109

APÊNDICE A – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO ... 109

APÊNDICE B – PROJETO PEDAGÓGICO DO CURSO TAE-PPC ... 110

APÊNDICE C – ROTEIRO DE ENTREVISTA COM PROFESSORES BT E BC ... 120

APÊNDICE D – ROTEIRO DE ENTREVISTA COM OS EGRESSOS DO CURSO TAE ... 123

(14)

SEÇÃO I – ASPECTOS METODOLÓGICOS DA INVESTIGAÇÃO: PARA UMA COMPREENSÃO DO OBJETO E PROBLEMA

Processos de formação profissional: um estudo com os egressos do curso Técnico de Alimentação Escolar/PROEJA – Centro Integrado de Educação do Baixo Tocantins-Cametá-PA1 é investigação que analisa, a partir do cotidiano de trabalho de egressos do Curso Técnico de Alimentação Escolar/PROEJA, sediado no município de Cametá, a relação entre o prescrito nos processos de formação profissional e a renormatização em seus ambientes laborais, em termos de saberes do trabalho, acionados na dinâmica das necessidades desses ambientes.

Teoricamente, a pesquisa se insere no interior das discussões sobre trabalho e educação, focando a temática da formação profissional, no sentido de se investigar a relação entre o prescrito e o renormatizado em termos de saberes profissionais atualizados no cotidiano de trabalho de egressos de um curso técnico Alimentação Escolar/PROEJA. Trata-se de pesquisa que objetivou entender o mundo do trabalho desses sujeitos e os processos de formação do trabalhador, partindo do pressuposto das lutas travadas pelos trabalhadores para que eles sejam reconhecidos como sujeitos políticos, de culturas e saberes, conforme Arroyo (2002, p. 138).

A partir da materialidade histórica experienciada por esses trabalhadores e trabalhadoras, por meio do trabalho, foi que avançamos nesta investigação, no sentido de entender seus processos de formação, como egressos de um curso profissional, em integração ou não com suas vivências e saberes do cotidiano do trabalho, considerando a relação entre o prescrito no processo de formação profissional e as necessidade de renormatização de saberes técnicos, sociais, culturais e experienciais nas situações de trabalho.

Para este estudo, consideramos as pesquisas realizadas por Schwartz (2007), que aborda saberes do sujeito trabalhador no mundo do trabalho, valorizando seus saberes, em oposição ao modelo taylorista-fordista de produção sistematizada, e também por Santos (2000), que busca a padronização de comportamentos e a instrumentalização de um conjunto de conhecimentos aplicáveis na rotineirização do trabalho, visualizando-o como técnica, em detrimento do sujeito que, frente às proposições do mundo do trabalho, produz materialidades outras, inovadoras, para dar conta das necessidades laborais impostas pelo/no trabalho. Adotamos, assim, a

1 O baixo Tocantins é constituído por um conjunto de municípios, como Baião, Igarapé-Miri, Mocajuba, Limoeiro do Ajuru, Cametá e Oeiras do Pará. Quanto a Cametá, é um município com uma população de 120.896 habitantes, conforme IBGE (2010), limitando-se, ao norte, com o município de Limoeiro do Ajuru, ao sul, com Mocajuba, ao leste, com Igarapé Mirim, e, ao oeste, com Oeiras do Pará, no estado do Pará. Trata-se de município que possui uma área de 3.077,16 km², com uma população urbana de 52.838 habitantes, correspondendo a 43,71% do total de habitantes, e uma população rural de 68.058, correspondendo a 56,29% desse total. É um município com maior contingente de sujeitos do campo, situados nas ilhas, nas comunidades ribeirinhas e no setor de estradas.

(15)

perspectiva ergológica do trabalho desenvolvida por Schwartz (1998), que nos possibilitou compreender as transformações no mundo do trabalho e seus impactos na criatividade humana, enquanto produtora de saberes, experiências e posições políticas.

Assim, a partir de Schwartz (2011), partimos do pressuposto de que a simplificação do trabalho, entendido como mera aplicação/replicação de técnica, repetição, que impossibilitaria o pensar-fazer do trabalhador enquanto unidade, é ilusória e parcialmente impossível, uma vez que a atividade técnica, passível de medições e decomposições, é apenas uma das dimensões do trabalho humano, sendo a outra tudo aquilo de enigmático que o “lidar com a técnica” pode comportar, implicando atitude criadora e transformadora, considerando o disposto por Marx (1985, p. 50) de que, por meio do trabalho, o homem e a mulher estabelecem mediações com a natureza e com outros homens e mulheres, de modo a criar subjetividades e objetividades que lhes atendam às necessidades de vida, entendendo que “Como criador de valores de uso, como trabalho útil, é o trabalho, por isso, uma condição de existência do homem, independente de todas as formas de sociedade, eterna necessidade natural de mediação do metabolismo entre homem e natureza e, portanto, da vida humana” (MARX, 1985, p. 50).

Por outro lado, para a ergologia não existe o trabalho como mera repetição de acontecimentos e saberes já previstos na rotineirização dos processos laborais, porque sempre dinâmicos e passíveis de transformação, dado o entendimento do homem como sujeito histórico, de modo que, no/pelo trabalho, os homens integram experiências distintas, a fim de darem conta de necessidades do próprio trabalho, o que nos permite assumir nesta investigação que, no desenvolvimento de suas atividades laborais, a partir de uma formação específica, os sujeitos podem integrar dialeticamente saberes científicos, oriundos da formação em Técnico

de Alimentação Escolar (TAE), e saberes experienciais, resultantes do trabalho vivido em

diferentes dimensões da existência humana, como a social, a técnica, a cultural e a política, mas em um processo de renormatização, ressignificação, atrelada às suas necessidades, sempre inovadoras. Nessa perspectiva, assumimos o trabalho como inventividade, eterna mediação entre o homem e outros elementos da natureza, conforme o disposto por Marx (1974, p. 148), de que “Como atividade que visa, de uma forma ou de outra, à apropriação do que é natural, o trabalho é condição natural da existência humana, uma condição do metabolismo entre homem e natureza, independentemente de qualquer forma social”.

Portanto, o trabalho, como atividade fundamental para a construção da humanidade do homem, é também atividade importante no processo de criação e transformação humana, sendo responsável pela própria constituição e formação do ser social, de modo que, a partir dos

(16)

estudos de Schwartz (2011), consideramos que, em toda situação de trabalho, há sempre uma tentativa de renormatização que, por sua vez, reflete a prática, as ações cotidianas com produção de saberes, produto do debate de normas, fruto de experiências contextualizadas pelos trabalhadores e historicamente situadas.

