CAPÍTULO XI DA POLÍTICA AGRÍCOLA E FUNDIÁRIA [ ]
6.2 Objetivos, fundamentos, e princípios da gestão de águas no Ceará
A Lei Estadual 14.844/2010, da Política Estadual de Recursos Hídricos no Ceará, estabeleceu finalidades de gerenciamento das águas assemelhadas à gestão nacional, consoante disposições que transcrevemos para cotejarmos com aquelas analisadas no capítulo anterior.
A Política Nacional de Recursos Hídricos – Lei 9.433/1997, trazia no seu Título I os fundamentos, objetivos, diretrizes, e instrumentos (planos de recursos hídricos, enquadramento dos corpos hídricos, outorga de uso, cobrança do uso, sistema de informações e ação do poder público), pautando-se em princípios ambientais como a solidariedade intergeracional (compromisso com as gerações futuras), o desenvolvimento sustentável, a prevenção e precaução contra fenômenos hidrológicos críticos e o uso de águas pluviais.
Temos as seguintes dimensões estruturantes da política estadual, a serem comparadas com a nacional:
a) objetivos mais abrangentes, prescritivos em direção à sustentabilidade
- compatibilização da atividade humana com a dinâmica do ciclo hidrológico, preocupando-se com o uso sustentável em suas vertentes econômica, social e ambiental, sendo mais assertiva que a política nacional quanto à defesa do meio ambiente (ciclo das águas)
- uso para as gerações atuais e futuras (princípio da solidariedade intergeracional);
- apregoa o gerenciamento como meio para assegurar os usos múltiplos (equilíbrio);
- de forma integrada, descentralizada e participativa.
- prioriza claramente o uso da água para o consumo humano e a dessedentação de animais (pilares ambiental e social);
- prevenção dos riscos antevendo eventos hidrológicos extremos (precaução), inovando em relação à política nacional;
- integração dos recursos hídricos às demais políticas que se interrelacionem com as águas (equilíbrio e desenvolvimento sustentável);
- promoção da educação ambiental, sob o ponto de vista do desenvolvimento socioambiental (desenvolvimento sustentável); e
- inova com a previsão de programas permanentes em defesa das águas per si. c) princípios que reafirmam a importância da água sob a perspectiva sustentável;
- direito do acesso à água, para seus múltiplos usos, priorizando dessedentação de humanos e animais (direito humano, equilíbrio);
- gerenciamento participativo, descentralizado e integrado, pensado a partir da bacia hidrográfica (democratização);
- valor econômico da água, finito e disputado, carecendo de planejamento sistemático.
Dessa análise, temos que os elementos estruturantes da proposta de gestão das águas no Ceará revela-se mais assertiva e expressa com mais clareza o ideário da sustentabilidade, buscando equilibrar os interesses econômicos aos sociais e ambientais de maneira mais efetiva que a política nacional.
A averiguação de sua implementação e os episódios de conflitos não resolvidos, bem como os resolvidos em favor do agronegócio no perímetro irrigado do Baixo Jaguaribe, do Complexo Industrial e Portuário do Pecém e da Região Metropolitana de Fortaleza, que exsurgem dos relatórios de demanda, de disponibilidade e de transferência de água disponíveis nos sites da Companhia de Gestão de Recursos Hídrico e da Agência Nacional de Águas, demonstram o distanciamento entre a práxis da gestão e o discurso legislativo dessa política de gestão – muito embora inexistam registros frequentes sobre esses conflitos.
Claro exemplo é a ata da 85ª reunião ordinária do Conselho Estadual de Recursos Hídricos, disponível no site https://www.srh.ce.gov.br/wp-content/uploads/sites/90/2018/12/ Ata-da-85%C2%AA-Reuni%C3%A3o-Ordin%C3%A1ria-do-CONERH.pdf que trata, num momento de seca extrema, da utilização de água dos reservatórios dos açudes Banabuiu, Castanhão e Orós (sertão central) para perenização do perímetro irrigado do Jaguaribe (agronegócio exportador), transferência de água para a Região Metropolitana de Fortaleza,
com prejuízo para as regiões doadoras dessas águas.
