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Radiografando o cotidiano do Brás como lugar de compra e de sociabilidade

1. A DESCRIÇÃO ESPACIAL DO BRÁS: COMÉRCIO E SURGIMENTO DE NOVOS PERSONAGENS NA CENA URBANA

1.1. Radiografando o cotidiano do Brás como lugar de compra e de sociabilidade

A extrema dinâmica que arrebata a vida urbana na compressão do tempo e espaço é testemunhada pela chegada de sacoleiras oriundas de todos os cantos ao comércio de São Paulo - notoriamente pelas sacoleiras da região nordeste brasileira e de um número reduzido de certos países africanos. É nesse cenário que a pesquisa de campo observou o cotidiano das sacoleiras africanas num dos maiores centros comerciais da América Latina - lojas do Brás e os comércios a céu aberto. Nesse contexto de mobilidades no comércio, o bairro do Brás tornou-se necessário para o estudo de caso deste fenômeno que ocorre, de fato, com uma população especifica, na qual os depoimentos dos sujeitos da pesquisa trouxeram contribuições diversas e importantes que serviram para elencar uma discussão teórica da tese. Portanto, além dos dados referentes à pesquisa de campo, durante a execução da investigação foram levados também em consideração no roteiro da observação tais como: descrição do ambiente; expressões emocionais; corporais; ritmo do movimento; comprometimento (envolvimento) familiar; expressões afetivas, relações parentais; envolvimento humano (o modo como as sacoleiras interagem com os seus conterrâneos na cidade de São Paulo), etc.

Durante a execução do trabalho de campo no Brás, que ocorre geralmente nas épocas festivas, um componente que chamou a atenção é a forma como o comércio se aquece e se reifica, mas as estruturas dos edifícios continuam intactas, pois mesmo sem quaisquer sinais de reabilitação urbanísticos, o comércio no bairro do Brás persiste ao tempo e espaço cercado de comercio ambulante, negociações e permutas nas calçadas e no interior das lojas. É uma região comercial, que conheço de outrora (de cabo a rabo), por isso são-me familiares as relações sociais empreendidas por estrangeiros africanos em são Paulo, pelo que a minha relação com esse mosaico étnico se deu basicamente pela minha convivência pessoal com os meus conterrâneos guineenses em São Paulo numa relação intrínseca de convívio sincero no espirito de reciprocidades constituído sob pilares de “sociabilidade mobilizável”, que definimos como capacidade de certos grupos arrastarem-se em multidões pelas causas sociais, econômica e de solidariedade.

Para superar a vida corrida e individualidade ocasionada pela grande cidade, os sujeitos recorrem às estratégias de mediações a partir de mecanismo de solidariedade em redes, buscando “o fortalecimento umbilical” com os conterrâneos que também se encontram na mesma condição de deslocado. Essa estratégia é uma pratica muito evidente na etnografia que empreendemos com as sacoleiras africanas, tanto nas suas cidades locais, quando nas suas passagens em terras estrangeiras, cordialmente são amparadas, ora pelos seus familiares que já vivem na urbe africana, ora pelos seus conhecidos conterrâneos que têm residências fixas em São Paulo.

Ademais, além dos círculos estritamente familiares, as relações de proximidades se estendem aos círculos maiores acionadas em mobilizações de diversas encontros culturais, sendo que nesses encontros são comumente realizados os torneios de futebol entre as diásporas das nações africanas residentes em São Paulo, nas datas comemorativa das suas independências. Concomitantemente, as realizações desses eventos permitem que os indivíduos dessas nacionalidades, sejam eles, ou elas, estudantes ou imigrantes (refugiados) fortaleçam suas relações de identidades e redes de solidariedades e inclusive no que concerne a reprodução econômica. Para mim, como Guineense, essa relação serviu como a de pertença coletiva e ao mesmo tempo, a de um trunfo para adentrar e trabalhar na empresa transportadora de cargas, que denominei de import export trading12 (que transporta mercadorias compradas no bairro de Brás por sacoleiras para em seguida envia-las para diversos países, dentre quais os países africanos). Daí a minha inserção na empresa como trabalhador manual me permite ter maior acesso a sacoleiras.

Durante a investigação, o acesso ao campo (observação in loco) e a obtenção do material empírico (entrevistas, conversas e questionários em momentos diversos), me permitiu comparar situações distintas relacionadas à comunidade de africanos (homens) em São Paulo. Enquanto que na Zona Leste da cidade, na região do Brás, os trabalhadores manuais africanos (guineenses, angolanos e senegaleses e peruanos)13, que residem no capital paulista executam atividades manuais e/ou com predomínio da força física, no empacotamento e carregamento de malas das sacoleiras a serem

12 Comércio de exportação de importação localizada no Brás. Uma empresa formal cujos proprietários são africanos (de Angola e Guiné-Bissau) e exportam mercadorias para diversos países.