Nesse sentido, conhecer mais de perto o que é vivido nos ambientes laborais dos egressos Técnicos em Alimentação Escolar, formados pelo CIEBT, em Cametá, foi-nos um desafio que possibilitou entender como os saberes prescritos, os quais são constituídos a partir de formações acadêmicas, no interior da escola, e as necessidades impostas pelo trabalho são renormatizados pelas experiências dos trabalhadores nas várias situações vivenciadas, bem como compreender que, nos locais de trabalho, existe um mundo a ser conhecido, que favorece saberes e que anuncia problemas que, por sua vez, refletem a prática, as ações cotidianas, a constante produção, proporcionando um estado, muitas vezes, de contraposição contra o que está instituído, determinado.

Por outro lado, para se entender o contexto onde estão inseridos os trabalhadores nos espaços de trabalho, a partir da ótica ergológica, foi necessário atentar para a trajetória histórica sobre como surgiram os estudos sobre o mundo do trabalho na perspectiva da Ergologia, muito intensificados a partir dos anos de 1990, no sentido de se compreender contextos vividos por conflitos relacionados com esse mundo, com objetivo de melhor conhecer e, especialmente, de melhor intervir sobre as situações de trabalho, com propostas para transformá-las. (SCHWARTZ, 2010d, p. 37). Essa orientação também norteou nossa pesquisa, à medida que nos permitiram entender as negociações que os egressos realizam, nos contextos de trabalho, para resolver conflitos de ordem técnica, organizacional, política, por exemplo, mediando conhecimentos oriundos da formação inicial recebida no curso por eles realizado e as contradições do mundo do trabalho por eles também vivenciado.

Além disso, partindo da compreensão de que os estudos com base na ergologia, que datam de fins de 1970 e início de 1980, na França, pautaram-se em relações pluridisciplinares a respeito de situações de trabalho, conforme Athayde e Brito (2011), Hennington, Cunha e Fischer (2011), buscamos articular os pressupostos teóricos dessa abordagem de pesquisa com categorias como saberes experienciais e saberes do trabalho, conforme Magalhães e Tiriba (2018) e Rodrigues (2012), de modo a entender mais ainda como, no interior da relação prescrito e renormatizado, surgem subjetividades e objetividades que engendram saberes, entendidos como a materialidade de criações humanas, a partir de suas necessidades de existência produtiva, criadora e humanista.

(17)

Em nossa pesquisa, consideramos, pois, o vivido e o experienciado pelos egressos do

curso Técnico de Alimentação Escolar/PROEJA, do Centro Integrado de Educação do Baixo Tocantins-Cametá, por entendermos, a partir de Athayde e Brito (2011), por meio do

campo da filosofia da vida, que, a partir da relação entre o homem e o meio, podem ser resgatadas as historicidades do trabalho, permitindo-se compreender a defasagem entre o trabalho prescrito e o trabalho real, partindo-se do pressuposto de que a realidade vivida é muito mais ampla que as prescrições oriundas de diferentes formações realizadas pelo homem, sendo, isto sim, por elas atualizadas e acrescidas de outras subjetividades, em um processo dialético de integração e negação do vivido e experienciado.

Não se trata, contudo, de se assumir uma posição a favor da pedagogia das competências2, no sentido de se negar uma formação integral e de base científica aos sujeitos, priorizando-se uma formação pragmática, flexível, defendendo-se que as experiências por si sós determinam a formação humana e as necessidades da vida. Pelo contrário, trata-se de se entender que somente a formação de ordem dita teórica, desligada da vida dos sujeitos, não consegue dar conta das necessidades de trabalho, entendido para além das razões de mercado, sendo necessário que a base científica se integre à vida, constituindo-se significativa para a atuação no mundo, quer do ponto de vista técnico, político, econômico, cultural, como social, organizacional. Trata-se, assim, de se defender a integração entre escola e vida, como tão bem salienta Ciavatta (2012, p. 85), para a qual:

A ideia de formação integrada sugere superar o ser humano dividido historicamente pela divisão social do trabalho entre a ação de executar e a ação de pensar, dirigir ou planejar. Trata-se de superar a redução da preparação para o trabalho ao seu aspecto operacional, simplificado, escoimado dos conhecimentos que estão na sua gênese científico-tecnológica e na sua apropriação histórico-social. Como formação humana, o que se busca é garantir ao adolescente, ao jovem e ao adulto trabalhador o direito a uma formação completa para a leitura do mundo e para a atuação como cidadão pertencente a um país, integrado dignamente à sua sociedade política. Formação que, neste sentido, supõe a compreensão das relações sociais subjacentes a todos os fenômenos. (CIAVATTA, 2012, p. 85)

2Segundo Ramos (2009a, s/p), “[...] a noção de competência situa-se, então, no plano de convergência entre a

teoria integracionista da formação do indivíduo e da teoria funcionalista da estrutura social. A primeira demonstra que a competência torna-se uma característica psicológico-subjetiva de adaptação do trabalhador à vida contemporânea. A segunda situa a competência como fator de consenso necessário à manutenção do equilíbrio da estrutura social, na medida em que o funcionamento desta última ocorre muito mais por fragmentos do que por uma seqüência de fatos previsíveis”. E continua: “O processo de construção do conhecimento pelo indivíduo, por sua vez, seria o próprio processo de adaptação ao meio material e social. Nesses termos, o conhecimento não resultaria de um esforço social e historicamente determinado de compreensão da realidade para, então, transformá-la, mas sim, das percepções e concepções subjetivas que os indivíduos extraem do seu mundo experiencial. O conhecimento ficaria limitado aos modelos viáveis de inteiração com o meio material e social, não tendo qualquer pretensão de ser reconhecido como representação da realidade objetiva ou como verdadeiro”.

(18)

Estudar, pois, a relação entre o prescrito em uma formação profissional e a integração dessa formação a processos de trabalho realizados pelos sujeitos em suas atividades laborais, entendidas para além do mundo técnico, é contribuir para que se tenha uma compreensão científica de como se efetiva “[...] ao adolescente, ao jovem e ao adulto trabalhador o direito a uma formação completa para a leitura do mundo e para a atuação como cidadão pertencente a um país, integrado dignamente à sua sociedade política. Formação que, neste sentido, supõe a compreensão das relações sociais subjacentes a todos os fenômenos” (CIAVATTA, 2012, p. 85). E, nesse sentido, a abordagem ergológica nos possibilitou investigar, sem objetivar modelos de análise única, a materialidade de integração entre escola e vida, na relação formação e experiências de trabalho.

