2. REVISÃO DE LITERATURA 5
2.4. O treino funcional 16
O treino funcional tem aumentado a sua popularidade nos últimos anos e permanece em processo de crescimento.
Boyle (2004) refere que o treino funcional visa treinar determinados movimentos diretamente relacionados com o seu contexto de aplicação e não apenas treinar músculos de forma analítica ou isolada. O mesmo autor refere-se ao treino funcional como uma vasta gama de exercícios que ensinam o desportista a utilizar o peso de seu corpo nos vários planos de movimento e de forma global.
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Os programas tradicionais de treino físico com recurso a máquinas de musculação consubstanciam formas de exercitação que isolam determinado músculo ou grupamento muscular, e normalmente restringem o movimento a um único plano de movimento, promovendo uma transferência menos proveitosa para as atividades desportivas e da vida real (Whitehurst et al, 2005). No caso do treino funcional objetiva-se uma abordagem diferente, buscando a integração multiarticular nas ações, em variados planos. O corpo deve trabalhar de forma global para desenvolver tanto as competências condicionais como as coordenativas.
Neste tipo de treino utiliza-se informações com respaldo científico para melhor selecionar exercícios que diminuam a incidência de lesões e melhorem a performance (Boyle, 2010). O mesmo autor questiona o treino de músculos e movimentos que não tenham uma íntima relação com o desporto em si, sendo apologista da construção do treino com base naquilo que o atleta realiza efetivamente durante sua prática desportiva, aproximando o que se faz no treino das situações desportivas reais.
Os movimentos naturais do ser humano, ou seja, deslocamento/locomoção, mudanças de nível, puxar/empurrar e rotações (Santana, 2002) servem como base do treino funcional, devido a sua essência global e multiplanar (Lagally et al., 2009; Weiss et al., 2010).
Além do foco em movimentos globais, executados maioritariamente de pé, e em vários planos e articulações, Boyle (2004) refere que no treino funcional uma das maiores preocupações é exercitar e desenvolver alguns músculos que possuem importante função de estabilização. Dentre eles, há três grupos musculares que são chaves: abdominais profundos (transverso abdominal e oblíquo interno), abdutores e rotadores da anca, e estabilizadores da escápula.
O treino funcional ainda é um tema pouco abordado em artigos de natureza científica, sendo necessário mais estudos centrados nos efeitos desse tipo de treino e em diferentes amostras e contextos (Weiss et al., 2010). A maioria dos estudos envolve populações com mais idade, ou que possuem algum problema
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de saúde específico, sendo raros os casos em que a amostra é composta por jovens com uma condição física bem desenvolvida (Tomljanović et al., 2011). Heinrich et al. (2012) compararam os efeitos de oito semanas de um programa de treino funcional com um programa tradicional de condicionamento físico, utilizado por militares norte-americanos na preparação dos soldados. Participaram no estudo dois grupos, um experimental, que realizava um programa de treino funcional, chamado Mission Essential Fitness (MEF) e um grupo controle, que realizava um programa padrão tradicional das forças armadas norte-americanas nomeado Army Physical Readiness Training (APRT). Ambos os grupos realizaram quinze sessões de treino, sendo que o grupo MEF executava o circuito funcional em quarenta e cinco minutos, enquanto o grupo APRT tinha duração média de sessenta minutos em seus treinos. Foi verificado que o circuito com exercícios funcionais promoveu ganhos estatisticamente significativos nos testes de resistência (Push-up test), força muscular (1RM, Bench Press), capacidade cardiorrespiratória (frequência cardíaca durante o step test) e flexibilidade (Sit & reach), sustentando assim a sua utilização.
Tomljanović et al. (2011) recorreram a uma amostra de jovens treinados e compararam o efeito de cinco semanas de dois diferentes tipos de treino resistido: funcional e tradicional. Foram avaliadas variáveis antropométricas, agilidade, sprints e força explosiva. Os resultados revelaram que o treino funcional foi responsável por incrementos estatisticamente significativos nos resultados dos testes de agilidade (hexagon test) e de força explosiva dos membros superiores, esta última avaliada através do teste de lançamento de bola medicinal. Por sua vez, o treino tradicional correlacionou-se com a melhoria da performance nos testes de agilidade e de força explosiva ao nível dos membros inferiores, tendo esta sido avaliada com base no recorrido countermovement jump test .