13 Certos rapazes (guineenses e angolanos) atuam como empacotadores e carregadores de malas e mercadorias das sacoleiras a serem despachadas. Nas avenidas logo nas proximidades do Metrô Brás, principalmente no Largo da Concórdia, a disputa em torno do espaço urbano se torna mais evidente e acirrada entre os camelôs brasileiros, os senegaleses e os congoleses.

despachadas (VAZ, 2011), as sacoleiras, de forma distinta, estão sempre em transito, constituindo um caráter completamente distinto nesse mercado, porque, elas, as sacoleiras, estão apenas de passagem e com objetivo apenas de fazer compras. Talvez isso foi o motivo que nos levou a fazer uma reflexão sobre as divisões de tarefas entre o gênero e o trabalho a ser realizada nesse universo pesquisado. Neste sentido, o cotidiano onde esses sujeitos estão inseridos, sejam eles construídos social e culturalmente podem muito revelar se os seus papeis são manipuladas e legitimadas como algo que deve ou não ser seguido: entre fazer tarefas com maiores esforços físicos (dominada por rapazes) ou as atividades manuais, artesanais ou as chamadas aptidões domesticas para as mulheres. Aqui se trata de uma construção social que nos aponta para a questão da legitimidade de gêneros em assumir tarefas específicas a partir do imaginário social desse universo. Daí que se torna importante refletir em que medida essas expertises adquiridas nos seus “mundos femininos”, por exemplo, estimulam essas mulheres à ida para trabalhar como sacoleiras ou não, considerando a existência de certas regras morais instituídas socialmente nas suas sociedades.

Desse modo, para descrever os trabalhadores manuais (que foi objeto de estudo da minha dissertação de mestrado), na qual atuei como trabalhador braçal, ensacando mercadorias, que o serviu como pesquisar participante, que me permitiu mergulhar com afinco nessa sociedade, buscando compreender e conhecer de perto, o modus operandi dos trabalhadores que se constituíam fundamentalmente com base nas relações de tolerâncias, solidariedade e divisão social do trabalho no chão da empresa onde são despachadas as mercadorias que seguem para os seus destinos finais, dentre quais Angola e Guiné-Bissau. (VAZ, 2011). A devida experiência me permitiu testemunhar a minha relação direta e o meu engajamento enquanto pesquisador inteirado com o campo numa relação de perto e de dentro (MAGNANI, 2002), uma relação de proximidade com o objeto de estudo. Com efeito, esse convívio também nos permite compreender a fluidez entre os diversos agentes sociais presentes nesse mercado, levando em consideração os produtos e serviços ofertados, aos sabores gastronômicos, desde as culinárias nordestinas, italianas, comidas peruanas, chinesas, churrascos, em especial, a os pratos mais típicos de certas regiões africanas como: funge de angola, caldo-de- mancarra e cafriela da Guiné-Bissau, somado a diversos gêneros musicais africanos como (Zouk, Kizomba, Gumbé etc.), reunindo indivíduos com propósitos diferentes no entorno das ruas próximas à praça largo da concórdia e da estação do metrô –Brás.

Entre os bares e calçadas também se servem petiscos como peixes grelhados na brasa, prato muito procurado por africanos que queiram matar as saudades de casa. Fora assim que, copiosamente nessas sextas-feiras, o dia de maior movimento dos rapazes e de moças que se encontram e se reúnem para se inteirar das realidades econômicas, e culturais dos seus países, que escolhemos para nos melhor inteirar e adentrar com o nosso questionário no campo. Eram sempre por volta das 17h00, naquelas esquinas em torno dos comércios que se tornou o local propício do entourage social (ambiente social), afinal, estávamos todos nos sentindo em casa e num ambiente familiar. Foi nessas circunstâncias de clima descontraído e favorável que espontaneamente ocorreram boa parte das entrevistas.

Foram aplicados os questionários nos pontos nodais de comércio, além dos seus encargos e tarefas do dia a dia das sacoleiras, não houve demasiados contratempos nos horários combinados. Porém, houve as que pediram para não tirar fotos, nem mesmo de costas, porém, todas elas, por partes, responderam ao nosso questionário de maneira descontraída. Sendo que geralmente elas respondiam ao questionário, organizavam as compras e contabilizavam os produtos simultaneamente, mesmo diante das suas rotinas cansativas diárias, num extenso ambiente comercial, mas com micros espaços abarrotados de negociantes – o que mostra que pelas pressões sociais ou familiares, essas mulheres conseguem lidar com várias tarefas e distintas emoções, de modo simultâneo, ao fazerem seus planejamentos, sociabilidade com colegas, e atender também ao pesquisador.