Por fim, consideramos que, na perspectiva ergológica, o trabalhador é o sujeito da ação em relação ao trabalho, analisado como um misto de aspectos técnicos, organizacionais, políticos, sociais, culturais, frente à sua ação humana, em uma relação repleta de singularidades com as demandas do mundo laboral, materializadas em intervenções, criações, ressignificações e práxis criativas, não repetitivas, que nos permitiram analisar o papel importante dos trabalhadores Técnicos em Alimentação Escolar em relação aos processos de trabalho no espaço laboral por eles vivido e a que são submetidos, a partir das normas prescritas no curso TAE, mas que lhes possibilitaram, dialeticamente, a inventividade, a transgressão ao status quo de normatização do trabalho e um convite a renormatizações ou não, realizadas por esse trabalhador nas várias situações vivenciadas nas situações de trabalho.

OS CAMINHOS EXPERIENCIADOS PELA PESQUISADORA: EDUCAÇÃO, LUTA E PERSISTÊNCIA – O LUGAR DE ONDE SE FALA

Já destacamos, ao longo desta seção, que nosso objeto de pesquisa perpassa por analisar como se integraram ou não os processos formativos prescritos no curso Técnico de

Alimentação Escolar/PROEJA, realizado no Centro Integrado de Educação do Baixo Tocantins-Cametá, aos processos laborais experienciados por seus egressos, de modo a

compreender como os trabalhadores e trabalhadoras dão conta das necessidades do trabalho, em suas condições de existência, renormatizando ou não os conhecimentos recebidos na formação inicial. E isso parte do pressuposto de que trabalhadores e trabalhadoras, a partir da educação, qualificam suas vidas, em meio a lutas e resistências, contra formas de trabalho que buscam padronizar a existência. E nossa vida, enquanto pesquisadora em um mestrado em Educação e Cultura, tem muito de relação com esse pressuposto.

(19)

Assim como os jovens egressos do Curso Técnico de Alimentação Escolar, que adentraram o curso em prol de novas perspectivas formativas, sendo filhos e filhas de trabalhadores e trabalhadoras, vencendo desafios, percebendo na educação importante papel para a luta por emancipação, também esta pesquisadora vem de uma trajetória de lutas para vencer os desafios de acesso à educação, uma vez negada para muitos como um direito essencial à vida em seu sentido pleno, que permita o domínio da cultura socialmente produzida pela humanidade. Como forma de resistência, esta pesquisadora seguiu na luta estudando e trabalhando como toda filha de trabalhador que necessita sobreviver em uma sociedade capitalista, permeada de contradições sociais, políticas, econômicas, culturais.

Seus pais, cametaenses, trabalhadores, viram na educação a possibilidade de seus filhos se emanciparem e terem condições de lutar, a partir da educação, por outras condições de existência. Seu pai, trabalhador do serviço público, com o Ensino Fundamental incompleto, mas com um curso de aperfeiçoamento na área de eletricidade, teve condições de manter, até o Segundo Grau – hoje Ensino Médio – os sustentos da família nos estudos.

Como muitos jovens filhos e filhas de trabalhadores, a pesquisadora aqui em apreço vem de uma família de 12 filhos, em que sua mãe, trabalhadora, com jornada de trabalho como de dona de casa e costureira, com nível de escolaridade até a 5ª série primária, também lutava para que o orçamento familiar desse conta de contribuir significativamente nas orientações de estudos de toda a família. Infelizmente, aos 33 anos, a mãe adoeceu e veio a óbito, deixando órfãos, com os destinos nas mãos do genitor, os filhos.

Assim, o pai, em uma situação de desespero, naquele momento com 8 filhos, teve que conciliar seu trabalho, criação e educação das crianças. Com esses acontecimentos, a pesquisadora foi crescendo, vivenciando seu pai no ofício do trabalho como eletricista, o qual, segundo ele, foi “[...] um curso que fez no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) [...] sendo importante para manter a família”. Todavia, a partir de nossas interações com o pai, podemos considerar que foi um curso de aperfeiçoamento aligeirado, mantendo-o preso a uma concepção de educação somente para empregabilidade, com limites para o desenvolvimento pleno das capacidades humanas. Mas foi com esse norte que o genitor buscou encaminhar os filhos e as filhas, por acreditar na formação técnica, sendo por ela formado; seus filhos foram, assim, encaminhados para estudar cursos profissionalizantes, porque acreditava que, ao concluírem os cursos, estariam empregados.

Nessa concepção de formação para a empregabilidade, seguiu a pesquisadora estudando o curso de Magistério, na década de 1990. Conseguiu um “emprego” na área do magistério para

(20)

atuar no Ensino Fundamental para crianças, em escola de setor privado. Assim, seguiu sua caminhada como professora no serviço do capital, já que era uma escola particular voltada para o ensino de Educação Infantil e Ensino Fundamental menor, buscando, contraditoriamente, compreender o seu papel e da educação como uma prática mediadora do processo de produção, processo político, ideológico e cultural, bem como de classe. Com o passar do tempo, percebeu que era necessário avançar rumo a um curso superior. Passou no vestibular da Universidade Federal do Pará, Campus de Cametá, em Pedagogia 2003, regime de estudos intervalar. Formou-se em 2007. Nos anos de 2008 e 2009, passou no concurso público na esfera estadual e municipal. No primeiro, foi como Especialista em Educação; no segundo, como professora para séries iniciais. Contraditoriamente, buscava-se fugir “[...] à crescente exclusão dos jovens, que atingiram a idade de ingresso no mercado de trabalho e que, sem perspectiva de emprego, acabam muitas vezes engrossando as fileiras dos trabalhos precários, dos desempregados, sem perspectivas de trabalho, dada a vigência da sociedade do desemprego estrutural” (ANTUNES; ALVES, 2004, p. 339), sem que aqui se esteja fazendo a defesa do individualismo, que nega a necessidade de lutas coletivas, em prol também da coletivização dos resultados do trabalho humano.

Mas essa reflexão sobre a trajetória de estudos e trabalho, enquanto empregabilidade, serve também para se compreender a ligação desta pesquisadora com a temática “Trabalho, Educação e Saberes”, pois foi a partir de sua historicidade com questões sobre trabalho, educação, emprego, renda, formação e ser jovem que se tomou a iniciativa de voltar a estudar e resolver uma inquietação sobre a formação, cada vez mais precarizada, considerando suas experiências no campo do trabalho, em que se experienciava falta de formação específica de nível superior na área de atuação de muitos trabalhadores, a desvalorização da profissão pela instituição onde atuava, as condições de trabalho com carga horária excessiva, falta de cursos formação continuada, desvalorização salarial.

