Objeto da prova
O objeto da prova judiciária são os fatos23 que servem de fundamento à ação e à defesa, e sobre os quais versa a lide.
Alguns desses fatos carecem e outros não carecem de prova.
Como a atividade probatória é dispendiosa, deve o juiz dirigir o processo de modo a evitar que as partes procrastinem o seu curso, com requerimentos de provas dispensáveis ou protelatórias.
Carecem de prova os fatos:a) controvertidos;b) relevantes; ec) determinados.
a) Fatos controvertidos são aqueles sobre os quais se instaurou uma controvérsia; que, afirmados por uma das partes, foram negados pela parte contrária; enfim, os fatos contestados,24 ou seja, não admitidos no processo como
verdadeiros.
b) Fatos relevantes, também ditos influentes, são aqueles capazes de influir na decisão da causa, ou seja, que tenham alguma relação com a causa ajuizada.
c) Fatos determinados são aqueles que se apresentam com características suficientes para distingui-los de outros semelhantes.
Não carecem de prova os fatos: a) incontroversos; b) evidentes; c) impertinentes; d) irrelevantes; e) impossíveis; f) indeterminados; g) notórios; e h) possíveis com prova impossível.
a) Fatos incontroversos são aqueles a respeito dos quais não houve controvérsia, ou porque, alegados por uma das partes, foram confessados25 pela outra, ou porque, alegados por uma das partes, não foram contestados pela parte
contrária.
Não se aplica ao processo penal essa regra, em vista da natureza da lide penal, em que os interesses são, geralmente, indisponíveis, predominando o interesse público.26
b) Fatos evidentes são aqueles que se impõem ao raciocínio, como decorrência natural de outros; sendo, por isso, denominados de fatos intuitivos; pelo que, se um homem fala e se move, não há necessidade de provar que está vivo.
c) Fatos impertinentes são aqueles que não pertencem à causa; estranhos a ela; como, por exemplo, o réu querer provar, numa ação de reivindicação, que é credor do autor.
d) Fatos irrelevantes ou inconcludentes são aqueles que, embora se refiram à causa, não têm nenhuma relevância ou influência na decisão do juiz; ou que não levam a conclusão alguma; como, por exemplo, se, numa ação indenizatória contra ele proposta, alega o réu que derrubou a mata do autor porque a sua indústria estava prestes a paralisar-se por falta de combustível.
e) Fatos impossíveis27 são aqueles cuja aceitação repugna ao elementar bom-senso, em função dos fatores de espaço e tempo, como, por exemplo, alguém querer provar ter sidoteletransportado para o local do crime.
Nessa categoria se incluem os fatosinverossímeis ou inacreditáveis e os que contrariam verdades incontestáveis ou universalmente consagradas: a parte é menor do que o todo; uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo; dois corpos não podem ocupar, ao mesmo tempo, o mesmo lugar no espaço.
Como a impossibilidade é relativa, porquanto o que foi impossível ontem não é hoje, recomenda a doutrina que, se aparentemente impossível ou inverossímil o fato, o melhor é deixar ao juiz a decisão sobre a admissão da prova.
Antigamente, a alegação de que um prédio foi derrubado em questão de segundos era impossível, porque a derrubada levava meses; mas depois que surgiu a “implosão” o prédio vem abaixo em questão de segundos.
f) Fatos indeterminados são aqueles cuja indeterminação não permite a produção da prova; como, por exemplo, provar o autor que um semovente seu passou para o pasto do réu, se não puder descrever o animal; provar uma invasão
do imóvel sem descrever os seus respectivos limitesetc.
g) Fatos notórios são aqueles fatos cujo conhecimento faz parte da cultura de determinada esfera social, no tempo em que ocorre a decisão; não sendo a mesma coisa que fama pública ou opinião pública.
Um fato pode ser notório em todo o mundo, como, por exemplo, o dia 25 de dezembro é o dia de Natal; ser notório somente numa região, como, por exemplo, data da festa da uva, no Rio Grande do Sul; ou apenas numa cidade, como a realização da exposição agropecuária de Uberaba, em Minas Gerais.
Para ser notório, não é preciso que o fato seja efetivamente conhecido, bastando que possa sê-lo por meio da ciência pública ou comum, como, por exemplo, a consulta de um calendário especializado para saber a época da colheita de café
nos Estados produtores.28
Também não é preciso que o juiz tenha contato direto com o fato, para considerá-lo notório. Assim, não pode desconhecer que Santos é uma cidade portuária, apesar de nunca ter estado lá.
e) Fatos possíveis com prova impossível são aqueles que são, em si mesmos, possíveis, mas a prova a seu respeito é que é impossível, como, por exemplo, provar comtestemunha ocular um fato ocorrido há cem anos.
A impossibilidade da prova pode decorrer: I – de disposição de lei; ou II – da natureza do fato. I) Pordisposição de lei, são considerados impossíveis:
a) os fatos alegados ao encontro de uma presunçãoiuris et de iure de veracidade,29 porque a presunção subsistiria, mesmo que se provasse o contrário; como, por exemplo, pretender um terceiro provar que não teve conhecimento do registro da penhora no ofício de imóveis (CPC, art. 844).30
b) os fatos que não possam produzir consequências jurídicas em razão do seu caráter, como, por exemplo, o cônjuge pretender provar a própria infidelidade conjugal para fundar nele o pedido de divórcio.
II – Pela natureza do fato, são considerados impossíveis:
a) os fatos cuja prova é vedada por lei, por exemplo, pretender alguém provar com testemunhas um contrato sem começo de prova por escrito (CPC, art. 444);31
b) os fatos cujas condições peculiares impedem a prova por determinado meio; como uma perícia quando a verificação for impraticável, em virtude do caráter transitório do fato (CPC, art. 464, § 1º, III).32