É como se fosse o Instagram TV (IGTV), mas com a letra “O”: OGTv.
OGTv significa:
• O: Operações de crédito;
• G: Garantia;
• Tv: Transferências voluntárias.
Estas são as sanções às quais estará sujeito o Poder ou órgão que não respeite o prazo para recondução das despesas de pessoal (regras parecidas também se aplicam para a recondução da dívida consolidada – art.
31, §§ 1º e 2º – e para a asseguração da transparência pública – art. 51, § 2º).
Veja que aqui não estamos mais falando de medidas preventivas. O Poder ou órgão já teve a sua chance lá no limite prudencial (95%)! Agora chegou a hora de restrições (medidas corretivas). Agora o bicho vai pegar!
Só que a flexibilização aqui também é grande. O bicho é mesmo um cachorrinho fofinho! Olha só:
1. O Poder ou órgão ainda pode receber transferências voluntárias relativas a ações de educação, saúde e assistência social. Isso está lá no artigo 25, § 3º:
Art. 25, § 3º Para fins da aplicação das sanções de suspensão de transferências voluntárias constantes desta Lei Complementar, excetuam-se aquelas relativas a ações de educação, saúde e assistência social.
A LRF basicamente está dizendo o seguinte: “Poder/órgão, você não pode receber transferências voluntárias! Mas se forem relativas a ações de educação, saúde e assistência social, você pode continuar recebendo”.
Ora! Esses são justamente os maiores gastos de um Poder ou de um órgão! Para que mais eles querem receber mais transferências voluntárias? Essa sanção aí não faz nem cosquinhas!
2. E o Poder ou órgão ainda pode contratar operações de crédito se for para pagar a dívida mobiliárias ou para reduzir as despesas com pessoal.
Preste atenção!
Mesmo estando acima do limite de despesas com pessoal, o Poder ou órgão pode contratar operações de crédito que visem à redução das despesas com pessoal!
Para finalizar, chamo sua atenção para as alterações feitas pela LC 178/21.
Uma das mudanças foi no art. 23, § 3º, inciso III. A redação anterior fazia ressalva à contratação de operações de crédito destinadas ao refinanciamento da dívida mobiliária. A redação atual ressalva a contratação de operações de crédito destinadas ao pagamento da dívida mobiliária. Na prática, não muda muita coisa, mas preste atenção para não cair em pegadinhas.
Outra mudança, e essa sim é muito relevante, foi no caput do § 3º.
A redação anterior dizia que, se não alcançada a redução no prazo estabelecido, o ente federativo ficaria sujeito às restrições listadas nos incisos. A nova e atual redação, em homenagem ao princípio da separação dos poderes, estabelece que as restrições se aplicam somente ao Poder ou órgão que descumpriu o limite.
Entendeu a diferença?
Antigamente, a extrapolação dos limites em apenas um dos órgãos ou Poderes (Legislativo, Judiciário ou Executivo) comprometia toda a esfera correspondente (federal, estadual ou municipal). O ente (e não somente aquele órgão ou Poder que extrapolou o limite) ficava sujeito às restrições. A regra era: “a laranja podre contamina todo o saco”.
Hoje, a regra é: “cada um por si! Quem extrapolou os limites que sofra as consequências!”
Preste atenção!
Não alcançada a redução do limite de despesas com pessoal no prazo estabelecido e enquanto
perdurar o excesso, o Poder ou órgão fica sujeito às restrições do artigo 23, § 3º (OGTv)
Por outro lado, é interessante destacar que a inobservância da regra de transição trazida pela LC 178/21, que concede um prazo de 10 anos para que o Poder ou órgão que estiver acima de seu limite ao final do exercício de 2021 elimine o excesso e se enquadre no seu respectivo limite, sujeita todo o ente às restrições previstas no § 3º do art. 23. Acompanhe:
Art. 15. O Poder ou órgão cuja despesa total com pessoal ao término do exercício financeiro da publicação desta Lei Complementar estiver acima de seu respectivo limite estabelecido no art. 20 da Lei Complementar nº 101, de 4 de maio de 2000, deverá eliminar o excesso à razão de, pelo menos, 10% (dez por cento) a cada exercício a partir de 2023, por meio da adoção, entre outras, das medidas previstas nos arts. 22 e 23 daquela Lei Complementar, de forma a se enquadrar no respectivo limite até o término do exercício de 2032.
