2 VIOLÊNCIA, CRIMINALIDADE E HOMICÍDIOS EM LONDRINA
4.2 Homicídios de Jovens de Londrina: mortes “matadas” por armas de fogo
4.2.1 Os significados das armas de fogo nos homicídios de jovens
A violência por armas de fogo resulta da complexa e dinâmica interação entre múltiplos determinantes (PERES, 2004). Entre os principais determinantes apontados na literatura consultada para o aumento do emprego das armas de fogo nos homicídios estão a sua disponibilidade e o seu significado nos tempos atuais, principalmente para os jovens.
De acordo com as indicações que vínhamos apontando em nossas análises até aqui, os grupos jovens vêm chamando a atenção sobre a sua participação como violentado, mas também como violentador nas mortes por homicídio nos últimos anos. Diante dessas indicações não podemos abandonar a hipótese que se sustenta na existência de uma criminalidade juvenil organizada, de acordo com as considerações de Adorno, Bordini e Lima
Gráfico 4 - Arma de fogo como meio/instrumento nos homicídios de jovens de Londrina, 2000-2003
0 20 40 60 80 100 120 2000 2001 2002 2003 Armas de Fogo Total
(1999), já que o crime não encontra mais fronteiras nacionais e está disseminado pelo País e nos territórios de exclusão de Londrina.
Desse modo, encontramos dificuldade em distinguir violentados e violentadores ou assassinos e assassinados na análise que fazemos aqui dos dados estatísticos, das opiniões e das pesquisas sobre os jovens que morrem no homicídio por arma de fogo. “É como se fosse
um jogo: matou aqui, matou lá; matou aqui, matou lá; matou aqui, matou lá”, como diz a
promotora da 1ª Vara Criminal (MPVC, 02/07/2007).
Outra hipótese apresentada por Burke (2002) é que a violência pode ter se profissionalizado em longo prazo. “A violência urbana tradicional, numa época em que a maioria dos homens adultos portava armas, era principalmente obra de amadores, enquanto hoje é principalmente obra de profissionais” (p.50). Considerando esta idéia, talvez possamos dizer também que no contexto da narcoeconomia a “profissionalização” do porte de armas é, paradoxalmente, o principal instrumento de defesa e de sobrevivência, como numa guerra.
Jovens socializados no crime, como aqueles que são aliciados para o tráfico de drogas ainda muito cedo, pertencem aos grupos mais vulneráveis aos homicídios. É de se esperar que nos grupos sociais excluídos seja recrutada a maioria dos jovens que se envolvem com a delinqüência, acompanhando o perfil da criminalidade adulta, como analisa Adorno (2000). Concordamos com ele quando diz que a pobreza não gera necessariamente jovens delinqüentes. Se assim fosse, todos os jovens residentes em favelas ou em situações similares se enveredariam para o mundo do crime e não haveria jovens de classe média e alta envolvidos com a delinqüência, como se vem observando em Londrina e no País. No entanto, os grupos jovens provenientes dos territórios de exclusão têm sido os expiatórios de uma rede constituída pela narcoeconomia; um negócio que inclui tráfico de drogas, vendas de armas, “lavagem de dinheiro”, corrupção e métodos violentos.
“Os jovens são os que mais morrem em Londrina por homicídio praticado por arma de fogo, porque são os que mais estão em situação de risco pessoal e social nos bairros periféricos, principalmente pela falta de emprego e escolaridade, de maneira que praticamente são ‘arrastados’ para a marginalidade por traficantes e outros criminosos adultos, que entregam nas mãos dos jovens armas de fogo e os incentivam a praticar crimes de toda natureza, inclusive matar aqueles que estejam atrapalhando o modus operandi dos traficantes ou dos próprios adolescentes” (JVIJ, 02/07/2007).
No comércio de drogas, diante das possibilidades de perda de renda e da própria vida, os grupos envolvidos “se protegem com armas. E mesmo o viciado que pega ou o que
O número de adolescentes apreendidos com arma de fogo em Londrina, como citamos no capítulo anterior (Tabela 19), aumentou 336,4% entre 2001-2005. Com a aprovação do Estatuto do Desarmamento em 2003, o porte de armas no Brasil foi proibido e tornou-se um crime inafiançável, assim como endureceu a punição para o porte ilegal e a idade mínima para aquisição, que é de 25 anos de idade.
