2 VIOLÊNCIA, CRIMINALIDADE E HOMICÍDIOS EM LONDRINA
2.2 Territorialidades do Tráfico de Drogas e Armas e Violência
De acordo com a análise de Zaluar (2007a, 2007b) vive-se hoje nas cidades brasileiras uma escalada da violência e dos índices de criminalidade. A sociabilidade de intensas áreas urbanas é ameaçada pelo crime organizado e pelos grupos armados, especialmente no Rio de Janeiro, alterando de modo significativo as regras de convivência nas vizinhanças pobres. As representações dos grupos residentes em territórios de exclusão que foram sendo construídas, na análise de Zaluar (2007a, 2007b), colocam todo morador de favela como cúmplice dos traficantes e todo favelado como um indivíduo potencialmente violento. Em meio a esse imaginário social, argumenta a autora, sobram poucas críticas à ação da polícia nas favelas e para a ameaça do crime organizado. Deve-se considerar ainda que nem todas as favelas têm a presença do comando de traficantes armados e nem todas as cidades do mundo apresenta o quadro de violência registrado no Brasil.
As pesquisas realizadas por sociólogos, antropólogos, historiadores e outros estudiosos revelaram que os conflitos entre organizações criminosas, como o Comando
Vermelho, nasceram no sistema carcerário e nos morros cariocas nos anos de 1970, isto é, resultam da inoperância de um sistema prisional falho. Um sistema que “permitiu que prisioneiros mais fortes, ricos e agressivos convivessem, na mesma cela, ala ou prisão, com pequenos delinqüentes, que sempre foram oprimidos e extorquidos pelos primeiros” (ZALUAR, 2007b, p.02). No início, as facções criminosas surgem com a intenção de acabar com esta opressão dentro da prisão, mas ainda durante o regime militar inaugurado com o golpe de 1964, quando o tráfico de cocaína começou a se espalhar pelo Brasil, despontam outras organizações que não ficaram restritas ao Rio de Janeiro e, pouco a pouco, começaram a descobrir que:
O tráfico de drogas ilegais era uma forma de ganhar dinheiro fácil e continuar a extorquir dos envolvidos, dentro e fora da prisão, tudo aquilo que é necessário para viver bem e dominar quem não for chefe. Inimigos, deixaram os assaltos para se tornar comerciantes em guerra mortal. O dinheiro ganho nas bocas vai para os líderes dos comandos fora e dentro da prisão. Gerentes, vapores, soldados e olheiros, quando presos, não ganham nada; livres, ganham percentual ínfimo dos lucros. Uma "empresa" sem nenhum direito trabalhista. Já há muitos desiludidos que compreendem que se arriscaram para defender o que não era deles (ZALUAR, 2007b, p.02).
O narcotráfico (tráfico de narcóticos, de drogas)49 e o crime organizado, como argumentam Luke Dowdney (2002) e Adorno (1998a), rompe com a tradicional distinção entre o mundo da ordem e da legalidade. Estes não são fenômenos recentes, porém adquirem hoje características como: o recrutamento preferencial de jovens (como “olheiro/ fogueteiro”, “vapor”, “gerente de boca”, “soldado”, “fiel”); a dimensão do valor atribuído à posse de arma de fogo; o monopólio extremamente concentrado das atividades criminais; as estruturas de mando e obediência rigorosamente hierarquizadas e personalizadas, atualizadas por práticas precisas e codificadas segundo normas particulares e mantidas em segredo; a manutenção de milícias particulares que reproduzem o modelo militar, em uma trama tão intrincada que não se estabelece um nexo entre a materialidade da infração e seus possíveis atores; e a conservação de uma rede de “informantes” e “espias”, onde a corrupção tem lugar estratégico.