Todos esses indicadores levaram a pesquisadora a uma busca por se opor a perspectivas de educação meramente instrumentais, percebendo, a partir de seu trabalho, que os trabalhadores, no interior das escolas, criam normas outras, a fim de atender às necessidades laborais, quer do ponto de vista curricular, por exemplo, como em termos estruturais, o que denota, em certo sentido, uma denúncia a ausências de políticas públicas, que movem os trabalhadores a uma necessidade de organização, enquanto fração de classe. Assim, vivências como essas conduziram-nos a adentrar em leituras sobre a perspectiva ergológica de pesquisa sobre o trabalho, que nos permitiu entender mais ainda a particularidade de cada trabalhador no

(21)

sentido de poder arbitrar e agir sobre determinada atividade, opondo-se à anulação de sua inventividade e sujeito de história e movimento. Conforme Vieira Júnior e Santos (2012, p. 89):

Pelo viés da ergologia, entende-se que cada trabalhador se apropria do trabalho que lhe é imputado, mas não se despe de sua história, de seus valores éticos para fazê-lo. Influencia, mas também é influenciado; ao mesmo tempo em que deve cumprir uma série de tarefas ditadas por normas que lhe são prescritas, ele as reinventa constantemente (SANTOS, 2000a). Essas duas esferas estão, portanto, em constante interação e é nesse ponto que a abordagem ergológica se propõe a intervir.

No entanto, foi como especialista em educação, mais precisamente, que a trajetória da referida pesquisadora delineou uma imersão com a temática da educação profissionalizante, no CIEBT, Escola do Estado, atuando como coordenadora do Ensino Médio com estudantes nos cursos para formação profissionalizante, o que lhe permitiu entender como políticas de formação são delineadas para os trabalhadores, não raro como cursos de curta duração, voltados para certas necessidades de mercado, em uma negação a uma formação ampla para a classe trabalhadora, conforme destaca Kuenzer (2016), ao analisar a formação da classe trabalhadora nos espaços de trabalho, para quem o modo de produção capitalista, a partir do modelo de acumulação flexível, vem cada vez mais atribuindo um caráter flexível à força de trabalho, de modo que:

[...] importa menos a qualificação prévia do que a adaptabilidade, que inclui tanto as competências anteriormente desenvolvidas, cognitivas, práticas ou comportamentais, quanto a competência para aprender e para submeter-se ao novo, o que supõe subjetividades disciplinadas que lidem adequadamente com a dinamicidade, com a instabilidade, com a fluidez (KUENZER, 2016, p. 45).

Em outras palavras, busca-se preparar os sujeitos de forma flexível, com

[...] a necessidade de ter disponível para consumo, nas cadeias produtivas, força de trabalho com qualificações desiguais e diferenciadas que, combinadas em células, equipes, ou mesmo linhas, atendendo a diferentes formas de contratação, subcontratação e outros acordos precários, assegurem os níveis desejados de produtividade, por meio de processos de extração de mais-valia que combinam as dimensões relativa e absoluta (KUENZER, 2016, p. 45).

Diante dessa situação, a formação dos trabalhadores acaba se constituindo cada vez mais desigual, de modo que, “[...] dada a forma de consumo de força de trabalho ao longo das cadeias produtivas [...]”, como destaca Kuenzer (2016), vai se aprofundando:

[...] a distribuição desigual do conhecimento, onde, para alguns, dependendo de onde e por quanto tempo estejam integrados nas cadeias produtivas, se reserva o direito de exercer o trabalho intelectual integrado às atividades práticas, a partir de extensa e qualificada trajetória de escolarização; o mesmo não ocorre com a

(22)

sofisticados, em atividades laborais de natureza simples e desqualificada e são precariamente qualificados por processos rápidos de treinamento, com apoio nas novas tecnologias e com os princípios da aprendizagem flexível

(KUENZER, 2016, p. 45-46, grifos nossos).

Assim, reflexões como essas nos conduziram a analisar a questão da relação prescrito e renormatizado, enquanto formação no trabalho de egressos de um curso técnico, voltado para trabalhadores, a fim de verificar como se materializa a formação no cotidiano do trabalho e quais os seus impactos na qualificação desses sujeitos.

Essa posição também decorreu quando, em Cametá (PA), tivemos a oportunidade de trabalhar na coordenação local do Programa Nacional de Formação de Professores da Educação Básica (PARFOR), na UFPA/Cametá, em decorrência de cessão pela prefeitura municipal de Cametá, via Secretaria Municipal de Educação (SEMED). Com essa perspectiva de maior presença em uma Instituição de Ensino Superior, podemos também conhecer e participar do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Trabalho e Educação (GEPTE/Cametá), um dos grupos de estudos e pesquisas mais atuantes, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Currículo de Gestão da Escola Básica (PPEB) e, no Campus Universitário do Tocantins/Cametá – UFPA, ao Programa de Pós-Graduação em Educação e Cultura (PPGEDUC), possibilitando-me ampliação de reflexões sobre o materialismo histórico-dialético, bem como as relações entre trabalho e educação, de modo a permitir analisar a formação dos egressos do Curso Técnico de Alimentação Escolar, enquanto relações de contradição entre o prescrito e o renormatizado em suas ações de trabalho e formação.

Assim, a imersão no GEPTE nos possibilitou elementos para compreender o presente, quanto à formação dos egressos do curso aqui sob análise, assim como uma maior compreensão da relação entre Trabalho, Educação e Saberes, dadas as discussões pertinentes sobre os saberes de trabalhadoras e trabalhadores e sua emancipação social e política. Essas experiências, portanto, me levaram a fazer o processo seletivo do Mestrado, em 2017, no qual fui aprovada com a pesquisa na área voltada para educação profissional e saberes do trabalhador, abrindo caminhos que permitiram à pesquisadora definir seu objeto e problema de pesquisa.

DOS CAMINHOS PERCORRIDOS, O PROBLEMA DE PESQUISA

Em termos de definição de nosso objeto de pesquisa, a questão da relação entre o prescrito e o renormatizado nas atividades laborais de egressos de um curso Técnico em Alimentação Escolar (TAE), muito corroborou o fato de eu me constituir servidora da Secretaria Estadual de Educação (SEDUC-Pará), trabalhando como Especialista em Educação no Centro

(23)

Integrado de Educação do Baixo Tocantins (CIEBT3-Cametá-Pará), o que me permitiu vivenciar a realidade dos estudantes matriculados na educação profissional na perspectiva do Ensino Médio Integrado, na modalidade PROEJA, no curso Técnico de Alimentação Escolar, e os anseios desses homens e mulheres de concluírem a etapa do ensino e conseguirem passar em algum concurso e logo trabalhar, para garantir um trabalho com objetivo de dar qualidade de vida para si e para seus familiares, além de sua própria valorização profissional, embora tenhamos a compreensão de que, conforme Gentilli (2005, p. 54),

A empregabilidade não significa, para o discurso dominante garantia de integração senão, melhores condições de competição para sobreviver na luta pelos poucos empregos disponíveis: alguns sobreviverão, outros não [...] um incremento no capital humano aumenta as condições de empregabilidade do indivíduo, o que não significa necessariamente que por aumentar tais condições todo individuo terá um lugar garantido [...] simplesmente porque no mercado não há lugar para todos.

