4 A TEORIA DE REUVEN FEUERSTEIN
4.8 Operação Mental: Funções Cognitivas Operando em Cadeia
Depois de analisarmos as funções cognitivas e as operações mentais, surge o momento de aprofundarmos na problemática da estrutura das funções cognitivas e das operações mentais. Uma série de funções cognitivas, principalmente as da fase de elaboração, são também operações mentais, como por exemplo, o ato de comparar. Diante desta constatação, surge uma série de perguntas:
§ Qual a relação entre as funções cognitivas e as operações mentais? § Existe alguma diferença fundamental?
§ Afinal, as funções são também operações mentais? § As operações mentais são também funções?
§ Qual a identidade da função cognitiva em relação à operação mental e
vice-versa?
Busquemos analisar gradativamente estas questões por meio da explicação do funcionamento das operações mentais em cadeia. Comentamos que toda operação mental exige, para seu funcionamento, uma seqüência de funções cognitivas e essa seqüência têm uma função estrutural. Não há operação mental sem que "por trás", ou seja, na base haja uma cadeia complexa de funções processando, ou dando condições de operacionalidade à operação mental. Um exemplo claro está na descrição de Feuerstein et al. (1980) a respeito da operação mental de classificação:
... underlying the operation of classification are a number of functions such as systematic and precise data gathering, the ability to deal with two or more sources of information simultaneously, and the necessity to compare the objects or events to be classified. (FEUERSTEIN et al., 1980, p.71).
As operações mentais também ocorrem de forma complexa, intercambiantes e inter-relacionadas entre si. Uma operação mental não existe sozinha no processo do pensar. Um exemplo claro é o da classificação: - Para que um indivíduo venha a classificar, ele deve primeiramente identificar, analisar, comparar, ou seja, colocar em operacionalização uma série de outras operações mentais. Outro exemplo pertinente é o caso da analogia, pensamento lógico de caminho indutivo. Para formar analogias deve haver, por exemplo:
1) Análise de determinadas características dos objetos envolvidos.
2) Decodificação e codificação, no caso do uso de símbolos numéricos, gráficos, etc., para a resolução de problemas escritos ou desenhados. 3) Comparação das características dos elementos envolvidos, possibilitando
4) Discriminação e projeção de relações virtuais, a respeito dos caminhos possíveis a serem encontrados para a resolução do problema; (modelo interpretado a partir de Pellegrino, 1992).
Uma operação mental não opera sozinha e somente pode ser executada por meio do funcionamento em cadeia de outras operações mentais em conjunto. Existem determinadas operações mentais que são mais complexas que outras, no sentido de que exigem a pré-existência de operações mentais que acabam funcionando como "alicerce", base, sustentação ou pré-condição para que a operação mental mais complexa seja processada.
Feuerstein e seus colaboradores constatam uma questão relacional importante na dinâmica das operações mentais e das funções cognitivas. Segundo eles, as funções cognitivas são os elementos estruturais, aspectos fundamentais da ocorrência de uma operação mental. Entretanto, concebem conjuntamente que uma operação mental menos complexa, semelhante à função cognitiva, também tem a função de elemento básico para uma operação mental mais complexa. Neste sentido, a operação mental elementar pode possuir ou ganhar também o estatuto de função cognitiva, a depender do contexto operacional. Relembremos a respeito de nossos comentários sobre a comparação e sua função prévia de classificação. A comparação, em todos os sentidos, impulsiona e projeta a classificação, servindo de função cognitiva de base para a última.
Mais claramente, pois, Feuerstein e colaboradores nomeiam toda operação mental de função cognitiva se, e somente se, esta operação participar do processo em cadeia, vindo a ocupar um lugar de alicerce para outra operação mental. Entretanto, muito cuidado. As operações mentais complexas também podem servir de funções cognitivas para as operações mentais mais simples e isso acontece quando as operações mentais simples ganham uma condição de complexidade e alteram seu padrão.
Como o pensamento não tem fim e uma operação mental sucede sempre outra, sustentando-a, no final das contas todas as operações mentais, em algum momento do processo de pensamento ganham o estatuto de funções cognitivas. O silogismo, pensamento lógico altamente abstrato, pode sustentar uma identificação. Por si só, e em si mesma, a identificação é uma operação básica. Entretanto, quando sustentada pelo silogismo, a identificação, processo de base, passa a ser altamente abstrata, refinada, sob a configuração da lógica formal. Nesse caso, a identificação muda de qualidade, porque tem como função cognitiva a estrutura do silogismo e este fenômeno é devido a uma condição fundamental: o processo de pensamento não é linear, mas sim circular e dialético.
Concluindo, as funções cognitivas podem impulsionar ou transformar as operações mentais. No caso das operações mentais mais simples que servem de funções, elas irão impulsionar as operações mentais mais complexas. No caso das operações mentais mais complexas que servem de funções, elas irão transformar as operações mentais mais simples, o que está de acordo com o pressuposto de Luria (1990) e de Vygotsky (1991), de que as funções cognitivas mais complexas co- ordenam os processos inferiores.
De forma complementar, Feuerstein e colaboradores também constatam que, em uma tarefa específica, normalmente uma operação mental se destaca como a mais complexa. Essa deverá ser denominada a operação mental, por excelência, do processo cognitivo daquela tarefa específica e as demais operações mentais em cena são denominadas funções cognitivas.