4. CONTEXTO DA REDE MUNICIPAL DE ENSINO DE PORTO ALEGRE
4.1.4. Obrigatoriedade de planejamento dentro da escola
Outra medida que reorientou fortemente o trabalho docente a partir da gestão 2017- 2020, e que foi anunciada do dia para a noite (FRAGA, 2018), foi que o terço da carga horária de trabalho destinado ao planejamento fosse realizado integralmente dentro da escola. Este tempo na RMEPOA corresponde a um terço da carga horária, conforme a lei federal nº 11.738
de 2008, conhecida como Lei do Piso do Magistério, determina. Conforme a lei do piso, no parágrafo 4º do artigo 2º, diz que “na composição da jornada de trabalho, observar-se-á o limite de 2/3 (dois terços) da carga horária para o desempenho das atividades de interação com os educandos”. A Lei do Piso, definiu também, que o período para atividade extraclasse deve corresponder a 1/3 da jornada, determinação essa que foi mantida pelo Supremo Tribunal Federal, no julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade 4167 em 27 de abril de 2011. Em relação à constitucionalidade do § 4º do artigo 2º da referida lei, transcrevemos parte do voto do Ministro Ricardo Lewandowski, quando fala da importância de um terço da jornada ser destinado para atividades extra aula:
Eu ousaria, acompanhando agora a divergência iniciada pelo Ministro Luiz Fux, entender que o § 4º também não fere a Constituição pelos motivos que acabei de enunciar, pois a União tem uma competência bastante abrangente no que diz respeito à educação. Eu entendo que a fixação de um limite máximo de 2/3 (dois terços) para as atividades de interação com os alunos, ou, na verdade, para a atividade didática, direta, em sala de aula, mostra-se perfeitamente razoável, porque sobrará apenas 1/3 (um terço) para as atividades extra-aula. Quem é professor sabe muito bem que essas atividades extra-aula são muito importantes. No que consistem elas? Consistem naqueles horários dedicados à preparação de aulas, encontros com pais, com colegas, com alunos, reuniões pedagógicas, didáticas; portanto, a meu ver, esse mínimo faz-se necessário para a melhoria da qualidade do ensino e também para a redução das desigualdades regionais. (CNE, 2019)
Na RMEPOA, desde a implementação da lei do piso, em 2009, permitia-se que o professor pudesse fazer parte da sua carga horária de planejamento fora da escola, período da semana que era conhecido como HAFE (hora atividade fora da escola). Em geral, esse período compreendia um turno a cada cinco de trabalho, já que a maioria das escolas conseguia organizar seus horários para permitir esse manejo da carga horária dos professores e professoras. É sabido que uma das características do trabalho docente é que professores e professoras trabalham frequentemente para além de sua carga horária, e tradicionalmente grande parte leva trabalho extra para casa (HYPOLITO, 2011). Sendo assim, este sistema de planejamento fora da escola visava reparar esta falha, além de possibilitar aos docentes utilizarem mecanismos de planejamento que estivessem ao seu alcance para além das estruturas muitas vezes precárias nas escolas públicas.
Entretanto, no início de 2018, a Smed determinou que professores e professoras fizessem toda sua carga horária na escola (CHAGAS, 2018). A determinação enviada por e- mail às direções das escolas criava uma divisão entre os docentes, sendo alguns afetados por essa medida e outros não. A nova regra permitia que apenas professores e professoras que lecionassem 40 horas, em sala de aula, na mesma escola – não permitido àqueles professores e professoras em funções de equipe diretiva, como supervisão, coordenação de turno, orientação
e direção – pudessem fazer apenas um turno de planejamento fora da escola. Os demais professores e professoras que lecionassem menos de 40 horas na mesma escola, estivessem em função de direção, coordenação, supervisão ou direção, ou até mesmo trabalhassem 40 horas, mas em escolas diferentes, não teriam direito à poder organizar sua carga horária para trabalhar fora da escola.
A previsão do cumprimento de uma jornada de cinco dias dentro da escola estava prevista na reorganização da rotina escolar anunciada pela secretaria de educação em fevereiro de 2017. Porém, segundo Adriano Naves de Brito, secretário de educação, não havia a possibilidade de implantar esta mudança em 2017, pois a instalação do ponto eletrônico que a gestão 2017-2020 colocou em todas as escolas ainda não havia sido finalizada. Segundo Brito, em declaração à jornalista Ângela Chagas (2017, documento online), não haveria mais “a possibilidade de abonar o ponto de quem não cumpriu a jornada dentro da escola como era feito até o ano passado. O ponto eletrônico permite esse controle”.