Essa perspectiva de empregabilidade, a partir da formação recebida no CIEBT, esteve presente na perspectiva de trabalho dos egressos, como nos expôs uma de nossas entrevistadas. Mas a questão, nesse momento, foi que essa preocupação com a formação em uma relação com a melhoria de qualidade de vida manifesta pelos discentes em formação nos motivou a pesquisa, dado o envolvimento e motivações dessas mulheres e homens com o processo educativo no início de sua entrada no curso TAE, no ano de 2010, de modo a analisar o que decorreu dessa formação, em termos de profissionalização em atividades laborais atuais na vida desses sujeitos. Assim, no dizer de uma entrevistada egressa: “[...] quando surgiu o curso técnico, aí eu falei, eu vou fazer o curso técnico pra que eu possa trabalhar menos e ganhar um pouco mais [...]”. Em termos de certificação e conhecimentos, a formação recebida contribuiu para que os egressos pudessem disputar os poucos empregos disponíveis, como nos destaca Gentilli (2005), haja vista que a formação favoreceu conhecimentos historicamente produzidos pela humanidade e requeridos em exames de seleção, como destaca a entrevistada: “[...] acho que foi na parte do concurso, né? Quando veio o concurso [...], tanto é que fiz a prova e passei logo, por causa que já tava muito tempo parada de estudar: mais de 10 anos; aí eu fiz e me ajudou nessa parte, por causa que concluí e me lembrava [dos conhecimentos decorrentes do curso] e logo em cima veio o concurso” (EGRESSA 1).

Essa experiência, pois, com os estudantes desse curso, hoje egressos, nos favoreceu a compreensão sobre a história de vida desses sujeitos e a intensificação do valor da educação

3 Lócus de pesquisa: Centro Integrado de Educação do Baixo Tocantins-Cametá, localizado na Avenida Inácio Moura, nº 1.500, bairro Aldeia, município de Cametá, estado do Pará.

(24)

para suas vidas, constituindo-se mulheres e homens com sonhos, frustações, dúvidas, medos, desejos como educandos para com um ponto de partida para superação do saber de senso comum pelo conhecimento científico, que, em tese, pudesse possibilitar a eles ir mais além do que lhes foi negado em certo momento histórico de suas vidas: o acesso à cultura geral. Trata-se, assim, de se compreender que esses sujeitos buscavam, pela educação no Ensino Médio, se contrapor à própria negativa de que, para se poder pelo menos sonhar em concorrer às poucas vagas de emprego, há de se ter, a partir de uma perspectiva classista e racista de trabalho, pelo menos o diploma de Ensino Fundamental e Médio, do contrário o próprio sonhar com o trabalho-emprego é negado pela situação de pobreza a que são submetidos os trabalhadores e as trabalhadoras, conforme nos esclarece Arroyo (2015, p. 29):

Se levarmos em conta que no padrão classista e racista de trabalho ter um diploma de conclusão do ensino fundamental e médio é pré-condição para ser admitido no mercado de emprego, aos 53% de jovens pobres e negros sem diploma de conclusão do ensino fundamental lhes será negado o direito ao trabalho. À vida digna e justa. A pobreza é condicionante de seu direito à educação e condicionante de seu direito ao trabalho e à vida. A negação dos direitos humanos mais básicos determinando a negação do direito à educação condicionante de sua condenação à pobreza.

Assim, observando a trajetória de resistência e luta desses estudantes em busca formação em nível médio, em uma perspectiva profissionalizante, bem como os desafios dos professores e discentes para assumir uma perspectiva integradora entre formação geral e a específica, nesse curso técnico, tendo como mediação a prática social e o trabalho produtivo, fomos estreitando a necessidade de se estudar como essa formação, para a vida além da escola, foi se integrando às práxis produtivas4, laborais, econômicas, sociais, políticas, organizativas desses egressos. Assumimos, assim, que nossa pesquisa buscou analisar a integração entre escola e vida, de que nos fala Ciavatta (2012, p. 85), para a qual “[...] a formação integrada ou do ensino médio integrado ao ensino técnico” pressupõe querer “[...] que a educação geral se torne parte inseparável da educação profissional em todos os campos onde se dá a preparação para o trabalho: seja nos processos produtivos, seja nos processos educativos como a formação inicial, como o ensino técnico, tecnológico ou superior”, assumindo-se o “[...] trabalho como princípio educativo, no sentido de superar a dicotomia trabalho manual/trabalho intelectual, de incorporar

4 A partir de Vázquez (2007, p. 226, frifos nossos), assumimos a práxis produtiva como sendo fundamental para a constituição do ser social, emancipado, criador, “[...] porque nela o homem não só produz um mundo humano ou humanizado, no sentido de um mundo de objetos que satisfazem necessidades humanas e que só podem ser produzidos na medida em que se plasmam neles fins ou projetos humanos, como também no sentido de que na

(25)

a dimensão intelectual ao trabalho produtivo, de formar trabalhadores capazes de atuar como dirigentes e cidadãos (GRAMSCI, 1981, p. 144 e ss.)”.

Imersa no local de trabalho CIEBT, na experiência do trabalho de coordenação pedagógica, observamos dificuldades para a implementação de uma perspectiva de formação integrada, como a delineada por Ciavatta (2012), dada a visão dicotômica da separação e distinção entre profissionalização e processos de escolarização mais amplos, impactando na separação entre as disciplinas teóricas e as disciplinas práticas, entre os saberes, o pensar e a capacidade de fazer.

Nesse momento, observávamos também os desafios dos Egressos, naquele momento como estudantes especificamente do PROEJA, por ter que trabalhar e estudar o Ensino Médio Integrado/PROEJA para ter acesso a um processo formativo, inclusive escolar, que promovesse o desenvolvimento de suas amplas faculdades físicas, intelectuais, mas, principalmente, financeiras, dada a visão que muitos jovens assumiam, em decorrência da busca da empregabilidade, por serem oriundos de famílias trabalhadoras, onde o acesso à educação, em uma correlação idade-série, havia sido negada, mas para os quais representava a possibilidade de pleitear um emprego. Ou seja, havia, no CIEBT, uma luta de contrários na constituição dos estudantes, no sentido de que, de um lado, a escola buscava assumir uma perspectiva de formação integrada, enquanto que a emergencialidade do emprego-trabalho direcionava os estudantes.

Mas a questão, para os propósitos de constituição de nosso objeto de pesquisa, foi que havia na escola uma busca pela perspectiva integrada de formação, o que nos conduziu a analisar, nesta pesquisa, como essa integração vem se materializando no trabalho produtivo dos sujeitos egressos, assumindo-se que o ensino integrado, segundo Araújo (2013, p. 1-2),

[...] exige a crítica às perspectivas reducionistas de ensino, que se comprometem em desenvolver algumas atividades humanas em detrimento de outras e que, em geral, reservam aos estudantes de origem trabalhadora o desenvolvimento de capacidades cognitivas básicas e instrumentais em detrimento do desenvolvimento de sua força criativa e de sua autonomia intelectual e política.

