OS RESULTADOS DA ANÁLISE QUANTITATIVA
F: Olha, ultimamente eu tenho ido muito a bingo (59) Rio 00 Ago
São boas as medidas que ele tem tomado
Levando em conta todos esses passos na análise do uso de TP pelos falantes das amostras cariocas, parece razoável concluir que os fatores de natureza lingüísticos mais recorrentes são o tipo semântico do verbo principal (accomplishments e achievements) e as sentenças negativas. Evidentemente, afirmar isso não significa dizer que não se emprega a forma EG, no conjunto de dados cariocas, quando o verbo principal é do tipo
accomplishment, ou quando a sentença é negativa - EG é a forma mais freqüente, e
certamente há exemplos de seu uso na presença desses fatores. Com tal conclusão atestamos que, num universo de dados em que EG representa aproximadamente 95% dos casos, o emprego de TP está atrelado àqueles fatores.
Por fim, não deixa de ser valioso, para a confirmação da hipótese da mudança em curso vista em tempo aparente, o fato de que entre aqueles que nunca empregam TP a maioria é representada por falantes mais jovens, a despeito do aumento de seu nível de escolaridade. Esse é um indício forte de que a regra variável aponta cada vez mais na direção do emprego de EG.
CONCLUSÃO
O fio condutor de todo este trabalho é a variabilidade nos usos de estar +
gerúndio e ter + particípio na expressão dos aspectos durativo e iterativo. Conforme
vimos reiterando desde a Introdução, este caso de variação lingüística constitui ao mesmo tempo o ponto de partida da pesquisa e uma instância de seu ponto de chegada: todos os dados que apresentamos - nunca deixando de levar em conta a definição do contexto variável - constituem evidências de que as duas formas perifrásticas são funcionalmente equivalentes, quando o aspecto verbal a ser composto na sentença é caracterizado pela extensão de um evento ou de um estado de coisas do passado até o presente.
No capítulo 3, as evidências exploradas foram de natureza diacrônica - se, por um lado, aquelas formas perifrásticas são bastante distintas na sua gênese, por outro, elas passaram a ser empregadas de modo cada vez mais semelhante com o passar do tempo. Aquilo que denominamos por “semelhança” nos usos de estar + gerúndio e ter +
particípio - característica notável sobretudo nos textos da passagem do século XVIII para
o XIX - cede lugar ao termo “equivalência funcional”, conforme deve ter deixado claro a análise qualitativa dos dados sincrônicos apresentada no capítulo 4.
Na seqüência da apresentação da análise, o capítulo 5 não apenas corrobora a tese da variação, mas também demonstra que estar + gerúndio vem se tornando a forma preferida nos contextos em que a alternância com ter + particípio é possível. Focalizando esta última - do mesmo modo como fizemos na análise quantitativa, apresentando os pesos relativos com que os fatores dos diferentes grupos atuam na sua seleção - dizemos que o emprego de ter + particípio vem se restringindo, social e lingüisticamente.
Em termos sociais, constatamos que a faixa etária do informante é a variável mais relevante. Na variedade paulistana, a freqüência de emprego de ter + particípio cai significativamente entre os mais jovens, ou seja, seu uso está se tornando progressivamente mais restrito de acordo com a idade do falante: é menos provável detectar a forma na fala dos mais jovens, ao passo que é mais provável detectá-la na dos
mais idosos. De acordo com o que vimos anteriormente, este fato configura mudança em progresso, segundo o construto do tempo aparente. Na variedade carioca, a pouca variação observada (o emprego de estar + gerúndio se aproxima do categórico entre os falantes que foram gravados) não impediu verificar a correlação entre a idade do informante e as variantes: as raras ocorrências de ter + particípio apareceram, em sua grande maioria, justamente na fala dos mais idosos.
Quanto aos grupos de fatores lingüísticos, nossa análise demonstrou que vários são explanatórios. Em primeiro lugar, confirmamos quantitativamente a asserção de outros autores: ter + particípio é mais freqüente na composição do iterativo. Entretanto, vamos além dessa confirmação, ao cruzar as variáveis “aspecto” (iterativo/durativo) e “faixa etária”. Com tal cruzamento, descobrimos que mesmo naqueles casos em que ter +
particípio tende a ser preferido - composição do aspecto iterativo -, estar + gerúndio é a
forma mais freqüente entre os mais jovens. Em outras palavras, a correlação “aspecto iterativo / ter + particípio” vem deixando de se manifestar, com o progressivo aumento da freqüência de uso da outra forma na composição desse aspecto.
Assim sendo, nossa conclusão pode retomar mais enfaticamente os casos de iterativo, já que este é o aspecto cuja expressão conta com uma freqüência mais significativa de ter + particípio. Ora, se o uso dessa forma é mais provável quando se trata daquele aspecto, nossa análise demonstrou que outros fatores lingüísticos “inibem” seu emprego: adjuntos adverbiais quantificadores e sujeitos verbais cujo referente é um conjunto plural de indivíduos mostraram favorecimento ao uso de estar + gerúndio. Em outras palavras, se a expressão do iterativo aponta, em geral, para a seleção de ter +
particípio, a presença de quantificadores na sentença abre caminho para estar + gerúndio, funcionando conseqüentemente como restrições lingüísticas ao emprego da
outra forma. Mais uma vez, também quando cruzamos essas variáveis com a faixa etária, observamos que essas restrições aumentam entre os mais jovens: ter + particípio é ainda menos freqüente na sua fala, na presença daqueles fatores.
Especificamente no que diz respeito à correlação entre a presença de quantificadores na sentença e o aumento no uso de estar + gerúndio, na composição do aspecto iterativo, permanece o questionamento diante dos argumentos internos dos verbos transitivos. Como vimos no capítulo 5, tanto na análise da variável “número do complemento verbal”, quanto no seu cruzamento com a “faixa etária”, não observamos correlação entre estar + gerúndio e complementos plurais, do mesmo modo como a constatamos no caso dos sujeitos plurais e adjuntos quantificadores, conforme acabamos de retomar. Isso não configura um “problema” para a nossa análise em si, uma vez que este fato não contraria nossa hipótese de que estar + gerúndio vem se tornando mais freqüente que ter + particípio, mas traz mais dados para a discussão teórica acerca da quantificação aspectual em português.
Finalmente, guardadas as ressalvas que fizemos acerca da comparação entre a amostra paulistana que utilizamos e as duas amostras cariocas, podemos dizer que a análise dos casos de ter + particípio em Rio 80 e Rio 00 mostra que o processo de restrição de seu uso parece mesmo estar avançando. Diante da altíssima freqüência de
estar + gerúndio na fala dos informantes cariocas das duas amostras, é possível que
estejamos nos aproximando de um emprego estilístico de ter + particípio. Tal emprego, contudo, estaria de acordo com a variabilidade que elucidamos, pois, na fala dos poucos falantes em que ela se configura, também são detectáveis as correlações lingüísticas que depreendemos na análise de tendências.