4 ANÁLISE DOS RESULTADOS
4.2 ANÁLISE DA PRODUÇÃO CIENTÍFICA SOBRE O TRABALHO DA ENFERMEIRA NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE/ATENÇÃO BÁSICA
4.2.2 O trabalho da enfermeira no contexto do trabalho em equipe
Em se tratando do contexto do trabalho em equipe, os artigos analisados revelam que este é considerado como fundamental para a operacionalização da saúde neste âmbito de atenção. É considerado também como de significante importância para a complementaridade das ações implementadas pelos diversos membros da equipe de saúde, se afirmando como eixo de sustentação da produção de serviços de saúde na rede básica (artigos 1 e 13).
Assim, o trabalho da enfermeira é apontado como uma parcela do trabalho em saúde, revelando a divisão do trabalho em enfermagem e também ao interior da equipe multiprofissional. Como componentes do trabalho da enfermeira são referidas as atividades de supervisão, treinamento, controle e coordenação do pessoal de enfermagem (artigo 10). Já o trabalho em equipe é referido como parte do contexto multidisciplinar do trabalho em saúde, onde o trabalho em equipe emerge como um espaço de busca de soluções para os problemas que envolvem a equipe de saúde e a comunidade; como necessidade de conhecimento entre seus componentes e reconhecimento das diferentes personalidades e valores de seus membros (artigo 13). Não há referências à divisão social e técnica do trabalho e ao conflito, inerente ao processo de trabalho multidisciplinar, em que profissionais com diferentes graus de formação, de saberes, reconhecimento e valor social e econômico devem necessariamente compartir do mesmo processo de trabalho.
Outros achados oriundos da análise dos estudos revelam que a noção de trabalho em equipe está associada à interação entre os agentes, co-responsabilidade e planejamento compartilhado pelo diálogo entre os trabalhadores integrantes da equipe, facilitando o processo de comunicação e de decisão, e fazendo com que os conhecimentos sejam compartilhados (artigos 2, 13 e 56i).
Assim, argumenta-se, de uma perspectiva ideal, que o trabalho em equipe deve pautar- se em relações dialógicas horizontais, na cumplicidade e no envolvimento de todos os partícipes com a organização do processo de trabalho, fortalecendo as relações interpessoais e a troca de conhecimento não só entre a equipe de trabalho, mas também entre esta e a
comunidade (artigos 2 e 7). Ao desenvolver um trabalho, seguindo essa lógica, os profissionais acrescentam ao significado da finalidade do trabalho um vínculo humanizado, entre o sentido de melhorar as condições de saúde e a qualidade da vida e o sentido instrumental/operacional do trabalho, centrado na mudança de comportamento de todos os envolvidos no processo. Mas os artigos não produzem uma análise crítica de como sim ou como não este discurso ideal se opera na prática, ou o que precisa ser feito para se alcançar os pressupostos afirmados como positivos.
Para os autores dos artigos, o trabalho na atenção básica propicia a continuidade do acompanhamento e maior envolvimento com a comunidade, quando realizado por toda a equipe. Assim, é importante que seus membros tenham boa interação (artigo 36). Nesse contexto, a enfermeira assume um importante papel na coordenação e integração dos trabalhos, incentivando os membros da equipe e planejando com eles as intervenções necessárias para o oferecimento de uma assistência integrada e com qualidade.
Entretanto, construir possibilidades efetivas de uma prática na qual a comunidade seja partícipe do trabalho em equipe, ou seja, integre-se ao processo de construção de um projeto assistencial comum ainda é um desafio para a maioria das equipes de saúde que atuam na atenção básica (artigo 13).
Alguns estudos demonstram que ao mesmo tempo em que o trabalho em equipe exige o estabelecimento de espaços de intercâmbio, exige por outro lado uma clara definição das competências profissionais, estando estas baseadas em conhecimentos sempre interligados e complementares (artigos 22 e 42i).
Esta definição de competências deve estar aliada à complementaridade dos diferentes trabalhos, que é discutida em alguns estudos (artigos 11, 29, 35, 40, 42i, 45, 56i). Evidencia- se através dos achados que um profissional depende do trabalho do outro para dar continuidade às suas intervenções, e para promover o desenvolvimento da assistência integral à saúde dos indivíduos, evitando a fragmentação das ações e, consequente, inviabilização do trabalho. Entretanto, esse ainda é um processo em construção.
