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ONU e a Comissão dos Direitos Humanos

No documento http://www.livrosgratis.com.br (páginas 54-60)

CAPÍTULO 1- HISTÓRIA DO APORTE INTERCULTURAL NA CONSTRUÇÃO

1.3. CONTEMPORANEIDADE NO “BREVE SÉCULO XX”

1.3.2 ONU e a Comissão dos Direitos Humanos

A Organização das Nações Unidas é uma entidade Intergovernamental, integrada atualmente por 192 Estados membros, com a finalidade geral de manter a paz mundial, proteger os Direitos Humanos, promover o desenvolvimento econômico e social das nações, a autonomia dos povos dependentes e reforçar os laços entre todos os estados soberanos. Tem origem na Sociedade das Nações221, fundada em 1919, com o mesmo objetivo222.

Diante das invasões de 1939, quando o Japão invadiu a Manchúria, a Itália invadiu a Etiópia e a Alemanha, tendo invadido a Checoslováquia, decidiu anexar a Áustria 223, a Liga das Nações não conseguiu evitar a Segunda Guerra Mundial. Muito embora tenha alcançado

219 Music in the Holocaust: Confronting Life in the Nazi Ghettos and Camps. Crítica ao livro em tradução livre.

220 MIRANDA, Celso. Campos de Concentração, a Estratégia de Extermínio de Hitler. In: Revista II Guerra Mundial. São Paulo: Editora Escala, 2007: “Hóspedes Indesejáveis”, p.6-7.

221ARAÚJO, Marcelo. Direitos Internacionais e Direitos Humanos. Um dos objetivos básicos dos representantes do

“internacionalismo liberal” era a tentativa de aplicação de princípios políticos liberais no âmbito da política internacional. O que caracterizava então como “liberal” a política deste período era, em primeiro lugar, a idéia segundo a qual o princípio da rule of law, i.e. de um “estado de direito” em que ninguém estaria acima da lei, poderia ser aplicado tanto no plano doméstico quanto no plano internacional. A Liga das Nações surgiu neste contexto justamente como uma tentativa de garantir a vigência do princípio da rule of law no âmbito da relação entre Estados. (...) Conflitos de interesses – como aqueles que levaram à eclosão da Primeira Grande Guerra – deveriam ser compreendidos agora como resultantes de uma ignorância relativa aos “verdadeiros interesses” que as pessoas teriam, se elas pensassem e agissem em termos unicamente racionais. Disponível em

<http://www.geocities.com>. Acessado em 10 out. 2008.

222 Humana Global. Associação para a Promoção dos Direitos Humanos, da Cultura e do Desenvolvimento das Nações Unidas. Disponível em <http://www.dhnet.org.br>, acessado em 09 out. 2008.

223 Humana Global. Associação para a Promoção dos Direitos Humanos, da Cultura e do Desenvolvimento das Nações Unidas. Disponível em <http://www.dhnet.org.br>, acessado em 09 out. 2008.

alguns dos objetivos de paz224 e criado a Organização Internacional do Trabalho foi aberto o espaço oportuno à idéia de uma nova organização internacional.

Em 14 de Agosto de 1941, quando os Estados Unidos ainda não se tinham envolvido no conflito, um “navio de guerra americano serviu de base para uma declaração conjunta do Primeiro-Ministro Britânico, Winston Churchill, e do Presidente Norte-Americano, Roosevelt”. Nessa oportunidade foi estabelecida uma agenda mínima para a criação de um novo organismo internacional225. No mar foram realizadas as primeiras tratativas para a criação da Organização das Nações Unidas, sendo escrita a Carta do Atlântico226.

Em 1939 a Sociedade das Nações “cessou as atividades”227 de fato, pois aí teve início a Segunda Guerra Mundial. Embora a dissolução de jure tenha ocorrido em atenção à

“Convocação de uma sessão da Assembléia, entre os dias 8 e 18 de Abril de 1946, em Genebra,” onde formalmente os bens e recursos da entidade foram transferidos para a Organização das Nações Unidas, foi o início da Segunda Guerra Mundial que atestou a ruptura de todos os pactos internacionais que deram origem à Sociedade das Nações.

Em 1º de Janeiro de 1942, “com a adesão aos princípios estatuídos na Carta do Atlântico por parte de 26 Estados (entre os quais a URSS e a China)”,228 foi assinada em Washington, a Declaração das Nações Unidas. Outros 21 Estados viriam a associar-se, até Março de 1945, como informa o documento da ONU reiteradamente citado. Em 1º de Novembro de 1943 foi assinada a Declaração de Moscou, com a presença também da China.

