O Acre chegou à década de 1950 existindo visivelmente dois grupos distintos. Além disso, parecidos quanto às ideologias e encabeçada por Guiomard dos Santos (PSD) e a “oposição” sob liderança de Oscar Passos (PTB). Os dois passaram a enfocar no parlamento a liderança de seus respectivos partidos desempenhando uma função política nacional. E foram responsáveis pela monopolização do poder nas indicações ao governo do território.
As escolhas ocorriam a partir das relações pessoais (o apadrinhamento político). Estas relações são conhecidas como “clientelismo”, afirmando a partir dos estudos de Edson Nunes que: “(...) o clientelismo é um processo de troca de favores que impregna as instituições formais do Estado, através de uma burocracia que opera este sistema de trocas e que suplanta o sistema partidário, colocando-o em
posição secundária” (SILVA, 2012: p.76)75
. Percebe-se que a política acreana encontrou-se submetido ao papel de um sujeito que passa “acima” de qualquer ideologia ou diretrizes políticas. É o período que o território politicamente abrangeu dois comandos (Oscar Passos e Guiomard dos Santos) provindos no campo de interesse particular tirando proveito na maioria das vezes das situações.
Do mesmo modo, se observou um combate. Uma “visão” de estarem juntos por um só objetivo: a perpetuação no poder. Nas eleições para o Congresso, via-se sempre Guiomard dos Santos (PSD) de um lado, e de outro, Oscar Passos (PTB), num duelo de um mesmo resultado: os dois eleitos para o Congresso Nacional. Apesar de que, durante as eleições trocavam acusações de cunho pesado no intuito de intimidação ao eleitorado.
Em uma das acusações fora direcionado via o “Jornal O Rebate”, para o candidato do PTB, Oscar Passos: “„o comunismo lutará e empregará todas as forças para impedir a nossa eleição. Eleitor acreano, pensa na tua família, no futuro dos teus filhos, na tranquilidade do teu lar, votando nos candidatos que acima de tudo obedecem ao lema: Deus e família”. (SILVA, 2012, p.77). O tipo de slogan constituiu uma forma de amedrontar a “população” ao risco de eleger candidatos da “oposição”, apoiando-se em discursos inflamados como ser comunista e favorável ao divórcio, etc. Depois das trocas de acusações, os vencedores eram: Guiomard Santos e Oscar Passos. Uma política pautada em “... um revezamento do poder
local onde os partidários fingiam rivalidades ideológicas aos olhos do povo acreano e nos bastidores do poder dividiam cargos e favores políticos”76
. Sujeitos que buscavam através da máquina pública estabelecer um controle. Do mesmo modo, a ideia que se tinha sobre oposição, passava a ser somente meras palavras sem uma significação ideológica. E o que passou a existir é uma verdadeira “acomodação” (SILVA, 2012, p. 80) baseado em compromissos para agradar seus seguidores fiéis, considerado uma condição “normal e natural” para se solidificar no poder seja, diretamente ou indiretamente.
Durante toda a década de 1950, os dois grupos revezaram no comando do Território tendo pleno controle das nomeações e acordando nomes para as pastas que ocupariam no governo. Em 1953, os próprios membros partidários confessavam
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Ver NUNES, 2003. 76
ROCHA, Lyvia Milenna de Souza. Governo José Augusto: personalismo, populismo e a construção de uma contra-hegemonia no Acre – 1962/1964, 2006. p. 36.
o jogo dos grupos. O PSD teria como responsabilidade indicar o nome que seria nomeado ao governo; o PTB apresentaria nomes para as prefeituras das cidades mais importantes do Acre e alguns secretariados permanecendo em meros momentos a partilha de cargo; e esqueciam-se das acusações que permeou as eleições a câmara dos deputados.
Com Guiomard dos Santos no Congresso, iniciou-se um debate de cunho nacional sobre a elevação do Acre à categoria de estado. Havia duas bandeiras sobre a questão. Para Guiomard dos Santos transformar o território a estado era algo necessário, pois, o Acre na sua visão estava apto e com uma estrutura para requerer a aprovação do projeto. Por outro lado, Oscar Passos era contra o projeto acreditando que a estrutura não passava de uma maquiagem política em um território que sofria com o “declínio da borracha”. O seu PIB local era insuficiente e uma folha de pagamento baixo. E para Passos, o Acre só estaria preparado a ser elevada a categoria de Estado por mais trinta anos.
