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Artigo XXV 1 Todo ser humano tem direito a um padrão de vida capaz de

Princípio 4 Para alcançar o desenvolvimento sustentável, a proteção ambiental

3.4. O uso das águas em Harmonia com a Natureza

Exposta a limitação inevitável e própria ao desenvolvimento sustentável como paradigma de gestão das atividades humanas frente às necessidades da natureza e seus demais elementos, resta-nos a adoção de um outro modelo de existência social, cultural e científica, que supere o escopo do desenvolvimento sustentável, decorrente do seu pilar econômico (dependente do incremento infinito da produção e consumo em um planeta finito).

Nesse cenário, surge como alternativa viável o paradigma biocêntrico, holístico, pautado em uma nova relação de harmonia homem-natureza, representada pelo ideário da ecologia profunda, como modelo a nortear a análise da gestão de águas no Ceará.

Segundo essa cosmovisão, o homem se compreende como elemento integrante dessa natureza, igualmente detentora de dignidade e direitos – como já reconhecido em países adotantes de uma constituição ecocêntrica, a exemplo do sulamericanos Equador e Bolívia, como anunciado, dentre outros, por Germana de Oliveira Moraes (MORAES, 2012, p.10, 2018, p.46), Helano Márcio Vieira Rangel e Tarin Cristino Frota Mont’avlerne (RANGEL; MONT’ALVERNE, 2013, p. 343).

De igual modo, o Papa Francisco (2018), em sua encíclica Laudato Si’, defende a adoção desse conceito de ecologia profunda, com repercussões nas esferas econômica, social e ambiental, como meio de conservação do planeta, pela superação do paradigma antropocêntrico (homem no centro das preocupações e medida primeira das decisões), tecnocrático (primado da técnica e da ciência mecanicista, advinda do modelo cartesiano newtoniano de saber) e consumista (elevando a superfluidade ao patamar de necessidade),

O Pontífice apregoa que, percebendo o mundo em sua integralidade, assim como o valor intrínseco de cada um de seus ecossistemas para o equilíbrio integral e sustentável do mundo, atenderemos aos pressupostos do bem comum e da justiça intergeracional, através do diálogo e da educação (PAPA FRANCISCO, 2018, p. 159), nos seguintes dizeres:

2. Educar para a aliança entre a humanidade e o ambiente

A consciência da gravidade da crise cultural e ecológica precisa de traduzir-se em novos hábitos. Muitos estão cientes de que não basta o progresso actual e a mera acumulação de objectos ou prazeres para dar sentido e alegria ao coração humano, mas não se sentem capazes de renunciar àquilo que o mercado lhes oferece. Nos

países que deveriam realizar as maiores mudanças nos hábitos de consumo, os jovens têm uma nova sensibilidade ecológica e um espírito generoso, e alguns deles lutam admiravelmente pela defesa do meio ambiente, mas cresceram num contexto de altíssimo consumo e bem-estar que torna difícil a maturação doutros hábitos. Por isso, estamos perante um desafio educativo.

Interessante pontuar, desde já, a influência dos países andinos Equador e Bolívia junto às Nações Unidas, na defesa dos direitos da natureza e da mudança para outro modelo de desenvolvimento econômico que respeite a natureza (representada na entidade andina

Pachamama) e os demais seres vivos em suas especificidades, consignada nos Registros

Oficiais da 63ª Sessão (ONU, 2009), na palavra do Presidente boliviano Evo Morales, divulgando e afirmando sua proposta de bem viver, marcadamente a partir da Conferência de Cochabamba/2009.

Esses esforços do Presidente boliviano Evo Morales resultaram no estabelecimento do Programa Harmonia com a Natureza por ocasião da 64ª Assembleia da ONU, em 21/12/2009 (ONU, 2018b) e no reconhecimento paulatino, em vários países, dos direitos da natureza, da jurisprudência da Terra e na propagação no meio acadêmico e nas legislações de diversos países – tudo a partir do reconhecimento da decisão paradigmática proferida em defesa do Rio Vilcabamba na Província de Loja/Equador, em 2009.

Equador e Bolívia são países sulamericanos que asseguraram, em suas constituições, direitos à natureza, em reconhecimento à cultura de seus povos originários e ancestrais e ao caráter plurinacional de seus países, preservando o modo de existir humano em harmonia com a natureza, consoante as cosmovisões de Bem Viver (Suma kawsai) e Viver Bem (Suma qamaña), em respeito à entidade viva Pachamama ou Mãe Terra, provedora da vida, nos escólios de Germana de Oliveira Moraes (MORAES, 2012, p.10, 2018, p.22), Helano Márcio Vieira Rangel e Tarin Cristino Frota Mont’avlerne (RANGEL; MONT’ALVERNE, 2013, p. 343) e William Paiva Marques Júnior (PAIVA MARQUES JÚNIOR: 2016, p. 367).

Por Jurisprudência da Terra, entenda-se o crescente movimento de incorporação, aos sistemas jurídicos de diversos países, de normas e julgados que consolidam o sistema de governança centrada na Terra, através da elaboração e adoção de políticas públicas e de leis que privilegiam a reconexão homem-natureza, o reconhecimento dos direitos de todos os seres vivos e da natureza, em igualdade de condições, reformulando o conceito de riqueza ou de valor econômico em direção ao bem-estar, em harmonia com a natureza, “substituindo corrente de visão de mundo antropocêntrica por um sistema holístico de governança, no qual a Humanidade […] mude como percebe e interage com o mundo natural”, como asseverado

por Germana de Oliveira Moraes (MORAES, 2018, p.63 a 68 e 75).

O relatório ONU A/73/221, de 23/07/2018 (ONU: 2018b) noticiou a adoção dessa Jurisprudência da Terra (legislação centrada na Terra) em vários países, visando ao reconhecimento e à defesa dos direitos da natureza, como na Austrália (reconhecimento do Rio Yarra como entidade viva), em Belize (contra a exploração marítima de petróleo), no Brasil (leis orgânicas reconhecendo, como sujeitos de direito, em Paudalho/PE, a natureza; em Bonito/PE, os rios), na Colômbia (contra o desmatamento da Amazônia colombiana), Costa Rica (redução de carbono), na Nova Zelândia (Rio Whanganui e direitos dos povos originários), África do Sul (reconhece validade de leis antigas referentes a direito de pesca aos povos originários).

Citado relatório também elenca tentativas de garantir a proteção dos direitos da natureza em diversos países como no Brasil, em Minas Gerais (desastre ambiental no Rio Doce causado pelo rompimento de barragem da mineradora Vale), em Fortaleza (abaixo- assinado pelos direitos da natureza), na França (emenda à constituição para inclusão de outros assuntos em matéria ambiental), na Índia (Rio Ganges com personalidade jurídica), nos EEUU (Crestone, no Colorado, reconhece direitos da natureza).

Ainda no Brasil, temos os exemplos de reconhecimento dos direitos da Mãe Terra (Natureza) e dos seres vivos não-humanos, pelos municípios de Bonito e Pau D’Alho, em Pernambuco (BONITO: 2016).

Lei Orgânica do Município do Bonito – Estado de Pernambuco [...]