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5. ANÁLISE DOS DADOS CONSTRUÍDOS

5.5. O uso do espaço

5.5.1. O espaço é organizado de forma a contemplar a interação entre as

crianças, a professora e a enfermeira

Outro aspecto importante associado à construção da rotina e a qualidade na educação infantil é a construção do espaço escolar, a interação entre este, as crianças e a professora no decorrer das práticas educativas cotidianas.

A organização do espaço escolar quando elaborada coletivamente entre os principais sujeitos envolvidos nele, conforme já citado anteriormente, possibilita a construção da identidade, autonomia, vínculos sociais e afetivos, valores associados à cooperação, respeito, paz, solidariedade, entre outros.

Nessa análise sobre o uso do espaço nos inspiramos na abordagem de Zabalza (1998, p. 332), ou seja, “[...] há dois termos que costumam ser utilizados de maneira equivalente no momento de fazer referência ao espaço das salas de aula: espaço e ambiente. [...]”. Nessa perspectiva:

O termo espaço refere-se ao espaço físico, ou seja, aos locais para a atividade característica pelos objetos, pelos materiais didáticos, pelo mobiliário e pela decoração.

Já o termo ambiente refere-se ao conjunto do espaço físico e às relações que se estabelecem no mesmo (os afetos, as relações interpessoais entre as crianças, entre crianças e adultos, entre crianças e sociedade em seu conjunto). (op. cit., p.232).

Durante as observações, buscamos verificar as diversas relações ocorridas no ambiente escolar, ou seja, na sala de aula pesquisada.

Ao questionarmos a professora sobre o ambiente escolar na organização das rotinas, ela nos deixou claro que no decorrer do primeiro e do segundo bimestres as crianças pequenas não participaram da construção de seu próprio ambiente escolar, só no terceiro bimestre estavam mais envolvidas e atuantes em sua construção. Conforme a professora:

Bem, apesar de saber que precisava ter organizado a sala de aula com as minhas crianças, elas ainda não estavam prontas para isso. Tivemos muitos choros, uma adaptação assustadora, imagine você. Mas hoje, eles já participam mais, e me ajudaram muito no 3o bimestre a enfeitar a sala. Eles adoraram fazer isso.(Entrevista, 3/9/2008).

Sabemos que a organização da sala de aula requer a presença da criança, pois ao preparar o ambiente com diferentes materiais e técnicas, desde desenhos, pinturas a mosaicos, escrita espontânea, entre outros, as crianças passam a interagir com esse espaço, aprendendo a respeitar e a cuidar dele com mais envolvimento e satisfação, o que aconteceu no desenrolar do terceiro bimestre proporcionando a construção do sentimento de pertença ao contexto escolar.

Quanto à organização dos demais ambientes físicos da instituição, notamos que, decisões sobre o espaço físico eram tomadas principalmente pela equipe de gestão, ou seja, pela direção e coordenação da escola.

A professora e sua enfermeira buscavam mostrar, cotidianamente, a importância de cuidar da sala de aula, desde a sua higienização, o cuidado ao outro e consigo mesmo e, ainda relativo aos materiais da sala. As crianças auxiliavam, principalmente, no cuidado e na organização da limpeza da sala, dos brinquedos, dos livrinhos e a mobília da sala.

As atividades em papel eram guardadas em envelopes de papel pardo com suas respectivas identificações.

Não constatamos a presença das crianças na definição da organização do ambiente, tais como: na mudança de mobiliário e na organização física da sala de aula.

Esse tipo de alteração ocorria apenas entre as professoras da sala (a professora da manhã) e a professora Sofia (tarde). Assim, as crianças não foram protagonistas na construção do seu ambiente, diminuindo consideravelmente o seu envolvimento com este, embora a professora tentasse integrá-las ao espaço considerado.

Ao ser questionado sobre a organização da sala, se ela era compartilhada com a professora do turno contrário, e sobre como isso ocorria, a professora respondeu:

Nós seguimos a orientação da coordenação e direção da escola, mas eu e a professora da manhã decidimos o que colocaríamos para enfeitar a sala de aula, receber as crianças, os cantinhos. Também dividimos o mural de dentro e fora da sala, o armário. (Entrevista, 3/7/2008).

Assim, as professoras dividiam os murais, os brinquedos e os móveis sem problemas. Cada uma tinha o seu armário, mas possuíam livre acesso ao armário da colega para que utilizasse o que fosse necessário, atuando em parceria uma com a outra. É importante destacar que, apesar dos cantinhos da sala não serem construídos pelas crianças, esses favoreceram as interações entre elas, a professora e o ambiente. Isso nos remete a Horrn (2007), ao se referir aos cantinhos temáticos como possibilitadores de uma maior interação das crianças com diferentes linguagens, o que acontecia à medida que essas também interagiam com os diferentes materiais presentes nos cantinhos, tais como: massinha, livrinhos e brinquedos.

Ressaltamos que nessas várias interações surgiam pequenos conflitos vinculados ao compartilhar objetos e brinquedos, à espera, aos desencontros de intenções e ideias. Como bem nos fala Galvão (2004, p.15), “[...] a total ausência de conflito indica apatia, total submissão e, no limite, remete à morte [...]”, a morte das interações, da construção do conhecimento, da aprendizagem e do desenvolvimento da criança.

Esses conflitos eram muito frequentes. No entanto, Sofia intervia pontualmente nessas ocasiões, às vezes de forma rígida e autoritária, outras de forma acolhedora e carinhosa, mas sempre colocando limites.

Assim, embora as crianças não fossem as protagonistas na implementação e organização do ambiente, elas respeitavam e atuavam no espaço escolar demonstrando envolvimento e satisfação. Isso nos leva a concluir que elas não deixaram de vivenciar uma aprendizagem favorável ao desenvolvimento. No entanto, a professora Sofia, poderia ainda propiciar um espaço de convivência mais agradável, gostoso, lúdico, motivador, saudável e favorecedor de uma aprendizagem construtiva e significativa às crianças.