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A “volta do movimento autonomista”

No documento JADSON DA SILVA BERNARDO (páginas 33-39)

1.3. O “Movimento Autonomista”

1.3.1. A “volta do movimento autonomista”

O segundo momento do “movimento autonomista” se deu mais de 40 anos depois das primeiras agitações emergentes nos departamentos. Anterior a sua volta, ficará marcado em circunstâncias isoladas e em discussões pautadas para a transformação do Território em estado61.

Observa-se que o movimento autonomista constituído por um pequeno grupo da elite procurou aliar seus interesses particulares com o poder do Território. Diversos movimentos em vários departamentos mostrou a insatisfação dos personagens locais em relação à influência política nacional. Conseguinte, o governo federal buscou medidas para amenizar a situação e continuar com sua hegemonia em Território acreano.

Os anos se passaram e a borracha como maior riqueza econômica do Território declinou em duas oportunidades. A primeira de 1903 até meados de 1913. Já a partir da década de 1940 o cenário pouco mudou. O governo brasileiro continuou influenciando politicamente, nomeando os delegados (conhecidos como governadores) através do Palácio do Catete sob o comando de Getúlio Vargas62. E no período, ocorreu o segundo ciclo da borracha.

O segundo ciclo se estendeu de 1942 até 1944 pela motivação de territórios produtores de borracha dominados por EUA e Grã-Bretanha (a Malásia e regiões próximas) foram invadidos pelas forças do eixo (Alemanha, Itália e Japão) na Segunda Guerra Mundial, forçando Vargas escolher o lado em que estava no conflito. O Brasil aliou-se aos americanos e assinou o acordo de Washington63 para a exploração de borracha na Amazônia.

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BEZERRA, op. Cit. p. 103-105. 62

Ver sobre o Estado Novo; SKIDMORE, Thomas. Brasil: de Getúlio a Castelo. 10ª. Ed. São Paulo: Paz e Terra, 1982. FAUSTO, Boris (org). O Brasil republicano: Sociedade e política (1930-1964) Vol. III Tomo I. São Paulo: DIFEL, 1986.

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Acordo em que o Brasil assina para exportar borracha para os esforços de guerra, em consequência, trazia um contingente de trabalhadores à região do Acre para explorar borracha, pois, era uma das únicas soluções possíveis porque a região da Ásia estava ocupada pelo outro eixo (Alemanha, Itália e Japão). Disponível em: <http://dai-mre.serpro.gov.br/atos- internacionais/bilaterais/1942/b_24/>, acesso em: 13.06.2015.

Quando a Guerra finalizou os estadunidenses abandonam a produção e mais uma vez o Acre fica “desamparado” pelo governo federal. E em 1946 entrou em cena José Guiomard dos Santos, nomeado pelo presidente General Eurico Gaspar Dutra64.

Guiomard dos Santos quando pisou em terras acreanas já detinha um conhecimento prévio sobre o que era o Acre, observados em trechos da carta dirigida a um amigo de Minas Gerais “„... todos os problemas acreanos estão por resolver. Não é afirmativa para valorizar a minha atuação. Basta ler Euclides da Cunha, pois, tudo continua o mesmo‟”65

. Nesse ínterim, Guiomard haveria por assumir o governo do Território do Acre sob a missão de levar a “„alvorada de uma ressurreição‟”66. Promessa para uma “nova” cidade que iria emergir. Nova forma de governar trazendo como principal discurso o “populismo”, surgindo ainda sob a presidência de Getúlio Vargas e que estava presente neste contexto sob diversas formas.

Discursos que foram preferidos numa ocasião de promessas de um Acre rumassem ao “desenvolvimento” e que o progresso enfim chegaria. Um sonho de um Território desenvolvido e criado por simbologias e “ilusões”. São discursos com tendência de um sujeito que vem de outra localidade: modernizar e desenvolver o que é “selvagem e rústico”. Discursos que vão para além de realizar obras, mas conseguir algo maior: “o poder” (BEZERRA, 2002: p.47-51).

