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JADSON DA SILVA BERNARDO

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO ACRE

PRÓ-REITORIA DE GRADUAÇÃO

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS COORDENAÇÃO DE BACHARELADO EM HISTÓRIA

JADSON DA SILVA BERNARDO

O PROCESSO DE FORMAÇÃO DO ACRE ESTADO E O GOVERNO JOSÉ AUGUSTO (1962-1964)

RIO BRANCO – ACRE

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JADSON DA SILVA BERNARDO

O PROCESSO DE FORMAÇÃO DO ACRE ESTADO E O GOVERNO JOSÉ AUGUSTO (1962-1964)

Monografia apresentada ao Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Acre, como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel em História, sob a orientação do Prof. Dr. Francisco Bento da Silva.

RIO BRANCO - ACRE 2016

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Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Central da UFAC

B517p Bernardo, Jadson da Silva, 1994-

O processo de formação do Acre Estado e Governo José Augusto (1962-1964) / Jadson da Silva Bernardo. – 2016.

93 f.; 30 cm.

Monografia (Graduação) – Universidade Federal do Acre, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Curso de História. Rio Branco, 2016.

Inclui referências bibliográficas.

Orientador: Prof. Dr. Francisco Bento da Silva.

1. História – Acre (Estado). 2. Movimento Autonomista 3. Política e governo. I. Título.

CDD: 981.12

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JADSON DA SILVA BERNARDO

O PROCESSO DE FORMAÇÃO DO ACRE ESTADO E O GOVERNO JOSÉ AUGUSTO (1962-1964)

Monografia apresentada ao Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Acre, como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel em História, sob a orientação do Prof. Dr. Francisco Bento da Silva.

B

ANCA

E

XAMINADORA

________________________________________________

PROF.DR.FRANCISCOBENTODASILVA

ORIENTADOR

UNIVERSIDADE FEDERAL DO ACRE

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

______________________________________________

PROF. DR. AIRTON CHAVES DA ROCHA MEMBRO

UNIVERSIDADE FEDERAL DO ACRE

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

______________________________________________

PROF. DR. FRANCISCO PINHEIRO DE ASSIS MEMBRO

UNIVERSIDADE FEDERAL DO ACRE

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

RIO BRANCO - ACRE 2016

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Dedico este trabalho, a Deus (divindade), a minha Família (Mãe [Elizabeth]; Pai [Gabriel] aos irmãos [Jardiel, Jhonatan, Jandson, Jeremias e Jorge Luca]) por ensinar os valores da vida e compartilhado da alegria de viver e conhecer o mundo através dos livros.

(6)

AGRADECIMENTOS

Primeiramente agradeço a Universidade Federal do Acre enquanto instituição de Ensino Superior, proporcionando a realizar o “sonho” de conhecer o universo acadêmico.

À Coordenação do curso de História Bacharelado pela colaboração ao longo do curso.

Aos colegas do curso de História que foram grandes companheiros durante a longa jornada e que proporcionaram amizades e conhecimento que serão levados para toda a vida.

Agradeço em particular a minha família por ter tido a paciência e a ajuda necessária para realizar o trabalho.

Ao Jorge Luca que apesar de amigo e irmão ajudou-me quando necessário tanto de apoio moral quanto material.

Ao orientador prof. Dr. Francisco Bento da Silva por ter tido a paciência e compreensão e ajudado em momento derradeiros da pesquisa.

Aos professores Dr. Francisco Pinheiro de Assis; Dr. Airton Chaves da Rocha; Dr. José Dourado de Souza; Dr. Valdir de Oliveira Calixto e Drª. Geórgia Pereira Lima por auxiliarem nos conhecimentos teóricos durante todo o curso. E aos demais professores que apresentaram um mundo heterogêneo e de plena complexidade que me proporcionaram em pensar sobre o valor de refletir sobre o passado.

(7)

RESUMO: O Trabalho intitulado, O Processo de Formação do Acre Estado e o governo José Augusto (1962-1964) tratou do processo que deu origem a essa mudança; os embates políticos que levaram a escolha do vencedor das eleições para o governo em 1962 e o período que permaneceu até a deposição. O objetivo do trabalho é buscar compreender os embates políticos na escolha de José Augusto através dos estudos historiográficos já escritos, os documentos oficiais e a seleção de alguns jornais empreendendo um estudo sobre a história política administrativa do Acre entre 1962-1964. Utilizamos como fonte da pesquisa documentos oficiais, diários oficiais, jornais de época como, “O Rebate” e “O Acre” e o Jornal “Pagina 20” em 2002. Para realizar o diálogo e interpretação analítica e contextual, utilizamos as obras de Boris Fausto, o artigo de Jefferson José Queler, Octávio Ianni, Francisco Weffort, Fernando Henrique Cardoso objetivando entender a conjuntura nacional e as discussões teóricas como Carnoy e Bach, que fazem discussões conceituais acerca de aspectos ligados ao Estado, Hegemonia e Carisma. São conceitos entendidos tanto como ideologias e práticas relacionadas ao exercício do poder. O golpe de 1964 fora o estopim e o colapso do populismo no Brasil. O populismo como modelo político atuante (iniciado no Brasil com o governo Vargas) culminou no protagonismo nas várias eleições de cunho nacional e regional desencadeando em uma serie de crises locais e nacionais. Portanto é necessário perceber que ao pesquisar a temática, levou-me a compreensão do que são as disputas políticas no plano regional no processo de formação do Acre, aos quais as esferas do caciquismo e clientelismo se fizeram e se fazem presente. Sendo o resultado fruto de intepretações formadas por “verdades” devidamente escritas e reescritas pela complexidade do tempo histórico, dos sujeitos e das ideologias.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 10

CAPÍTULO 1: A CONSTITUIÇÃO DO ACRE COMO ESTADO... 18

1.1.O Brasil político de 1960-1964... 21

1.2.Os partidos políticos... 26

1.3.O “Movimento Autonomista”... 31

1.3.1.A “volta do movimento autonomista”... 34

CAPÍTULO 2: JOSÉ AUGUSTO E A “CARREIRA METEÓRICA”... 39

2.1.Oposição e situação... 40

2.2.A Oposição interna a José Augusto... 44

2.3.A Eleição e a “surpresa”?... 2.4. A posse: “o princípio do fim”... 49 55 CAPÍTULO 3: GOVERNO JOSÉ AUGUSTO: DISCURSO, PRÁTICA E RUPTURA... 62

3.1.“O Acre para os Acreanos”: projetos governamentais... 63

3.1.1. Agricultura... 3.1.2. Saúde... 3.1.3. Educação... 3.1.4. Obras (Indústria e Setor Energético)... 65 66 67 68 3.2. O Golpe Civil Militar no Brasil... 3.3.O Reflexo do golpe no Acre... 69 73 3.3.1. A Oposição Política: segundo momento... 3.3.2. O PTB e a base oposicionista... 3.3.2.1. O golpe emanado da Assembleia... 3.4. Breve reflexão sobre José Augusto antes e depois do governo... 75 77 79 82 CONSIDERAÇÕESFINAIS... 84 REFERÊNCIAS... 90

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INTRODUÇÃO

A presente monografia tem como objeto de estudo, o processo de formação do Acre na sua fase de transição de Território Federal para Estado, com o enfoque nas questões políticas e administrativas e alguns aspectos relacionados ao processo que culminou nas eleições inéditas para o executivo acreano e a eleição de José Augusto de Araújo em 1962. Seu recorte temporal é centrado no período que se estende de 1962 a 1964, onde buscamos compreender o processo de “transição” político-administrativa desencadeado pelo fim do regime territorial do Acre Federal, a primeira eleição para o Executivo acreano até ao prematuro fim da primeira administração de um chefe do executivo local eleito por voto direto no Acre. Delimitar o tempo político no trabalho em tela é pensar dentro de uma conjuntura que nos permita identificar determinados aspectos para compreendermos as facetas do processo político no Acre. E o período de 1962 a 1964, implica em um fenômeno de curta duração: “tempo da visibilidade e da instabilidade”1. Assim, devemos pensar

o tempo histórico como um processo “uma substância da história”2, com suas complexidades. E observar a periodização na História é, segundo Prost (2008, p.107), permitir: “[...] pensar, a um só tempo, a continuidade e a ruptura. [...]

periodizar é, portanto, identificar rupturas, tomar partido em relação ao variável, datar a mudança e fornecer-lhe uma primeira definição”.

