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O Trabalho e o complexo desafio de produzir-se humano

2.2 O Trabalho como Produto Humano

2.2.1 O Trabalho e o complexo desafio de produzir-se humano

É claro que o homem quer ser mais do que apenas ele mesmo. Quer ser um homem total. Não lhe basta ser um indivíduo separado; além da parcialidade da sua vida individual, anseia por uma “plenitude” que sente e tenta alcançar, uma plenitude de vida que lhe é fraudada pela individualidade e todas as suas limitações; uma plenitude na direção da qual se orienta quando busca um mundo mais compreensível e mais justo, um mundo que tenha significação (FISCHER, 1987, p. 12).

A concepção de homem como um ser multidimensional permite aceitá-lo em toda a sua plenitude e, no alcance dessa significação, como um ser de ação. E é a consciência das suas múltiplas possibilidades de agir que o constitui como um ser de cultura pela produção da sua vida. Produção essa que é definida pelas condições materiais de sua existência, como ser histórico que produz e é produzido pela práxis humana.

O homem, como um ser que trabalha, produz não somente para ele mesmo, mas produz, nesse processo, a transformação do mundo em que vive. É, portanto, o trabalho do homem que o distingue de outros animais, pela ação transformadora da realidade existente. Assim, o trabalho, como ação dirigida e intencional, produz o próprio homem. Nesse processo, ele estabelece relações de convivência social, nas quais aprende a dominar a natureza, gerando novas expectativas nas formas de prover sua existência. É essa essência que caracteriza o homem e o diferencia das demais espécies. Dessa maneira, o trabalho intencional e dirigido é que forma o homem livre, o homem que fundamenta sua liberdade na perspectiva do seu trabalho. A sua importância pode ser verificada a partir da concepção de que:

O trabalho é um processo de que participam o homem e a natureza, processo em que o ser humano, com sua própria ação, impulsiona, regula e controla seu intercâmbio material com a natureza como uma de suas forças (...) Atuando assim sobre a natureza externa e modificando-a, ao mesmo tempo modifica sua própria natureza. (MARX, 1980, p. 202).

O trabalho, como modo de intercâmbio entre o homem e a natureza, levou o homem a um certo tipo de comum unidade entre os homens e suas relações, e desta maneira foi

possível a organização das primeiras comunidades em que o homem forjou processos de autoprodução. Faz parte da história associativa do homem o percurso realizado desde as comunidades primitivas até a sociedade atual, passando, assim, por processos de avanço e, ao mesmo tempo, por processos de exploração do homem por outros homens. Neste sentido, é o homem, portanto, um ser histórico que, ao produzir a si mesmo, produz o seu coletivo e, transformando a realidade, produz sua cultura, pela produção de sua existência.

Pelo modo primitivo de produção, o homem produziu socialmente com outros homens a sua existência, extraindo bens da natureza e, ao produzir bens em excesso, estabeleceu a divisão do trabalho. Ao apropriar-se da produção excedente, criou a propriedade privada, instalando um determinado modo de produção, caracterizado de um lado, por aqueles que produzem e, de outro, pelos que vivem da produção excedente.

Esse sistema denominado capitalismo é um processo de exploração sofisticado, em que grandes contingentes de seres humanos são divididos em classes sociais, nas quais uns poucos possuem os meios de produção e, por conseguinte, são os donos do capital, e a grande maioria são os possuidores apenas da força de trabalho como modo de prover a sua existência, ou seja, os trabalhadores, os proletários, os assalariados.

Das comunidades primitivas à livre concorrência, passando pelo capital monopolista até a era da globalização, o modo de produção capitalista, por basear-se na contínua exploração da força do trabalho humano, exclui dos trabalhadores os benefícios e as vantagens que só o trabalho produz, e que, por mecanismos de exploração, só uns poucos têm acesso. Dessa forma, os trabalhadores, por lhes faltarem os meios materiais para produzirem mercadorias, passaram a vender sua força de trabalho ao capitalista, mantendo-a vinculada ao capital. A produção excedente e a divisão do trabalho reforçam no trabalhador idéias de que ele é propriedade do capital, perdendo sua independência para submeter-se ao comando do capital, que vai discipliná-lo.

No conjunto das circunstâncias, para produzir a sua existência, o trabalhador não se realiza como gênero humano, como individualidade, por não ser detentor do conhecimento do processo de produção do trabalho. Em primeiro lugar, porque não lhe é permitido dominar todo o processo que torna estanque a produção, o que não lhe possibilita conhecer a realidade sobre a qual executa determinado trabalho. Em segundo lugar, porque não retornam ao trabalhador os benefícios da produção, mas somente novas e maiores exigências lhe são requisitadas. O trabalho tornou-se, assim, opressão, e não um fator de amplas aprendizagens e desenvolvimento humano, fato que subjuga o trabalhador, fazendo-o incapaz.

Assim, o trabalho, que é próprio do homem, como constitutivo em essência do seu agir sobre a natureza, transforma-o num continuum, pelo modo dominante, num ser produtor de sua existência pela produção de uma cultura externa, inorgânica à sua compreensão e à sua omnilateralidade.

A compreensão do homem,

como ser de ação, enquanto produtor, implica reconhecê-lo como ser social, uma vez que o processo de transformação da realidade objetiva, no transcurso do qual ele produz-se a si mesmo, se faz através do conjunto de relações que o homem estabelece consigo mesmo, com os outros homens e com a natureza. Estas relações são produto humano, e ocorrem no tempo, em circunstâncias estruturais dadas em cada sociedade, que por sua vez são também conformadoras. Assim, o homem deve ser entendido enquanto ser social, histórico, produzido e produtor das circunstâncias (KUENZER, 1992, p. 69-70).

Reconhecer o homem, também, como um ser social, implica reconhecer as possibilidades de suas ações assim como o produto de sua produção histórica. Se, por um lado, o homem é capaz de produzir-se em circunstâncias estruturais dadas em cada sociedade, é também capaz de produzir mudanças, quer por vezes qualitativas, quer por vezes dificultando a sua ação, todavia, sempre mediada pela cultura também refeita.

A organização contemporânea da produção configura-se por um método que incorpora os princípios da administração científica, o taylorismo refeito, flexibilizado que, ao introduzir o cronômetro para decompor o tempo de cada trabalho, converteu a essência humana em trabalho cronometrado, parcelado como unicidade da dimensão do trabalho humano. Dessa forma, refletir o trabalho como dimensão humana e perceber as mudanças nas suas formas de ser no mundo contemporâneo implica ver e discutir as condições que o homem possui no modo vigente de produzir trabalho e, de outro lado, as formas de exclusão no seu modo de produzir-se humano.