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2.7 A África pós-colonial: transição e reestruturação

TIPO DE ATIVIDADE ECONÔMICA

3.5. O Trabalho informal como fio (in)visível de acumulação

O grande desafio da nossa época e no mundo do trabalho consiste em saber se é o setor informal que explora o setor formal ou se é o setor formal que se reproduz através de flexibilização das formas de trabalho. Diante dessas “contradições” muitos estudiosos das áreas de ciências sociais se debruçaram sobre o tema, dentre quais destacadamente Maria Cacciamali (2001) e Maria Augusta Tavares (2002) sustentam de forma unânime que na verdade o que ocorre é uma relação de continua interdependência entre os “setores”. Ainda, Cacciamali preconiza que além de serem complexos e difíceis de serem demarcados isoladamente, é urgente reatualizar o conceito de informalidade antes de quaisquer comparações entre os dois setores.

Para entender melhor as supostas fronteiras do formal e informal, tomamos emprestado o conceito de Boaventura de Souza Santos (2007) aquilo que o autor chama de linhas cartográficas “abissais” – que para esse autor, o pensamento colonial que demarcava o novo e o velho mundo ainda persiste ideologicamente, tanto nas instituições ocidentais como no imaginário social. O que significa que essas pesquisas sobre a informalidade, liderada pela OIT, além de dar muitas brechas, têm elementos ideológicos perigosos, reproduzindo o pensamento do norte global versos sul global, de modo pelo qual “[...] a característica fundamental do pensamento abissal é a impossibilidade da co-presença dos dois lados da linha. (SANTOS, 2007, p.4). O que Santos (2007) quer nos dizer é que essas formas de imposições ideológicas estão presentes dialeticamente tanto na economia política quanto na sociedade e de modo pelo qual é traçada em linha visível e linha invisível: a primeira – linha visível (norte global) é opressora, formal, punitiva, legal e evasiva, ao passo que a segunda - linha invisível (sul global) é oprimida, informal, ilegal, marginal, explorada, portanto, é passível de ser explorada e criminalizada. Dito de outra maneira, se as características da economia ocidental (capitalista) são tomadas como cenário da formalidade, da legalidade e da burocracia, da ordem e do racional, logo, a economia dos países terceiro mundistas se torna um campo polissêmico (passível de interpretação), no sentido oposto como se fossem os da desordem, informalidade e ilegalidade. Essa é uma divisão superficial muito presente e subjacente nas interpretações dos estudos da OIT e uma que predomina

na definição atual sobre a informalidade. Nesse sentido, o conceito “pensamento abissal”, cunhado por Boaventura de Souza Santos, nos possibilita compreender a maneira como muitos estudos sobre a informalidade têm sidos reproduzidos e aplicados como critérios que impossibilitam coexistência entre o formal e informal, e por isso copiosamente reduzem esse último à pequena economia (familiar), autônomas, principalmente associando-a a características de países “em desenvolvimento”. Uma análise reducionista e ideológica que trata os dois setores separadamente, quando na pratica os dois setores deveriam ser tratados e vistos como indestrinçáveis (indivisíveis) e, portanto, complementares.

Portanto, ao invés da impossibilidade da coexistência entre o setor informal e formal tomados como elementos dualísticos, estanque (estática), entre os dois setores contraditórios, temos uma realidade híbrida e/ou simbiose que opera no bojo do processo da urbanização e das imbricadas formas de sobrevivências não só na África, mas, em toda escala global. A informalidade tem estado presente na dinamização econômica de acordo com as suas especificidades locais. Assim, as análises universais e retrógradas (como os estudos da OIT sobre a informalidade no Quênia no ano de 1972) são incapazes de resolver o impasse, uma vez que os conteúdos sobre a informalidade são complexos, só os estudos locais empíricos e analíticos recentes podem esclarecer os intrincados mecanismos de trabalho socialmente combinada no cotidiano das pessoas e empresas que dependem de elementos informais dentro da divisão social do trabalho. É exatamente nesse sentido, que por constituir-se em uma parte inserida na divisão sócio internacional do trabalho, é profícuo ressaltar que, em essência, a informalidade representa para os trabalhadores deserdados51 a subsistência para si, podendo também gerar ganhos, inclusive para a manutenção familiar e/ou consumo imediato, enquanto para o capitalista, se gera lucro. E isto por si só é fundamental para o estabelecimento de uma “relação puramente monetária”, o que significa que esta categoria de trabalho e de trabalhadoras participam diretamente da acumulação capitalista. Pois a devida constatação dessa realidade pode ser observada na visão de Beloque (2007):

As atividades que, nas últimas décadas, passaram a ser denominadas de “informais” são espécies de trabalho que fazem parte da economia

51 José de Souza Martins (2016) usa o conceito de deserdados quando se refere a grupos de indivíduos sem meios de produção, forças produtivas, e sem recursos naturais (terra, matérias-primas). Grosso modo, é o perfil de indivíduos ou grupos carentes de bens materiais.

desde o início do capitalismo, vieram se combinando com as formas de produção “tipicamente capitalistas” e influenciando-se, mutuamente, ao longo do desenvolvimento deste sistema econômico. Atualmente, as atividades “informais” são realizadas, grosso modo, por um amplo espectro de trabalhadores [...]. E, em nenhum desses casos, tais atividades são “informais” e exteriores à economia; ao contrário, são partes constituintes da economia capitalista, seja da produção, seja da circulação de bens e serviços.