Pela primeira vez, um documento internacional explicitamente formulou, no art. 4.º, “a necessidade de estabelecer o mais rapidamente possível, uma Organização Internacional fundada no princípio de igual soberania de todos os Estados pacíficos, organização de que

224 Humana Global. Associação para a Promoção dos Direitos Humanos, da Cultura e do Desenvolvimento das Nações Unidas. Disponível em <http://www.dhnet.org.br>, acessado em 09 out. 2008. p.25, é registrada a contribuição da Sociedade das Nações para a “criação da União Telegráfica Internacional (em 1865) e da União Postal Universal (em 1874) Contribuiu, igualmente para a manutenção de paz nos seguintes conflitos:

a disputa de fronteiras entre a Suécia e a Finlândia; a salvaguarda territorial da então recém-criada Albânia, disputada entre a Grécia e a Jugoslávia; a retirada das forças Gregas da Bulgária, em 1925; a resolução das expansões territoriais entre a Turquia e o Iraque; ou a retirada das forças Peruanas da Colômbia através do envio de uma força de manutenção de paz”.

225 Idem, p 27.

226 A Carta do Atlântico, como ficou conhecida, fez constar seis princípios fundamentais: 1. O direito de todos os povos à segurança das suas fronteiras; 2. O direito dos povos de escolherem a forma de governo sob a qual desejam viver; 3. A igualdade de todos os Estados, vitoriosos e vencidos, de acesso às matérias-primas e de condições de comércio; 4. A promoção da colaboração entre as nações com o fim de obter para todas melhores condições de trabalho, prosperidade e segurança social; 5. A liberdade de navegação; 6. O desarmamento. cfe., p.27.

227 Ibidem.

228 Idem, p.29.

poderão ser membros todos esses Estados pacíficos, grandes e pequenos, a fim de assegurar a manutenção da paz e da segurança internacional”.

Os temas paz e segurança internacional foram objetos de outros encontros229. Finalmente, em São Francisco, com a presença das três grandes potências beligerantes e vencedoras da segunda Guerra Mundial (os EUA, o Reino Unido e a URSS) e a China, na qualidade de convocantes de outros Estados, entre os quais a presença maciça dos países latino-americanos, foi realizada “a Conferência de São Francisco, na qual nasceu a Carta das Nações Unidas, que entrou oficialmente em vigor a 24 de Outubro de 1945, o dia oficial da ONU, após ter sido ratificada por 2/3 dos 51 Estados fundadores”, atendendo o artigo 110 do mesmo documento. A exigência da aprovação dos cinco grandes países (EUA, França, URSS, Reino Unido e China) foi um mecanismo utilizado pelos signatários para evitar a negativa de ratificação posterior, como aconteceu nos EUA em relação ao Tratado de Versalhes. Em 14 de Fevereiro de 1946 foi escolhida a cidade de Nova Iorque para ser a sede da Organização das Nações Unidas.

O caminho da DUDH, chamada por Papini Constitución del Movimiento de los Derechos Humano,230, passa pelo primeiro documento internacional aprovado em São Francisco, em 26 de junho de 1945, constando seis artigos que reconhecem os direitos fundamentais da pessoa humana, com normas contrárias à discriminação e à proteção das minorias. A novidade é que a partir da ONU os indivíduos não foram mais considerados no plano internacional como pertencentes a um grupo, estado ou categoria, mas receberam o reconhecimento da individualidade231.

Desde 1942, registra o professor argentino, existiam fortes reclamações no sentido de ser enfrentado o tema dos direitos humanos, sendo recordada a mensagem do Papa Pio XII, no Natal de 1942, a favor de uma convenção referente aos direitos das pessoas. Em São Francisco os representantes dos diversos estados não chegaram a um acordo sobre o

229 A Carta do Atlântico, como ficou conhecida, fez constar seis princípios fundamentais: 1. O direito de todos os povos à segurança das suas fronteiras; 2. O direito dos povos de escolherem a forma de governo sob a qual de-sejam viver; 3. A igualdade de todos os Estados, vitoriosos e vencidos, de acesso às matérias-primas e de condições de comércio; 4. A promoção da colaboração entre as nações com o fim de obter para todas melhores condições de trabalho, prosperidade e segurança social; 5. A liberdade de navegação; 6. O desarmamento. cfe., p.28.

230 PAPINI, Roberto. La Declaración Universal de Los Derechos del Hombre. Génesis, Evolución y Problemas Actuales – 1948-2008. In: FERNÁNDEZ, Gonzalo F e GENTILE, Jorge H. Compiladores. Pluralismo y Derechos Humanos. Córdoba: Alveroni, 2006, p.50.