O rumo da pesquisa se deu na dimensão da História Política, utilizando de uma análise Interdisciplinar, procedimentos entendidos como a inter-relação de campos que podem enriquecer os modos de ver as coisas e a si mesmos; estabelecendo diálogos e confrontos, podendo entrar em concorrência e reconhecendo as afinidades3. Entendemos aqui a Política como algo compreendido de ações coletivas, sendo que o homem político “singular” ou sozinho não é político, mas, “apolítico”. A política ocorre a partir de uma relação “entre-os-homens” e as suas diferenças4.

O interesse em escolher este tema deu-se a partir de leituras e sínteses que me despertaram através da escrita da historiografia acreana acerca de como foi

1

OLIVEIRA, Cecília Helena de Salles, PRADO, Maria Ligia Coelho & JANOTTI, Maria de Lourdes Monaco. A história na política, a política na história. São Paulo: Alameda, 2006, p.15.

2

PROST, Antoine. Doze Lições sobre a História. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2008, p.96. 3 BARROS, José D‟ Assunção. Teoria da História. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011. p.28-30.

4

(10)

governo José Augusto (1962-1964), buscando problematizar o tema proposto para que tenha relevância acadêmica e social, como também compreender mais sobre o tema especificado.

As leituras e sínteses se deram inicialmente em pleno âmbito escolar, quando cursava o Ensino Regular. A primeira leitura sobre o tema se deu a partir de um trabalho de classe, em que se pedia para sintetizar o período do governo de José Augusto, tendo em vista que este fora o primeiro governador eleito de forma direta no Acre desde sua incorporação ao Brasil em 1903. Após a apresentação da síntese exigida pelo professor da disciplina, começou a despertar um interesse grande sobre o assunto.

Portanto, o presente trabalho é fruto de um interesse surgido pelas leituras que antecedem a minha entrada na graduação, que se ratificaram ao longo do curso de História, buscando análise de conjuntura dentro de uma “visão de mundo” que se produz a partir de um olhar de pesquisador e também de “eleitor”, cidadão.

A problemática geral de estudo que orientou a pesquisa empírica, bem como a escrita da monografia, foi no sentido de problematizar o processo político iniciado com a “formação do Acre como Estado” com as articulações políticas engendradas nesse período no Brasil e no Acre. Indagamos, ainda sobre: que embates políticos levaram a escolha de José Augusto para as eleições ao governo? Quais as nuances da escolha de Augusto a partir da interpretação da carta de Carlos Abrantes Guedes? Quais os significados do seu discurso da posse; das eleições e as prioridades da administração e o por que de sua deposição?

No objetivo do trabalho buscou compreender os embates políticos que levaram a escolha de José Augusto para as eleições ao governo, caracterizando em torno da conjuntura que se apresentava em 1962. E ainda, as influências internas e externas que levaram José Augusto a deposição. Também, o presente trabalho procurou interpretar os fatos a partir de estudos historiográficos investigando as várias fontes como documentos oficiais e jornais os acontecimentos que ocorreram no período proposto empreendendo um estudo sobre a política administrativa do Acre entre 1962 a 1964.

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Entendendo os chamados fatos “históricos” como construções enquanto fenômeno humano. Segundo Marc Bloch, está para além da matemática 5. É além de algo exato e fechado, exprimindo interpretações dentro de um período e espaço.

O Território do Acre após o declínio da economia da borracha continuou produzindo-a em escala menor comparada ao seu auge. Sabe-se que a história do Acre não se reduz a estas questões da economia da borracha, mas a outros contextos que se articulam com o processo de formação do Acre. Como é o caso das reiteradas tentativas de modernização da capital do Acre Federal, que passou a ser Rio Branco a partir do início da década de 1920 e que fora desenvolvido em longa escala com discursos completamente distintos, atendendo a um mesmo discurso que permeia a História recente que é: “desenvolvimento e progresso”.

Compreendemos o termo processo, como fazendo parte de uma metodologia de estudo baseando-se num contexto histórico fomentados em uma gama de fatos subsequentes da História ao longo do tempo e “tendo” uma lógica que transmite alterações, “novas” construções conceituais e práticas que são reveladas e compreendidas pela História6.

Nosso trabalho situa-se no contexto da década de 1950 a 1960 quando após o fim da Segunda Guerra Mundial a ordem mundial estava dividida entre dois sistemas econômicos: o capitalismo e o comunismo. Nações que lutavam entre si pela hegemonia de seus sistemas e tiveram relação, mesmo que indireta, nos acontecimentos que antecederam o foco da pesquisa.

Segundo Silva (2004, p. 02), após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) o continente sul-americano passou por experiências de “golpe de Estado Militar”7

, retardando a prematura democracia e impossibilitando a população de escolher seus representantes. No Brasil houve também a experiência autoritária, consistindo inicialmente na deposição do então presidente João Goulart (1961-1964) e aos governadores que o apoiavam. Assim, instalaram-se vinte longos anos de um “regime civil-militar”.

5

BLOCH, Marc Leopold Benjamin. A Apologia da história, ou, O ofício de Historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. p.54.

6

FAUSTO, Boris. História do Brasil por Boris Fausto: República Populista (1945-1964). [vídeo]. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=Jzgje3rRl54> acesso em 08.04.2015.

7

O conceito de golpe estado é entendido quanto: “reação contra as soluções revolucionárias ou reformistas, em andamento ou projetadas [...]. Isto é, o golpe de estado sempre inaugura um estilo de poder autoritário e implica a cristalização da estrutura de apropriação”. (IANNI, 1994: p.18).

(12)

O golpe marcou o colapso do populismo no Brasil que fora iniciado ainda com Getúlio Vargas e o Estado Novo em fins da década de 1930 e avançou as décadas posteriores mesmo após a deposição de Vargas. O populismo é visto quanto uma ideologia de massas alicerçada no discurso do “desenvolvimentismo” (IANNI, 1994: p.59), com a política conduzida por um líder político portador de carisma e que conquista as massas eleitorais por intermédio de programas ou ideias atribuídas a ele de forma pessoal e paternal.

O populismo na América Latina é assinalado por uma: “[...] política

assistencialista que vem sempre acompanhada de uma forma de autoritarismo, seja ele carismático, paternalista ou institucional” (ROCHA, 2006, p.12). São políticas que

tiveram forte presença nas décadas de 1940 a 1960 com personagens de diversas perspectivas e interesses. São geralmente a “massa eleitoral” conduzidos em consonância com uma elite e apoiado por um líder carismático8.

Em âmbito local para ampliar uma possível “democracia” representativa, o então deputado José Guiomard dos Santos9 apresentou o PL nº 2.654 de 1957 com o principal objetivo tornar o território federal do Acre como estado federação. Antes da aprovação do PL, os governadores eram escolhidos a partir da nomeação ou por decreto.

Entretanto, a partir da aprovação e sanção no ano de 1962, através da lei nº 4070 estabelecem-se eleições nos cargos legislativos e executivos. Segundo a obra “Acre: uma História em construção” se candidataram dois nomes importantes, como o autor do projeto, José Guiomard dos Santos (PSD) e pela chapa de “oposição” José Augusto (PTB). Os autores esclarecem que “ambos os contendores

concorreram a mais de um cargo eletivo” (CALIXTO; SOUZA & SOUZA, 1985:

p.184), pois a legislação eleitoral à época permitia.