Desse modo, qualquer jovem que portar uma arma irá incorrer num ato infracional ou num crime. É preciso relembrar que as apreensões de adolescentes por porte de drogas e arma de fogo podem ocultar a participação de adultos, ainda que não se consiga provar, segundo os entrevistados. “Eles não falavam. Geralmente eles não revelam, pelo direito de
não estar falando, até porque já deve ter alguma orientação dos grandes traficantes para que não falem” (CENSE II, 11/07/2007).
“Um mais velho ‘puxa’ 2, 3 menores e os menores cometem os delitos. Eles cometem os porque o menor fica quase que impune por causa do ECA. Então o maior leva o menor. O maior número de roubos usando o menor é por isso [...]. Então, ocorrem vários homicídios de menores de idade[...], que às vezes se envolve até com uma ocorrência, que a própria Polícia acaba matando. Em outras situações entre eles também, começa daí a briga por poder na Vila. Inclusive, aqui em Londrina, nós temos o tráfico de drogas, pontos de vendas de drogas, e esses menores acabam sendo influenciados pelos maiores, entram no meio e são as maiores vítimas; não estão preparados ainda para estar no mundo do crime” (PM, 26/06/2007).
É comum que essa arma de fogo seja emprestada e até alugada para o adolescente, pelo traficante, e o preço a pagar por ela é muito alto se não for devolvida. “A arma é
fornecida por terceiros ou mesmo pelo traficante. A arma não é do adolescente ou do autor no mais das vezes. Inclusive nós temos notícia de grupos ou de quadrilhas que se organizam para alugar a arma para cometer esse tipo de crime” (PIC, 27/06/2007).
A posse da arma leva a novos atos infracionais. “Então, furto, roubo e os demais
crimes, a tendência é por causa da droga” (JVC, 23/06/2007), e verifica-se o“aumento de processos por atos infracionais praticados por adolescentes, sendo que a maioria deles é por roubo à mão armada” (JVIJ, 02/07/2007).
Os atos infracionais se agravaram, se consideramos as estatísticas e a análise do ex-diretor do CENSE I e atual diretor do CENSE II, pois no período de implantação do CENSE I, em 2000, eles eram mais leves, prevalecendo os furtos. “Hoje o que tem lá é
assalto [...] e cerca de 80% desses assaltos são cometidos com grave ameaça, inclusive, eles são fruto do tráfico, no sentido do uso da substância [...]. Mas, são bem mais graves agora, inclusive seqüestro, homicídio” (CENSE II, 11/07/2007). Cria-se, então, uma espécie de
círculo vicioso que provoca uma cadeia de efeitos que se alimentam mutuamente do tráfico de drogas.
Na narcoeconomia, aquele que fica na “boca de fumo” ou no “ponto” vendendo a droga é quem acaba sendo apreendido, preso ou assassinado. E, na opinião do juiz Criminal,
“não adianta prender o ‘nóia’ (esse que fica na ‘boca’ vendendo) e não prender o traficante. Porque ele vai arrumar outro, ele vai ter que enviar outro soldado do tráfico, porque todo mundo quer entrar nisso” (JVC, 23/06/2007).
O jovem é atraído para o tráfico de drogas ainda na infância, e, como usuário, é capaz de se submeter às regras impostas pelo traficante para manter a dependência, a sobrevivência e para consumir outros bens. Desse modo, além da sujeição à vontade de outrem, a uma hierarquia e a alguma espécie de poder, submete-se também à vontade incontrolável de consumir a droga com freqüência, principalmente se esta for o crack. “E os
traficantes, muito atentos a isso acabam conquistando essa legião de jovens, pelo menos boa parte dos jovens, para que eles possam também traficar” (PDGC, 27/06/2007). E da mesma
forma que o dinheiro “entra fácil”, ele também “sai fácil”. E aquele que entra para o tráfico de drogas tem dificuldade em sair se tiver alguma dívida e/ou comprometimento com a droga.
“A maioria é mais por causa do uso. Acaba tendo que vender porque até se prende. Então ele pega hoje uma pedra de crack, a pessoa fala: ‘vende isso aqui para mim e você não precisa pagar’ [...]. Mantendo a dívida, o mantém preso, não dá para sair [...]. A grande maioria deles, eu acho que quase 90%, é usuária de drogas. E quando a gente pergunta para eles: ‘Você roubava? Você construiu alguma coisa com esse dinheiro que você roubou? O que você fez?’ ‘Ah, eu fumava tudo’” (CENSE II, 11/07/2007).