Segundo Fraga (2018), a mudança na organização da carga horária de planejamento na RMEPOA fez com que 75% dos docentes perdessem totalmente seu direito à HAFE, e os 25% restante (apenas 800 dos 3,3 mil docentes da RMEPOA trabalham 40 horas na mesma escola em sala de aula), perdessem metade do direito que continham anteriormente, podendo fazer apenas um turno fora da escola. Esta característica da normativa da Smed colocou em dúvida a isonomia com que deveriam ser tratados os direitos do magistério municipal no que se refere à lei do piso.
Conforme o secretário de educação, Adriano Naves de Brito, a lei do piso será respeitada, porém o professor terá de fazer as atividades de planejamento e avaliação na escola, já que segundo ele, “educação de qualidade se faz com professor dentro da escola. Estamos desde o ano passado trabalhando nisso e vamos intensificar essas mudanças em 2018” (CHAGAS, 2017, online). Ainda, para a reportagem de Ângela Chagas, Brito justificou que a diferenciação da incidência da medida sobre os professores e professoras se dava por querer “incentivar que os docentes tenham essa jornada de 40 horas em uma mesma escola. Isso é importante para reforçar o vínculo com a instituição e também colabora com a qualidade de ensino” (CHAGAS, 2017, online).
Em relatório produzido pelo mandato do vereador Alex Fraga (2018) para a Câmara Municipal de Porto Alegre, na qual o mesmo visitou todas as 56 escolas da RMEPOA, ele aponta que as possibilidades para a realização de planejamento na rede estão longe das demandadas pelos professores. Em Chagas (2018), o secretário Adriano Naves de Brito
reconhece que as condições das escolas para oferecerem espaços adequados, como salas de estudos e computadores não são as ideais, mas diz que vai trabalhar em melhorias.
No recente levantamento feito por Fraga (2018), o autor fez um minucioso apontamento de como são as reais condições para a realização do planejamento nas escolas de ensino fundamental da RMEPOA, constatando que não se percebem estruturas de mesas e cadeiras confortáveis, isolamento acústico ou materiais pedagógicos à disposição, nem computadores com processador adequado e programas atualizados para as demandas de hoje. O estudo vai além e aponta que:
a) Apenas 8 das 56 escolas possuem sinal de wi-fi, ou seja, mesmo que o professor utilize notebook pessoal para compensar a falta de computadores da escola, na grande maioria dos casos não poderá utilizar a internet como ferramenta de pesquisa. Outro problema para quem adotar essa alternativa é a falta de tomadas suficientes para todos carregarem notebook ou até mesmo telefones celulares.
b) Em nenhuma das escola existe uma biblioteca específica e disponibilidade de materiais para uso em aula para o planejamento docente. O que vimos ao visitar as escolas foram professores carregando peso extra de livros necessários ao planejamento e grande quantidade de materiais pedagógicos para anos iniciais. c) Em todas as escolas que possuem Sala dos Professores, esta é um espaço de convivência e não de planejamento. Todas possuem cozinha com cafeteira e micro- ondas, considerando que: - a maioria das escolas está localizada nas periferias e os professores levam seu almoço para aquecer no local de trabalho (ao obrigar os docentes a cumprir a hora-atividade na escola, a SMED os obriga também a fazer as refeições nestes exíguos espaços, que estão longe de serem suficientes para atender às necessidades de dezenas de trabalhadores simultaneamente); - a sala dos professores é um espaço de descanso e intervalo dos educadores; - pelo fato de a equipe docente estar em seu espaço de convivência, há fluxo de alunos, pais e funcionários, impossibilitando que o professor na hora-atividade mantenha a concentração. d) O levantamento buscou fazer uma radiografia das condições de trabalho dos profissionais da educação. Sobre a disposição de computadores e considerando como um critério de análise o computador funcionar minimamente, chegamos aos seguintes números nas 56 escolas da rede: 18 escolas não possuem computador funcionando na Sala dos Professores com acesso à internet; 25 escolas possuem 1 computador com acesso à internet; 13 escolas têm 2 ou mais computadores com acesso à internet; apenas 4 escolas possuem impressora no local.