O narcotráfico, filhote de uma ilegalidade que gera positividades incalculáveis para o lado da economia global, é crime de seu tempo. Nos fluxos de capital do livre mercado mundial circulam bilhões de narcodólares; os satélites que vigiam avionetas orbitam ao lado dos que transferem
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A expressão “narcoterrorismo” foi criada pelo ex-embaixador americano na Colômbia, Lewis Tambs em 1986, na ocasião do anúncio da “guerra contra as drogas” pelo então presidente Ronald Reagan, associando assim o narcotráfico ao terrorismo, como o “inimigo”. Com isso os Estados Unidos também deixaram claro que o combate às drogas deixou de ser assunto de polícia e passou a ser tema de doutrina geopolítica. O narcotráfico passou a ser definido desde então, como uma ramificação da economia que atua por meios ilegais com ligações legais e que é responsável pelo contrabando de narcóticos ilegais (Ver RODRIGUES, 2002; ARBEX-JÚNIOR, 2001; PASSETTI, 1991).
fortunas arrecadadas no tráfico; as armas que combatem as organizações narcotraficantes também as equipam; e os negociadores das drogas capturados no Brasil são mais semelhantes aos norte-americanos e europeus do que em geral se pensa. Transitamos, assim, em um jogo nos quais a hegemonia dos consensos também se traduz em eficazes estratégias de controle social (RODRIGUES, 2002, p.107).
Na onda do combate ao narcotráfico, nos moldes dos esquadrões da morte e à revelia do Estado, uma organização vem ganhando a mídia e chamando nossa atenção: as milícias. Estas são integradas por policiais militares da ativa, ex-policiais, bombeiros e até militares das Forças Armadas, atuam na cidade do Rio de Janeiro na “proteção” a comerciantes e moradores em troca de pagamentos mensais. A ação dessas milícias inclui a produção de mapas e fotos por satélite, utilizados freqüentemente nas invasões às favelas da cidade. Dos pontos-de-venda de drogas aos esconderijos dos traficantes, de armas e de dinheiro, tudo é mapeado com a ajuda dos informantes. Essas milícias contam com um arsenal de fuzis, granadas e pistolas (compradas no mercado ilegal ou tomadas de traficantes), coletes à prova de balas e o auxílio de informantes conhecedores da estrutura do tráfico, que estendeu sua atuação a quase uma centena de áreas nos últimos meses (GOMIDE, 2007).
Segundo a polícia, as milícias invadem as comunidades, matam os traficantes [e queimam os corpos] ou provocam sua fuga e passam a controlar os negócios da favela. “A milícia surge da pobreza, a pretexto de salvar a comunidade dos traficantes, mas ela cai nas mãos de outra tirania, que não tem boas intenções: os objetivos são financeiros e políticos" (apud GOMIDE, 2007). O aumento do número de homicídios é uma das conseqüências da atuação dessas milícias.
Para Walter Maierovitch (2006), no Brasil essa violência consumada pela criminalidade organizada pode ser resumida em três categorias analíticas: violência instrumental, violência como manifestação de poder paralelo e violência para a manutenção interna da associação. A violência instrumental provém da necessidade que a criminalidade organizada tem de difundir o medo para manter o controle social e de territórios. Isso pode ser notado em diversos Estados onde territórios de exclusão estão sob o controle da criminalidade organizada. Um exemplo desse controle é o toque de recolher em morros cariocas e em favelas paulistas.
Os objetivos dessas facções de tráfico de drogas geralmente são: “acumular forças (acumular homens e armas), intimidar (dissuadir/repelir invasão por rivais/policiais), dominar (consolidar/expandir a área de controle), buscando maximizar os lucros do tráfico de drogas” (LESSING, 2005, p.288). O “inimigo” é a polícia, que “não se mata, mas se compra” e as
outras facções que atuam no narcotráfico. Dessa estrutura fazem parte os seguintes elementos: corrupção policial, hierarquia no tráfico (dono; gerente geral; gerente de cocaína, gerente de maconha, gerente de soldados, fiel; gerentes de boca, gerentes; soldados; olheiro/fogueteiro; endoladores; vapores), armas de fogo (esses trabalhadores no tráfico recebem armas emprestadas pela “boca” de acordo com a posição na hierarquia, e com um tipo correspondente a ela) e “sociabilidade violenta”, onde “a idéia de vida e morte transforma-se, assim, na visão do efêmero, tanto de uma como da outra, ficando em evidência a inter-relação entre ambas”, segundo pesquisa de Patrícia Rivero (2005, p. 253).