As eleições se tornaram uma jornada dupla. Enquanto um pregava o “progresso” do Estado, o outro como papel de “oposição” promovia o que consideraram os autores como ataques “(...) a corrupção das velhas oligarquias

apegadas ao poder” (CALIXTO; SOUZA & SOUZA, op. cit). Percebendo que os

confrontos políticos eram direcionados contra as antigas administrações ao candidato do PSD e não contra o “progresso e desenvolvimento” que era uma

8

BACH, Marizio. “Carisma e Racionalismo na Sociologia de Max Weber”. V.1. p. 51–70. In Sociologia & Antropologia, 2011, p. 54.

9

(13)

semelhança entre os candidatos. Inovava nos discursos – os grupos formados pela coligação (PTB-UDN-PSP) – ao pregar que iria constituir uma administração voltada para os grupos até então esquecidos, como os agricultores e seringueiros. E com uma saúde de melhor qualidade, entre outras “promessas”.

Segundo sugere Bobbio, Estado são, “mudanças ocorridas na estrutura

material e na estrutura social do sistema jurídico foram origem das transformações a nível formal e político”10

. Para Karl Marx e Engels, a estrutura do Estado é visto

como um “instrumento” para as classes dominantes. São estruturas que estão entrelaçados nas disputas do próprio sistema.

Aquela eleição pode ser considerada um divisor de águas pelo fato de eleger pelo voto direto pela primeira vez um governador no Acre. Entretanto, o governador José Augusto não chegou há ficar dois anos no poder executivo acreano, pois em março de 1964 ocorreu no Brasil um golpe de Estado que acabou derrubando não só o presidente da República, mas trouxe consequência no plano regional.

No entanto, a eleição de José Augusto significava a perspectiva de uma “nova hegemonia” na política regional. Hegemonia que é entendida por Gramsci como “[...] tentativas bem sucedidas da classe dominante em usar sua liderança política, moral e intelectual para impor sua visão de mundo como inteiramente abrangente e universal, e para moldar os interesses e as necessidades dos grupos subordinados”11

.

A década de 1960 adentrou a um período de profunda crise política nacional, arraigada a reflexos do contexto geopolítico global. E o Acre não estava distante dos confrontos de interesses pelo poder. Os confrontos estavam monopolizados entre dois personagens políticos (Guiomard dos Santos e Oscar Passos). Onde entraria no jogo político outro personagem em busca de espaço para ele e seu grupo.

E o que tem haver estes fatos com a pesquisa realizada? São conteúdos que merecem atenção ou até outros trabalhos a parte; mas, fazem parte de um processo que iniciou e influenciou nos fatos que marcaram a “formação do Acre” e que deixaram traços destes fatores. Muitos pelos discursos proferidos dos governantes que utilizam da perspectiva de “progresso e desenvolvimento”, mesmo com suas ressignificações do próprio termo.

10

BOBBIO, Noberto; MATTUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de Política. Brasília: editora UNB, 1998, p. 401.

11

(14)

Os fatos humanos são entendidos quanto uma construção humana que tem sua complexidade e que o historiador imprime um “olhar sobre si”, que é na historiografia, a maneira ao qual o historiador vai escrever a partir do olhar sobre o passado através do presente. E da análise dos acontecimentos parte a premissa das múltiplas narrativas, que estão tecendo a vários campos, e que permitem o historiador analisar e interpretar não como “verdade” absoluta, mas, como reflexão e possibilidade de pensar dentro de uma conjuntura12.

A pesquisa analisou várias fontes tais como documentos oficiais, diários oficiais, datadas do período de 1963 inicialmente, jornais de época como, “O

Rebate” e “O Acre” de 1963 e a entrevista concedida ao Jornal “Página 20” em 2002

pela ex-deputada federal e viúva de José Augusto, Maria Lúcia de Araújo. Os materiais como obras bibliográficas, acervo digitalizado de José Augusto, documentos oficiais e jornais em sua maioria foram disponibilizados pelo acervo particular do orientador deste trabalho. Apesar das dificuldades, também encontramos trabalhos monográficos na Biblioteca Central (UFAC) que ajudaram a compor toda a discussão no âmbito contextual e analítico.

Entendemos as fontes como documentos que foram produzidos pelo homem mediante interesses localizados no tempo e no espaço. A fonte histórica passou a partir do movimento dos Annales a ser uma construção dos historiadores junto com as suas indagações, tornando o historiador um crítico desses documentos e ligando-os com a realidade em que foram produzidligando-os. “Pois são as perguntas que fazem os

documentos falarem, e então as interpretação são criadas” 13 .

O tipo de pesquisa que predominou foi à bibliográfica. Também, damos ênfase aos trabalhos que tiveram enfoque ao período da administração de José Augusto como as monografias de Francisco das Chagas Nogueira Mendes, que tem como título: “Governo de José Augusto: amor ao povo ou paixão pelo poder?”. Um trabalho que enfocou o Governo José Augusto, demonstrando o momento que se tornou um político notabilizado em um curto período de tempo; acabando por enfrentar ampla resistência política e “caiu” num momento histórico conturbado no Acre, no Brasil e no mundo por variados acontecimentos. Outro trabalho foi o de Lyvia Milenna de Souza, “Governo José Augusto: personalismo e a construção de

12

Ver REVEL, 2005. 13

SILVA, Kalina Vanderlei. Dicionário de conceitos históricos. 2. Ed. São Paulo: Contexto, 2005. p. 161.

(15)

uma contra-hegemonia no Acre 1962-1964” que procurou entender o governo de

José Augusto na perspectiva de tentar ser uma “contra-hegemonia” à ordem até então vigente. Também fizemos incursões na obra de Francisco Bento da Silva

“Autoritarismo e personalismo no poder executivo acreano, 1921-1964” que abordou

o Governo de José Augusto desde o aparecimento deste sujeito no processo político do Acre, perpassando o período das eleições até a sua queda ou deposição do cargo de governador.

Os trabalhos existentes sobre José Augusto nos proporcionaram uma melhor reflexão sobre a sua trajetória política-administrativa. A diferença de abordagem aqui é verificar como personagens atuaram nos bastidores da composição que escolheu Augusto (PTB-UDN-PSP) como candidato e as articulações e manobras para tentar se colocar como “nova hegemonia” na política local.

Empregamos para estabelecer uma análise e interpretação do contexto histórico-político do Acre, a tese (2006) e a dissertação de Maria José Bezerra (2002), o livro didático de Valdir de Oliveira Calixto, José Dourado de Souza e Josué Fernandes (1985) e outras obras que foram bases de uma reflexão do processo de formação do Acre. Na perspectiva de uma reflexão da política nacional, as obras de Boris Fausto (1986), Octávio Ianni (1994), Francisco Weffort (1980), Fernando Henrique Cardoso (1975), o artigo de Jefferson José Queler (2010), configuram-se em discussões sobre a conjuntura política no Brasil e sua organização partidária, como é o caso da obra de Vamireh Chacon (1998). Além de textos de base teórico-metodológica, como os de Carnoy (1998) e Bach (2011), que fazem discussões conceituais acerca de aspectos ligados ao Estado, Hegemonia e Carisma.

Utilizamos esses conceitos dentro da perspectiva marxista. Hegemonias são pensadas como ideologias e práticas de domínio de quem estão no poder ou é colocado por uma minoria. O Estado é definido como uma estrutura dirigida pelas frações de “classes dominantes” que através dos aparelhos burocráticos e ideológicos buscam exercer a dominação e a hegemonia.

Na monografia a divisão se deu em três partes apresentando alguns aspectos do processo do Acre estado, compreendendo parte deste período histórico nas articulações da transição e as tramas envolvidas no cenário político.

No primeiro capítulo a pesquisa enfocou as questões gerais da “formação do

Acre como Estado”, analisando e contextualizando alguns aspectos que

(16)

Brasil e no Acre no período de 1960-1964, apresentando características quanto às organizações partidárias na esfera local. Neste caso, os partidos políticos nacionais que exerceram protagonismo eleitoral foram: PSD; PTB; UDN.