§ 1º A inobservância do disposto no caput no prazo fixado sujeita o ente às restrições previstas no § 3º do art. 23 da Lei Complementar nº 101, de 4 de maio de 2000.
Por último, é oportuno ressaltar o contraste entre o âmbito de aplicação dessas restrições do § 3º do artigo 23 e de demais restrições similares constantes na LRF.
Mais uma vez: as restrições previstas no § 3º do art. 23 se aplicam somente ao Poder ou órgão que descumpriu o limite de despesa com pessoal. Aqui é “cada um por si!”
Porém, nos seguintes casos, o âmbito de aplicação é ampliado, sendo as vedações aplicadas a todo o ente federativo:
• quando não houver instituição, previsão e efetiva arrecadação de todos os impostos (art. 11, parágrafo único);
• quando a dívida consolidada de um ente ultrapassar o respectivo limite (art. 31, §§ 1º e 2º);
• enquanto não for efetuado o cancelamento ou a amortização de operação de crédito entre instituição financeiro e ente realizada com infração do disposto na LRF ou enquanto não constituída reserva específica para a devolução desses recursos (art. 33, § 3º);
• quando não houver disponibilização informações e dados contábeis, orçamentários e fiscais, e quando os entes não encaminharem informações necessárias para a constituição do registro eletrônico centralizado e atualizado das dívidas públicas interna e externa (art. 48, §§ 2º, 3º e 4º);
• quando houver descumprimento dos prazos de publicação do Relatório Resumido da Execução Orçamentária – RREO e do Relatório de Gestão Fiscal – RGF (art. 52, § 2º e art. 55, § 3º).
Em todas essas situações listadas, as sanções de impedimento de receber transferências voluntárias e de contratar operações de crédito se aplicam a todo o ente federativo.
Detalhe é que, a partir de 2022, entra em vigor a nova redação do artigo 51, § 2º, que assim como o artigo 23, § 3º, restringe o âmbito de aplicação das restrições a somente o Poder ou órgão que não consolidou (no caso do Poder Executivo da União) ou não encaminhou suas contas no prazo estabelecido no artigo 51, caput e § 1º.
Eis a nova redação:
Art. 51, § 2º O descumprimento dos prazos previstos neste artigo impedirá, até que a situação seja regularizada, que o Poder ou órgão referido no art. 20 receba transferências voluntárias e contrate operações de crédito, exceto as destinadas ao pagamento da dívida mobiliária.
O artigo 51 trata da consolidação, nacional e por esfera, das contas dos entes da Federação relativas ao exercício anterior, e a sua divulgação, que será promovida pelo Poder Executivo da União.
Art. 51. O Poder Executivo da União promoverá, até o dia trinta de junho, a consolidação, nacional e por esfera de governo, das contas dos entes da Federação relativas ao exercício anterior, e a sua divulgação, inclusive por meio eletrônico de acesso público.
Já o § 1º do artigo 51 não menciona somente um Poder ou órgão, mas todo o ente: “Estados” e
“Municípios”. Observe:
§ 1º Os Estados e os Municípios encaminharão suas contas ao Poder Executivo da União até 30 de abril.
Considerando que, na prática, os Poderes Legislativos e Judiciários não recebem transferências voluntárias e nem contrataram operações de crédito, é possível concluir que as restrições mencionadas no artigo 51, § 2º, acabam atingindo apenas os Poderes Executivos estaduais e municipais.