A violência para a manutenção da organização para o tráfico, além de ameaças de eliminação daqueles que buscam subverter as ordens dos líderes, é um instrumento para a expansão dos negócios ilícitos, reciclar o dinheiro lavado em atividades formalmente lícitas, corromper autoridades e penetrar nos órgãos do Estado.
É necessário evidenciar que o narcotráfico transita entre o mundo da legalidade e da ilegalidade, com ramificações em diversos países e que penetra em todas as esferas de poder estatal, empresariais e sociais. O narcotráfico é responsável por realizar o cultivo, produção, refino, embalamento, distribuição, transporte, redistribuição e comércio dos narcóticos. É uma estrutura que emprega centenas de milhares de membros organizados e alguns milhões de trabalhadores na produção da matéria-prima no mundo. Um negócio que inclui tráfico de drogas, vendas de armas, “lavagem de dinheiro”50, prostituição adulta e infantil, tráfico de órgãos humanos, suborno, extorsão, controle de áreas inteiras utilizando métodos violentos de terror com uma estrutura paramilitar.
As máfias do narcotráfico, conforme discute José Arbex-Júnior (2001), formam “Estados dentro do Estado”, com suas próprias leis e exército. Na América do Sul isso acontece especialmente na Amazônia, principal região produtora da folha de coca, matéria- prima para a produção de cocaína. Ali estão concentrados os mais poderosos grupos de comércio de drogas, impulsionados pelo aumento do consumo nos Estados Unidos nas décadas de 1970 e 1980. A guerra movida pelos Estados Unidos contra os narcotraficantes da Colômbia, Bolívia, Peru e Brasil, trás implícita uma intenção geopolítica: quem controla a Amazônia. Ou seja, a "guerra ao narcotráfico" envolve mais do que interesses econômicos e
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“Lavagem” ou “branqueamento” de dinheiro diz-se do processo em que o dinheiro obtido por meios ilegais passa à condição de legítimo ou tem sua origem disfarçada. Esse dinheiro, além de recobrir os lucros obtidos com o comércio ilícito de drogas “pode envolver a fuga de capitais, o dinheiro proveniente do contrabando de armas, de grãos, de produtos eletrônicos, de matérias-primas para a fabricação de armas nucleares, assim como os lucros provenientes de serviços freqüentemente controlados por máfias (prostituição, hotéis, jogos de azar, casas de câmbio, etc.)” (MACHADO, 2004, p.2).
morais51. Com o referendo do consenso político e econômico atual a “guerra ao narcotráfico”, promovida pelos Estados Unidos nas Américas, investe em uma política de combate ao tráfico e ao uso de substâncias ilegais e alinha posturas repressivas em todo o continente.
Para Thiago Rodrigues (2002) o narcotráfico, que congrega e patrocina diversas manifestações da criminalidade organizada, “passa a ser alvo de Estados que não discutem tão-só a internacionalização de suas economias, mas que investem no enrijecimento harmônico das políticas de repressão à produção, tráfico e consumo de drogas” (p.102).
Amparada em lastros morais, escorando-se também em saberes médico- sanitários, a luta contra o narcotráfico é acionada politicamente quando o próprio tráfico de drogas é içado ao posto de maior antígeno a “infectar” e "corromper" a vida social e institucional dos Estados neodemocráticos (RODRIGUES, 2002, p.102).