e) Sobre o acesso à internet, é importante destacar a qualidade de sinal oferecida. No município são pelo menos 10 EMEFs com acesso a internet via rádio, e nessas escolas é comum um sinal muito instável que prejudica o trabalho dos setores, os laboratórios para os estudantes e os planejamentos. Cabe ressaltar que a internet é tão precária que as direções frequentemente têm que se deslocar para EMEFs, postos de saúde vizinhos, ou até mesmo à SMED para conseguir registrar os ajustes do ponto dos professores porque é inviável o trabalho com o acesso precário. Como, nesses espaços, o professor pode planejar? No século 21, é inconcebível que atividades de planejamento de atividades de ensino sejam realizadas sem pesquisa na internet. f) Uma queixa unânime nas escolas foi em relação ao veto da SMED à instalação de novos pontos de internet nas escolas, com a justificativa da secretaria, segundo nos relataram as direções, de que seria “oneroso”. Ora, como foi justamente a secretaria que determinou que os professores façam seus planejamentos única e exclusivamente no ambiente escolar, negar-lhes as condições mínimas para executar essa tarefa é uma grande incoerência e indica descaso da mantenedora para com a qualidade do ensino. (FRAGA, 2018, p. 10)
No mesmo relatório, Fraga (2018) chama atenção para a sobrecarga de trabalho que pode estar se intensificando nessa gestão a partir dessa reorganização da carga horária de planejamento. Segundo trecho de seu relatório:
Sem a estrutura disponível na escola, há professores que optam por ainda fazer seus planejamentos em casa, ou seja, ficam um turno inteiro na sala dos professores para cumprir horário determinado e após realizam seu planejamento na estrutura de sua residência. É um sistema “burro”, em que o profissional é pago para planejar na escola mas não consegue, o que equivale a ser pago para ficar parado na escola quando poderia estar planejando em um lugar com condições adequadas para isso. Ao obrigá- lo a fazer o retrabalho em casa, a SMED piora sua qualidade de vida e agrava a sobrecarga mental e física dos trabalhadores. (FRAGA, 2018, p. 11)
Segundo Fraga (2018), em entrevistas realizadas com as direções das escolas visitadas, reportou-se o aumento de despesas das escolas e da PMPA, como passagem para deslocamento à escola, material de limpeza, água, luz, impressões dentro da escola e manutenção de computadores, o que contraria um pretenso viés de redução de despesas com recursos humanos, que vem sendo sustentado na narrativa reformista da gestão 2017-2020.
Figura 1: Foto da sala usada para planejamento em uma grande escola da RMEPOA. (FRAGA, 2018)
À reportagem de Chagas (2017, online), Cíndi Sandri, diretora de assuntos educacionais da Atempa (Associação dos Trabalhadores em Educação do Município de Porto Alegre), declarou que “os professores terão grande dificuldade para dar conta de buscar outros
elementos que não estejam no ambiente escolar para fazer sua formação, o seu planejamento. Ficam desautorizados a se aperfeiçoar fora da escola”.
Durante a greve dos municipários de 2018, entre setembro e outubro, estavam entre as pautas reivindicadas pelo Simpa (Sindicato dos Municipários de Porto Alegre), as seguintes demandas por parte do magistério municipal referentes à carga horária de planejamento:
c) Retomar as condições da hora atividade, prevista na Lei do piso, incluindo a Educação Infantil e tratando de forma isonômica todos os profissionais da escola, independente da distribuição de sua jornada em uma ou mais escolas.
[...]
e) Revogação dos critérios para a concessão da HAFE, contemplando todas as atividades docentes.
f) Garantia da hora atividade, atendendo a legislação (Lei do Piso), em todas as etapas e modalidades.
g) Retorno imediato da reunião pedagógica, prevista semanalmente com 2h/semana considerada como dia letivo. (SIMPA, 2018).
A reforma sobre a organização da carga horária de planejamento na rede municipal de ensino parece impor um grande impacto sobre o trabalho dos professores e professoras da RMEPOA, já que induz à uma adaptação na maneira de arranjar seu tempo de trabalho dentro e fora da escola.