No segundo capítulo focou nas disputas dos “caciques” envolvidos no plano político local e na trajetória de José Augusto dando ênfase na análise dos enfretamentos políticos internos e externos de uma “carreira meteórica na política

acreana”. Carreira política que sofreu oposições internas. A eleição em que ele

despontou como “surpresa” e um discurso que não se configurou dentro de interesses internos do clientelismo local.

E no terceiro capítulo a pesquisa se encaminhou para um momento que o mundo passava por diversos processos de tensão política e diplomática o que apresentou reflexos na política nacional e local. Busca-se analisar a queda de José Augusto, que encerrou um curto período em que o Acre teve a “autonomia” de escolha de representantes no executivo.

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CAPÍTULO 1: A CONSTITUIÇÃO DO ACRE COMO ESTADO

Analisar o processo de formação do Acre Estado implica na necessidade de uma compreensão do contexto de “transição” do Acre de Território à Estado. A historiografia acreana de alguma forma carece de novas análises sobre esse processo, inclusive a própria “história” dita como oficial, que essencializa determinados momentos históricos. Ao mesmo tempo, acaba por generalizar sujeitos históricos e suas experiências em temporalidades completamente distintas.

Existindo o problema que muitas vezes acaba por aparecer, a separação da História do Acre com da História do Brasil como se fossem dois contextos distintos. Entretanto, a pesquisa buscou a todo o momento não separar; assinalando que o contexto das relações e interdependências influenciou de alguma forma no pensamento e nas ações históricas.

O espaço delimitado para análise é o Estado do Acre, destacando o que antecedeu o “processo” para a constituição da sua inserção como estado da federação brasileira. No caso da temporalidade no primeiro momento, a pesquisa enfocou um panorama amplo para traçar o “perfil” do Território; ou seja, o que antecedeu a 1960, buscando estabelecer um olhar dentro dos interesses políticos, já que aqueles que se constituíram como a “elite” local travaram brigas na procura de “inventar” o Território do “Acre” em estado. Porém, não era o mesmo entendimento que tinha o governo brasileiro.

Segundo Calixto (1985),“o processo de formação do Acre iniciou-se ainda no século XIX, em 1850” com as primeiras expedições que tinham como objetivo coletar “mercadorias” (as “drogas do sertão”). Ao mesmo tempo, a região era propícia à outra produção que gerou lucro e foi o principal produto que desencadearia toda uma disputa sobre a região do Aquiry: a borracha14. Percebe-se que toda a disputa política que ocuparia o centro das atenções décadas depois, procurou o controle de um território com um amplo potencial financeiro, motivou conflitos internos e externos.

No processo de chegada dos nordestinos expressa um momento histórico, ao qual, sujeitos em sua grande maioria vieram à região pela “promessa” de

14

CALIXTO, Valdir de Oliveira; SOUZA, José Dourado de; SOUZA, Josué Fernandes de. Acre: uma história em construção. Rio Branco: Fundação de Desenvolvimento de Recursos Humanos, da Cultura e Desporto, 1985. p. 40.

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enriquecimento. E muitos se tornaram seringueiros em terras acreanas, adentrando num esquema amplamente conhecido e re-apropriado da “ordem dos seringais”: o sistema de aviamento.

Neste sentido, em primeiro lugar o seringueiro está aprisionado as relações de poder em relação ao corte e a produção da borracha; preso aos barracões, através das dívidas contraídas ainda em terras nordestinas até a sua estadia. Assinalando que o seringueiro no auge da produção de borracha (conhecido como 1º ciclo da borracha15) viajava em “gaiolas” sem nenhum conforto e “superlotados”; um período destacado como voluntário, no sentido de que não havia nenhuma obrigação, mas alguns aspectos da vida do sujeito como o clima no nordeste e a “miséria” foram pressupostos para a vinda dos “futuros” seringueiros persuadidos pela possibilidade de lucrar com a borracha. E como já se sabem, em centenas de análises sobre o contexto, os grandes proprietários prometiam “Deus e mundos” para o convencimento dos sujeitos.

Entretanto, a realidade que se fizera presente seria completamente diferente do que se dizia nos discursos. Realidade que já se mostrara ainda em plena viagem, como explica a obra de Valdir Calixto:

As péssimas condições de higiene, a má alimentação e a promiscuidade reinantes naquelas embarcações propiciavam as condições para surtos endêmicos de natureza infecto-contagiosa [...]. A necessidade da borracha no mercado mundial exigia que assim fosse: a miséria do nordestino e a perspectiva de melhorar sua condição de vida empurravam para cá. Não importava as condições e os perigos. O que lhe importava é que era uma saída, uma opção para, quem sabe, continuar vivendo16.

Percebe-se que muitos embarcavam na “ilusão” de que na Amazônia encontrariam a possibilidade de lucrar. Como se observa, a realidade começou nos portos rumando a um lugar “desconhecido” e que conheceriam as tramas das florestas muito tempo depois, na ocorrência de readaptação a um novo modo de vida. Um sujeito que se articulou com novas maneiras e brechas para sobreviver.

E como o processo histórico se articula com o objeto de estudo?

15

1º Ciclo da Borracha, fora o período de auge da produção da borracha no Acre, se estendeu de 1886 à 1913, um momento que, o Território tem uma ampla participação no produto interno bruto (PIB) nacional neste primeiro ciclo. (Ver, CRAVEIRO COSTA: 1974).

16

(19)

É que o sujeito social está inserido como um dos elementos fundamentais, já que são forças de trabalho que fazem parte da sustentação da “pirâmide” da economia local (a borracha). É o lugar que emergiu uma “elite” que em pleno auge da produção da borracha foi o grande responsável por patrocinar o conflito contra os bolivianos pela busca de manter a base de produção e evitar pagar tributos. E na historiografia tradicional o momento é conhecido como “Revolução Acreana”17

.

Após a consolidação através dos Tratados de Petrópolis, cujo acordo com a Bolívia estabelece o Território do Acre como parte brasileira em 1903 e o Tratado do Rio de Janeiro com o Peru em 1909 o Acre passou a ser território federal, algo que desagradou à elite local, pois a economia acreana estava a passar pela sua fase áurea.

Neste sentido, iniciam-se movimentos isolados em várias partes do Acre pela “autonomia” política e administrativa18

e no controle das respectivas localidades pelas oligarquias19 onde foram convenientes “... uma escolha emanada pelos

autointitulados homens das „classes conservadoras‟ do Acre”. (SILVA, 2012: p. 55).

Percebe-se que os grupos no Acre não tinha só a pretensão de estabelecer controle do executivo local, mas a perspectiva da renda que a borracha estaria produzindo, no caso, de autonomia política, transformando o Acre em estado e o controle sobre parte do lucro que a borracha proporcionava.

Nesta perspectiva, faremos diálogos sobre a situação política na década de 1960-1964 no Brasil e no Acre, interpretando os fatos a partir de estudos historiográficos e sempre fazendo análises anteriores ao período na procura de responder alguns aspectos: Como se deu o movimento autonomista? E quais os

17

Para muitos historiadores que escreveram sobre a “Revolução” Acreana ela é caracterizada em quatro fases, mas, o conflito armado derradeiro iniciou em 6 de agosto de 1902, quando houve a organização de grupos de brasileiros em território boliviano invadindo a cidade de Xapuri e tomam das mãos dos bolivianos; Uma estratégia articulado entre o comandante Plácido contra os liderados por “Juan de Dios de Barrientos”. Conflito que terá sua finalização em 1903 com a batalha de “Porto Acre”. O conflito não avança, pois, há articulações do governo brasileiro que tinha um temor de haver um conflito maior, muito porque os bolivianos com a concessão dada pelo Bolivian Syndicate poderia articular aos países fornecedores um conflito diplomático com nações ditas potências na época. O que rende em fins de 1903 o Tratado de Petrópolis Ver: CALIXTO (1985).