Segundo a autora, a sua fala foi preparada num momento que demonstrou sua posição política-partidária dentro de um contexto de “redemocratização”. A perspectiva se lançava no preparar o Acre para o novo “(...) buscava romper com o passado do Acre (...)”67

. Uma cidade (Rio Branco) alicerçada as instituições de base para solidificação do governo.

Sob o ponto de vista preparou a capital: “(...) para modernizar Rio Branco, inventar a cidade, fundamentou-se em alguns pontos julgados por Guiomard Santos essenciais, de acordo com as circunstâncias dadas, a saber: urbanização, educação, produção e comunicação”68.

64 BEZERRA, Maria José. A Invenção da Cidade: a modernização de Rio Branco na Gestão do Governo de Guiomard Santos (1946-1950). Recife: UFPE, 2002. Dissertação de mestrado. p. 33. 65 Ibid. p. 45. 66 Ibid. p. 41. 67 Ibid. p. 47. 68 Ibid. p. 50.

A modernidade é compreendida na perspectiva do que é diferente e o que é tradicional. Ao mesmo tempo não abandona, transforma em novos rumos. Modernidade na visão do citado Berman significa:

„[...] encontrar-se num ambiente que promete aventura, poder, alegria, crescimento, transformação de si e do mundo – ao mesmo tempo, que ameaça destruir tudo o que temos, tudo o que sabemos, tudo o que somos. [...] Ser moderno é ser parte de um universo em que, como disse Marx, „tudo o que é sólido desmancha no ar‟69.

A justificativa para utilizar a citação está em compreender que este processo de modernidade é empreendido nos discursos de governos praticamente toda a parte da trajetória do Acre. A modernidade impõe a possibilidade de transformar, preparar. Para que preparar o Acre? São questões que veremos adiante, mas em primeiras análises a modernidade empreende a possibilidade de sujeitos serem felizes, podendo desencadear “destruição” de costumes de uma sociedade. O próprio contexto histórico do Acre elevou situações em que buscou impor regras para “educar” a sociedade e se comportar como fosse uma grande metrópole. Guiomard Santos pelo menos nos discursos quando fala em desenvolver e modernizar procurou apoio de “toda” a população. Os investimentos tinham prioridade de modernizar na educação, saúde, agricultura de base.

A “ilusão” de tornar o Acre estado sobrevém muito antes da própria libertação e da “miséria” do poder público. Empregando em momentos a palavra e conceito de “Revolução” em 1953 no encerramento do discurso no Congresso Nacional, afirmando:

Façamos, pois, Srs. Deputados nova revolução no Acre – revolução branca, no sentido que os acreanos tenham os mesmos direitos políticos de todos os filhos da nossa grande Pátria. E‟ em tal sentido que tenho a honra de dizer ao povo brasileiro aqui tão simbolizado por VV. Excias, que apresentarei projeto à Câmara, pleiteando para o Acre um Estatuto de Território Federal Independente. Não há contradição. Território – porque ainda não podemos prescindir das verbas federais; Independente, ou seja, com direitos políticos semelhantes aos irmãos mais velhos – os Estados. (BEZERRA, 1992: p.50).

A fala proferida pelo então deputado Guiomard dos Santos enalteceu os “filhos” ou “povo”, fazendo um apelo aos colegas na ideia de terem direitos políticos

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GOMES, Marileide Silva. O Governo Warderley Dantas e a construção da modernidade no Acre (1971-1975). Rio Branco: UFAC, 2011. (Monografia História). p. 19.

e econômicos semelhante aos estados. No sentido de se fazer “Revolução”. Mas, que tipo de “Revolução”? Esta “Revolução” não está no sentido restrito do próprio conceito de mudar algo radicalmente. Criou-se um mero conceito de “mudança de

patamar” político que acabaria por beneficiar uma parcela da população já que este

“povo” está restrito a um determinado grupo, sendo os eleitores aptos ao voto à minoria da população.