Tudo isso foi num cenário onde as nossas entrevistas ocorreram de forma espontânea, e que foram marcadas ou ocorreram nas varandas dos hotéis, no salão de refeição, ou nas agências transportadoras em que as mesmas depositam suas cargas para em seguida serem todos os seus produtos adquiridos ensacados em volumes extensos para serem transportados através dessa mesma agência transportadora (segurada)14, para seguir os seus destinos nas cidades africanas.

Mas enquanto a turma chegava, tornou-se necessário inquerir os agentes dos hotéis, os quais se localizam nas esquinas em frente das calçadas. Um dos hotéis é o Borba: nesse edifício quem esboça o cotidiano das sacoleiras é a gerente. Ao ser

14 A mercadoria é segurada pela agência transportadora. Todo transtorno da mercadoria é de inteira responsabilidade da empresa transportadora.

questionada se poderia descrever a importância dos africanos nos serviços da casa, prontamente a secretária-gerente do Hotel Borba, respondeu:

Olha, aqui nós temos gente que vem de todo lugar, e principalmente os teus conterrâneos, os africanos ocupam muitos quartos, sai um, entra outro, os corredores ficam cheio de malas, são malas alargadas nos corredores dos hotéis, enquanto e sempre vem com os caras (rapazes) que ajudam elas carregando as malas. Mas há dois anos atrás o movimento era bem maior, mesmo quando o mundo estava em crise. Ontem mesmo uma estava comentando sobre a dificuldade de se conseguir o visto de turismo no consulado Brasileiro nos seus países, por causa dos problemas. Dizem que não está sendo fácil conseguir o visto de turismo para vir ao Brasil. Falam também que está sendo difícil conseguir o dólar em Angola, já que é a moeda que elas costumam usar no câmbio para o real (moeda brasileira). Sempre quando o dólar está alto elas aparecem em maior quantidade e os nossos quartos ficam totalmente cheios numa diária de 60 reais por quarto simples com o banheiro externo, e 80 reais pros quartos com banheiros internos. Mas este ano o ritmo caiu bastante, mas esperamos que até o meio do ano as coisas melhorem. (Elza,43 anos, Brasileira, secretária do hotel Borba. Entrevista realizada em São Paulo, no bairro de Brás: 04/11/2016)).

A explicação da secretaria do hotel, Elza, releva como uma relação socialmente imbricada e interdependente nesse complexo universo de interação socioeconômico é moldada pala circulação de dinheiro envolvendo os atores de diversos cantos do globo nessa região comercial. Essa dinâmica comercial é a causa e efeito da reprodução econômica nesse comercio popular que se configura num nicho de mercado expressamente dependente de fluxo de pessoas, e de circulação de mercadorias. É nesse sentido que se propõe observar um complexo de tecido orgânico moldado por atores sociais que se expressam suas especificidades. Aqui tratando-se da temática dos movimentos migratórios temporais de mulheres que vão e vem para comprar e vender, e que consiste numa mobilidade urbana transnacional engendrada por esse grupo de africanas inseridas nas modalidades do trabalho informal nos meandros da globalização popular e subterrânea. Pois fazer uma análise sobre mobilidade de pessoas, para além de seus países, é uma experiência e aspiração que nos remete à de certos estudiosos que também assumiram a preocupação de abordar seus conterrâneos. Podemos citar, como exemplo, os teóricos: Sayad (1998), Ocada (2006) e Stuart Hall (2013). Embora em níveis diferentes, há uma consonância no tocante à análise das comunidades étnicas identificadas de maneira não abstrata e experiencial. Sayad, de origem argelina, aborda os seus conterrâneos na França; Ocada, descendente de japoneses, traz à tona a temática

da emigração dekassegui (nipo-brasileiros ou brasileiros de ascendência japonesa) no Japão. Stuart Hall apresenta a situação dos imigrantes jamaicanos e africanos na Inglaterra. Entre tantos outros, eles ressaltam muito bem os aspectos dicotômicos de pertencimento e distanciamento da cultura original, além da questão da sociabilidade.

Capítulo II

2. BREVE CONTEXTUALIZAÇÃO SOCIOPOLÍTICO E DEMOGRÁFICO DA

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