18

No período após os Tratados assinados se estipulou que haveria departamentos que cuidariam da parte administrativa das vilas, ou seja, até 1920 não existia uma capital unificada. E em primeiro instante, o Acre estava dividido em três partes: Alto Acre (Rio Branco/Vila Empresa); Alto Purus (Sena Madureira) e o Alto Juruá (Cruzeiro do Sul). (Grifos meus).

19

Formados por pequenos grupos que tendem a “monopolizar” o poder. Os casos de oligarquia no Brasil funcionaram tanto no Império quanto na República como exemplo a Era Vargas (1930-1945), quando em certo momento, comanda juntamente com o pequeno grupo o poder executivo obtendo pleno poder, neste sentido, seria a ditadura Vargas implantada.

(20)

objetivos do movimento na década de 1940, inclusive de Guiomard dos Santos? Estabeleceremos ainda, compreender os elementos de “transição” do Acre.

1.1. O Brasil político de 1960-1964

O Brasil na década de 1960 passou por um momento histórico politicamente conturbado, como por exemplo, a segunda passagem de Vargas (1950-1954) e as disputas políticas que se tornavam cada vez mais tensas. O contexto no mundo de alguma maneira se liga pelo fato de vigorar uma conjuntura de pós-guerra no contexto da chamada Guerra Fria20, tornando-o ainda mais complexo as disputas pelo poder no país.

A “redemocratização” do Brasil era algo recente. Antes de 1946 não havia tido eleição à presidência da República pelo fato de Getúlio Vargas21 ter permanecido durante quinze anos consecutivos no poder executivo. Eurico Gaspar Dutra22 foi o presidente no período da reformulação da constituição. Os partidos políticos retornaram ao seio da legalidade como o PCB (Partido Comunista Brasileiro permaneceu por pouco tempo na legalidade, já que o momento era de novos conflitos, o que afetava de alguma forma o Brasil, por ser dependente economicamente de outras nações como os Estados Unidos).

A grande motivação para a tensão política estava em parte presente pela ocorrência de diversos grupos compartilharem ideias distintas, vinculadas às questões econômicas e ideológicas. Quem emergia na política nacional eram os militares, afirmando que: “O discurso salvacionista patriótico das Forças Armadas,

presente desde a Proclamação da República, passa a ganhar maior visibilidade e

20 Seria uma guerra de “discursos” entre duas grandes potências e seus sistemas econômicos submergindo entre várias nações. Tinha como grande potência do sistema capitalista os Estados Unidos da América (EUA) que era o grande “modelo” a ser seguida no mundo, inclusive a América Latina. E o Brasil fizera parte da disputa, ou pelo menos o temor de está nas mãos de outra potência que seria a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), hoje Rússia. Na ocasião, os soviéticos pertenciam outro sistema econômico conhecido como o “Socialismo” ou “Comunismo”. HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: o Breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 223-362.

21 Presidente da República na chamada “Revolução de 30” (1930-1934) e se institucionalizou como ditador no período do “Estado Novo” entre 1937-1945 quando acaba por Renunciar ao cargo, porém, entre tempo, acaba por se tornar Senador e volta à presidência em 1950 de maneira “democrática”; todavia, não cumpre seu mandato, pois, acaba por suicidar-se em 1954. Ficando conhecido como o precursor do populismo na América do Sul e conhecido durante o seu governo como o “Pai dos pobres”. Ver: FAUSTO. p. 273-309; SKIDMORE. p. 21-71.

22

Militar e eleito presidente da República para o mandato de 1946 a 1950, sendo o responsável por “promover” o processo de “Redemocratização”.

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força política. Fora do exército não havia salvação”23. Percebemos que a influência das Forças Armadas na política nacional já vinha de muito tempo, principalmente, quando tem participação nas fases de transição de sistemas de governo terminando com o estopim do “poder” militar direto na presidência, ocorrido com o próprio “Regime civil-militar”24

em 1964.

A participação militar é frequente no contexto histórico do Brasil. Sempre na perspectiva de está no poder com objetivo de dominação do Estado nas mãos de um determinado grupo. O poder e o Estado não se separam, são feitos como uma aliança, pois segundo Bobbio são: “mudanças ocorridas na estrutura material e na

estrutura social do sistema jurídico foram origem das transformações a nível formal e político”25

condicionando o Estado a se “parecer uma coisa independente”26. Porém,

o Estado se caracteriza segundo Gruppi (1985), uma estrutura com leis e instituições com uma lógica diferente ou contrária ao interesse da sociedade. Na concepção de teóricos Marxista como Kautsky, assinalava a concepção Estado como: “expressão

da dominação da classe economicamente mais forte da sociedade”27 .

Na década de 1960, o contexto social e político estão agitados pelo fato de haver um concorrente do sistema capitalista, criando o temor pelo “comunismo”. No Brasil, os militares articularam apoio com a “elite” (no caso os grandes empresários e latifundiários) para chegarem ao poder e estabelecer a hegemonia. Neste sentido: “Não se trata mais de uma classe que instrumentaliza o Estado para gerir seus negócios, mas, de um Estado organizador, na medida em que organiza e representa os interesses políticos do bloco no poder, sempre comprometido com a reprodução do capital”28

.

A conjuntura política da década de 1960 reserva um dos momentos mais tensos da História política brasileira desde a Revolução de 193029. Estavam em

23

BEZERRA, Maria José. Invenções do Acre – de território a Estado – Um olhar social, Universidade de São Paulo – USP, São Paulo – SP, 2006. Tese de doutorado. p. 184.

24

Existem variadas expressões de qualificar este acontecimento histórico (Golpe militar, Revolução de 1964, Contra-Revolução Militar, etc.).

25

BOBBIO, et all, op. cit., p. 401. 26

GRUPPI, Luciano. Tudo Começou com Maquiavel: as concepções de Estado em Marx, Engels, Lênin e Gramsci. 4ª Ed. Porto Alegre-RS: LPM Editores, 1985. p. 32.

27

Ibid. p. 50. 28

DANTAS, Juliana de Souza. Estado e Poder no Acre: da elevação à distenção política (1962-1982), 2007. p. 16.

29 Revolução de 1930, “movimento” organizado em busca da desintegração da monopolização política das mãos da oligarquia cafeeira, o que acaba em meio da tensão com a prisão do presidente Washington Luís que fora deposto do cargo pelo comando Revolucionário que traria a presidência Getúlio Vargas. (Ver: SKIDMORE: 1982).

(22)

meio à “panela de pressão” as disputas pela presidência da República na procura de passar à faixa presidencial dirigindo-se a nova capital Brasília.

As eleições em 1960 destacariam nomes como Jânio Quadros30 que concorreria pela chapa PDC (Partido Democrata Cristão) com apoio da UDN (União Democrática Nacional). A sua campanha se resumiria num discurso de “Varrer a

corrupção” na “promessa” de “limpar” a política nacional dos seus males. Jânio

Quadros utilizava de meios para dizer que estava aliado ao povo. Segundo Queler (2010), eram elementos que a oposição empregava no discurso quanto “... uma

farsa política” pelos modos ao qual se presenciava em público com o eleitorado.

Muitas vezes, Quadros aparecia em público com:

Cabelos despenteados, barba crescida, roupas amarrotadas, gravatas desalinhadas, sotaque peculiar, gesticulação intensa e sanduíches de mortadela levados no bolso e comidos em momentos oportunos são alguns recursos que teriam levado esse “demagogo” ao topo da política nacional; manipulando as „massas‟ supostamente despreparadas para o exercício da cidadania31.

É possível ver que a tendência política no início da década de 1960 está no discurso e nas tramas políticas. Quadros assumiu um papel de querer estabelecer uma proximidade, “assustando” seus adversários a vaga do planalto. A perspectiva de Jânio foi fazer com que o “eleitor” pertencente à camada social não elitizada se identificasse com a figura do populista “salvador da pátria”. Assim, conseguiu vencer o General Henrique Teixeira Lott e Adhemar de Barros32. Jânio Quadros conseguiu cerca 5.536.623 votos válidos contra 3.840.825 de Teixeira Lott e 2.105.700 de Adhemar de Barros.