231 Idem, p.51.

documento e aprovaram somente os direitos destinados a manter a paz232. Roosevelt, o Presidente norte-americano em discurso no Senado dos EUA em 06 de junho de 1941, já havia propugnado por uma nova “sociedade mundial pacífica, que não poderia ser assegurada por alianças exclusivas e esferas de influência”233. A ONU surgia com poderes limitados e diferenças de enfoques entre ingleses e norte-americanos e sob a pressão de diferentes países.

“Em 16 de fevereiro de 1946 o Conselho Econômico e Social da ONU, com os poderes do artigo 68 do Estatuto, constituiu uma Comissão dos Direitos Humanos”, afirma Papini, integrada por treze estados parcialmente representativos dos diversos alinhamentos culturais presentes na Assembléia Geral. Foram indicados para essa Comissão: Austrália, Bélgica, Chile, China, Cuba, Egito, Índia, Irã, Iugoslávia, Líbano, Panamá, Estados Unidos e Uruguai. Nesse momento, a ONU era composta por 55 países, cabendo à Comissão dos Direitos Humanos a incumbência de preparar o texto de uma Declaração Internacional sobre Direitos Humanos, cientes de que deveriam, para tanto, ultrapassar as diferenças culturais, religiosas e filosóficas.

Como documentos antecedentes foram apresentados o Bill of Rigths inglês de 1689, a Declaração da Independência Norte-Americana de 1776 e a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789. “Os países latino-americanos eram particularmente sensíveis ao conteúdo de sua Carta de Direitos e Deveres do Homem, aprovada poucos meses antes, em Bogotá”234, na 9ª Conferência Pan-americana, sob evidente influência da tradição cristã e do catolicismo social.

Associadas ao trabalho da Comissão estavam algumas ONGs entre as quais American Law Institute, American Federation of Labour, American Jewish Comitee, Women’s Association, International League for Human Rigths, bem como a Confederação Internacional dos Sindicatos Cristãos, o Conselho Ecumênico das Igrejas e a associação de intelectuais católicos com o nome de Pax Romana, salientando que as últimas organizações citadas deram importante contribuição sobre o tema das liberdades religiosas.

232 PAPINI, Roberto. La Declaración Universal de Los Derechos del Hombre. Génesis, Evolución y Problemas Actuales – 1948-2008. In: FERNÁNDEZ, Gonzalo F e GENTILE, Jorge H. Compiladores. Pluralismo y Derechos Humanos. Córdoba: Alveroni, 2006, p.50.

233 Ibidem.

234 Idem, p.52.

O grupo que formava a Comissão dos Direitos Humanos era “constituído por um elenco de personalidades excepcionales” 235 pertencentes a diversas culturas, em sua maioria juristas e alguns também filósofos. Como Presidente da Comissão foi eleita Eleanor Roosevelt, que contribuiu incisivamente para o êxito do trabalho por sua gentileza. Os outros integrantes foram: Dr. P. C. Chang, filósofo e Chefe da Delegação da China na ONU, com doutorado na Universidade de Columbia, nos EUA, considerado hábil negociador e atento a incorporar os princípios da civilização asiática, sendo eleito o Vice-Presidente da Comissão dos Direitos Humanos. Charles H. Malik, filósofo libanês, grego-ortodoxo, egresso da Universidade de Harvard foi eleito o relator da Comissão. Os outros integrantes da Comissão de Direitos Humanos foram: René Cassin, judeu-liberal francês, jurista e filósofo, que veio ser depois agraciado com o Prêmio Nobel da Paz, por seu trabalho na Comissão; Senhora Hans Mehta, dirigente do Congresso Nacional da Índia, anticolonialista e defensora dos direitos das mulheres; Fernand Dehousse, socialista e célebre jurista belga; John Humprey, jurista canadense, Diretor da Divisão dos Direitos Humanos do Secretariado da ONU; Hernán Santa Cruz, chileno, social democrata, ardoroso defensor dos direitos políticos e sociais e Carlos Rômulo, jornalista filipino, vencedor do Premio Pulitzer por seus artigos sobre o fim do colonialismo236.