O debate foi longo e duradouro desde os primeiros movimentos que ocorreram de forma isolada e autônoma. Segundo o autor: “(...) sem participação ou
clamor popular e dirigido por grupos políticos internos, que viam na autonomia o deslocamento e a definição do poder para a esfera local”. (SILVA, 2012: p.81).
Portanto, existiu a aprovação e sanção pelo parlamento brasileiro, assinado pelo presidente João Goulart e o primeiro-ministro Tancredo Neves, tornando o Acre, Estado e exigindo em cerca de três meses as eleições de governador e deputados Constituintes. Podendo o governador, tomar posse após a promulgação da Constituição Estadual.
A lei estabelecida foi a de nº 4070 que tinha como principais artigos de disposição:
Art. 1º - O Território do Acre, com seus atuais limites, é erigido em Estado do Acre. Art. 2º - A Justiça Eleitoral fixará, dentro de três meses, após a promulgação da presente lei, a data das eleições de Governador e Deputados à Assembléia, os quais serão em número de 15 e terão, inicialmente, funções constituintes (...). Parágrafo Único – Se dentro de quatro meses, após a instalação da Assembléia não for promulgada a Constituição Estadual, o Estado do Acre ficará submetido à do Estado do Amazonas, até que a reforme pelo processo nela determinado. (...). Art. 4º - A posse do primeiro Governador se fará perante a Assembléia Legislativa, no dia da promulgação da Constituição Estadual. Parágrafo Único – Até essa data, o Estado do Acre ficará sob a administração do Governo Federal, através de um Governo Provisório. (...). Art. 7º - As dotações consignadas no atual Orçamento Geral da União, para o
Território do Acre, serão transferidas à aplicação do Governo do Estado, mediante convênio. (...)77.
Por mais que houvesse a aprovação da lei, pouco mudou o cenário político. Subtende-se que as disputas locais existiram de acordo com as concorres eleitoreiras que substancialmente aumentou o foco da corrida eleitoral. No entanto, a dominação e os arranjos políticos estariam limitados aos dois grupos, tendo a base sólida e praticamente toda a máquina da legitimação política. Os grupos lançados e apoiados pelos dois “caciques”, consequentemente, liderou não só o executivo, mais o legislativo.
Ao analisar as nuances entorno da aprovação da lei nº 4070 procederam-se por discussões intensas entre os caciques locais. Indubitavelmente, até a aprovação da lei e nas eleições que disputou com Guiomard dos Santos, Oscar Passos em nenhuma vez conseguiu derrotar o oponente. De acordo com as pesquisas já estabelecidas, no caso de nova eleição, o risco de acumular outra derrota tornar-se- ia eminente. Novo resultado desfavorável e o domínio internamente dentro do próprio partido se “perderia”, algo que veremos adiante, tomou conotações surpreendentes.
A própria fase de transição ficou marcada por governos que tiveram por base política, linhas petebistas. Os dois últimos governadores do Território Federal foram Ruy da Silveira Lino que se tornou o primeiro governador de origem local, permanecendo do dia 29 de outubro de 1961 até o dia 06 de Julho de 1962. Após aprovação da lei que elevou o Acre a Estado, renunciou ao cargo na busca de concorrer a uma vaga na câmara federal. E o último governador que assumiu foi Aníbal Miranda que permaneceria até a posse do primeiro governador.
Segundo Silva (2012), esta fase de transição estabeleceu o controle dos mesmos grupos que dominavam o Acre na fase territorial. Nomeados como indicação de seu líder partidário para comandar o Acre em última cartada quanto território. O que sugeriu que para as eleições, quem estivera no poder teve em favor a máquina pública em suas mãos para demonstrar na campanha as benesses do governo em questão78. Entretanto, percebemos que a condução do governo é gerida pelas mesmas práticas que predominaram toda a vida política nacional no período
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Documentos para a história do Acre: Constituições do Estado do Acre – Brasília: Senado Federal, 2003. p. 13. (promulgação da lei nº 4.070 em 15 de Junho de 1962).
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anterior a década de 1960. E neste sentido, ficou uma questão para reflexão: De que maneira ocorreram as articulações para a primeira eleição direta no Estado para Governador?