30

Segundo Jefferson José Queler (2009), quando traça sua biografia, Jânio Quadros, natural de Mato Grosso. Como político inicia sua trajetória, a partir, de quando tenta se eleger vereador por São Paulo, utilizando da influência de docente e alunos. Teve a oportunidade de traçar sua trajetória na política paulista. Em sua primeira eleição acaba por conseguir a vaga de suplente, sendo que, assume o posto na câmera quando o PCB é colocado na clandestinidade. Após chegar a câmera municipal consegue progredir politicamente, muito pelo jugo “popular” que era uma característica deste contexto histórico, ou seja, consegue os cargos de deputado Estadual, Federal, governador de São Paulo não somente uma vez, e a presidência da República em 1961. p. 61-62.

31

QUELER. Jefferson José. Quando o eleitor faz a propaganda política: o engajamento popular na campanha eleitoral de Jânio Quadros (1959-1960). São Paulo: Scielo, 2010. p. 62.

32

Adhemar Pereira de Barros foi governador de São Paulo em duas oportunidades (1947-1951 e 1963-1966), fora pleno opositor “comunista” perdendo as eleições presidenciais em 1960 e tinha pretensões de candidatura à presidência em 1965, algo que não ocorre pelo motivo do Golpe Militar. Disponível em: <http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/Jango/biografias/ademar_de_barros>, acesso em: 15.08.2014>.

(23)

Já para vice-presidente, (havia eleição para vice-presidente diferente da nova legislação eleitoral em vigor) quem venceu o pleito foi João Goulart33 ao triunfar com uma pequena margem de votos para o segundo colocado com 310.700 votos de diferença34.

Foi uma eleição em que Jânio sustentou nos seus discursos o caráter populista, colocando-se como personagem que tentou convencer na campanha através da sua imagem do político moralizador e “humilde”, numa tentativa de atingir um determinado público: os mais humildes. Seu governo durou pouco e Jânio renunciou com menos de um ano no cargo.

Suas ações políticas acabaram por lhe “isolar” na presidência. O estopim veio meses após a posse com falta de apoio no Congresso, bem como, algumas relações com nações de bloco socialista, no caso, de Cuba, em que pese não ser o elemento principal da renúncia contribuindo como fundamento e subterfúgio para derrubá-lo. Também, rompeu relações com países capitalistas e Che Guevara é recebido no Brasil, condecorado com alta comenda e recebido com honras militares. Ou seja, num país que tinha extinguido o partido comunista colocando-o na clandestinidade dificilmente manteria seu mandato pelo contexto “tenso” que o Brasil vivenciava.

De acordo com Araujo, Silva & Santos (2013), após a Renúncia de Jânio Quadros ocorrido no mês de agosto de 1961 e a possibilidade constitucional de João Goulart assumir, o Congresso explicita a tremenda desconfiança em relação ao vice-presidente. A saída casuística foi aprovar ás pressas o sistema parlamentarista que limitava poderes do presidente tornando João Goulart restrito chefe de Estado (esse sistema que perdurou no Brasil por pouco tempo, pois houve um plebiscito que revogou o parlamentarismo35). João Goulart enfrentou forte oposição. E a pressão só iria aumentar quando propôs-se as chamadas “Reformas de Base”; “reatou” relações com países socialistas, seguindo tendências em que Jânio Quadros tinha estabelecido (constituindo um dos elementos que o fez renunciar o cargo).

33

João Belchior Marques Goulart (1918-1976) fora deputado federal, ministro no segundo mandato de Getúlio Vargas, eleito vice-presidente da República em 1955 em que fora presidente do Senado do período de (1956-1961) é reeleito em 1960 e assume a presidência em 1961, sendo deposto em 1964. (Arquivo Nacional, p. 3, 2001).

34

BRASIL, Tribunal Superior eleitoral. Dados estatísticos: eleições estaduais, federais realizadas no Brasil em 1960 e em confronto com as anteriores. V. 5. Brasília: Câmera dos deputados, 1963. p. 13. 35

PAULA, Maria Paula; SILVA, Izabel Pimentel da & SANTOS, Desirree dos Reis. Ditadura militar e democracia no Brasil: história, imagem e testemunho. 1. ed. Rio de Janeiro: Ponteio, 2013. p. 12-13.

(24)

A política externa de Jango estava pautada por relações com países comunistas. As relações reforçaram a justificativa da oposição em depor Goulart e implantar a “Ditadura” Militar. Jango em nenhum momento se mostrou “comunista” ou simpatizante ao sistema imposto pela URSS como apontaram as camadas da sociedade para depô-lo (por exemplo, militares, imprensa e classe média). O que estava por trás da oposição eram interesses econômicos que poderiam vir prejudicar a partir das Reformas de Base e a Reforma Agrária. João Goulart acabou sendo deposto em 1964 sem que houvesse sequer um processo de impeachment em andamento. Um fim de março e início de abril tenso que decretou o fim de um governo que não conseguia seus objetivos de Reformas apoiados por grupos como trabalhadores e sindicatos atrelados ao governo e membros do PTB.

“A panela de pressão” explodiu completamente, pois só precisava de um momento de fragilidade política para a solidificação dos acontecimentos. São fatores de tensões sucedidas ainda na década de 1940 com a queda de Getúlio Vargas. Houve entre meados de 1955 a 1960 um momento de trégua no governo JK36, em que o governo conseguiu dialogar com o Congresso Nacional. Já na década de 1960 as crises do legislativo para com o executivo só aumentaram havendo crises internas e externas entre os partidos políticos.

Portanto, o Brasil de 1960-1964 passou por uma fase de tensão plena na política interna, estabelecendo em meados de 1964 o ápice de toda a crise já iniciada na década de 1930 e só vivendo altos e baixos até o seu estopim que é o Golpe e a Ditadura Civil-Militar na sequência.

É necessário compreender que o Brasil vivia um momento de tensão que acompanha o contexto mundial. Essas questões foram enfocadas para compreender o contexto político mais geral de inserção da “questão” do Acre. No Acre, a discussão seria baseada na perspectiva de “transição”.

Na próxima unidade do capítulo, analisaremos os partidos de base no contexto histórico e suas ideias centrais, bem como responderemos a problemática:

36

Juscelino Kubitschek de Oliveira (1902-1976), tornou-se presidente em 1955 permanecendo até o fim de seu mandato em 1960, responsável pelo governo que ficou conhecido com 50 anos em 5. Na ocasião, buscava estabelecer um governo desenvolvimentista, ao mesmo tempo, tirava do papel a construção de uma cidade no meio do planalto central de Goiás, que era a nova capital do país: Brasília. Entretanto, o negativo de seu governo fora um aumento da dívida externa e o aumento da inflação por conta de maior circulação de moeda no mercado. Disponível em: < http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/JK/biografias/juscelino_kubitschek>, acesso em 05.03.2015.

(25)

Quais os partidos que se fizeram presente no Acre neste contexto 1950-60 e os grupos que compõe os partidos?

1.2. Os partidos políticos

O Brasil após a deposição de Getúlio Vargas passou por um momento de “Redemocratização”, pelas articulações dos partidos que viriam a surgir para as eleições de 1946. O que tem haver os partidos com o contexto do Acre? São partidos que surgiram e se expandiram por todo o país. Porém, o que cabe analisar são as principais articulações dos partidos importantes no país como PSD, PTB, UDN e PCB.

O PSD (Partido Social Democrático) se estabeleceu como um partido de perfil reformista. Segundo Maria José Bezerra (2002), o partido ficaria como se fosse uma “bola de Tênis” quanto à articulação, sempre negociando cargos com suas alianças. A perspectiva política do PSD foi sempre haver uma chamada “educação política do

povo”37; seria a preservação de determinada mentalidade sobre a “democracia” existente, priorizando os valores e levando o conceito da respeitabilidade democrática não somente no seio político, mais na vida cotidiana do sujeito.