“Eles são usuários, são ‘mulas’, entram no trafico de entorpecentes por conta do uso. Não tem como o traficante seduzir o adolescente só pela ‘grana’. Porque ele pensa que sai do tráfico, porque não sai. Agora, o tráfico de entorpecentes, via de regra, sabe qual a idade que eles estão arrebanhando hoje? Eu tenho dois moleques aqui com 10 anos de idade que eu não sei o que eu faço; não para com a família, vive no tráfico de entorpecentes, entra no Abrigo, sai do Abrigo” (PVIJ, 04/07/2007).
Nessa onda, fragmentam-se os laços familiares e vicinais e outras relações interpessoais são estabelecidas, substituindo as redes tradicionais. Esses jovens envolvidos com a delinqüência, entre eles aqueles que foram assassinados, têm ou tiveram uma vida miserável e problemas de violência quando crianças, em casa ou na rua. Eles crescem com a violência em casa, de pai e mãe, vendo o pai matar a mãe, o pai ser preso, o irmão ser assassinado, perdendo os já então frágeis vínculos familiares e passando a viver na rua e da rua. Com essa trajetória, o jovem tem muita dificuldade em mudar de vida, ou não tem outra
alternativa que não seja viver na rua. Assim, acabam sendo violentadores de outros e sofrendo a violência homicida.
De acordo com essas análises e a idéia de Passetti (1999), essas crianças violentadas reproduzirão no futuro esta situação dando continuidade à “sociabilidade autoritária”. Desse modo, “são como crianças violentadas, e não como vitimizadas, que elas deverão ser entendidas na reprodução da sociabilidade autoritária das famílias, onde algumas são socialmente aceitas e outras estão à mercê de intervenções estatais” (p.23).
Os entrevistados analisam que os jovens banalizam a violência homicida e que isso se torna uma “condição que para ele é uma coisa natural cometer o ato. Porque ele viveu
muito nessa vida e para ele isso não é uma coisa muito grande. Eu acho que para muitos deles é uma questão até de sobrevivência” (CENSE II, 11/07/2007). O mesmo entrevistado e
a promotora da Infância e Juventude descrevem trajetórias de vida de adolescentes apreendidos, que desde a mais tenra idade já experimentam situações de abandono familiar, de fome, uso de droga e de entrada para a delinqüência. Analisam que, além de ser uma forma de sobrevivência, é também uma forma de fuga da realidade.
“É uma situação que eu vejo como fuga, de sobrevivência mesmo. E para ele é natural pegar um revólver na mão, assaltar alguém, roubar, usar droga. Para ele é o mundo dele. Então, ele já cresceu ali na rua [...] e para ele, não é nem banalizar, é natural, como para a gente é tomar banho, trocar de roupa; é a mesma coisa para ele. Faz parte da vida dele, já é cultura dele. Quando a gente vê isso, até fala: ‘nossa, como você é tão cruel a ponto de agredir!’, mas é uma violência que ele sofreu e que para ele é natural. Ele viu isso dentro de casa. Se ele viu o pai fazer com a mãe, ele fazer com uma pessoa estranha não tem muita diferença, não é tão grave” (CENSE II, 11/07/2007).
O contato e a disponibilidade de armas faz com que os jovens se aproximem delas desde cedo e isso banaliza o fato de portá-las (RIVERO, 2005). Lessing (2005) verifica que para muitos homens jovens residentes em territórios precários, como em favelas, “a posse de arma é associada fortemente com uma escolha de vida importante e potencialmente irreversível; obter uma arma e virar traficante são, no final, uma única decisão” (p.283).
Na mesma direção, alguns pesquisadores consideram que para o jovem da favela a preferência por arma de fogo é por poder, status, riqueza material e a sensação de identidade com o grupo e a comunidade, além dos objetivos de acumular forças (medida de força), intimidar (impor medo) e dominar (exercer o controle).
O acesso à arma, a entrada para a criminalidade aparece como um caminho de curto prazo para a rápida ascensão, obtenção de bens de consumo, prestígio, poder, dinheiro, mulheres, respeito. Relacionada à imagem de guerreiro, à virilidade, à coragem, a arma de fogo é um elemento
fundamental na construção de masculinidade tanto no caso dos policiais como dos jovens da favela (RIVERO, 2005, p.233).
