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2 TRABALHO, EMPREGO E OCUPAÇÃO: PASSADO E

2.1 O trabalho

De uma maneira bem ampla, pode-se definir trabalho como sendo “atividade coordenada, de caráter físico e/ou intelectual, necessária à realização de qualquer tarefa, serviço ou empreendimento” Ferreira (1988, p. 642).

Uma outra forma de se conceituar o trabalho é através da etimologia da própria palavra. Na língua portuguesa a palavra trabalho tem a sua origem derivada do latim

“tripaliare,\ que significa castigar com o tripaliu, instrumento que na Roma Antiga, era

um objeto de tortura, consistindo numa espécie de canga usada para suplicar escravos (DaMatta, 1986, p.31).

Na língua inglesa e alemã existem duas palavras que apresentam significados diferentes para expressar trabalho. Em inglês a palavra labour corresponde a trabalho no sentido de incômodo, fadiga, e work no sentido de produção, obra, serviço. Na língua alemã a palavra múhe assume o mesmo significado que labour e werk o equivalente a

work. A distinção é importante e foi salientada por Engels na 4a edição alemã de O

Capital, onde ele explicita as diferenças entre estas duas categorias relacionadas com a palavra trabalho e o privilégio da língua inglesa para expressá-la: "a língua inglesa tem a vantagem de possuir duas palavras diferentes para estes dois aspectos do trabalho. O trabalho que cria valores de uso e é qualitativamente determinado e denominado work em oposição a labour" (apud Offe, 1989, p. 10). Na língua portuguesa a palavra trabalho é empregada nos dois sentidos. Serve tanto para expressar incômodo (labour) ou castigo

(tripaliare), como para expressar produção (work). Neste estudo a expressão trabalho é

Além dos aspectos etimológicos próprios, o conceito de trabalho reveste-se de ambigüidade e está relacionado com a época, a cultura e a economia vigente que criam condições especiais, dentro do qual se realiza o trabalho humano. Na época colonial brasileira por exemplo, quase toda a forma de trabalho existente resumia-se à poucas oportunidades para quem não fosse escravo.

Naquela época um observador registrou o problema da falta de ocupação existente nas cidades:

“como todas as obras servis e artes mecânicas são manuseadas por escravos, poucos são os mulatos e raros os brancos que nelas se querem empregar, não excetuando-se nem mesmos os criados que vêm de Portugal, que preferem ser vadios, andar morrendo de fome, ou até mesmo ser ladrão, do que servir um amo honrado que lhes paga bem, que os sustenta, para não fazerem o que os negros fazem” (Hoffmann, 1980, p. 17).

Esses padrões da sociedade colonial-escravista prevaleciam também na área rural: “fora as poucas oportunidades para feitor ou mestre de engenho, trabalho é coisa de escravo” (Ibid, p. 17).

Tais conceitos e preconceitos em tomo do trabalho na época colonial brasileira, demonstram claramente a associação existente entre esta categoria com a época, a cultura e o tipo de economia vigente. No Brasil colônia, o fato do trabalho ser considerado "coisa de escravo", permite compreender as dificuldades do recrutamento de mão de obra interna que ocorreram após a abolição da escravatura. Este fato esclarece porque a indústria cafeeira desenvolveu-se graças à imigração européia. Do total de 3.6 milhões de imigrantes que vieram para o Brasil entre 1820 e 1921, dois terços desse total, ou seja 2.7 milhões vieram após a abolição da escravatura entre 1888 e 1920 (Isto é, 1999).

O exemplo brasileiro ilustra claramente corno o conceito de trabalho está fortemente vinculado aos padrões de comportamentos sociais próprios de cada época, assumindo uma dimensão cultural. Por outro lado, está também diretamente relacionado com a economia e ao modo de produção em que esta se baseia. Tanto é assim que ele foi alvo das observações dos principais cientistas sociais e econômicos que se debruçaram sobre o estudo do capitalismo.

Neste sentido, pode-se afirmar que o desenvolvimento do conceito de trabalho acompanhou a própria evolução do capitalismo. Os economistas dos séc. XVII, XVIII e XIX estavam convencidos que o verdadeiro, real e duradouro padrão de valor era o trabalho. No séc. XVII, William Petty (1623-1687), considerou que a riqueza (os bens) derivavam da conjugação da terra com a quantidade de trabalho necessário para produzir essa riqueza. Enfatizou também a importância do papel da divisão do trabalho, sendo assim precursor de Adam Smith, com relação a este aspecto.

. Adam Smith (1723 -1790) ao longo de sua obra estabeleceu a relação entre trabalho e valor:

"O trabalho isoladamente, portanto, nunca variando em seu próprio valor, é por si só o derradeiro, o real padrão pelo qual o valor de todas as mercadorias, pode em qualquer tempo e lugar ser calculado e comparado. É o preço real destas mercadorias, enquanto o dinheiro é somente seu valor nominal" (Smith, 1980 p.256).

Ainda segundo Adam Smith “O trabalho foi o primeiro preço, a moeda original que serviu para comprar e pagar todas as coisas” (Ibid, p.256).