O partido tivera características conservadoras, visualizando as mudanças a partir das elites dominantes. Outra visão partidária está no que se refere em proporcionar a “educação” política. Colocando-se como “o pai” que educará seus cidadãos. Assim, explicou Bezerra parafraseando Chacon:

(...) o Estado volta como um refrão salvador, quase mítico, demonstrado mistificante na prática política da oligarquia e do seu estamento (...). [...] é dever indeclinável do Estado procurar reduzir progressivamente as diferenças sociais, proporcionando a todos a igualdade de oportunidade, segurança e bem-estar. “Ação do Estado no setor econômico, para, em princípio, orientar e estimular a iniciativa privada e manter ambiente propício ao seu desenvolvimento”38.

Muitos partidos partem da perspectiva de um determinado “clientelismo” para conseguir desenvolver seus planos políticos. Inclusive no Acre tinha forte presença de políticos que utilizavam da prática clientela colocando-se como o “pai da criança”

37

BEZERRA, op. Cit. p. 191. 38

CHACON, Vamireh. História dos partidos brasileiros: discurso e práxis dos seus programas. 3ª Ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1998. p. 161.

(26)

para alçar voos políticos e chegar ao poder. No Brasil, a prática é um dos legados da colonização impositiva. Uma prática que transcorreu desde o século XVI e chega aos nossos dias. É uma política que perpassa qualquer possibilidade de estabelecer o principal conceito de “democracia”. A “democracia”, nesta ocasião, é aquela que oferece o melhor “brinde” e presentes no lugar de projetos. E é no contexto que a política nacional decorreu e ainda decorre a exercício clientelista. Os discursos pessedistas, transcorrem no que a referida autora denominou como ambíguas e

ambivalentes 39; no sentido de requerer mudanças internas e externas na procura de manter relações que não afete a política estadunidense e as políticas de solidariedade com o mundo do Ocidente. Partido que tornou-se forte em sua base, mas paradoxal em sua ideologia. Seguindo também tradições das velhas “oligarquias” que estavam re-apropriando os seus conceitos.

A UDN (União Democrática Nacional), partido de cunho liberalista apoiava o sistema capitalista e a relação com o governo estadunidense. Não se considerou um partido liberal. Entretanto, tivera finalidade liberal. Partido que segundo Chacon (1998), detém da conotação liberal40, e que, com esta perspectiva elegeu o presidente Jânio Quadros41. O mesmo enfrentaria a oposição do partido e renunciaria ao cargo em menos de um ano de mandato.

O partido é o responsável como maioria no Congresso de aprovar a lei que constituiria o Brasil num sistema parlamentarista que fora derrubado em plebiscito no ano de 1963. O Estado segundo o programa da UDN, ganhar a confiança da sociedade e manter o interesse pelo capital financeiro como política prioritária, o controle da inflação, bem como, depender da economia externa42 que se fez presente em sua ideologia partidária. E teve como base uma aproximação das classes sociais, na perspectiva de lutar pela “igualdade”.

A UDN é o partido que utilizou o discurso “popular” na tentativa de se aproximar da maior camada eleitoral do país, sendo as classes abaixo da dominante. A classe média tinha o discurso da democracia seja direta ou indireta, ficando conhecido na própria historiografia quanto partido conspirador43. O discurso

39

BEZERRA, Idem, Ibid. 40

CHACON, Op. Cit. p. 455-459. 41

Esclarecendo que, tem muitas fontes que colocam Jânio como candidato pela UDN, mas, ao contrário destas fontes, Jânio Quadros candidatou-se pelo PDC sendo, que teve como coligado a UDN. (Ver, FAUSTO: 1986).

42

Ibid., Idem. 43

(27)

caracterizou pela “materialização” das ideologias, construindo cada ideologia um imaginário que impele a interesses. Ao mesmo tempo, “... um discurso não é fruto de opiniões e visões particulares, mas uma partícula do imaginário dominante que abarca cada indivíduo e, segundo Orlandi, pode ser usado para reformular as relações sociais” (SILVA, 2006, p.101).

O PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) constituiu como o partido que marcou a forte presença e articulação de Getúlio Vargas que vencera as eleições pela própria legenda. Segundo Bezerra (2002), seria um partido de terceira expressão no país. Mas tempos depois mudariam alguns conceitos sobre sua ideologia. Segundo Chacon (1998), os seus representantes da legenda como Leonel Brizola, tinham como bandeira a defesa das reformas de base na constituição, à defesa pela educação e o combate pelo analfabetismo (“formação da nacionalidade”)44

entre outros projetos.

Uma das propostas partidárias modificadas foi à busca de estabelecer uma nova constituinte, apoiadas pela esquerda do partido e pelo presidente Jango que almejavam mudanças, como as Reformas de Base que contribuem para ser governo e ao mesmo tempo oposição. Não eram a maioria política no legislativo e nem os grupos da elite dominante não requeriam uma mudança que provocassem prejuízos aos lucros dos grandes capitalistas nacionais: “A perspectiva dos petebistas era mais pela dignificação do trabalho circunscrito aos limites do social democratizante do que pelo socialismo propriamente dito”45

.

O partido trabalhista brasileiro apresentou um ponto de vista pautada no trabalhismo como centro para o “desenvolvimento e desigualdade no país” diferente do que os discursos postos na aproximação da ditadura que colocou o partido e quem governava como fossem associados ao socialismo. Na citação, o partido segue a linha de “dignificar” e exaltar o trabalho.

No território do Acre, já na fase de “transição” começam a se articular os partidos políticos na busca de eleger seus representantes (deputado federal).

Os partidos que protagonizaram a política local foram PSD e PTB. Diferente do cenário nacional, PTB e PSD serão em alguns momentos aliados políticos, dividindo os mesmos projetos. No Acre, PSD e PTB atuaram quanto “oposição”. Já a

44

CHACON, Op. Cit. p. 467-474. 45

(28)

terceira força seria a UDN que na década de 1960 comandaria o país através da aliança de Jânio Quadros.

Segundo Bezerra (2006), a política local era baseada no verdadeiro “barril de

pólvora”, substancialmente trocas de acusações entre as partes no sentido de

conquistar o cargo pretendido por ambos os partidos46. Na década de 1960 as disputas políticas eram monopolizadas.

Segundo Calixto (1985):

O PTB, tido como „partido dos pobres‟, penetrou na massa do eleitorado do Acre, mormente servidores públicos não graduados, colonos e seringueiros. O PSD, por sua vez, encarnava as ideias dos comerciantes, dos seringalistas e funcionários públicos mais graduados. A UDN chegou ao Acre, mas nunca com força igual a de seus congêneres, sendo verdade que alguns seringalistas, comerciantes e os chamados profissionais liberais tenham encabeçado esse partido aqui, sem obterem, contudo, grande sucesso47.

O primeiro partido a ganhar espaço na política acreana foi o PSD, que em 1946 ainda não tinha solidificado seu espaço na política local. Os partidos políticos estavam se organizando já que o Brasil passou por longos anos na ditadura Varguista. Ao chegar ao Acre para assumir o território, Guiomard Santos observou a necessidade de organizar o partido e “criar” de alguma forma base que o torne forte para além das ideologias partidárias, pois: “... quase toda a população era formada de colono, seringueiros e uma pequena parcela eram funcionários públicos”48

.

Guiomard dos Santos chegou ao Território com objetivo de governar e tornar-se um líder político da região. A finalidade era contornar-seguir apoio da “elite” local para articular politicamente o Território e começar a preparar “terreno” no meio político na proposta de permanecer no poder. Segundo Bezerra (2002, p.42-43), a sua vinda ao Acre para assumir o governo traria bons frutos a sua carreira política. Para conquistar um eleitorado que era pequeno tinha que fornecer um discurso que pudesse agradar a “gregos e troianos”. E seu discurso por este “novo tempo” era no sentido de acreditar que poderia reverter ou amenizar a forte crise econômica do Território, lembrando que o Acre fora palco de mais um ciclo da borracha dedicado exclusivamente para a Segunda Guerra Mundial e ao qual trouxera milhares de

46

Ibid. p.200. 47

CALIXTO, op. Cit. p. 183. 48

MENDES, Francisco da Chagas Nogueira. O Governo de José Augusto: amor ao povo ou paixão pelo poder? Rio Branco: UFAC, 1995. (Monografia DFCS). p. 12.

