2 VIOLÊNCIA, CRIMINALIDADE E HOMICÍDIOS EM LONDRINA
4.3 Características dos Jovens Assassinados por Arma de Fogo
4.3.5 Ocupações/atividades exercidas pelos jovens
A ocupação/atividade é uma importante variável a ser analisada na identificação do grupo jovem que morreu em decorrência da violência homicida, já que o acesso ao emprego é um aspecto que compõe o conjunto de características que possibilitam o acesso à renda e que permite a mobilidade social.
As principais ocupações/atividades exercidas pelos jovens são diversificadas (Tabela 24), e todas elas em postos de trabalho pouco remunerados, e provavelmente situados na informalidade. A maior freqüência é de 14,77%, no setor de construção civil, como ajudante de pedreiro e pintor, e de 10,97% no setor de serviços, em ocupações como auxiliar de serviços gerais. Os estudantes são 10,13% e as ocupações de vendedor e em serviços autônomos, em diversas funções como: eletricistas, encanadores, seletores de lixo etc.
apresentam uma freqüência bem menor. Entre outras ocupações menos freqüentes, e que somam 28,69%, estavam jovens que exerciam atividades rurais como lavrador (4), bóia-fria (1) e agricultor (1), mesmo não residindo na zona rural. Entre as mulheres a atividade “do lar” predomina e, apenas uma exercia ocupação no mercado de trabalho.
Entre os jovens assassinados também havia um preso foragido. Um número significativo de jovens não tinha uma ocupação definida (25) e outros eram desempregados (29), sendo que aqui temos que considerar a idade legal93 permitida para o acesso ao mercado de trabalho.
O desemprego dos jovens é um importante aspecto de vulnerabilidade social e, segundo a Organização Internacional do Trabalho OIT, citada por Miriam Abramovay (2002), ele atinge mais de 20% dos jovens de 15-24 anos na América Latina. A incidência do desemprego no grupo jovem que sofreu a violência homicida, era de 12,24%. Se fossemos acrescentar aqueles com ocupação indefinida, teríamos mais 10,55%, compondo uma média bastante alta. Os dados que pesquisamos são apresentados a seguir (Tabela 24).
Tabela 24 Homicídios de jovens de Londrina por armas de fogo e ocupação/atividade, 2000-2003
Ocupação/ atividade 2000 2001 2002 2003 Total
Ajudante de pedreiro 5 7 9 14 35
Autônomo 1 4 3 2 10
Auxiliar de serviços gerais 3 1 9 13 26
Dona de casa 0 4 3 0 7 Estudante 0 5 7 12 24 Pintor 0 1 4 3 8 Vendedor 0 0 1 4 5 Outras 10 11 17 30 68 Desempregado 1 4 13 11 29
Ocupação não definida 0 8 9 8 25
Total 20 45 75 97 237
Fonte: Instituto Médico Legal de Londrina - IML/LD. Dados de 2000-2003, coletados e organizados por Dione Lolis.
Em Londrina, pelos dados analisados, verificamos que 64,14% (152) dos jovens que morreram em decorrência de violência homicida ocupavam alguma atividade remunerada, em contraste com os 22,95% dos jovens londrinenses que estavam economicamente ativos e ocupados em 2000 (IBGE, 2000).
É importante marcar que não havia menção sobre o vínculo formal de emprego no mercado de trabalho nos documentos analisados. Este dado seria importante para a análise do nível de informalidade na ocupação/atividade exercida pelos jovens.
93
No Brasil o trabalho é admitido após os 16 anos, exceto nos casos de trabalho noturno, perigoso e insalubre, nos quais a idade mínima é de 18 anos, e a partir dos 14 anos somente na condição de aprendiz (BRASIL, 1995).
A inserção precária e muitas vezes prematura do jovem no mercado de trabalho que tem como um dos efeitos o déficit educacional , com base no que vimos, e as novas demandas de conhecimentos não são aspectos fundamentais para o desenvolvimento dos recursos materiais e simbólicos, e demonstra a dificuldade encontrada por esse grupo em acessar a estrutura de ofertas sociais, econômicas, culturais que provêm do Estado, do mercado e da sociedade.