Outro economista a se debruçar sobre o tema foi David Ricardo (1772-1823). Ele foi um pouco mais além do que Adam Smith e desenvolveu a teoria do valor-trabalho. “O valor de uma mercadoria, ou seja, a quantidade de qualquer outra pela qual pode ser trocada, depende da quantidade relativa de trabalho necessário para a sua produção”. A teoria do valor-trabalho desenvolvida por Ricardo seguindo a tradição shmitiana de uma teoria de valor, se reduz ao reconhecimento de que a produção nada mais é do que um processo de trabalho. Desta forma, um conjunto de produtos podia ser expresso a partir das horas de trabalho envolvidos em sua produção. Considerava pura e simplesmente a produção total como um conjunto de horas trabalhadas (Carneiro, 1997, p.60).

As concepções teóricas em tomo da categoria trabalho, que vigoraram durante os séc. XVII e XVIII, e que foram o alvo das observações tanto de Petty, Smith e Ricardo, surgiram da necessidade de quantificar o trabalho monetariamente, estabelecendo um valor para algo que até então configurava-se mais como uma categoria subjetiva. O valor naquela época era vima função direta entre o objeto-mercadoria com o valor de uso ou de troca que a este estava associado.

A partir dessas teorizações iniciais a cerca do tema trabalho, coube a Karl Marx (1818 -1883) já no séc. XIX, elaborar o conceito de mais-valia, onde o trabalho não pago seria a fonte do lucro, do juro e da renda, a origem da própria acumulação capitalista. Essa foi a tese exposta por ele em “O Capital”, publicado em 1867. Marx assim como os seus antecessores Smith e Ricardo, também concordava, em termos gerais, que o trabalho era a unidade geradora de valor.

"Um valor-de-uso de um bem só possui portanto valor, porque nele está corporificado, materializado, trabalho humano abstrato. Como então medir a grandeza do seu valor? Por meio da quantidade da ‘substância criadora de valor’ nela contida, o trabalho" (Marx, 1987, p.45).

Pode-se considerar que é uma observação corriqueira o fato de que o montante de trabalho necessário para produzir uma mercadoria tem muito pouco a ver tanto com o seu valor de uso quanto com o seu valor de troca. Produtos inúteis, sem valor, defeituosos, ilegais, todos eles demandam trabalho. Não é a quantidade de trabalho incorporada neles que os toma inúteis, sem valor ou ilegais, nem tão pouco a agregação de mais trabalho neles remediaria tais problemas. Marx percebeu as limitações da associação entre trabalho e valor de uso ou valor de troca. Para superar esta dificuldade ele insistiu no argumento do "trabalho socialmente necessário". Este trabalho era o que criava um produto socialmente útil. "Nada pode ter valor, sem que seja um objeto com utilidade. Se o objeto é inútil assim será o trabalho contido nele, (neste caso) o trabalho não conta como trabalho e portanto não cria nenhum valor" (Ibid, p. 46).

Assim pode-se concluir, com base no argumento apresentado por Marx, que nem sempre é fácil dizer exatamente o que é o trabalho (Brockway, 1995, p.91).

Posteriormente coube a outros cientistas econômicos o ataque à teoria do valor- trabalho. Karl Menger (1840 - 1912), William Jevons (1834 - 1910), Alfred Marshal (1842 - 1924) e Léon Walras (1834 - 1910) desenvolveram um conjunto de trabalhos de forma simultânea e independente, que convergiam no sentido de formular uma teoria de valor de troca baseada na noção de utilidade marginal decrescente1, em resposta às teorias do valor-trabalho, até então hegemônicas. A teoria do valor trabalho passou a ser

1 O conceito de Utilidade Marginal Decrescente se baseia no princípio segundo o qual, à medida que se consome um bem, diminui a satisfação ou a utilidade de cada unidade adicional consumida desse bem

substituída por um fator subjetivo, "a utilidade de cada bem e sua capacidade de satisfazer às necessidades humanas" (Carneiro, op. cit., p.205).

Estes economistas que formaram a escola do pensamento econômico, conhecida como escola neoclássica ou marginalista, trataram a questão do valor de uma mercadoria a partir de sua utilidade. Dentro desta concepção não seria mais o trabalho a força reguladora da atividade econômica o elemento definidor do valor do produto- mercadoria. Para esta escola, a concorrência e a maximização dos lucros pelos produtores e a utilidade pelos consumidores, seriam as forças definidoras do valor e da atividade econômica.

Portanto, passa a haver uma dissociação entre o conceito de trabalho e o de valor. No início do séc. XX ocorre uma nova reconceituação de trabalho, compreendido até então, somente como uma atividade manual. Esta transformação foi reforçada com a difusão do taylorismo2 que privilegiava outros aspectos do trabalho, que durante o séc. XIX foram fortemente identificados com a atividade operária. Taylor enalteceu o “trabalho mental” do administrador em detrimento do “trabalho manual” do proletário, considerado por ele mero executor de ordens. Quando Frederick Taylor (1856-1915) começou a estudar o trabalho, nove entre cada dez trabalhadores faziam trabalhos manuais, produzindo ou movimentando objetos. Isto acontecia não só na manufatura, mas também na agricultura, na mineração e nos transportes (Drucker, 1999, p.24). Para ele os administradores que organizavam as atividades produtivas desempenharam uma função mais importante que os operários.