(29)

brasileiros, que preferiram o corte da Seringa aos tiros nos combates na Europa (Itália).

Outro partido que surgiu como oposição ao PSD foi a UDN. Partido fundado por Joaquim Falcão Macedo49 e tido como a terceira expressão no Acre e que sempre nas eleições para o Congresso Nacional era oposição apoiando outro partido, o PTB. Tivera como representação grupos sociais ligados ao “[...] pensamento da pequena burguesia”50

tornando-se um partido minoritário nas disputas eleitorais do Território.

E o partido que realizou grande oposição ao PSD foi o PTB. Em termos nacionais é um partido que tem como seu co-criador Getúlio Vargas, destacando-se ideologicamente por ser um partido “[...] criado para aliciar o proletariado [...]”51. No

Acre, o PTB teve como principal líder Oscar Passos52, tornando-se a principal liderança de “esquerda”. Passos se mostrou como verdadeira “oposição” ao processo de “transição” do Acre para Estado. Em sua visão, o Acre não estaria preparado a ser Estado, precisando uma melhor estrutura do que já detinha.

No período eleitoral no Acre, eram os três partidos que se tornavam protagonistas do pleito, sempre obtendo com seus candidatos as vagas a câmara federal. Entre os dois candidatos pessoalmente “... não havia inimizades”53 políticas. Nas disputas o clima se acalorava com trocas de acusações e perseguições dos dois lados e chegando até haver ocorrências de mortes. As disputas políticas no Acre foram marcadas fortemente pelas trocas de acusações e ameaças entre os grupos de “fanáticos partidários”. Essas trocas de acusações acabavam no final não fazendo tanto efeito como veremos mais à frente.

Na década de 1940 a 1950 os dois (Guiomard dos Santos e Oscar Passos) se consolidariam como os maiores “caciques” políticos do Acre. Não dominaram somente o governo, mais todos os planos políticos. Conseguiu os cargos sejam eles nomeados ou eletivos, utilizando-se de discursos parecidos e se colocando como

49

Segundo Maria José, Joaquim Falcão Macedo ex-governador do Acre no período pós-1964 e tida como uma das lideranças udenistas no Acre, fora prefeito da cidade de Brasiléia, sendo considerado em “discursos” anti-getulista. (BEZERRA, 2006: p. 204).

50

CALIXTO, op. Cit. p. 182. 51

Idem; Ibid. 52

Oscar Passos (1902-1994) fora deputado federal em 1950 até 1958, Senador em 1962 e Governador do Acre, sendo, presidente nacional do MDB logo após a sua constituição com o bipartidarismo. Disponível em: <http://pmdb.org.br/institucional/historia/>, acesso em: 08.03.2015. No Acre se torna um líder da chamada “esquerda” pelo PTB (BEZERRA, 2006: p. 204).

53

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oposição um ao outro. Todavia, acabavam estabelecendo pactos governativos como base para a conservação dos apadrinhamentos de ambas as clientelas na máquina estatal.

Compreende-se que existiam três características distintas de partidos no Acre. Primeiro (PTB), àqueles tidos como a classe não dominante, como os seringueiros, colonos e os nãos graduados. O segundo (PSD), abrangia a elite local, ou seja, era o partido que “comandou” e tinha uma alta popularidade. E a terceira força (UDN) nunca conseguiu um espaço no cenário político local. Um partido fragmentado pela classe dominante. É perceptível que a queda de braço estava entre dois partidos que disputaria o poder na primeira eleição “democrática” do Acre, e desta maneira que se dará a década de 1950 e 1960 com um movimento que retornou com força mediante aos interesses partidários e pessoais de Guiomard dos Santos: “o Movimento autonomista”. E como se deu este retorno e os discursos destas forças políticas sobre o tema “autonomia”?

1.3. O “Movimento Autonomista”

Com o Tratado de Petrópolis no ano de 1903, começaram a surgir em todo o recém Território, constituição de movimentos na busca de uma autonomia política do “Acre”, por motivações político-econômicas. No início do século XX, o Acre tinha sido responsável por cerca de 20 a 30% do PIB do Brasil entre os anos 1903-191354. A partir da constituição do território Federal, o governo brasileiro tinha a responsabilidade de escolher os governantes na região. Assim, ocasionou entre a elite local uma “resistência” contra o governo nacional decidindo entre os meandros por um movimento que se denomina na história regional como “movimento

autonomista”.

O “movimento” formou-se em vários departamentos55

com a finalidade de buscar a independência do Território transformando-o em estado da federação. Para compreendermos a trajetória até chegar à categoria de estado é necessário

54

Ver, CRAVEIRO COSTA, 1974. 55

Enquanto, o Acre Território até 1920 existiam três capitais que eram divididos entre departamentos que foram: Alto Acre; Alto Purus; Alto Juruá e Alto Tarauacá. Segundo Bezerra: “resolveu o Marechal Hermes da Fonseca, por meio do Decreto nº 9.831, de 23 de outubro de 1912, instituir uma nova organização à justiça e à administração do território acreano. A partir deste Decreto, permaneceram os três Departamentos já criados anteriormente, sendo criado o Departamento do Alto-Tarauacá, derivado do Alto-Juruá” (BEZERRA, 1992: p. 35).

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indagarmos: Quem serão os autonomistas no primeiro momento? Necessariamente, os seringalistas e grandes comerciantes da região. É imperativo percebermos que os movimentos que ocorreram no Acre foram proporcionados de maneira diversificada, segundo Silva (2012) estes movimentos são:

... dispersos e inconsistentes, em alguns momentos exacerbados em revoltas nos Departamentos – como as ocorridas no Alto Juruá e no Alto Purus – onde predominavam como justificativas os elementos políticos – principalmente ligados às diversas concepções de autonomia; - e, econômicos – vinculados à taxação elevada de impostos sobre a exportação de borracha56.

Apreende-se que os objetivos dos movimentos foram causados por interesses de determinados grupos ligados a requerer maior participação política nos departamentos e conseguindo ter acesso à parte dos impostos. Não era somente ter o controle do poder por estes grupos, mais ter acesso para além das riquezas. Um domínio do poder que estava em mãos do governo federal.

As discussões tratadas no Congresso Nacional para alguns políticos de estados como Ceará e Rio Grande do Sul tinham “simpatia” pela ideia de criar leis que fizessem com que o “Acre” conquistasse o posto de estado da Federação. Para conseguir convencer políticos da capital sobre o território estar preparado, tinha que haver um determinado convencimento. Pois, para parte dos congressistas: “[...] havia a alegação de que o Acre, para ser elevado à categoria de Estado Autônomo, necessitaria de „profundo aparelhamento social e educativo”57

. O Acre tivera que demonstrar um mínimo de estrutura para poder convencer a maioria do Congresso da autonomia. Sobre esse ponto de vista, utilizaram estatísticas na tentativa de convencer. E apesar do interesse, acabou por não ser suficiente para a elevação.

Em 1910 na data de 1º de Janeiro, o “movimento autonomista” como ficou conhecido na historiografia acreana, chegou ao departamento do Alto Juruá em Cruzeiro do Sul, ocorrida por uma indiferença do governo federal para com a região. Os motivos foram principalmente pela precariedade dos serviços prestados58.

Segundo o autor, as questões se acirraram a partir da nomeação e vinda do senhor João Cordeiro, quando emergiu uma revolta na região do Juruá em Junho de 1910. Constituiu-se uma junta e em seguida a deposição do prefeito criando um

56

SILVA, Francisco Bento da. Autoritarismo e personalismo no poder executivo acreano, 1921-1964. Rio Branco: Edufac, 2012. p. 55.

57

CALIXTO, op. Cit. p.139. 58

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