Buscava-se, assim, conforme Ciavatta (2012, p. 86):

[...] superar a redução da preparação para o trabalho ao seu aspecto operacional, simplificado, escoimado dos conhecimentos que estão na sua gênese científico-tecnológica e na sua apropriação histórico-social. Como formação humana, o que se busca é garantir ao adolescente, ao jovem e ao adulto trabalhador o direito a uma formação completa para a leitura do mundo e para a atuação como cidadão pertencente a um país, integrado dignamente à sua sociedade política. Formação que, neste sentido, supõe a compreensão das relações sociais subjacentes a todos os fenômenos.

(26)

Tais considerações nos conduziram ao processo de análise de como a formação recebida no Curso Técnico de Alimentação Escolar , realizado no CIEBT, foi permitindo aos egressos as condições para essa leitura de mundo de que nos fala Ciavatta (2012), assim como a “[...] atuação como cidadão pertencente a um país, integrado dignamente à sua sociedade política”, de modo a compreender “[...] as relações sociais subjacentes a todos os fenômenos”, de modo a identificar na prática do trabalho de egressos como se integra o que estava prescrito no seu processo de formação profissional a seus ambientes laborais, em termos de renormatização, explorando conceitos de ergologia, trabalho, atividade humana, trabalho prescrito, saberes renormatizados. Assim, indagamos: De que forma os saberes prescritos nos processos de

formação Técnica em Alimentação Escolar pelo CIEBT se constituem mobilizados e/ou renormatizados nos ambientes laborais desses trabalhadores, compreendidos a partir de uma perspectiva de formação integrada?

Com relação a essa perspectiva de estudo, a partir do CIEBT e com foco em questões de integração, há de se destacar que é nova a presente problematização, porque centrada na análise de como a formação prescrita se insere/integra nos contextos vividos de trabalho dos egressos, diferentemente de Silva (2014) que, tomando o CIEBT-Cametá como espaço de investigação, analisou a correlação educação profissional e desenvolvimento local, em uma ótica de integração a partir do Ensino Médio Integrado, considerando ainda a prática de formação do trabalhador, oriunda de uma gestão escolar nesse Centro Integrado. Sua pesquisa concluiu que a Educação Profissional no baixo Tocantins, na especificidade do município de Cametá, embora buscando a integração no interior da orientações do Ensino Médio Integrado, não conseguiu dar conta de articular a formação a questões amplas de desenvolvimento na região, porque outros elementos necessários para tanto não foram viabilizados pelo Estado, como investimento na produtividade local, ligada à agricultura e piscicultura, por exemplo, além de não haver total domínio da escola em como proceder a integração nos processos formativos.

Por outro lado, a pesquisa sobre trabalho prescrito e trabalho renormatizado que desenvolvemos mostra aspectos diferenciados da formação do trabalhador, em relação a outros trabalhos desenvolvidos na região do baixo Tocantins. Rodrigues (2012), por exemplo, investigou a relação entre saberes sociais e luta de classes de pescadores, analisando a configuração de saberes sociais, como objetos de luta de classes e possíveis instauradores de uma consciência de classe em si diante das demandas do capital. Nas suas análises, problematizou que os saberes sociais produzidos pelos pescadores se configuraram como elementos potencializadores de uma consciência de classe para si, possibilitando a organização

(27)

política, como os saberes do trabalho relacionados à contestação da realidade e à atuação política. Sua pesquisa, pois, não focou a questão de processos de integração, a partir de uma formação pautada na formação integrada.

Martins (2017) analisou a práxis política de pescadores artesanais, mostrando como se materializa a lógica capitalista nas relações de produção-formação, inserida na negação dos direitos da classe trabalhadora, representada pelos pescadores. Sua pesquisa como a organização dos pescadores constrói elementos capazes de resistir às ideologias do capital e, ao mesmo tempo, de tornar-se proposta de luta em prol da classe trabalhadora. Para Martins (2017), os processos de produção-formação dos pescadores se materializam como práxis política, ressaltando que, no ato de produzir para garantir a existência humana, também aquela é constituída por meio de saberes que proporcionam o desenvolvimento de novas tecnologias e que podem contribuir, conforme destaca o pesquisador, na produção de novas relações.

Pompeu (2017), por outro lado, também realizando pesquisa na região do baixo Tocantins, a partir do município de Cametá, abordou a questão de saberes do trabalho como elementos de formação de uma identidade de pescadores artesanais, pautando-se nas condições materiais de produção de saberes do trabalho da pesca, no contexto pós-construção da Usina Hidrelétrica de Tucuruí (UHT), cujas análises mostram a formação identitária do pescador artesanal em um cenário de disputas entre trabalho e capital. Pompeu (2017), em seus achados, demonstra que a construção da UHE de Tucuruí trouxe impactos negativos na materialidade produtiva dos pescadores artesanais, materializados, contraditoriamente, na produção também de saberes como mecanismos de enfrentamento dessas condições adversas, havendo também alinhamentos à lógica do capital, de modo que a identidade do pescador artesanal possui uma formação caracterizada pelo distanciamento do trabalho da pesca como atividade criadora de valores de uso.

Todavia, há de se considerar que pontos em comum há entre esta pesquisa e os trabalhos de Rodrigues (2012), Martins (2017) e Pompeu (2017). Um deles é o foco na produção de saberes pelos trabalhadores, como elementos que lhes potencializam a existência e a luta, tal como o tratamento que realizamos nesta pesquisa, ao problematizarmos que, nas atividades laborais dos egressos, haja produção de saberes renormatizados, de modo a dar conta de suas necessidades de existência, quer laborais, quer políticas, econômicas, sociais e culturais. Outra questão é o caráter metodológico, considerando que as três pesquisas, bem como a que realizamos, tomam o materialismo histórico-dialético como pressuposto de análise, observando a relação prescrito e renormatizado, a partir das contradições experienciadas pelos egressos em

(28)

suas atividades produtivas, bem como fazendo uso do princípio da totalidade para se entender as múltiplas determinações que constituem os processos de renormatização desenvolvidos pelos egressos, entendidos não como objetos prontos e acabados, mas limitados e provisórios, abertos a novas apreensões e a novos conhecimentos como exigência própria da dialética do conhecimento, conforme Vázquez (2007).