Marx compreendeu, já no séc. XIX, que na fábrica estava o destino do proletariado. No início do séc. XX, Taylor percebeu também, que eram nas fábricas que iria ser decidido o destino da burguesia. Um acreditava que os operários deveriam se apropriar de tudo, o outro que era possível que os capitalistas e os trabalhadores pudessem conviver em harmonia em um sistema organizado ein bases científicas. Para Taylor, todo o trabalho físico, e grande parte do trabalho intelectual, poderia ser automatizado e organizado, colocando um fim ao sofrimento individual e ao conflito social, próprio da relação capital X trabalho (De Masi, 1999, p. 129 e 130).

Na metade do séc. XX, depois da Segunda Guerra Mundial, influenciados pelo crescente processo de automação, muitos teóricos passaram a sustentar, na esteira do taylorismo, que a ciência e a tecnologia haviam tomado o lugar do trabalho como principal força produtiva. Essa tese aparece nos trabalhos de alguns teóricos como Jürgen Habermas ( 1929 - . . . ) (Lins, 1999, p.3).

Seguindo esta trajetória, o pensamento de Habermas a respeito da superação do trabalho no processo produtivo demonstra bem como o conceito de trabalho se transformou acompanhando a própria evolução do capitalismo. A significação que o trabalho passou a assumir no séc. XIX, foi fortemente influenciada pelo surgimento da indústria. Mais recentemente, no séc. XX, chegou a confundir-se com os princípios tayloristas, restritos inicialmente ao setor industrial, mas que logo expandiram-se atingindo também os setores primário (agricultura) e terciário (comércio e serviços) da economia, o que contribuiu para que o que era um conceito voltado para o trabalho industrial viesse a ser generalizado para outros setores, assumindo contornos maiores.

Na segunda metade do séc. XX, o trabalho manual passa a assumir um papel secundário na cadeia produtiva, com a queda de produtividade enfrentada pelos países desenvolvidos3, o modelo de produção de massa, bem como os princípios tayloristas, passaram a ser postos à prova face às inovações tecnológicas de base microeletrônica e de comunicações e, ainda, pelos modelos produtivos japoneses pautados na “produção enxuta”, que tem no toyotismo4 o seu maior expoente. Envolvidos nesse processo os setores econômicos se viram forçados a reformular seus modos produtivos.

A conseqüência dessa transformação foi a flexibilização de toda a cadeia produtiva, ou seja, dos produtos (produção segundo as demandas dos clientes), de processos (mudanças rápidas nas linhas de produção para se adequar aos novos produtos), de pessoas (trabalhadores multifuncionais ou polivalentes).

Como resultado, o conteúdo do trabalho e seu próprio conceito sofreram um grande impacto. Houve uma mudança no perfil das ocupações e da composição dos setores, alterando também as formas de emprego, principalmente o formal: composto de férias

3 De acordo com os dados do FMI, os países desenvolvidos obtiveram uma taxa de aumento de produtividade no período de 1980-1989 de 2,9%, ao passo que no período de 1990-1997 a mesma taxa situou-se em 2.2%, representando um declínio de 0.7% (FMI, 1998).

remuneradas, jornada de trabalho limitada, salários fixos, direito à aposentadoria, etc. O trabalho até então conceituado com base no modelo taylorista definido a partir de postos de trabalho, tarefas prescritas, dividido entre concepção e execução, e clâssificado segundo ocupações, sofreu um profundo impacto que iria transformar novamente o seu conceito.

Para atender às novas demandas produtivas, o perfil da oferta da mão-de-obra precisa necessariamente ser alterado. Na verdade, esse novo perfil de trabalhador passa a exigir o desenvolvimento de novas habilidades e competências, ou seja, a questão da qualificação ou requalificação do trabalhador passa a ser o centro do novo conceito de trabalho. Esta dimensão do trabalho associado à qualificação, também foi alvo de muitos estudos teóricos, a começar por Marx. Entretanto, a prática de qualificar as pessoas para o trabalho sempre esteve relegada a um segundo plano durante a evolução do capitalismo, sendo até mesmo muitas vezes negada nas relações entre capital e trabalho. Com o atual modelo de produção em curso, começa a existir uma nova definição do trabalho que será a tônica nas próximas décadas.

Com a mudança no processo produtivo, mudaram as formas de trabalho, mudou o perfil do trabalhador, mudou o próprio conceito de trabalho. Ao longo deste século o conceito de trabalho sempre esteve associado de alguma forma ao conceito de emprego. O ato de trabalhar remetia sempre, até subjetivamente, à idéia de uma organização, ao emprego formal. Atualmente o conceito de trabalho extrapola esse limite e assume uma dimensão muito mais abrangente. Para se entender melhor essa diferença é necessário que se conceitue também o emprego .