O futuro projeto tem como objetivo principal, a manutenção da máquina pública que ao ver do referido deputado está “falida”. E a solução é pela mudança do Acre a Estado visto quanto futuro de uma nova economia. O discurso presente para o projeto Autonomista levou a cabo a “liberdade democrática” dos “cidadãos” acreanos que devem ter o direito de se expressar através do voto.

Na História Oficial, como é convicto ressaltar, quando falar-se-ia do movimento procura generalizar quanto à ideia de não existência opositiva ao projeto. Na Historiografia acreana em plena construção já diz ao contrário (via fontes oficiais e reportagens de época). As críticas eram pautadas por grupos que viam a elevação do Território ao estado prematuro ou não passa de uma cartada de interesses políticos que estava alicerçada ao jogo de interesse. Hugo Carneiro70 em suas entrevistas que concediam a alguns meios de comunicação impresso tende a fazer uma defesa que segundo Silva busque: “... a manutenção do instituto do Território e faz críticas ao Projeto Autonomista de Guiomard Santos, acusando-o ainda de pretender ser senador com a criação do Estado do Acre”71

. A existência das disputas internas foi benéfica à Guiomard dos Santos no final, pois confirmou a elevação do Território em Estado.

Outro opositor (Oscar Passos) grande “adversário” político do pessedista não era contra o projeto. Mas em sua visão política não era o momento adequado. E em sua justificativa colocou o Acre como “pobre e atrasado”:

Populações inteiras, sem meios de vida próprios, estiolam-se em torno de uma administração retrograda, parasitaria, eminentemente politizada e manipulada por elementos cujo objetivo tem sido a dominação da terra e dos homens, em proveito próprio, político e até subalterno.... (BEZERRA, 1992: p.61).

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Hugo Carneiro, ex-governador territorial década de 20, responsável pelo início da construção do Palácio Rio Branco, a construção do Quartel Geral da PM e do Mercado Municipal na tentativa de transformar a arquitetura da cidade de Rio Branco. (Grifos meus).

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Há um apontamento de práticas manipulativas nos discursos, seja de Guiomard dos Santos na perspectiva de “progresso futuro” e Passos, criticando quanto suposta “oposição”; asseverando o movimento quanto “parasita” que busca manipular e se perpetuar no poder o máximo que puder. Usando do artifício discursivo (“populista”) para amarrar os “homens” em benefício próprio e não buscando o “progresso”; que para Passos viria somente no futuro próximo.

Neste sentido, basta entender-se a ideia de “democracia populista”: “[...] as classes subalternas são a base de sustentação do Estado mas, têm suas ações ideologicamente dirigidas e atuam conjuntamente partilhando dos mesmos ideais que da classe dirigente. É a expressão em maior grau do mito Estado sujeito”72

. Somos levados a acreditar que Passos queria situar-se na estrutura conceitual. Que para chegar ao poder tinha que haver uma base que o sustente. Na ocasião utilizou de ideias de grupos pela prática de convencer, a partir de seu nome e liderança para estabelecer o controle sobre “as massas”. Oscar Passos, na manobra política não se diz contra a autonomia, mas espera que o projeto não seja uma manobra por interesses. Afinal não tinha como disputar em pé de igualdade com Guiomard dos Santos na política acreana na década de 1950. Era a favor da autonomia, em condições propícias e com condições econômicas. Neste sentido, utilizava do jogo retranca para ganhar tempo na disputa interna. Uma “oposição” em discursos e eleições que compartilham e negociam politicamente os cargos de influência no estado.

As obras sobre Guiomard dos Santos, neste momento não é o enfoque da pesquisa, mas foi fundamental para a “perpetuação” do mesmo como político da região e consequentemente como deputado seria o responsável pelo projeto de lei que transformaria o Acre em estado. No entanto, passou por cima de uma “oposição” que estava emergindo no Acre: Oscar Passos.