No entanto, há também diferença entre os trabalhos aqui apresentados, além da diferença já apontada com relação ao objeto de pesquisa e problematização, haja vista que, em nossa investigação, tomamos o trabalho na perspectiva da ergologia, em que se analisa o sentido que o trabalhador atribui à sua atividade em determinada situação no espaço laboral. Trata-se de um estudo no sujeito, na singularidade e mobilização e uso dos conhecimentos que estruturam a experiência e o saber do trabalho em uma perspectiva dialética, conforme Vieira Júnior e Santos (2012).

No mais, destacamos que nossa pesquisa também se pautou nos trabalhos desenvolvidos por Santos (2003; 2014), Vendramini (2000), Franzoi (2009), Cunha (2007), Fischer e Franzoi (2018), considerando suas contribuições sobre saberes do/no trabalho produzidos por trabalhadores em suas atividades produtivas, o que nos ajudou também na definição de nosso objeto e problema, haja vista que tratamos de analisar que saberes são renormatizados ou não a partir da relação entre prescrito no processo de formação inicial e as necessidade de trabalhos das atividades desenvolvidas pelos egressos.

AS QUESTÕES NORTEADORAS DA PESQUISA

Nossas questões norteadoras partiram do princípio, conforme Kosik (1976), de que a consciência, falando em termos de condução científica, é a capacidade de representar o ser de modo ideal, de impor finalidades às ações, de transformar perguntas em necessidades e de dar respostas a essas necessidades, o que nos direcionou a “[...] captar o fenômeno de determinada coisa”, no sentido de “[...] indagar e descrever como a coisa em si se manifesta naquele fenômeno” (KOSIK, 1976, p. 16).

Nesse sentido, considerando a necessidade de analisarmos como na prática do trabalho de egressos do Curso Técnico de Alimentação Escolar/PROEJA se materializa, em termos de integração ou não, o prescrito no processo de formação profissional às necessidades de trabalho de seus ambientes laborais, quanto a renormatizações ou não, constituímos as seguintes questões norteadoras:

(29)

– Que saberes são construídos no processo de formação profissional no curso técnico em Alimentação Escolar e no interior da organização escolar?

– Como o processo de formação profissional tem assegurado autonomia na atividade humana desses trabalhadores nos seus ambientes laborais?

– De que forma os saberes dos trabalhadores construídos no processo de formação profissional têm sido renormatizados nos cotidianos de trabalho desses trabalhadores?

SOBRE OS OBJETIVOS DA INVESTIGAÇÃO

Em linhas gerais, buscamos analisar de que forma os saberes prescritos nos processos de formação Técnica em Alimentação Escolar pelo CIEBT se constituem mobilizados e/ou renormatizados nos ambientes laborais desses trabalhadores, compreendidos a partir de uma perspectiva de formação integrada.

Em termos específicos, buscamos:

– Identificar saberes construídos durante o processo de formação profissional do curso TAE e no interior da organização escolar.

– Compreender o processo de formação profissional do curso TAE quanto ao desenvolvimento da autonomia na atividade humana desses trabalhadores nos seus ambientes laborais.

– Compreender de que forma os saberes dos trabalhadores construídos no processo de formação profissional têm sido renormatizados nos seus cotidianos de trabalho.

SOBRE O CENTRO INTEGRADO DE EDUCAÇÃO DO BAIXO TOCANTINS

O Centro Integrado de Educação do Baixo Tocantins (CIEBT5), lócus de nossa investigação, é vinculado ao Sistema Estadual de Educação do Pará e atende aos princípios da legislação em vigor, identificado junto ao MEC sob registro 15587878, conforme informações obtidas a partir do Projeto Político Pedagógico da Escola (PPP), de 2017. Ele recebe discentes das redes estaduais, municipais ou privadas de Cametá, Mocajuba, Oeiras do Pará, Baião e Limoeiro do Ajuru6, tendo a diversidade cultural como característica da escola, haja vista que

5 A sede administrativa e educacional fica na Avenida Inácio Moura nº. 1500, no município de Cametá, Estado do Pará. Rege-se pela Lei de Diretrizes e Bases de Educação Nacional-LDB-9394/96, nas diretrizes curriculares nacionais para a educação profissional de nível técnico, no Decreto Federal nº. 5154/04, e pelo Projeto Pedagógico da Escola, que contempla as concepções pedagógicas e normas administrativas. (PPP da Escola, 2017).

(30)

seu PPP pressupõe alunos de todas as classes sociais, credos, etnias e raças, assim como os professores e as professoras trazem e convivem com valores, concepções diferentes, o que permite o exercício da cidadania (PPP, 2017).

Para os propósitos desta pesquisa, advogamos que a escolha do CIEBT como lócus de investigação partiu do pressuposto de ser uma escola na região do baixo Tocantins com Ensino Médio Integrado, que, desde 2006, dispõe do curso por nós pesquisado, no contexto da Educação Profissional, formando jovens e adultos inseridos no mundo do trabalho da pesca, da agricultura e, não raras vezes, dado o desemprego estrutural vivido pela sociedade capitalista, conforme Gentilli (2005), em atividades de escola, feira-livre, pequenos comércios, trabalhos flexíveis, como se deu na constituição de turmas do curso técnico em Alimentação Escolar.

De acordo com o PPP da Escola, a instituição oferta cursos de Ensino Médio Integrado, como Manutenção em Suporte Informática, Aquicultura e Gestão do Agronegócio, Ensino Técnico Subsequente, como Agropecuária e Secretaria Escolar, e Ensino Técnico Médio Integrado-PROEJA, como Alimentação Escolar, Administração, Meio Ambiente, Informática, Manutenção de Suporte Informática e outros (PPP da Escola, 2017).

Quanto ao curso TAE, modalidade PROEJA, no interior do CIEBT, segundo o Plano de Curso (CIEBT, 2006, p. 3), ele buscava “[...] formar profissionais capacitados para atuar no preparo da alimentação dos estudantes, conforme o cardápio e orientações definidas pelo profissional da área, nutricionista”, partindo-se do pressuposto de que:

[...] a alimentação saudável e adequada é direito fundamental do ser humano, inerente à dignidade da pessoa humana e indispensável à realização dos direitos consagrados na Constituição Federal de 1988, além de constituir como direito essencial do estudante da rede pública de ensino, e dever do Estado, conforme aponta os escritos da LDB, lei nº 9.394/96.

OS SUJEITOS DA PESQUISA: EGRESSOS E DOCENTES

A pesquisa tem como sujeitos egressos da turma de Técnico de Alimentação Escolar 2010 e professores do Centro Integrado de Educação do Baixo Tocantins (CIEBT-Cametá). Nosso foco nos egressos partiu das implicações previstas em nosso problema e objeto de pesquisa, no sentido de se analisar como se materializa a renormatização ou não de saberes rescritos na formação de técnico em alimentação escolar às necessidades laborais de sujeitos já em processo de trabalho, não como estágio, mas como atividade desenvolvida enquanto profissão decorrente de uma formação inicial, além de se considerar que toda ação formadora se constrói em uma relação de pessoas, a partir de necessidades e objetos de trabalho específicos, como o do profissional em trabalho com alimentação escolar.