No entanto, outros achados direcionam para um comprometimento na articulação das ações pela excessiva demanda de usuários em alguns serviços de saúde (artigo 11). Assim, relata-se que essa demanda excessiva, visando à produção quantitativa de atividades, acarreta sobrecarga de trabalho e falta de tempo para os profissionais planejarem em conjunto as ações
a ser implementadas, já que ficam envolvidos com o atendimento da demanda espontânea e com o atendimento nos consultórios. Em se tratando da enfermeira, estas limitações são postas como um agravante para a articulação entre as diferentes atividades no cotidiano de suas práticas, ficando essas questões restritas basicamente aos momentos de reunião de equipe.
Em contrapartida, nos questionamos se esse excesso de atividades e falta de tempo não deriva justamente das dificuldades que as equipes possuem de realizar um trabalho integrado, pois a cooperação pode contribuir para a organização do trabalho e, consequentemente, para o seu melhor desenvolvimento. Isto não se reflete nos artigos analisados, bem como não se discute o modo de organização do processo de trabalho da enfermeira na AB.
O respeito entre os profissionais e o desenvolvimento de uma relação de confiança são considerados as principais características de relacionamentos bem-sucedidos e duradouros entre os diferentes componentes da equipe, principalmente entre médicos e enfermeiras (artigo 42i).
Em se tratando das dificuldades para operacionalização do trabalho em equipe, um dos artigos (artigo 14) cita como sendo dificuldades de interação entre enfermeiras e os demais membros da equipe, onde se consideram estas dificuldades como de ordem pessoal e também de ordem profissional. Entretanto, os autores não explicitam os aspectos que compõem essas dificuldades. Foi destacado também que muitas vezes um trabalhador termina realizando ações de outros profissionais, como por exemplo, a enfermeira que incorpora ações que seriam cabíveis a um psicólogo ou assistente social.
Entretanto, colocamos em questão se uma escuta qualificada, por exemplo, é realmente uma tarefa especializada, devendo ser realizada por um psicólogo. Compreendemos que a enfermeira em seu processo de formação apreende diversos saberes de distintos campos do conhecimento, devendo utilizá-los em seu cotidiano de trabalho. Além disso, se sempre se precisasse lançar mão de outras especialidades, como da psicologia, da assistência social, da nutrição, dentre outras, a AB deixaria de exercer seu papel de primeiro nível de atenção à saúde e passaria a ser um ambulatório de especialidades.
Outro tipo de dificuldade identificada que compromete o desenvolvimento do trabalho em equipe é a centralidade do trabalho médico, onde todos os demais trabalhos desenvolvidos parecem estar à margem deste. A falta de planejamento conjunto e de coordenação de
cuidados também é percebida como fatores limitantes. A equipe percebe que não dá conta da coordenação de cuidados e as atividades acabam sendo focadas na doença, revelando um modelo clínico tradicional, cuja finalidade principal é atender à pressão da demanda imediata, de baixa complexidade e de alguns segmentos da população considerados mais vulneráveis (artigos 45 e 53).
Essa elitização do trabalho médico foi constituída historicamente, e esse profissional ainda é considerado como o executor do trabalho intelectual no setor saúde, sendo-lhe atribuído maior valor social. Isto ocasiona, cotidianamente, conflitos entre este e os demais profissionais da equipe de saúde, repercutindo negativamente na realização do trabalho na perspectiva da integralidade, dado que cada profissional isoladamente não consegue atender às necessidades de saúde dos usuários. Além disso, a existência de conflitos não explicitados tende a inviabilizar a implementação do trabalho em equipe, interferindo na articulação de ações, comunicação e interação dos agentes, contribuindo para a não efetivação dos cuidados em saúde.
Nesse sentido, a falta de preparo dos profissionais para o trabalho em equipe é apontada como um fator que reforça o atendimento individualizado e a dificuldade de articulação multiprofissional (artigo 61). Ressaltamos, portanto, a necessidade de incorporação de processos de educação permanente que facilitem o intercâmbio de conhecimento entre os diferentes trabalhadores que compõem a equipe de atenção à saúde, possibilitando momentos de construção e desconstrução de saberes com vistas a enriquecer as práticas em saúdes. Assim, é possível que se criem condições para evidenciar e processar as articulações entre as ações dos diferentes agentes, configurando um trabalho interdependente e complementar, que possibilite melhoria na qualidade de vida dos indivíduos.