E neste caso, iremos refutar sobre está oposição e continuar desenvolvendo a pesquisa pelo viés deste “movimento autonomista”. Mais uma vez está presente o jogo de interesse com o foco para a “perpetuação do poder”. Também, no próximo capítulo, a análise partirá para responder sobre a iminência de emergir uma “nova liderança”. Como emergiu e quem foi este sujeito que fez balançar a estrutura política dos dois caciques?

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SILVA, Francisco Bento da. Da democracia proscrita à democracia prescrita: a ditadura e a transição política de 1982 no Acre. Rio Branco: UFAC. (Monografia Ciencias Sociais), 1998. p. 11.

CAPÍTULO 2: JOSÉ AUGUSTO E A “CARREIRA METEÓRICA”

O segundo capítulo investigou a partir de fontes como documentos oficiais e jornais os bastidores da política local. Um estudo com a intenção de provocar reflexão no que se tratam as articulações políticas que antecederam as eleições de 07 de outubro de 1962 que elegeu o Professor José Augusto como governador do Estado do Acre.

O que representa esta “Carreira meteórica”73 ?

A carreira política e “meteórica” do Professor de Filosofia José Augusto de Araújo iniciou-se ainda enquanto estudante, atuante em lideranças estudantis. É considerado como um dos co-fundadores do PTB acreano no início da década de 195074. A trajetória política foi veloz. Derrotado nas eleições para deputado federal em 1958 ficou com a primeira suplência e assumiu por alguns meses substituindo Oscar Passos.

Nas eleições para governador o nome de José Augusto de Araújo surgiu como pré-candidato oficial ao governo do Estado sendo protagonista por alguns motivos. Uma das hipóteses que apareceu na pesquisa fora pela possibilidade de ser uma alternativa e acreano legítimo; a segunda seria por ter proximidade com o eleitorado preterido que eram a área rural e a facilidade do mesmo em conseguir convencer a partir do seu discurso.

Segundo Francisco das Chagas Nogueira Mendes (1995), foi uma campanha sem nenhum recurso. E mesmo com as limitações conseguiu a primeira suplência para a função, cargo que ocupou por quatro meses.

Segundo o autor, não permaneceu, porque:

(...) apesar de pouco tempo, já havia elaborado alguns projetos, entre eles, o que ligava o Atlântico ao Pacífico. Oscar Passos, não tendo apresentado nenhum projeto de grande envergadura nacional, enciumado, tratou de jogá-lo fora do Congresso o mais rápido possível. (MENDES, 1995: p. 23).

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Termo contemporâneo para caracterizar uma passagem rápida, “Brilhante porém efêmero” (FERREIRA, 2001, p.493). Identificado principalmente em biografias sobre políticos que tiveram passagem rápida em cargos públicos.

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Percebe-se que Oscar Passos aspirou estabelecer o controle, e vendo o desenvolvimento de seu “colega” de partido acabou por reaver o cargo para não passar a José Augusto. Ao mesmo tempo, dava experiência política para assumir cargos futuros.

Neste capítulo, empregaremos as fontes bibliográficas que guiou toda a monografia, as fontes oficiais como a “Crônica de Carlos Oscar Abrantes Guedes (D. Carlito)” e o discurso de posse em 01 de março de 1963. E também, algumas matérias de jornais impressos (O Acre [1963] e O Rebate [1962]) que fazem referência às nuances das eleições em 1962 e 1963 e a entrevista concedida ao Jornal “Página 20” em 2002 pela ex-deputada federal e viúva de José Augusto, Maria Lúcia de Araújo.

Paulatinamente a análise apresentou as articulações antecedentes como a trajetória de José Augusto na cena política acreana. No entanto, iniciaremos a questão problematizando: Quem são os grupos políticos que protagonizaram o cenário político do Acre? Quais as disputas para a aprovação da lei de autonomia política do Acre que proporcionou ocorrerem às eleições para o executivo estadual? E que embates políticos levaram a escolha de José Augusto para as eleições ao governo?

No documento JADSON DA SILVA BERNARDO (páginas 33-39)