(31)

Assumimos, então, a partir de Arroyo (2013), que as pessoas são sujeitos que se expressam nessa materialidade, que entram nela com suas matrizes culturais, suas histórias pessoais, suas representações e valores, sua subjetividade, sensibilidade, afetividade e emoção, sua condição humana. Considerando esses elementos, podemos destacar que a turma em questão foi a primeira que teve a habilitação para atuar como Técnico em Alimentação Escolar no município de Cametá. A turma, inicialmente com 30 alunos, todos oriundos de Cametá, teve somente 08 discentes formados no referido curso. Dos concluintes, 07 são mulheres e 01, homem7.

Dos formados, somente 04 técnicos estão no serviço público, como concursados e todos são mulheres. No entanto, desse total de técnicas, apenas 03 egressas puderam ser consideradas em nossa pesquisa, pois uma delas, apesar de ter sido entrevistada em um primeiro momento, não estava atuando na área da Alimentação Escolar. Quanto aos demais, eles foram excluídos: uma, porque não conseguimos nos encontrar para a entrevista; outros, porque estão trabalhando fora do espaço escolar, como autônomos – um atua na área dos serviços cartorários e outro atua como batedor de açaí na sua residência8.

Em um primeiro momento, foi possível a aproximação com três egressos e, com eles, realizamos um mapeamento daqueles que possivelmente poderiam contribuir para a pesquisa. Alguns egressos demonstraram interesse em participar das entrevistas, o que nos levou a fazer algumas anotações de campo no decorrer dos primeiros contatos, no sentido de conhecer as atividades laborais por eles desenvolvidas, bem como entendimento da realidade social experienciada por eles e os motivos da escolha para estudar um curso profissionalizante e suas expectativas.

Em um segundo momento, entrevistamos dois técnicos em Alimentação Escolar que atuam na área da educação, concursados na Secretaria Municipal de Educação (SEMED-Cametá). A primeira informante, denominada de Egressa 1, tem 52 anos e atua há 17 anos na área da Educação, dos quais atua há 12 anos como Manipuladora de alimentos. Como Técnica em Alimentação Escolar, ela atua desde 2014, completando os seus 5 anos de exercício na profissão. Já a Egressa 1 tem 55 anos e atua na área da Educação há 8 anos, dos quais 3 são como manipuladora de alimentos e, desde de 2014, atua como técnica, completando 5 anos, mesmo período de experiência da Egressa 1, sendo que a Egressa 2 fez concurso como TAE para trabalhar no espaço escolar na zona rural de Cametá. Destaque-se, por outro lado, que

7 Informações obtidas em trabalho de campo na secretaria escolar da instituição, no ano de 2017, 8 Informações obtidas a partir de trabalho de campo junto aos egressos do curso.

(32)

nossas entrevistadas haviam interrompido seus estudos há mais de 15 anos, sendo a formação recebida no CIEBT um marco em suas perspectivas de trabalho e renda, já formadas.

Como sujeitos da pesquisa, também contribuíram dois professores, 01 da Base Comum e o outro da Base Técnica, denominados: Prof. BC e Prof. BT, respectivamente. O Prof. BC tem 48 anos, atua há 10 anos na área da Educação, com formação em nível superior na área de Ciências, com habilitação em Biologia, pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), especialista, concursado, ministrando a disciplina Biologia, Base Comum e se estende para a Base Técnica com a disciplina Meio Ambiente. A Prof. BT tem 38 anos, atua há 6 anos na área da Educação com formação em nível superior em Bacharel em Nutrição, especialista, contratada, ministrando as disciplinas referentes à Nutrição Dietética, Higiene e Segurança no Trabalho. Além disso, a Prof. BT é também Coordenadora do Curso Técnico de Alimentação Escolar/PROEJA.

Assim, o número de sujeitos da pesquisa totalizou 04 entrevistados: 02 egressos e 02 professores, um da BC e outro BT, sendo que o professor BT é coordenador do curso.

QUESTÕES METODOLÓGICAS – DO MÉTODO À ANÁLISE DAS ENTREVISTAS

Partindo do pressuposto de que buscamos investigar o trabalho como atividade humana e como construção de saberes dos egressos em Alimentação Escolar no espaço laboral, mas especificamente focado nos saberes do/a trabalhador/a oriundos da relação prescrito e renormatizado, tomamos o materialismo histórico-dialético como método de pesquisa, considerando esta pesquisa do tipo qualitativa.

Por qualitativa, entendemos o disposto por Araujo (2010), para o qual as pesquisas qualitativas devem ultrapassar o limite da descrição e buscar procedimentos de análise, procurando articular o local a questões da totalidade dos fenômenos sociais, isto é, entendendo o particular como instância dessa totalidade. Assim, nesta investigação buscamos ultrapassar a descrição, no sentido de se analisar como as renormatizações de saberes prescritos decorrem de contextos sociais mais amplos, como a negação das condições de trabalho dos egressos pelo Estado, em sua face municipal, bem como em decorrência de lacunas previstas no processo formativo vivenciado pelos sujeitos. No mais, defendemos a importância do sujeito pesquisador na articulação entre a empiria e as questões teóricas, de modo a favorecer a análise e interpretação dos dados, a partir das entrevistas realizadas. Assim, valorizamos “[...] a ação do sujeito pesquisador no processo de análise e interpretação dos dados coletados” e

Referências

Documentos relacionados

Com base no trabalho desenvolvido, o Laboratório Antidoping do Jockey Club Brasileiro (LAD/JCB) passou a ter acesso a um método validado para detecção da substância cafeína, à

A solução, inicialmente vermelha tornou-se gradativamente marrom, e o sólido marrom escuro obtido foi filtrado, lavado várias vezes com etanol, éter etílico anidro e

[r]

A placa EXPRECIUM-II possui duas entradas de linhas telefônicas, uma entrada para uma bateria externa de 12 Volt DC e uma saída paralela para uma impressora escrava da placa, para

Os principais objectivos definidos foram a observação e realização dos procedimentos nas diferentes vertentes de atividade do cirurgião, aplicação correta da terminologia cirúrgica,

O relatório encontra-se dividido em 4 secções: a introdução, onde são explicitados os objetivos gerais; o corpo de trabalho, que consiste numa descrição sumária das

psicológicos, sociais e ambientais. Assim podemos observar que é de extrema importância a QV e a PS andarem juntas, pois não adianta ter uma meta de promoção de saúde se

Os principais resultados obtidos pelo modelo numérico foram que a implementação da metodologia baseada no risco (Cenário C) resultou numa descida média por disjuntor, de 38% no