Outros aspectos importantes e que reduzem ainda mais o ingresso do jovem no mercado de trabalho, além da falta de experiência exigida pelos empregadores, é o local de moradia que não pode ser violento , e a aparência pessoal (ABRAMOVAY, 2002). No que se refere ao lugar de moradia, em nossa pesquisa anterior (LOLIS, 2001), verificamos que era comum entre as pessoas residentes em favelas e bairros estigmatizados devido à pobreza e à violência, a omissão do seu verdadeiro endereço no momento de procurar emprego. O lugar de moradia, portanto, influi no acesso do jovem ao trabalho.
Tendo em vista que o trabalho no tráfico de drogas é cercado pela ilegalidade e pela informalidade, e, portanto uma atividade não-declarada ou indeclarável, parece claro que este tipo de ocupação, bem como os seus rendimentos, não foi registrado nos documentos pesquisados. A ausência de informações também impede a comprovação das ocupações registradas e se, por exemplo, a ocupação de autônomo, vendedor estaria relacionada ao trabalho para o tráfico de drogas. Ou mesmo se o trabalho para o tráfico é uma ocupação paralela àquela mencionada nos documentos.
A falta desses dados limita a análise do envolvimento desses jovens mortos em decorrência da violência homicida no tráfico de drogas e se ele é seu responsável direto. Também não temos estatísticas dos rendimentos dos jovens para analisar o seu acesso aos bens de consumo. Ocupações, portanto, que se caracterizam por uma nova pobreza.
Os indícios de que a maioria dos jovens morreu em decorrência do uso (que levou a atos infracionais) e do tráfico de drogas já foi mencionado antes e retomamos aqui. O acesso aos rendimentos monetários através do mercado ilegal das drogas para aquele que trabalha como “mula” ou para aquele que vende a droga nas “bocas de fumo” é o maior atrativo desse tipo de ocupação e isso é mencionado por entrevistados, como o juiz Criminal (JVC, 23/06/2007). “Veja só, se ele vende R$ 8.000,00 [num ponto] e a cada 13 papelotes de
cocaína ele ganha 3, ele recebe por dia, se ele entrega R$ 3.000,00, ele recebe aproximadamente R$ 600,00 a R$ 800,00 por dia. Ele vai traficar ou vai trabalhar?”.
A ocupação no tráfico de drogas, muitas vezes não aceito como trabalho, é significativa na economia informal e, por isso, essa forma de inserção mereceria maior análise. Outra comparação comum é a diferença entre o rendimento em uma ocupação formal/legal e a ocupação ilegal no tráfico, como analisa o diretor do CENSE II (11/07/2007).
“No antigo CIAADI, nas conversas com os adolescentes, eu ouvi um deles falar que o pai ganhava 1/2 salário mínimo e o traficante às vezes pagava R$ 200,00, R$ 150,00 na noite, para o tráfico”.
A disputa em torno desse lucrativo e concorrido trabalho no tráfico, pelas informações dos entrevistados é o principal indicador de que esses jovens se envolvem na violência homicida, enquanto violentador ou violentado. Esses jovens, na opinião do juiz da Infância e Juventude (JVIJ, 02/07/2007), tiveram pouca ou nenhuma possibilidade “pois já
nasceram pobres e assim continuam, sem qualquer visão de melhorar seu futuro [...]. Está evidente que a falta de oportunidade para melhorar na vida é que os arrasta à marginalidade na procura de ganho fácil, ora no tráfico, ora roubando ou mesmo matando”.
Os “novos miseráveis” de hoje, como analisa Passetti (1999), não são mais os tradicionais maltrapilhos, desempregados, abandonados, entre outros.
Eles estão armados, são mão-de-obra barata, às vezes melhor remunerada que a inserida no mercado de trabalho legal com salário mínimo. São novos miseráveis porque habitam o mercado ilegal e, por vezes, co-habitam o mercado legal [...]. Desejam os bens de consumo a qualquer preço, desprezam os direitos sociais, buscam o bem-estar material pelo avesso do que o liberalismo pretende [...] (PASSETTI, 1999, p.26)
Desse modo, é possível afirmar que, talvez mais que qualquer outro grupo populacional, os jovens são os que mais enfrentam incertezas e os riscos do avanço acentuado no processo de expansão mercantil internacional nas últimas décadas. A incorporação do jovem no mercado de trabalho é uma dificuldade encontrada hoje, mas não a única.
A violência homicida contra esses jovens, portanto, possui fortes vínculos com a condição de vulnerabilidade social encontrada na cidade e no País e com a entrada para a rede da narcoeconomia. A situação de vulnerabilidade dos jovens se acentua quando não estudam e nem trabalham e os riscos de morrerem por homicídio aumentam.