A “guerra às drogas” não demorou a apresentar ligações estreitas entre o avanço da penalização sobre os grupos segregados espacialmente e o aumento das condenações relacionadas às drogas ilícitas. Mesmo em países com baixa cobertura de políticas de assistência social, como o Brasil, a incidência das medidas punitivas e do recurso ao encarceramento como medida correcional privilegiada acompanha a paranóia da segurança pública que alimenta o temor e os clamores por “tolerância zero” (RODRIGUES, 2002; WACQÜANT, 2001a).
Na cartografia do narcotráfico latino-americano o Brasil desponta como rota fundamental para o escoamento da cocaína no começo dos anos de 1980, tendo as suas regiões mais selvagens, como a Bacia Amazônica e outras fronteiras internacionais, como
lócus privilegiado para centros de apoio logístico, com sua indústria química como
fornecedora de insumos para o fabrico da cocaína. Organizações criminosas encontram no mercado de drogas a varejo um negócio mais rentável e em franca expansão do que os assaltos à banco e se inserem na dinâmica do narcotráfico internacional. Domínio exercido por meio da junção do assistencialismo e da coerção. A manutenção do poder alia admiração, respeito e medo e impõe suas próprias normas e táticas de disciplina à população (RODRIGUES, 2002).
O processo de inserção do Brasil na economia da droga é tão pouco conhecido quanto pesquisado. Há duas décadas, o País foi incorporado pelos cartéis colombianos como
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No início do século XX o controle das drogas já era uma das medidas internas e uma das campanhas internacionais patrocinadas pelos Estados Unidos. O controle estatal de substâncias psicoativas no Brasil, seja da venda e do uso desses produtos, entra na pauta sanitária após 1910. Na Convenção de Haia, em 1911, o Brasil assume o compromisso de fortalecer o controle sobre opiáceos e cocaína. Em 1921 aprova a primeira lei restritiva na utilização de ópio, morfina, heroína e cocaína no Brasil (RODRIGUES, 2002). Outras leis antidrogas foram editadas, e a mais recente é a Leinº 11.343, de 23/08/2006 (BRASIL, 2006b).
caminho alternativo das rotas de trânsito de drogas que passavam pelo Caribe, segundo o Anuário Narcotráfico (ARGENTINA, 2007). Ocorre que, nos últimos seis anos, o País vem assumindo importância crescente em todas as atividades da economia da droga, seja como importador, exportador ou consumidor, que está disseminada pelo Território Nacional e visa abastecer os grandes centros nacionais de consumo como São Paulo e Rio de Janeiro ou viabilizar a distribuição em outros mercados consumidores internacionais, principalmente na Europa e Estados Unidos. Segundo o Anuário, são quatro principais rotas de cocaína da Colômbia e da Bolívia, com escala no Paraguai, passando por Foz do Iguaçu, com maior trânsito em direção dos grandes centros de consumo.
O Brasil, além da Europa oriental, da região ao sul e leste do Mediterrâneo, da Nigéria e do México, tem se destacado como área de trânsito.
Em quase todos os casos, os traficantes fazem uso de meios de transporte intermodais, escondendo a droga em containeres ou em outros tipos de carregamento deslocados pela marinha mercante, por caminhões ou ferrovias. O uso de aeronaves, tanto de carga como comerciais, também é freqüente (MACHADO, 2004, p.6).
Se o fenômeno do narcotráfico é relativamente recente, pelo menos em termos da intensidade que assumiu no final do último século, mais recentes ainda são os estudos sobre o tema. Este é um dos fatores que "aliado ao fato do narcotráfico ser uma atividade ilegal e, como tal, as informações sobre o tema serem, em geral, estimativas" explica a dificuldade de se conseguir dados que sejam confiáveis(ARGENTINA, 2007, p.35-36) 52.
A cartografia do narcotráfico é ainda provisória e passa por constante mobilidade, sendo pesquisada especialmente pelo Grupo RETIS, do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ, sob a coordenação de Lia Machado. Esta é a nossa principal referência para analisar o contexto em que se insere a cidade de Londrina no comércio internacional de drogas e armas e como mercado consumidor de drogas.