A promotora da Infância e Juventude quando questionada sobre a percepção sobre o adolescente que porta a arma de fogo, diz: “É Deus! É um empoderamento que você dá
para o adolescente quando você põe uma arma na mão dele. Ele é Deus!” (PVIJ, 04/07/2007). Ainda sobre a percepção desse poder e status para o adolescente em possuir uma arma, a mesma entrevistada diz que eles manifestam um certo orgulho.
“Chega a manifestar orgulho de portar uma arma. Está certo também que muitas dessas situações não chegam até mim, porque quando o adolescente chega ele não vai contar que ele tem orgulho. Essa é uma percepção minha, de ver o olho dele brilhar quando ele fala da arma” (PVIJ, 04/07/2007).
Outros entrevistados também chegaram a mencionar que a arma de fogo exerce uma atração muito grande sobre os jovens. Para o diretor do CENSE II (11/07/2007),
“[a arma] tem um grande poder sobre ele [jovem] porque a questão de estar armado tem poder. Então, isso o atrai bastante [...]. Alguns adolescentes pensam na questão do poder, porque ele quer ser o líder, vai usar uma arma [...]. E é claro que todos que começam no mundo do tráfico têm a intenção de um dia ser um grande líder do ‘ponto’”.
A manifestação de poder e de mando através da imposição do medo parece ser o objetivo que leva o jovem a portar uma arma e a valorizá-la. Essa simbologia interfere, inclusive, nos preços das armas de fogo no mercado ilegal, segundo Rivero (2005).
Esses conflitos que levam ao confronto facilitam o acesso dos grupos traficantes ao poder local e provocam a fragmentação das organizações vicinais e familiares, “acentuando o isolamento, a atomização e o individualismo”, como avalia Zaluar (2004, p.387). E, uma vez quebrada a barreira do proibido, segundo a antropóloga, o assassinato para alguns pode ser um ato de prazer na repetição e de afirmação de poder sobre o outro, de domínio sobre a vida e a morte; momento em que “a violência torna-se então habitual e banal, algo com que as pessoas se habituam a conviver, perdendo assim a sensibilização adquirida num longo processo de socialização” (p.387).
Zaluar (2004), verifica em entrevistas com jovens a referência à “dimensão destrutiva do poder, do simbólico e da paixão presente no ato de matar: o triunfo sobre o outro, o prazer de ser o senhor da vida e da morte”. O assassino, segundo ela, “se sente todo- poderoso, igual aos deuses que têm o poder sobre a vida e a morte”. Diz também que uma coisa é certa, “a exacerbação dos localismos, seja de Estados, cidades ou bairros, e de divisões étnicas fechadas pode estar ajudando a criar condições para o retrocesso da civilidade no Brasil” (p.385).
O valor simbólico e econômico que as armas de fogo adquirem quando negociadas no mercado ilegal criminal, segundo pesquisa de Rivero (2005), são diferenciados e com preços acima das armas vendidas no mercado legal. Isso, tendo em vista que as armas de fogo “se tornam uma mercadoria política quando desviadas e negociadas no crime, pois o seu preço já não só depende das leis, mas também de avaliações estratégicas de poder e do recurso potencial à violência” que, em princípio, é monopólio do Estado (p.202).
Ocorre que “o ‘uso da força pela polícia’ é diretamente proporcional ao ‘uso da força contra a polícia’”. As armas, assim, são usadas principalmente nas favelas por facções do narcotráfico, “como forma de garantir e afirmar o seu poder territorial e permitir o livre comércio de drogas, enfrentando para isto a polícia e também facções rivais”, e leva as comunidades a um estado permanente de conflito armado e a taxas de morte por armas de fogo comparáveis aos países em guerra (RIVERO, 2005, p.233).
A presença do tráfico de drogas em Londrina é, ao que tudo indica, a fonte de suprimento de armas ilegais usadas em atividades criminais, sejam elas advindas do contrabando, sejam elas originadas dos furtos e roubos, sejam legais (que geralmente tem sua numeração raspada) ou ilegais.
Quando buscamos conhecer melhor como essas armas chegam até os jovens envolvidos em homicídios em Londrina, já que as estatísticas nos deram apenas uma breve noção disso, ouvimos opiniões muito próximas a esta, do juiz Criminal: “Através de
traficantes. Eles fornecem. Os ‘caras’ vão buscar a droga e vão buscar as armas, contrabandeadas na maioria. Muitos, às vezes, roubam das casas onde eles assaltam, pegam de outras pessoas” ( JVC, 23/06/2007).