Já na 84ª reunião daquele Conselho, disponível no site https://www.srh.ce.gov.br/ wp-content/uploads/sites/90/2018/07/84-Ata-Reuniao-Ordinaria-do-CONERH_06-de-marco- de-2018.pdf esses problemas (3 meses antes, em 06/03/2018) haviam sido detectados esses problemas, entretanto nada de efetivo foi tirado dessa reunião, agravando-se o problema de disponibilidade hídrica pela retirada contínua de águas desses reservatórios. Curioso é o registro na fl. 3 linhas 87 e seguintes dessa ata, em que se consignou o desinteresse de uma geração de cearenses (a atual?) com a gestão da escassez hídrica e o nível de implementação da educação ambiental no sistema público de educação.
Esses problemas referentes à gestão das água e seus conflitos são consignados no relatório do Pacto Nacional pela Gestão das Águas - PROGESTÃO, instituído em 2013, pela Agência Nacional das Águas, para melhoria da gestão de águas, mediante a cooperação entre os seus integrantes. No relatório último relatório divulgado (de 2017) o Ceará integra o grupo D, o mais crítico (em uma escala de 1 a 4), juntamente com Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, disponível no site http://progestao.ana.gov.br/progestao/mapa/ce
A descrição desse grupo 4 do PROGESTÃO é assim redigida, com grifos nossos:
Tipologia D Balanço quali-quantitativo crítico (criticidade qualitativa ou quantitativa)
em diversas bacias; usos concentrados em diversas bacias, não apenas naquelas com criticidade quali-quantitativa (áreas críticas); conflitos pelo uso da água generalizados e com maior complexidade, não restritos às áreas críticas.
Ainda, cabe ressaltar o distanciamento desses parâmetros de gestão propostas na política estadual, consignado no Relatório 19 – Análise do Fluxo da Alocação Negociada de Água, elaborado pela ao Conselho Estadual de Recursos Hídricos ,disponível no seu site na página https://www.srh.ce.gov.br/wp-content/uploads/sites/90/2018/07/Apresentacao-Estudo- de-integracao-dos-instrumentos-de-gestao.pdf
3.2 - PONTOS FRACOS [...]
Os nossos planos de recursos hídricos não contemplam essas informações como já comentado anteriormente, contudo fica uma questão a esclarecer: os riscos decorrentes dessas crises hídricas estarão nos planos com as ações mitigadoras e os respectivos custos? Quem bancaria esses custos?
A alocação negociada de água deve incluir a água subterrânea na partição das disponibilidades, elegendo aqueles aquíferos mais explorados na bacia. A gestão e a proteção das águas subterrâneas no Ceará são fundamentais e necessários em complemento aos usos das águas superficiais, que em certos locais e condições até os superam.
A ausência do Marco Regulatório para disciplinar vazões de referência nos vários pontos ao longo da bacia, diferentes níveis de garantia, níveis de eficiência no uso da água na irrigação, condições e exigências que a outorga deve cumprir conforme as regras acordadas na alocação, entre outras questões, precisam ter respaldo legal estabelecido pelo órgão gestor;
A falta de regulamentação da “alocação de água” como atividade de planejamento inserida nos respectivos planos de recursos hídricos, e a “alocação negociada de água” como instrumento de compartilhamento da água existente em cada sistema hídrico, dificulta a adoção, do ponto de vista legal, de estratégias efetivas de controle e uso da água.
Nesses documentos, resta claro que o pensamento desbalanceado da sustentabilidade tem feito ruir os seus pilares do bem-estar social e o ambiental (esse nem se discute), em prol do econômico, representado, no nosso caso, pela cultura irrigada do Baixo Jaguaribe, pelo Complexo Industrial e Portuário do Pecém e pela Região Metropolitana de Fortaleza, cujos altos níveis de demanda hídrica são atendidos pela tecnologia ambiental de integração das Bacias Hidrográficas através do Cinturão das Águas, do Eixão das Águas e do Canal do Trabalhador.