Kibele & Behm (2009) compararam sete semanas de treino sob superfícies instáveis e estáveis, numa amostra de jovens destreinados, tendo-se observado que ambos os treinamentos promoveram melhorias significativas nos testes de salto, força, agilidade, equilíbrio e resistência da musculatura abdominal. No
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entanto, o treino em superfícies instáveis revelou estar positivamente relacionado com o aumento do número máximo de sit-ups executados durante 40 segundos. De acordo os autores, esta evidência estatística foi justificada pela grande ativação da musculatura do core em situações de instabilidade. Relativamente ao equilíbrio, ocorreu uma melhoria no tempo de execução do teste de saltos unilaterais em 20 metros e acredita-se que isto advém dos mecanismos propriocetivos, ativados quando se treina em situações de desequilíbrio.
Weiss et al. (2010) compararam o efeito de sete semanas de um treino resistido funcional com o treino resistido tradicional, tendo utilizado uma amostra de jovens adultos. Os autores concluíram que ambos os programas promoveram ganhos estatisticamente significativos relativamente a resistência muscular, força e equilíbrio, variáveis normalmente associadas a programas tradicionais de treinamento físico.
Saeterbakken et al. (2011) estudaram o efeito de um programa de treino físico baseado na estabilização do core, na velocidade do remate de jogadoras de andebol norueguesas em idade escolar (16.6±0.3 anos). O programa foi realizado duas vezes por semana, durante um total de 6 semanas e sendo composto por 6 exercícios. Cada um dos exercícios possuía 3 níveis de dificuldades, progressivamente alcançados pelas atletas que executavam os movimentos corretamente. Concluiu-se neste trabalho que o programa de treino baseado na estabilização dos músculos do core foi responsável por aproximadamente 5% de aumento na velocidade do remate, medida através de células fotoelétricas.
Em termos gerais, os estudos analisados sugerem que o treino funcional pode ser benéfico na melhoria de alguns parâmetros de natureza fisiológica ou motora. Não obstante, desconhece-se qual impacto deste tipo de abordagem em atletas de uma determinada modalidade, uma vez que os estudos foram realizados maioritariamente com jovens não atletas.
Acresce notar que a maioria dos estudos centram-se apenas no efeito de determinados exercícios ou métodos de treino resistido (bola medicinal, core
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training, treino em instabilidade). Por sua vez, o treino funcional promove uma abordagem mais global, diversificada e completa com recurso a uma grande variedade e possibilidade de combinação de exercícios e de métodos, cabendo ao treinador fazer uma escolha criteriosa em função das exigências da modalidade e ao nível de preparação dos praticantes.
Segundo Ziv & Lidor (2009), os treinadores devem ter em mente o conceito de especificidade quando desenvolvem um programa de condicionamento físico para atletas, sendo este princípio de grande importância. Wagner et al. (2014) cita alguns autores (Marques, 2010; Van den Tillaar & Marques, 2013; Marques et al. 2013; Wagner & Muller, 2008; Bucheit et al, 2009) que sugerem que para haver melhorias na performance individual devem ser realizados exercícios básicos de força e potência, exercícios específicos de potência com bolas medicinais leves e pesadas, saltos multi-direcionais, exercícios de rotação e estabilização do tronco, treino de coordenação motora e agilidade, gerais e específicos.
Apesar de se encontrarem cada vez mais adeptos do treino funcional e deste ser tema frequente de cursos de formação de treinadores, nomeadamente de andebol, desconhece-se estudos que fundamentem a sua utilização ou sequer programas especificamente desenvolvidos e validados para o andebol.
Acresce ainda que autores (Milton et al., 2008; Raeder et al., 2015; Weiss et al., 2010) enunciam que este tipo de treino tem a vantagem de ser de fácil implementação, não requerendo um elevado investimento financeiro, sendo, portanto, acessível a qualquer nível de prática ou condição financeira.
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