A busca por armas de fogo converge para a entrada no tráfico de drogas. Armas estas que servem, principalmente à proteção dos territórios do tráfico, estejam eles localizados nas favelas ou disseminados pela cidade, em pontos estratégicos e centrais, para que os usuários finais dessas drogas possam ser abastecidos e usufruam os efeitos de “excitação”, de “poder”, de “prazer” e do incontrolável desejo de consumir novamente a droga.
Usuários estes que têm de médio a elevado poder aquisitivo e que corroboram
com a cadeia de violência homicida. Isto porque o jovem que vende necessita manter a própria dependência e almeja obter rendimentos. “Eu já ouvi adolescente falar que chega a
ganhar de R$ 150,00 a R$ 300,00 na noite. Porque têm muitos pontos da cidade em que esse menino da favela vai acabar vendendo para a pessoa de classe média alta a droga [...]. Crack vende, só que mais a cocaína e a maconha” (CENSE II, 11/07/2007).
Essas atitudes dos jovens, segundo Enzensberger (1995), antecipam os conflitos e isso se deve não apenas à concentração de energia física e emocional, mas também à perplexidade diante dos valores determinados por outras gerações e até aos problemas sem solução de uma riqueza infeliz. Além disso, a necessidade de reconhecimento, de luta contra a humilhação e não só contra a privação e a fome é um fato antropológico fundamental. A igualdade na lei possibilitou em alguns países as garantias mínimas de existência aos cidadãos. Ao mesmo tempo as frustrações e humilhações produzidas em todas as sociedades fazem crescer as expectativas dos cidadãos com o aumento da igualdade formal e têm motivado ações que escapam à regra.
A humilhação pública por quaisquer ínfimos motivos, a defesa de enfrentar a morte para defender sua família, a sua propriedade, a sua honra (distante da concepção de honra das sociedades tradicionais) e a sua reputação, e até a determinação de matar para “não levar desaforo para casa”, segundo Zaluar (2004) e Porto (2001), também parecem ser motivos para os desfechos fatais.
Sendo o homicídio irreversível, retomando a análise de Carrara (1991), isso faz da sua prática uma espécie de “ato absoluto” que transforma o transgressor em “sujeito absoluto” e que, por sua vez produz alterações simbólicas e materiais, definitivas e irrevogáveis no seu grupo social e na humanidade.
Os grupos jovens buscam a ascensão entre os pares e na comunidade de forma rápida por meio dos atrativos oferecidos pela sociedade de consumo e pelas possibilidades de afirmação de uma identidade masculina associada à honra e à virilidade, que são "modos concretos de inserção e de localização sociais em uma era caracterizada pelo cercamento e cerceamento das opções de escolha pessoal” (ZALUAR, 1994, p.102). Isto se dá, segundo a autora, pela explosão de individualismo que, para os jovens, se manifesta na valorização de bens como a arma, a droga, o dinheiro, as roupas bonitas e na disposição para matar.
Essa percepção sobre o jovem e a sua necessidade de consumo e de afirmação de uma identidade masculina é verificada na entrevista com o juiz Criminal (JVC, 23/06/2007), que afirma “que o consumismo leva o jovem a isso. Ele liga uma televisão e vê um menino
com um tênis de R$ 500,00 no pé e não tem nenhum calçado, ele não entende essa desigualdade”. Sobre essas novas necessidades de consumo, a promotora da Infância e
Juventude e de outros entrevistados fazem as seguintes ponderações.
“[...] um tênis Nike, muito bem vestido [...]. Então o consumismo, o iPOD, o MP3 [...] faz com que eles, para poderem se integrar nos grupos, tenham as coisas que a televisão está mostrando, que a mídia está mostrando, que os
grupos estão mostrando, que para serem incluídos, precisam ter esse tipo de expediente[...]” (PVIJ, 04/11/2007).
“A mão-de-obra hoje é muito barata; ela é subqualificada, e isso não cria estímulos para aqueles que precisam trabalhar e acabam entrando no tráfico. Isso porque ele tem que comprar ou tem que furtar um tênis da Nike, de último tipo, tem que ter um celular muito bom [...], os valores já são muito voltados para o consumo e ele acaba apelando para ter o mínimo. Hoje na periferia o jovem que não tem um tênis bem moderno é taxado como um fracassado: ‘não consegue nem um tênis novo!’, por bem ou por mal. Então, esse contexto acaba explicando porque tantos jovens morrem nessa faixa etária” (PDGC, 27/06/2007).
“Muitos deles [jovens], nesse mundo consumista em que vivemos, acabam