Internamente a Comissão conheceu as próprias diferenças, como relata Roberto Papini: de um lado os países da Europa Ocidental, excluída a Inglaterra, insistiam não só nas liberdades, mas também nas igualdades, na atenção aos deserdados em geral e aos direitos sociais; os países anglo-saxões acentuavam a importância das liberdades individuais e apresentavam desconfiança em relação à intervenção do estado; os países socialistas, que suspeitavam que a declaração estivesse sendo escrita contra eles, subordinavam o indivíduo ao estado e enfatizavam os direitos econômicos e sociais com respeito às liberdades políticas, além de insistirem sobre a autodeterminação dos povos, propensos a defender a liberdade de cada estado de aplicar os direitos reconhecidos em seus estatutos internos. Por outra parte, os países latino-americanos, cujas constituições ainda que inspiradas no modelo social europeu adotassem o sistema estatal norte-americano, insistiam na importância da Declaração de Bogotá. Por fim, os países islâmicos, que nem sempre se sentiam interpretados em uma Declaração demasiado ocidental.

235 PAPINI, Roberto. La Declaración Universal de Los Derechos del Hombre. Génesis, Evolución y Problemas Actuales – 1948-2008. In: FERNÁNDEZ, Gonzalo F e GENTILE, Jorge H. Compiladores. Pluralismo y Derechos Humanos. Córdoba: Alveroni, 2006, p.53.

236 Idem, p.54.

A Comissão se reuniu pela primeira vez em janeiro de 1947 e os primeiros tempos foram difíceis. Abstraindo-se dos aspectos políticos, os debates se referiram a temas culturais, filosóficos e jurídicos. Chang queria antepor à Declaração um preâmbulo centrado na Dignidade Humana; Malik propunha que se definisse antes de tudo o que é o homem; o representante Iugoslavo insistia sobre o princípio de que a sociedade fosse considerada anterior ao indivíduo, ao que Malik respondia que o ser humano é mais importante que qualquer grupo nacional ou cultural a que possa pertencer.

Como o documento não poderia ser escrito por toda a Comissão foi designado um comitê, integrado por quatro representantes, para apresentar uma idéia preliminar. O Comitê foi formado por Roosevelt, Chang, Malik e Humprey, cabendo a Humprey, com a ajuda do Secretariado das Nações Unidas, uma primeira redação. Após uma pesquisa minuciosa, consultando-se diversos textos de diferentes tradições e tendo em vista a multiplicidade cultural, foram considerados dois textos: Statement of Essential Human Rights, produzido em 1944 por American Law Institute e a Declaração de Bogotá, o documento mais caro aos representantes dos países latino-americanos. O rascunho de Humprey, composto por quarenta e oito artigos era uma listagem heterogênea, mas recebida pelos convencionais como “uma impressionante síntese de quase duzentos anos de esforço para articular os valores humanos fundamentais em termos de direito”237. Foi então decidido que esse esboço inicial seria revisado, sendo a tarefa confiada a René Cassin, futuro Nobel da Paz por sua notável participação nessa atividade.

O trabalho de Cassin foi determinante, pois dividiu os direitos em categorias, articulando-os numa lógica interna coesa, com recíproca dependência entre si, e privilegiando a vinculação de todos os direitos à natureza humana. Idealizou e escreveu um preâmbulo integrado em seis princípios fundamentais gerais. Sua contribuição foi de valor inestimável para evitar debates sobre a concepção de homem e de sociedade (temas sobre os quais não existia acordo) e para superar os confrontos entre os que sustentavam a primazia dos direitos políticos (como a Grã-Bretanha) e os países socialistas, que queriam uma posição particular aos direitos sociais. Cassin vinculou de forma inteligente todos os direitos à Dignidade Humana. Foi hábil ao tratar da família e da religião, pois diante de culturas e tradições tão diversas a Declaração não previa e nem condenava o Divórcio e a poligamia.

237 PAPINI, Roberto. La Declaración Universal de Los Derechos del Hombre. Génesis, Evolución y Problemas Actuales – 1948-2008. In: FERNÁNDEZ, Gonzalo F e GENTILE, Jorge H. Compiladores. Pluralismo y Derechos Humanos. Córdoba: Alveroni, 2006, p.55.

Finalmente, registra Roberto Papini, foi convidada pela UNESCO uma “Comissão para os fundamentos teoréticos dos Direitos Humanos”. Cabia à Comissão responder a um questionário sobre o conteúdo da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Os povos queriam ouvir as vozes que consideravam mais sábias naquele momento histórico e o convite foi dirigido entre outros a Tagore, Aldoux Huxley, Jacques Maritain, Ghandi, Teilhard de Chardin, Bertrand Russell, Benedetto Croce, Salvador de Madariaga, e outros. E.H.Carr foi o Presidente dessa prestigiada Comissão representativa das diferentes culturas.

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