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A simbiose entre setor arcaico e moderno da economia nos debates da CEPAL

2.7 A África pós-colonial: transição e reestruturação

TIPO DE ATIVIDADE ECONÔMICA

3.6. A simbiose entre setor arcaico e moderno da economia nos debates da CEPAL

Apontado como fruto da experiência colonial, a história da economia política latino-americana - e que se aplicaria também a países considerados terceiro mundistas como os africanos – foi sempre associada à informalidade e ao subdesenvolvimento, quando comparado aos de países chamados subdesenvolvidos ou de primeiro mundo, carregando a crença, nesse tipo de olhar e perspectivas, de que havia neste outros contextos mais atrasados uma mistura complexa entre muitos elementos arcaicos e pre- capitalistas que se combinariam e misturariam aos de novos modos capitalistas emergentes, desde o passado até o presente. Daí, para superar o legado colonial e o subdesenvolvimento na América Latina, o pensamento cepalino52 aponta a falta de industrialização principalmente na região do semiárido brasileiro como um desses elementos arcaicos e, consequentemente, a principal causa do subdesenvolvimento e da dependência da economia Brasileira.

Neste sentido, envolvido na tamanha preocupação em dar resposta a esses teóricos do pensamento Cepalino, Francisco de Oliveira (1972), nesta famosa obra sobre a Crítica à Razão dualista, se propõe a desenvolver um olhar com uma metodologia em um terreno completamente oposto ao do dual-estruturalismo dos Cepalinos que defendia a questão dualística de um modo mais estanque entre os dois polos, o moderno e o mais atrasado. Oliveira defende que haveria uma relação de simbiose entre o polo formal e informal, mas em um contexto em que o autor se referia à estrutura econômica do Brasil como sendo uma estrutura pré-capitalista, numa fase industrial própria e específica na que ocorreria essa simbiose entre o informal e formal, carregado de elementos obsoletos do escravismo que se somariam aos de aparatos tecnológicos modernos, nutrindo, assim, o sistema capitalista. Oliveira (1972) insinua

52 A Comissão Econômica Para a América Latina. A teoria desenvolvimentista da Cepal, em especial o Celso Furtado, era que devido a situação de polarização do setor atrasado (do latifúndio), e do outro lado- o setor moderno, daí a tarefa do estado, necessariamente tinha que ser a de superar o setor atrasado porque era o empecilho ao desenvolvimento, o que fazia com que a economia se retraísse, e por isso a solução seria a industrialização do Nordeste.

que estas práticas são características de países em desenvolvimento, acopladas ao processo de industrialização e urbanização em veemência de acompanhar a paradigmática modernização das forças produtivas. Por isso todos os elementos são importantes e se constroem para ele, dialeticamente.

Isso leva Oliveira a asseverar que o setor moderno e setor atrasado da economia operam concomitante e funcionalmente, contrariando a interpretação dominante da época, (a cepalina) que via o antagonismo e incompatibilidade entre esses dois setores ou “polos”. Principalmente, se contrapõe à tese de Celso Furtado que entendia que o setor atrasado retraia (puxa para traz) o setor moderno. É nesse sentido que contrapondo-se a essa concepção dualista econômica, que compreendia a operação funcional dos dois setores estanque ao capitalismo, Oliveira diz:

[...] um setor "moderno", não se sustenta como singularidade: esse tipo de dualidade é encontrável não apenas em quase todos os sistemas, como em quase todos os períodos. Por outro lado, a oposição na maioria dos casos é tão somente formal: de fato, o processo real mostra uma simbiose e uma organicidade, uma unidade de contrários, em que o chamado "moderno" cresce e se alimenta da existência do "atrasado", se se quer manter a terminologia.

O "subdesenvolvimento" pareceria a forma própria de ser das economias pré-industriais penetradas pelo capitalismo, em "trânsito", portanto, para formas mais avançadas e sedimentadas deste; sem embargo, uma tal postulação esquece que o "subdesenvolvimento" é precisamente uma "produção" da expansão do capitalismo. (OLIVEIRA, 1972, p. 7-8 grifo nosso).

Ao chancelar a interdependência entre o setor “moderno” e setor “atrasado” para a expansão do capitalismo, Francisco de Oliveira (2011) associa metaforicamente o Brasil a uma espécie biológica estranha, o ornitorrinco53, por não ser nem isso e nem aquilo, porque falta-lhe mais ciência e técnica, diferente daquilo que é verificado nas economias do capitalismo central. E que partindo nessa esteira de análise, tal raciocínio pode nos levar a pensar o modo pelo qual boa parcela da sociedade brasileira vive na informalidade e sem direitos sociais garantidos. Por isso para esse autor os chamados

53 O estranho animal é, ao mesmo tempo, um réptil, um pássaro e um mamífero. É anfíbio (vive na água e na terra), dá de mamar aos filhotes, como os mamíferos, mas não dá à luz a esses filhotes, em vez disso, põe ovos: como fazem muitos outros animais, exceto os mamíferos. Para além disso, tem um bico semelhante ao de um pato, o rabo semelhante ao de um castor, membranas nas patas e, no caso dos machos, espigões venenosos, uma característica também bastante rara em animais mamíferos. É tão estranho quanto fantástico. Disponível em: http://noticias.terra.com.br/ciencia/interna/0,,OI2872257- EI8145,00-Ornitorrinco+e+confirmado+como+ave+reptil+e+mamifero.html . Acesso em: 26 jul. 2016.

“setor moderno” e o “setor atrasado” atuam necessariamente de forma dialética e por isso há funcionalidade do setor atrasado para o desenvolvimento do sistema capitalista brasileiro, que por ser considerado periférico, o capitalismo Brasileiro se insere na divisão internacional do trabalho de modo específico, mantendo necessariamente os elementos do atraso, para reduzir os custos de mão de obra para que o setor mais avançado se desenvolva.

Obviamente, isso mostra como a informalidade e a precarização do trabalho se constituiria neste sentido, como resultado também do capitalismo moderno, por isso é que tanto os países pré-capitalistas como capitalistas se apoiam necessariamente no setor informal e na precarização para alavancar a sua acumulação. Talvez por este motivo para muitos teóricos como estes, os trabalhadores “informais” de hoje constituiriam uma parte integrante da economia capitalista, mesmo quando sejam considerados agentes da economia subterrânea ou dos circuitos inferiores, como o são muitos dos pequenos circuitos da economia.

Capítulo IV

4 PROTAGONISMO FEMININO E SUBSISTÊNCIA DO TRABALHO EM

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