[...] Essas proposições visam ressaltar que as atividades “informais” não são “manchas de atraso” que perduraram, nem vão desaparecer com a retomada do crescimento econômico, mas são elementos integrantes, e em constante reprodução, de uma economia em que o ato de trabalhar reproduz a exploração do trabalhador e de uma economia em que a produção da riqueza gera pobreza.

É por essa razão que as políticas governamentais devem considerar a “informalidade” não [como] um fenômeno a ser absorvido pelo crescimento do emprego formal ou combatido, mas um elemento constituinte desta economia excludente. (BELOQUE, 2007, p. 158- 162, grifo nosso).

O que Beloque (2007) quer explanar é que, pela ótica do modo de produção capitalista, a informalidade é concebida como economia excludente, porém segundo o mesmo autor, a história nos aponta para uma direção oposta, a de que se trata de uma atividade econômica atemporal, que não podem ser concebidas, como se fossem as manchas do atraso, que vão desaparecer com a retomada do crescimento econômico. E, diz ainda, nem tampouco como encarada como um elemento deslocado, estanque e intruso da economia, intruso (na sociedade), e na economia somente porque é invisibilizada no modo de produção capitalista, ao contrário ambas podem se apresentar como elementos de complementariedade e em constante produção de uma economia na geração de riqueza. O que significa que, o serviço informal não é inferior, nem superior a outra ocupação trabalhista, pois é simplesmente importante pelo que carrega os traços da cultura do trabalho milenar, atuando nas diversas relações coexistência e de interdependência direta na dinâmica da circulação dentro de uma economia, somada as “novas e velhas” práticas de trabalho.

Isso significa que, esse universo comercial ainda quando seja informal, não está desacoplado ao sistema capitalista de produção e por isso pode ser compreendido como um importante fluxo monetário para a manutenção do sistema capitalista, de acordo com suas especificidades na utilização das práxis humanas no processo de valorização do capital e, que de igual modo serve também como força vital para a subsistência dessas famílias. Aqui nos referimos ao tempo de trabalho daqueles indivíduos que,

depois de anos juntando suas quantias e ganhos, seja por empréstimos de familiares ou por empréstimos ao banco, partem para a via-crúcis ou via-sacra, numa viagem em caráter mercantil e monetária, objetivando-se a abastecer-se da compra de produtos que, na maioria das vezes, são ofertados em lugares improvisados, ora em boxes de feiras populares, ora em varandas de casa, para os revenderem em seus países de origem e recuperar essa inversão feita na viagem e compra desses produtos, esperando ganhar mais do que foi invertido inicialmente, no final do processo. Isso é algo que nem sempre acontece, ou seja, que lhes esteja totalmente garantido.

O segmento da atividade mercantil e monetária praticada por esses indivíduos, aquecem o mercado na medida em que estão inseridas num processo de negociação, envolvendo (Dinheiro-Mercadoria-Dinheiro), numa esteira comercial, elas, as sacoleiras reproduzem suas comunidades e, concomitantemente geram o retorno financeiro aos fabricantes. Uma dinâmica compreendida por Marx (1978, p.15) como resultado de um trabalho socialmente combinado e generalizado entre a produção, a distribuição, o intercambio e o consumo. Por isso, entende-se que o setor econômico não se limita à relação “ do trabalho típico”, mas de todos os mecanismos engenhosamente interconectadas nas experiências de trabalho capaz de criar valor e constituir-se dentro da economia. É exatamente nesse sentido que as atividades informais são elementos dignos de apreciação e não depreciação, pois elas não são exteriores à economia, ao contrário, constituem-se dentro da economia capitalista, seja nas fases da produção das mercadorias, seja nas da circulação desses bens ou de serviços.

No capítulo VI inédito de O Capital, Karl Marx (apud ANTUNES, 2009) fala sobre o trabalho produtivo, insinuando que não se trata necessariamente da qualidade do trabalho que a pessoa executa enquanto métier (oficio), mas o que de fato incumbe observar é se ele participa diretamente na geração do capital, inclusive através da circulação de mercadorias que resultará em lucro. Segundo Antunes (2009), se o trabalhador “[...] está de fato subsumido ao capital, se participa diretamente do processo de valorização desse mesmo capital, então ele é um trabalhador produtivo. (ANTUNES, 2009, p.202).

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